Ao não entender a curiosidade alienada das corujas
adio o vínculo do meu encontro nas nuvens
ao limo.
Vigio o traço contínuo das sinapses.
Acabo a acertar passo no exército funcional
do trabalho pára-quedas sem janela
e só desemboco no poema
ao amanhecer
oiço-o respirar ao longe
escondido sob os sapatos de ténis
raspando as unhas na cervical
das minhas fugas logradas
Foto de Martine Franck
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quinta-feira, 23 de julho de 2015
quarta-feira, 20 de maio de 2015
aviação a tinta
Com a mesma caneta
traço o juízo e o verso
da mão verdadeira passo a vau
para a ordem monástica
auto dirigindo-me sob as placas tectónicas
desta frivolice
do império do meio
frigoríficos, é tudo
Passo a vau
encravo a caneta entre o indicador e o polegar
acerto no caderno
vigiando pelo olho fechado
a cabine
onde um piloto de unhas partidas
revolve mentalmente a última entoação
domingo, 3 de maio de 2015
Princesa
Acho que travessámos várias vezes a mesma cidade
pareceu-me ouvir o mesmo latido de cão raivoso em cada esquina
Reparei no zumbido da abelha a andar em círculos
Atravessámos várias vezes a cidade mas nossas órbitas eram
grandes massas coloridas de natureza silenciosa ou ruidosa
éramos duas pequenas orcas e o nosso submarino um caudal de peixes rosa
no geral perguntávamos tanto e a pergunta era uma tecla gasta
de uma curiosa e pesada máquina
atravessámos quantas vezes a cidade?
Tantas quantas a resistência do olhar
permitir
Tu trespassavas a membrana opaca
deste ser inclinado para a catástrofe
Ias a correr comigo a um SOS e a tua mão
lembrava-me lareiras acesas
Eu contigo deslizo para fora de mim ainda sem saber
e com custos elevados inicio a surpresa
de me encontrar a sós com o teu corpo
pareceu-me ouvir o mesmo latido de cão raivoso em cada esquina
Reparei no zumbido da abelha a andar em círculos
Atravessámos várias vezes a cidade mas nossas órbitas eram
grandes massas coloridas de natureza silenciosa ou ruidosa
éramos duas pequenas orcas e o nosso submarino um caudal de peixes rosa
no geral perguntávamos tanto e a pergunta era uma tecla gasta
de uma curiosa e pesada máquina
atravessámos quantas vezes a cidade?
Tantas quantas a resistência do olhar
permitir
Tu trespassavas a membrana opaca
deste ser inclinado para a catástrofe
Ias a correr comigo a um SOS e a tua mão
lembrava-me lareiras acesas
Eu contigo deslizo para fora de mim ainda sem saber
e com custos elevados inicio a surpresa
de me encontrar a sós com o teu corpo
quarta-feira, 29 de abril de 2015
fugas
Queria a sirene ainda
ou o repuxo no parque
cirandar
a qualquer hora
em qualquer destes termos
ao redor de ti
voltar à cave onde os círios escrevem
a aleatória saga
do coração
seguindo o fio de prumo
da carne amarrotada
do sangue remexido.
Bolinar no confuso corte da dor
no seu borbulhar atento
ao peito
apear
deitar a toalha ao chão
gladiador de sombras
na boca ainda seca do dragão.
Fugir ao rescaldo
cirandar
perder peso
misturar-se ao pó da arena
e aparecer por dentro
do orifício do medo
sendo ainda quem não vês
quem só fintas
pedes-me a aurora
dou-te a liça ardente
o particípio presente de um ser biológico
a conjugar verbos transitivos.
ou o repuxo no parque
cirandar
a qualquer hora
em qualquer destes termos
ao redor de ti
voltar à cave onde os círios escrevem
a aleatória saga
do coração
seguindo o fio de prumo
da carne amarrotada
do sangue remexido.
Bolinar no confuso corte da dor
no seu borbulhar atento
ao peito
apear
deitar a toalha ao chão
gladiador de sombras
na boca ainda seca do dragão.
Fugir ao rescaldo
cirandar
perder peso
misturar-se ao pó da arena
e aparecer por dentro
do orifício do medo
sendo ainda quem não vês
quem só fintas
pedes-me a aurora
dou-te a liça ardente
o particípio presente de um ser biológico
a conjugar verbos transitivos.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Proust e o sindicalismo militante.
Quem disse que Proust é Proust?
resumo do que oiço:
Proust é moço para não resolver a equação
que o faz ser outro
quando cobiçado pela fortuna
consta que sofria dos artelhos
mas as suas calças engomadas desmentem.
