domingo, 6 de dezembro de 2009

erosão e construção, sombra e luz. a veia, secou, há na mente um vazio e no corpo uma ausência. como dizer-te...a civilização às vezes deita-se na minha cama e faz-se de morta, é certo que pulsa ainda mas só a dor antiga elevando-se terá o efeito da morte. é a guerra lá fora mas quantas guerras cá dentro? quantas? quantas sem final anunciado? Come chocolates pequena come chocolates, diria o Pessoa. a metafísica espalhou-se ou entranhou-se entre factos e não factos, rarefez-se, perdeu a bússola. só sentimentos. frio pela noite, vontade de se diluir ou resgatar, apequenar dentro da chuva, ser chuva, vento, poça de água e... esquecer.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

divagações

Richard Kalvar
hoje vou falar sobre o espírito e a carne enquanto vou fumando um cigarro, não há pressa nenhuma, apesar de supostamente haver sempre qualquer coisa urgente, qualquer coisa que não dominamos, qualquer coisa que nos escapa, é isso a pressa, mas agora pressa nenhuma, sei perfeitamente o tempo limite de uma prosa curta, algumas linhas e as mangas do casaco a roçarem o teclado, há que as arregaçar, pequenas contrariedades, interrogo-me sobre este facto tão simples: porque será que a minha mãe teve uma influência tão decisiva no meu carácter mas nunca me impediu apesar de tentar vezes sem conta de me vestir mal, comprar roupa larga demais apesar de isso não revelar nada, porque gosto do meu corpo mas também gosto de roupa larga, e assim para falar do espírito ele como cresce para os lados e para a frente absoluto e teimoso mas a carne não, mantém as curvas, as dobras, os intestinos, silenciosamente busca a saciação e encontra o desejo.

domingo, 29 de novembro de 2009

cinema

"A linguagem verbal está morta" diz Tetro, di-lo no entanto através da linguagem verbal, é ainda pela linguagem verbal que surgem os compromissos e se desfazem. Em Tetro há um pensamento que se interroga mas para além e mais importante há laços que nenhum pensamento por mais despegado poderá quebrar. vi o filme numa noite chuvosa e gélida onde a meteorologia previa alerta laranja para certas regiões do país e as árvores esperneavam com o vento. são-me saborosas estas rotinas de cinema, este calor das salas no inverno e as imagens a correrem à frente dos meus olhos. gosto disto, depois sair de novo e a noite já não nos apanhar desprevenidos porque não paramos de querer meter nas palavras a bravura do que sentimos por dentro, esse entusiasmo. reparo num homem que caminha com os pés descalços na rua molhada, a realidade confunde-se na fantasia e de olhos vermelhos, ainda enevoados de outras ruas, reconheço burguesa esta arte da fuga. ai ir. ir mesmo, para enfrentar tudo de olhos bem abertos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

democracia e dinheiro

a letra dos dias tem sido a justiça. os processos em tribunal e a quantidade de arguidos desde o Caso Casa Pia, alimenta os jornais e as opiniões. São arguidos em processos que duram e duram até não sabermos quem é de facto culpado porque já não os julgamos a eles mas julgamos antes a justiça. Julgar a justiça é estúpido e perigoso. Tribunais e juízes confrontam-se com todo o tipo de argumentos e provas e contra-provas nestes casos tubarões (gente com poder), testemunhas reais e compradas, infindáveis artimanhas criadas na habilidade dos advogados a lidarem com lacunas e fraquezas da lei. São as leis que permitem estas brechas mas no caso dos pés-descalços todos sabemos que os julgamentos são rápidos e eficazes. Questiono mais a seriedade dos advogados que a dos juízes, a fraqueza da lei, a sua falta de clareza e os seus limites deixam ao critério de advogados sem escrúpulos todo o tipo de recurso. Bons advogados podem alterar a visão da verdade, podem fazer condenar inocentes e libertar criminosos e isso não é justiça. Veja-se o Caso Casa Pia, os desvios constantes ao essencial, a poeira lançada pelos advogados, nenhum esclarece seja o que for.Porque não há-de o Carlos Cruz ter um advogado desconhecido escolhido ao acaso? Toda essa gentalha só contribui para este clima de impunidade. O dinheiro assenta a democracia no banco dos réus. Não parece, mas é.

