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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016


Elas vêm as palavras
preciso que as vejas vir
quieta e só
humilde e amarrotada
Deixa-as aproximarem-se
finge estar em Gibraltar
contemplando o mar
ou acariciando a madeixa de uma loura
andrógina
com  a qual passarias sem dúvida para trás
tantos sonhos de letras
moles.
Coloca o copo de vinho
estala os dedos
tu
verás
juntam-se adiante
de joelhos dobrados
e vendadas
nesse momento emerge , olhos de foca
poderás decantá-las
chupar a grainha
deitar ao lixo o engaço
mas não as queiras transparentes
deixa-as agrestes
vergar-te de cansaço
dá-lhes o teu coração de ostra e bebe-as
de olhos fechados.


domingo, 18 de dezembro de 2016

vertigem

A serena orquestração do mundo
não dança
rumina
solta-se num corredor de crianças amestradas
por olhos de garça mal disfarçados
Chupacabras
pormenores de uma desolação fria.
Sentimos infelizes os corpos por um cuspo qualquer
uma beata
uma hecatombe de estrangeirismos
(por entre os lábios)
qualquer circuito eléctrico ou mar
metáfora, ou coisa, vento ou prótese.
Já não sei
cai por todo o lado
um detonador de sentimento
Passageiros Chupacabras
afligidos pela quebra de energia
esculpindo sulcos com a caneta
para que o dia não se consuma mais
e aflore embrião perfeito
num outro amanhecer.
Ser capaz de sonhar
 diria Pessoa
dar tudo por uma sandes de mortadela
a barba de 4 dias
e a púbis na álea vazia do claustro antigo
digo
a púbis ritualizada.
Chupacabras entre dentes.
À febre, ao musgo
À refrigeração das latrinas da alma!
Ah! ser tão distante entre vírgulas
e tão dolorosamente próxima de tudo!





sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Até onde o restolho
a segurança de um prelúdio bem idolatrado
gordo, endomingado
Até onde pudesses pensar e continuar
remexendo na balaustrada as contas
linda chama
Por quem Leonor?
Pela ambrósia de um deus atónito ou ébrio
por uma rosa
por uma aurora
por segundos
Até onde a tricotar
a vassourar
a estender palavras massa
a guardar a tentação aversão
das curvas sonhadas do rosto
Até onde entre palavras?

por uma balada
uma onça de tabaco
um triciclo abandonado na rua

Por onde carregas o pote Leonor?

Até onde bastará o que basta
um ribombar súbito
um olhar que prolongue
o espasmo até à eterna combustão
do amor dor
Até onde
Até onde perguntas
Até onde
mergulhar
para longe onde a água se confunda
me confunda
Até onde
ruminar solilóquios
preguiçar preguiçar
até onde Leonor e porquê?

domingo, 28 de agosto de 2016

manhã

Eram sete e meia
hora dourada sem poetas ou touros mortos
a tiro de carabina.
Acidentalmente, ao redor da fonte
o contorno de uma cotovia
levanta um pouco de vento
sacudindo o pó ao mármore
simétrico das janelas cercas
onde supomos haver céu

Era hora de recomeçar
ouvir trinar o melancólico peito
enrolar um fio a jeito
e a seguir já sobre o balcão
limpar a faca de pão
da laranja aberta
e, quem sabe, pensar
(com alguma sorte)
que o café a ferver não vai sair muito forte.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

enferma1











Pintura Andrew Wyeth
Semeado o halo da morte multiplica-se o nojo
o ramo de orquídeas entre as palmas vê 
o Truísmo da idade ser  alimento da vontade
musa desaparecida, alcateia de murmúrios.
Meu apelo de pega ociosa entre ordens ancestrais
actua como cinto de frémito 
Alcança-me a gambiarra a arder
Antes de desfalecer em visões  grão
Brancas desmaiadas enfermeiras
Sobre o meu corpo suturado


quinta-feira, 31 de março de 2016

I

Vejo-me a andar às arrecuas
sobre a ventoinha suspensa do real
berço da vida
palimpsesto
a bóia segura por andaimes em risco de turvar
e o meu olhar pedra rasa
o meu olhar olho
 meu radar
de mulher que morreu duas vezes
enquanto as imagens iam e vinham
em cadência sobre a pele baça
 membrana inútil
do tempo que falta para não ter alternativa à morte.




II

À porta do museu alinho as frases azuis
dos diabos celestes
magros peregrinos
sobre a superfície lisa do papel
Somos agora tu e eu
e seremos ainda mais  tempo em nenhum tempo
não interessa
pois somos agora
seremos
arredondadas açucaradas
gárgulas nos dentes de ouro dos ciganos
Somos agora tão ansiosamente eternas
como as vertentes douradas
do monte ao entardecer primaveril
seremos ainda quando os passos avivarem a pedra gasta da rua
e a respiração for silenciosa
e não houver rio nenhum
e nenhuma sombra a deixar atrás
Seremos ainda agora
expectantes e belas no tampo marron da mesa de café
enlutadas sem história
furando os mínusculos orifícios das palavras veladas
ódio indiferença
no frontispício dos teatros que vão construindo
sem o nosso consentimento.