Proust rei imaginário
posto por graça no seu trono de letras
invade sem querer os nossos corações de ostra.
Proust ninguém
o súbdito fugido da taça estendida
consentiu em lambê-la
embora não haja testemunhas.
Serdiagem com referência a benzura
mágica pena no circo das letras
que é já pó de arquivo
não sei onde colocar-te Proust se em baixo à direita
entre deuses ou à secretária
a beijar os pulsos de uma Salomé ressequida
ou amedrontado pelo uso continuado
do quarto escuro
resumo do que oiço:
Proust é moço para não resolver a equação
que o faz ser outro
quando cobiçado pela fortuna
consta que sofria dos artelhos
mas as suas calças engomadas desmentem.
Proust rei imaginário
posto por graça no seu trono de letras
invade sem querer os nossos corações de ostra.
Proust ninguém
o súbdito fugido da taça estendida
consentiu em lambê-la
embora não haja testemunhas.
Serdiagem com referência a benzura
mágica pena no circo das letras
que é já pó de arquivo
não sei onde colocar-te Proust se em baixo à direita
entre deuses ou à secretária
a beijar os pulsos de uma Salomé ressequida
ou amedrontado pelo uso continuado
do quarto escuro
sábado, 28 de março de 2015
Ode ao silêncio impuro
Ordena-se
imediata libertação do silêncio impuro
colocado por cardeal lerdo
na masmorra ociosa da moral
A ordem, a ter efeito imediato
manda
desconfiar, depenar e discordar dos puros
estes identificam-se pelos pés
caminham e falam em bicos de pés
Bicos de pés são partes minúsculas
invisíveis a olho nu
mas capazes de produzir grandes dores
a quem não possui tal bico
em virtude de nascimento ou credo
ou sei lá, duma cabala tonta
Anjos e outra espécie de faunas aladas
almas, sentimentos, e propaganda
serão doravante colocados no shake
misturados e depois de batidos
engolidos com rigor
um gole de cada vez,
para facilitar a digestão
toda a pureza é indigesta)
e provoca amiúde erupções da bílis
mas uma boa tarde de sono
uma acendalha no fogo
seguida de um rápido soluço
consumarão a proteína
Doravante todo o silêncio será impuro
a palavra também
embora se possa assinalar
bem no fundo do seu arrazoado persistente
a secreta fagulha emigrante no sangue
de uma brincadeira em que todos trocaram de baloiço
e vêm para o campo a rir
segunda-feira, 23 de março de 2015
Salafrária
Volto, volto sempre, a pairar
micrólito do ar parado
regendo a imensa falha desta mó
volto, volto sempre,
entre a bruma e a claridade
Apareço gesticulo
sou ovípara na cidade
o teu cabelo louro, em caracóis
a cega espada do meu peito incandescente
Logo, na canseira e no embuste
abrirei o livro, farei o resumo da matéria
sucumbirei dardo pesado
ao redor do juízo
antes, depois
logo a seguir
interrupção estendida
recomeçando
ser desfocado entre abertas asas feridas
consumo do silêncio
rigor da chibatada sobre o ventre
aquele árido ventre separado
Volto, assim mesmo, acertada
sob um nome falso
sob nenhum nome
sob um céu de chumbo
branqueada
micrólito do ar parado
regendo a imensa falha desta mó
volto, volto sempre,
entre a bruma e a claridade
Apareço gesticulo
sou ovípara na cidade
o teu cabelo louro, em caracóis
a cega espada do meu peito incandescente
Logo, na canseira e no embuste
abrirei o livro, farei o resumo da matéria
sucumbirei dardo pesado
ao redor do juízo
antes, depois
logo a seguir
interrupção estendida
recomeçando
ser desfocado entre abertas asas feridas
consumo do silêncio
rigor da chibatada sobre o ventre
aquele árido ventre separado
Volto, assim mesmo, acertada
sob um nome falso
sob nenhum nome
sob um céu de chumbo
branqueada
domingo, 22 de março de 2015
poesia: a máquina delirante da dedada cósmica
DEDILHANDO
se eu quisesse fazer poesia
era o serviço do meu dia a 21 seria
mas anoto a letra miúda
do calendário escolar
hoje não é dia de poetar
ao virar a página encontro
outros dias pequenos conto
em nenhum me poderia prestar
o ofício ou arte de poetar
se fosse mais tarde ou cedo talvez
no campo ou no mar em vez
de me ter esquecido a medo
pudesse despertar de novo o credo
mas terei de constatar
que apesar de disposição e do verbo
acabei por me atrasar
escrevinho um soneto cego?