sábado, 21 de novembro de 2009

gripe F

acho que tenho uma gripe mas nem sei de que letra é, certamente das que começam com f...não haja dúvidas. tenho a sensação de ter furos por todo o lado e verto, ehehe é um horror, ajeitei lá no supermercado o saco ecológico para caírem os pingos do nariz longe da bancada das compras. que no saco só toco eu e bem ,não tinha lenços, não merecem estas amostras de papel que me lixam o nariz o nome de lenços, coisa esquisita, nada a ver com os lençinhos macios bordados ao canto que a minha mãe me dava quando estava constipada, mas seja como for na cegueira vale tudo para estancar a torneira. e não tenho nenuma certeza se no meio destes espirros monumentais não contagiei os tipos todos da fila, mas que querem? tenho de fazer compras, não? esta mania de ficarmos de quarentena é complicada para quem vive sozinho e tem de comer, assoar-se, beber, etc. ainda não adoptei a moda das compras ao domícilio, faz-me sempre lembrar quando vivia em Alfama num quarto andar sem elevador e telefonava para o homem do gás.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

hedda gabler

a história de hedda gabler, a bela e má, conta-se em três linhas: Hedda ama L mas casa com S. com S pode ter um compromisso, com L não, é só desvario. hedda quer segurança por ou apesar do fogo e da turbulência que sente, querendo recusar o irrecusável acaba vítima dele, domina e no fim é dominada. o texto do ibsen não diz nada disto, não fala da psicologia, ela, a psicologia, está no comportamento, hedda enfastia-se casada, anseia, da beleza faz ariete, da inteligência um laço de caça. na moral burguesa é a manipuladora de sentimentos, sem moral, vemos uma mulher dominadora, a mais forte. mas no seio da burguesia os fortes são os fracos, os que não opõem resistência. quem ganha afinal? o marido, o que não tem talento para nada senão para a paciência. perdem os apaixonados.

domingo, 15 de novembro de 2009

auden

em fios finíssimos se tece a teia com que resguardo o corpo quando o mesmo dotado de alma (que nem sei se existe), treme. em fios finíssimos se tece a teia de uma história feita de avanços recuos e galáxias e fogo, aguentaremos. se o universo afinal for apenas indiferente, não me regozijo da dispersão arrojada do pensamento mas a trama não se perde nunca, essa obscurece qualquer pensamento ou o ilumina, pois que na essência onde o movimento se dá também os contrários se juntam no mesmo.
Lembro a discussão com o meu aluno: A homossexualidade é feia, disse ele. Vá, André, que acharás deste poema? Diz-me tu. Auden era homossexual. A palavra não colhe? E se é a alma (que não sei se existe) a impor-se?




Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good



W.H Auden, Funeral Blues

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

união de facto ou casamento?

O PSD propõe uma modalidade soft para as uniões de casais do mesmo sexo. Uniões registadas. A princípio pareceu-me a solução mediadora: resolvia a questão dos direitos cívicos, saúde, habitação,impostos com a protecção que têm os casais legitimamente casados e, ao mesmo tempo evitava a fractura social que a legalização do casamento homossexual poderia trazer. Depois, de pensar um pouco, já não me pareceu uma boa solução porque não resolve nada. O nome parece-me descriminatório. Porque não legalização de uniões de facto? Continuo a pensar que a questão tem que ser resolvida, não se pode ignorar 10% da população como se não existisse, quando existe e é activa, votante, contribuinte etc. Mas se a questão fosse só de direitos, legalizar as uniões de facto resolvia. A questão do casamento é no entanto mais arriscada e mais ousada porque essa sim pretende tornar a relação homossexual uma relação com o mesmo grau de aceitação da heterossexual. Porque o casamento tem um vínculo social mais profundo que a união de facto, esse vínculo alicerça-se no tempo, na memória, na história. Nos anos 60 considerava-se coisa burguesa e hipócrita. Lutava-se pela autenticidade do amor fora do aval do conformismo institucional. Agora um movimento pela liberdade das minorias faz do casamento uma bandeira. O movimento que permitiu a liberdade sexual também se opôs ao casamento e agora reinvindica-o. Os tempos mudaram. Sim, mas porque será uma bandeira de liberdade o que há quarenta anos não passava de um símbolo de escravidão?