não, hoje não é dia de poetar
se eu quisesse fazer poesia
era o serviço do meu dia a 21 seria
mas anoto a letra miúda
do calendário escolar
hoje não é dia de poetar
ao virar a página encontro
outros dias pequenos conto
em nenhum me poderia prestar
o ofício ou arte de poetar
se fosse mais tarde ou cedo talvez
no campo ou no mar em vez
de me ter esquecido a medo
pudesse despertar de novo o credo
mas terei de constatar
que apesar de disposição e do verbo
acabei por me atrasar
escrevinho um soneto cego?
não, hoje não é dia de poetar
domingo, 12 de outubro de 2014
o nome da rosa
Como te chamas Rosa?
esta pergunta substitui na minha mente
ocre o que não devia. rosa. qualquer coisa
a meio
A cerveja sobre a mesa um início
qualquer coisa
rosa
o teu bigode na minha fonte de mel
a pauta e o cinzel
essas austeras presenças imaginadas
sobre um corcel ferido
cintilam como sobrancelhas falsas
Tu não podes imaginar rosa
mas estes tempos serão iguais a outros
tempos de betume e sede
trautearemos músicas de treta
os carros estarão sempre presentes
como os dias quentes
ouviremos as patinhas ainda jovens dos animais selvagens
escapar sobre o pelo áspero do papel
onde a tinta continua a traçar o sonho mole das letras
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Ligação directa
Andei repisando a faixa móbil de um desespero
sem trinco
camada de gafanhotos cegos
zumbindo
fiz ligação directa
até à terra inteira e a Deus
sem mediação
sem passar por este ou aquele
tentei universos galáxias
mas sendo que nenhum dos inertes aprofundou
o teorema antigo que me vincava a testa
retirei.me à esfera
Oh sequestrados do sonho!
bramia o estilete verbal da Natália
mas tinha comido ostras
lambido os dedos
atirado as espinhas para longe
(que mais me restaria?-disse)
a dor ciática a lembrança vaga
num ar de toilette inacabado
e a foice
Fiz ligação directa
ao colo de flores brandas
de palavras abertas no orvalho.
Ofelizei-me até o rio dar duas voltas e entrar-me nas lágrimas
como uma mecha acesa.
domingo, 28 de setembro de 2014
Diatribes
II
Vi Bishop deslumbrar-se.
Furiosa virgem aterrada
Sobre a nobre paisagem do sul,
a paisagem das carcaças crianças
que remedeiam a pobreza com a alegria.
Vi-a desperdiçar o mundo por uma frase,
mas qualquer lágrima vale mais
que um magnífico tratado de ergonomia sentimental.
Tomamos sempre partido pelos que sofrem.
Arrogância talvez futurologia
Consignada à assinatura autoral
Bebo-te Bishop.
Alimento-me dos ácaros da tua roupa
Da linha escura entre a unha alada
E o sabugo
Alimento meu corpo fidalgo
meu corpo ritmo de samba
meu corpo ritmo de samba
Adiado
na história da tua imaculada concepção.
Também em ti houve o milagre
Sem sémen
da concepção virgem.
O rio não pára.
São assim mesmo as regras
Da narrativa
III
Atiro-te a primeira pedra
Poderás ripostar
Andei de marcha atrás na estrada recta
Até te avistar
nua ou ensonada
nua ou ensonada
na cama pomba onde muitos espreitaram
mas nenhum rolou a carne em sangue
sobre os lençóis muralhas
sobre os lençóis muralhas
Tu aí, ensonada ou nua
Tanto faz
Abrindo a boca rosa
Sobre a arcaica humanidade de pinóquios falantes
(Senhor, livrai-nos do mal das palavras!)
Tu
Ensonada ou nua
Tanto faz
Sobre a mágoa do meu corpo
Caminhando sobre as águas
Tu em mim sobre mim
Ou nós ou eu só
sobre as águas.
ainda sem nome
Interpreta-me mal
Eu não consigo respirar sem o traço limpo da esperança
Entendo que cada uma das frases já feriu de morte uma dor
E voltou a feri-la por a ter esquecido ou ignorado
Somos culpados mesmo do esquecimento, vê
sempre foi uma disposição
aceitar que a água não pode lavar
Nem o esquecimento apagar.
Caminho onde há guerra.
Caminho onde a guerra começou.
Primeiro o desentendimento preparou tisanas,
depois, serras de arame.