domingo, 8 de novembro de 2009

ervilhando

hoje quero falar e calar-me à vez,ainda não decidi que parte quero calar ou qual é a que quero falar, fala-se muito, em todo o lado mas por via indirecta. fala-se para um microfone, escreve-se por aí fora, dão-se opiniões e conta-se tudo, mostra-se tudo explica-se quase tudo. as palavras correm umas atrás das outras inflectidas ou monótonas, digo o que me vai na alma e quando digo já parece não estar em lado nenhum. mas apesar de toda esta euforia não é o discurso que conta, em boa verdade o discurso conta pouco, talvez por ser tão cómodo e fácil falar numa sociedade onde se permite que tudo seja dito. nada então nos choca ou faz estremecer. mesmo o mais imbecil e desinteressante dos seres tem o seu momento de visibilidade cósmica, debita qualquer coisa no écran por onde passam milhares de outros fumando ou bebendo cerveja. COMUNICAÇÃO. barra a queda para deixar ir dizendo, dizendo, não parar de dizer. pois se calar é assumir a verdade da coisa: Nada temos verdadeiramente novo para dizer.
mas afinal não é este solilóquio senão uma questão de inveja. pergunto-me invejosamente: como é possível um blog como o do Bruno Nogueira ter mais de 2.000 leitores por dia? é muita gente, caramba, que procuram esses tipos todos? aquele ar tá-se bem, aquela coisa dada à brincadeira negligé. é mesmo misterioso isto.
fotografia: Raymond Depardon

domingo, 1 de novembro de 2009

chuva

chove lá fora e o tracejado da chuva nítido à luz do candeeiro de rua faz parecer estranho este bairro, estas casas, como pracetas perdidas do Uruguai, momentos antes de um grito numa qualquer taberna empurrar para a chuva outro corpo. assim. não conheço o Uruguai, sabes, mal conheço as sardinheiras tímidas nos vasos tímidos das varandas inexistentes do meu prédio. facilmente poderia ceder à tentação da queixa quando assim chove nas pracetas do Uruguai perdidas à conta de reflexos dos meus olhos miúpes, reconheço contudo que me é dada fantasia suficiente para desenhar mundos onde há apenas a noite e pouco mais.
imagem daqui: diariodeummago.blogger.com.br

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Por causa da Teresa

a vida não tem ética alguma. rege-se por um conjunto de circunstâncias que se juntam por acaso, sem qualquer razão e que ditam um destino. a ética vem socorrer-nos com a sua clarividência contra esta lei cega. cria-nos a ilusão que há uma ordem para as coisas ou uma justiça, mas de facto não há, no caso da morte a Ética é completamente impotente. morrer com a consciência leve ou pesada é sempre morrer. e morrer quando se está no meio da tarefa de viver, quando se quer viver, quando se quer fazer muito, completar. não faz sentido. é uma revolta. Acreditar num Deus misericordioso pode impedir a revolta, mas é uma dura prova para quem é dotado de sangue e pensamento. é uma prova que está para além de toda a compreensão. se há um Deus cuja vontade comanda a vida e a morte, porque havemos de lhe dar o amor que ele nos tirou? na vida vamos morrendo e renascendo e esse movimento não depende da nossa vontade, forças cegas, animais, mas também a força com que acreditamos na beleza das coisas, na sua justiça, na sua ordem, acreditamos que há um equilíbrio e que ele vai nascer do caos. será essa força a crença numa transcendência? talvez. mas não necessariamente, é a força dos valores em que acreditamos. mas depois há isto. este vazio. como que uma interrupção incompreensível onde todo o pensamento se aniquila.

domingo, 25 de outubro de 2009

filme

"O dia da Saia" é o título de um filme francês. Pergunta natural: Que quer isso dizer? Dia da saia? então será que vamos instituir um dia para todos garçons et filles mostrarem a pernoca? E porque não o dia do naperon? ou da bóina...deixemo-nos de parvoíces porque o assunto é sério. Tudo se passa num Liceu ou como hoje chamamos, uma Escola Pública, onde uma professora pretende dar a conhecer Moliére a uma turma de origem maioritariamente marroquina e argelina. O ódio e o desprezo pela Escola, colegas, professores e Moliére, sourtout lui é de ordem a ser impossível comunicar sem ser aos gritos e ameaças. o resultado é devastador, tão devastador quanto é próxima esta realidade. A propósito: reivindicação da professora exausta: institua-se "o dia da saia" um dia em que toda as mulheres desta escola possam usar saias sem serem consideradas putas...é isso mesmo...quando estiver menos cansada derivarei para o problema dos emigrantes e dos valores.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

dixotes

na sua crónica de hoje o Pulido Valente chama analfabeto ao Saramago, porque ousou dizer dixotes sobre a Bíblia e escreveu um livro sobre isso, ele que não passa de um trolha a quem faltou a educação básica.dá vontade de rir...a educação básica será o quê, neste caso, ter mestrado em teologia??
a questão é que este trolha analfabeto ganhou um prémio que nos enobrece a todos e no futuro ficará como motivo de orgulho, para além disso é um escritor lido e admirado em muitas partes desse vasto mundo, e o sr pulido valente? que autoridade tem? os doutores da igreja sabem do que estão a falar e o saramago não. é a ideia do Pulido, a dele, o seu dixote de trolha. acho sempre imensa graça quando se evoca a autoridade para ter esta ou aquela opinião. geralmente invoca-se o argumento da autoridade quando não há outros, é a chamada falácia da autoridade não qualificada.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Três cantos estreia dia 22 no Campo Pequeno, os três maiores compositores vivos da Música Popular Portuguesa, juntos e ao vivo. Cruzam-se emoções, expectativas imensas para ouvir aqueles que poetizaram a minha juventude e continuaram a fazê-lo na minha vida adulta.
Cada um de nós os que habitávamos Lisboa com sofreguidão e desvario tivemos a ventura de ver despontar esta febre criativa, os longos braços da poesia e da música livre, como um longo suspiro, todos nós ligámos estas músicas a uma parte incontornável do nosso imáginário. Ao som do Rosalinda o meu primeiro beijo na boca, apaixonado, o beijo que vinha lá do fundo da ânsia e se fazia luz nessa tarde num apartamento dos Olivais.
"Rosalinda se tu fores à praia, se tu fores ver o mar, cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira mar" e depois corríamos a ver os concertos espontâneos em cantinas, na Festa do Avante, em bares.
"A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste
."