Deus nos livre de pensar
Encontrar a liberdade plana
De uma frase abandonada
Uma que caiu entre
tantas
e do chão testemunhou
O dilúvio do sentido
talhar,
madrugada dentro,
tábuas de uma ponte
que nunca concluiu
sábado, 21 de junho de 2014
terça-feira, 15 de abril de 2014
Arsenal
Glória aos Vândalos
Aos tártaros
Aos sândalos
Aos mártires robustos do
apocalipse dos tesos
Às varinas, aos mágicos
Glória soturna e
franca
aos Fantasmas ou rainhas santas
Permeáveis à treva mas
também
Entusiastas da plebe
Eurásia
Eufrásia
Glória Tomásia
Entre nós a máxima a genuína
transumância
Aforística
Ribeira Odalisca entre
frase
Suástica
A bomba pomba rasurada
Sobre um Sol tombado com
mosca
De plástico
Cartolas gigantes
Na Câmara ardente dos génios
Moribundos fonemas
E Ficção
Ficção a rodos para os
presidentes
E para o Povo
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Superfícies 4
é nesta moldura de cardos
nesta moldura de cedros
nesta moldura de nada
que amanso lendas
recubro penas
sem culpa formada
sou de série
contas que no rosário caíram
sem o meu consentimento
a solidez dos versos
passa como asa
sem ter nascimento
nem morte anunciada
nesta moldura de cedros
nesta moldura de nada
que amanso lendas
recubro penas
sem culpa formada
sou de série
contas que no rosário caíram
sem o meu consentimento
a solidez dos versos
passa como asa
sem ter nascimento
nem morte anunciada
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Superfícies 3
Acho que não tenho mais nada para dizer
secou-se o veio
vejo passar os rapazes
com os sacos de plástico
a minha amante toma
banho sem usar amaciador
e nos pinheiros bate
um vento leve
ao meu lado num outro
mundo vislumbrado
a vozearia dos
cavalitos de pau
e uma promessa de
solidão
absoluta e inexorável
estende-se sobre as
minhas pálpebras
deposita-se no tampo
liso da mesa
onde alinho as
palavras boas
as palavras que me
salvam,
se a minha jovem
amante não cantarola no duche
porque a convivência
comigo a fez pesada e inerte como eu
pesada e inerte
como as palavras malquistas
só a cacimba de uma
suspeita
pode dar por mim os
passos
até ao lago que tu
deixaste aos pés
de sabão e dedos
grandes
a boiar
e correndo o risco de
me encharcar
me abrigue sobre o teu
duche
segrede ao ouvido
amo-te
e o trinco da porta
com o peso
abrir-se-á
e cairemos abraçadas
sobre o tapete felpudo
da entrada.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
superfícies 2
ao todo há muitas formas de chorar
deambulações na copa dos dias
para o canto da boca
amar
palavra presentiva
de cedros e pontes
costura longitudinal rente
ao ponto da alma
animal
que incendeia os olhos sem querer
Lá longe no muro
oiço
alguém canta ou eu
sou um emigrante de vidro
a soprar em barcos de papel
julgando ouvir fontes
deambulações na copa dos dias
para o canto da boca
amar
palavra presentiva
de cedros e pontes
costura longitudinal rente
ao ponto da alma
animal
que incendeia os olhos sem querer
Lá longe no muro
oiço
alguém canta ou eu
sou um emigrante de vidro
a soprar em barcos de papel
julgando ouvir fontes
terça-feira, 29 de outubro de 2013
superfície 1
pela tarde, ainda no veio da rua uma coisa
qualquer
indisposta gozava o
último sol e todavia
a hora ou o que
restava dela sorvia na esquina
sem que nenhum de nós
desse pela fina visão
rendilhada da sombra
a estátua transparente
de um clássico pecado
inerte e sem
data
marcado pela fronteira
diluída
da tarde
caminhava connosco,
não que fosse novo
era óbvio que não
era, assim o
tratavam os ecos
um pecado antigo
mas da mesquinha
indiferença
ou melhor inépcia para
se apoquentar
só nomear era lícito
sendo assim a
manga dobrada
para as lembranças poucas
afazeres
limpos
superfícies com ruídos de automotoras
a eito sobre
o buço
outras lembranças de gritos
ásperas formas
ásperas formas
ocupavam apenas o tecido da
roupa
ninguém sabia ou
fingia não saber
por fortuitos azares
ou necessidade éramos só do presente
por ele
maquilhávamos as doridas horas da tarde
e emergíamos
indecisos
no peito o arco ou o
côncavo sombrio
do medo ou dor de o vir a ter
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Para diante
avanço para o meio da praça
trago comigo o couro e o lenho
a sirene das entranhas
o medo talvez
numa epígrafe desolada
mas sobre o trigo maduro
quase nada
avanço para o meio da praça
abro os braços e entre os braços
um vertical abraço
surge ainda
um veio de sangue quente
para desculpar da poeira
do vazio e da má sorte
o tempo seguinte.
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