Há, houve, continuará a haver uma identidade que cresceu e se formou com estas palavras.

domingo, 18 de outubro de 2009

saramago

Então o Saramago escreve mais uma heresia, no seu novo livro "Caim". Caim o mau filho, Caim que mata o seu irmão por ciúmes. Saramago dixit: Um Deus cruel que permite tais actuações não é bom conselheiro. A Bíblia é um manual de maus costumes, os católicos nem se hão-de preocupar com o livro porque não lêem a Bíblia mas os judeus sim e para mim isso é indiferente. Continuo a admirar a sua coragem embora já ninguém se preocupe muito com heresias neste ocidente democrático. Curioso seria que os judeus se levantassem e em coro o condenassem às penas do Inferno, à excomunhão pelo fogo ou mais prosaicamente, a gosto dos fariseus e seus inimigos muçulmanos, passem das palavras aos actos e lhe movam uma perseguição! Filhos ambos de Caim, diríamos e parece-me igualmente herege mas Saramago? De quem é filho Saramago? Nem Caim nem Abel! Filho de sua mãe, só.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

sobrinhas

andei com elas ao colo, adoro-as, são como as filhas...etc, agora cresceram e temos zangas de adulto contra adolescente e vice versa, o habitual, adoro-as mais, mais, mas não sei como lhes dizer que as adoro quando mandam mensagens no telemóvel enquanto lhes falo. São lindas demais as miúdas e revejo-me naquela rebeldia. Herdou a mais velha de mim o gosto compulsivo da leitura e um certo orgulho meio enviesado, a mais nova o gosto pelo teatro e é fantástico sentir que os gostos delas, os subterrâneos, têm a ver comigo embora, felizmente, sejam muito diferentes de mim. A minha vida espelha-se um pouco nelas e isso faz todo o sentido.todo. Um abraço!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

ranking

O ranking das "melhores" escolas (escolas com melhores resultados nos exames do 12ºAno) não foi consensual. SIC, Correio da Manhã e Diário Notícias apresentavam cada um o SEU RANKING. Talvez isto de rankings seja coisa criativa e pessoal e o melhor é cada um ter o seu e não se fala mais nisso!
(Um exemplo, só com as escolas com mais de 100 provas: O Colégio Lusofrancês para a SIC e para o DN o Colégio Nossa Senhora do Rosário estão em 1º lugar respectivamente. E outras divergências são visíveis mas não é preciso ser exaustivo porque o resultado final aponta em larga convergência para dois pontos:

1.As Escolas Públicas desceram face às privadas.
2. Os lugares de topo são maioritariamente de Escolas cujo ensino está ligado à religião: Opus Dei, Salesianos, Maristas, Jesuítas e por aí fora.

Que se passa com o Ensino Republicano e laico? Será que não esclareceu ainda as linhas orientadoras do bom ensino? Será que não se preocupa com os bons resultados dos seus alunos nas provas mas com outros factores sociais, culturais etc?

Três factores que me parecem importantes e condicionadores destes resultados:


1. O desequilíbrio e instabilidade da classe docente nos últimos três anos. As guerras e confusões que se instalaram na Escola Pública face a medidas desrazoáveis do governo. Estas medidas parecem ter afectado mais os professores das Escolas Públicas porque a classe tem uma representação mais heterógenia que na Privada, onde os professores são escolhidos também por factores políticos. Maior vulnerabilidade da Escola Pública face ao Poder político.


2. Maior poder económico dos alunos da Privada, mais acesso a bens culturais, menor pressão familiar em relação ao luxo de estudar e consequentemente uma maior concentração no valor do estudo.


3. Mais elitismo nas Escolas privadas que são menos pressionadas que as Públicas no sentido da Inclusão. Isto é, as Escolas Privadas não têm a missão de educar todos, apenas alguns, os que querem verdadeiramente estudar . Esse princípio permite o elitismo que nas Públicas só é possível em algumas excepções, quando as Escolas Públicas rejeitam alunos com passados escolares pouco promissores. É o caso da Escola da Quinta do Marquês - Oeiras que sendo uma das melhores escolas públicas, aceita alunos fora da sua área em detrimento de outros que vivem próximos. O critério é a excelência e nível económico do aluno. O meu vizinho de baixo é exemplo.


Posto isto, ilações: A batalha perdeu-se! Mas a luta continua! Escolas Públicas às Armas!! Teremos de provar que o Ensino Republicano e laico é melhor que o ensino norteado por princípios religiosos, acredito que sim!


domingo, 11 de outubro de 2009

divagações

Cartier-Bresson


qual a relação entre a nossa experiência e a expectativa que acalentamos de felicidade? porque será o que vivemos pouco mesmo que seja equiparável ao que sonhámos? ser feliz depende ou não da quantidade de experiências que julgamos felizes? será que a felicidade é a soma de experiências felizes? e o que é uma experiência feliz? poderá uma experiência ser em si feliz sem que aquele que a viva a sinta como tal?


olho a luz de Outono, este azul ácido que se espalha do céu para as árvores e para os contornos dos corpos, sinto-me progressivamente alheada, sem lugar definido na soma de acções que nos relacionam com o colectivo, vivo na proximidade das sensações, como um lobo a farejar, o restolho do calor dos corpos, o cheiro, o som. dias há que os filhos dos outros me dão uma nostalgia tremenda de não ter os meus, e dias há também que sorvo o ar absoluto de não ter amarras, de ser livre. libertar-se progressivamente desses padrões, dos padrões natura, contra/natura, socialmente aceite, genuinamente respeitável, obedecer ao impulso, não lamentar.possuir o que possuímos, a lembrança, a capacidade ilimitada de se auto-transcender. se ficar louca chamarão os cães, se não ficar, acorrentar-me-á a lucidez da morte. não acredito na maioria das pessoas, acredito na linguagem do corpo. fatalmente. se hoje é de noite não é por acaso, será noite da descrença e porque não?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Chéri


Chéri é um filme belo (pensei que este atributo da beleza fosse negligenciável e demodée mas não é, não é). Há o décor (as palavras francesas surgem em catadupa não fora o original francês, por causa dele e da sua influência certamente), perfeito no tom, na simbologia, no timing, lacónico, indiferente e subterraneamente trágico. Os actores, a Pfeiffer está por lá, com as pérolas e aquele olhar meio condescendente meio triste, meio irónico, só dela e do meu fanatismo por "olho azul " ele mesmo, exultante. o outro, amado, com uma fragilidade entontecedora própria dos amados, dos amantes ou dos que nada sabem e sentem, sentem. A Colette sabia do amor porque a história continua hoje, debaixo da pele ou encrostada no sonho de amor que todos trazemos do berço. A vida ergue-se em bicos de pés surpresa e cai, amarrota-se, engana-se.


Ps: O Expresso tem uma crítica e uns críticos imbecis, lavavam para já os olhos e depois talvez fosse bom atirarem-se ao rio, para exercitar o fôlego.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

na piscina


depilei-me cuidadosamente para esta rentrée na piscina, não que desgoste de pêlos, pelo contrário, os outros, mais concretamente a minha mãe, as mulheres e certos metrossexuais assexuados é que não gostam, parece mal, dizem, para não lhes parecer mal fiz-lhes a vontade pois nã me apetece ser tomada como "gaija" das cavernas ou badalhoca ou mulher barbada, sei lá...ele há imaginação pra tudo! mas o evento pedia esmero e decoro, era um sítio novinho em folha, uma inauguração pré-eleitoral aqui do munícipe de Cascais. Este sítio ganhou piscina e o povo ficou contente porque era à borla e porque está um calor do caraças! foi-se a ela aos magotes sôfrego de fresquidão e exercício pra banha, fomos todos, nunca bebi tanta água na minha longa vida de piscineira, confesso, não havia espaço suficiente, levei com o rabo de um tipo quando me preparava para a clássica e categórica respiração crall, fiquei mais crash que crall e mal vim à tona com o muco a saltar-me pelas orelhas pregam-me com um pontapé na nuca.arfei... contrariada, afastei as bóias com o Pato Donald e os colchões da Nívea e vim tomar duche que por este andar já tenho uma cultura de nódoas negras suficiente para receber um telefonema anónimo a aconselhar-me a denunciar o marido que me dá maus tratos, eu que nem o tenho...