procuro um ponto minúsculo, uma saliência na linha dos passos. estás de pé no meio do corredor. interrompes a ladaínha. és uma evidência mas ainda assim contornável, ainda assim contornável.percorro a linha até aí chegar , volto atrás, invento estratégias para depois entregar ao impulso, se não resultar espero. se não resultar esperar talvez resulte desesperar, se não houver só contrários, talvez um limbo ou uma amálgama um sítio concavo, uma raíz onde possa pernoitar apenas enquanto a lua incha e desincha penso no dia mas mal começo a pensar é já de noite. se não houvesse contrários então o pensamento propunha um divórcio litigioso à realidade, por isso o melhor é escrever, adiar, ou comprar bilhetes para o circo.domingo, 31 de janeiro de 2010
trovas do vento que passa
procuro um ponto minúsculo, uma saliência na linha dos passos. estás de pé no meio do corredor. interrompes a ladaínha. és uma evidência mas ainda assim contornável, ainda assim contornável.percorro a linha até aí chegar , volto atrás, invento estratégias para depois entregar ao impulso, se não resultar espero. se não resultar esperar talvez resulte desesperar, se não houver só contrários, talvez um limbo ou uma amálgama um sítio concavo, uma raíz onde possa pernoitar apenas enquanto a lua incha e desincha penso no dia mas mal começo a pensar é já de noite. se não houvesse contrários então o pensamento propunha um divórcio litigioso à realidade, por isso o melhor é escrever, adiar, ou comprar bilhetes para o circo.quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
leia-se
Hoje descobri qualquer coisa importante, tardio, mas perto dos 50 dou por mim a espantar-me, é bonito, é inocente e ternurento. Foi de novo a experiência directa que me tirou as ilusões. Fui visitar as instalações da Leya, a nova mega editora que assimilou a Caminho, a D.Quixote, a Asa e outras mais pequenas. O edifício é branco, rigorosamente rectangular, amplo, clean, corredores dão para portas em vidro onde surgem pessoas ao computador em pequenos aquários oxigenados e secos. a semelhança com um hospital sem doentes é o melhor dos elogíos. Então por ali, enfeitiçada por livros desde cedo, pensei, pensava, a sonhar acordada, que o lugar onde se publicavam os livros era desarrumado, empoeirado, com pilhas de livros por todo o lado e gente a fumar cigarros e a discutir, era assim que o via. o ofício era-me deslumbrante e quis pertencer-lhe de alma e coração. desenterrei esse desejo, pu-lo a voar, minha escola, meus putos, frenesim, gente, descobri assim no meio do refrigério que adoro dar aulas.domingo, 24 de janeiro de 2010
empatia
estou preguiçosa para a escrita e deixo aqui o espaço sem cultivo, a crescer em erva daninha. vou plantar aqui umas ideias se não me der antes para a parvoíce porque quando vem o sol, segurem-me porque a vontade de me atirar para cima da areia a fixar o céu e esquecer as montanhas de papelada para organizar e tarefas e funções e fazeres é incontrolável. mas há fazeres e fazeres, são importantes os fazeres mas não mais importantes que os seres e os sentires, baixo a guarda à eficiência, com o sol permito que me apelidem de adoradora, adoradora do sol e daí à negligência vai um pulinho distraído. chamo-lhe empatia, nasci com uma dose superior de empatia, não é coisa de empata é mesmo a virtude de me transformar por mor da circunstância ou da pessoa, da ambiência ou da energia, como queiram, sorvo e incorporo num movimento além da consciência. não sei bem se é virtude ou defeito será o que quiserem mas é certamente aptidão para compreender intuitivamente sem ser preciso o esforço mental. sendo assim o ser dotado de empatia terá facilidade em colocar-se no lugar do outro, em ser outro, em criar universos imaginários a partir de pequenas amostras de sentimento ou de acontecimento. entrar numa casa estranha e perceber imediatamente o que ali se passa, olhar para alguém e sentir se está alegre ou triste, questionador ou expectante. este pequeno dom dá-me confiança. é isso, confiança, concluo então não haver virtude ou defeito por si só, mas o excesso ou carência com que usamos a qualidade. gosto de pessoas com empatia, são-me familiares e de trato fácil, gosto do trato fácil, essa coisa de não se levar a sério, de perceber as costas e o rosto de tudo quanto se mexe e fala, porque na verdade o rosto na claridade revela a sombra das costas. revela sim então, deixemo-nos de fingimentos. segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
deixa chover
No filme da Agnés Jaoui, "Deixa Chover" não se passa nada, a acção central sofre desvios por causa do estado de espírito, das circunstâncias e das personalidades, quem comanda são as pessoas, e estas estão também presas numa espécie de curvatura que corre ao arrepio das suas intenções, uma espécie de rio subterrâneo, acaso mais passado, mais presente mais ausência. Nada se passa como cada um quer e todas essas contrariedades acabam por conduzir a um retrato humano comovente e cómico. Há muito que não ria assim, daquele modo pensado, não óbvio, irresistível sempre que nos vem à lembrança o gesto, a reacção, a expressão. Ainda agora me estou a rir com aquilo. levava grandes expectativas, adorei os filmes anteriores "O gosto dos outros" e o "Olhem para mim" acho o Bacri fabuloso e pronto o cinema francês no que tem de melhor: a atenção ao quotidiano, ao irrisório.sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Rainer maria Rilke em Cartas a um Jovem Poeta escreve:"Sabemos muito poucas coisas, mas a certeza de que devemos sempre preferir o difícil não nos deve abandonar. É bom estar só, porque a solidão é difícil, razão mais forte para a desejar. Amar também é bom porque o amor é difícil. O amor de um ser humano por outro é talvez a experiência mais difícil para cada um de nós, o mais alto testemunho de nós próprios, a obra suprema em face da qual todas as outras são apenas preparações. É por isso que os seres muito novos, novos em tudo, não sabem amar e precisam de aprender. Com todas as forças do seu ser, concentradas no coração ansioso e solitário, aprendem a amar. Toda a aprendizagem é um tempo de clausura. Assim, para o que ama, durante muito tempo e até ao largo da vida, o amor é apenas solidão, solidão cada vez mais intensa e mais profunda. O amor não consiste nisto de um ser se entregar, se unir a outro logo que se dá o encontro. (Que seria a união de dois seres ainda imprecisos, inacabados, dependentes?). O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o ser amado. É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes. Quando o amor surge, os novos apenas deviam ver nele o dever de se trabalharem a si próprios. A faculdade de nos perdermos noutro ser, de nos darmos a outro ser, todas as formas de união, ainda não são para eles. Primeiro é preciso amealhar muito tempo, acumular um tesoiro."
É preciso não esquecer os poetas, porque nos trazem a antiga sabedoria. Sem exigir nada convocam as musas adormecidas, as apagadas coordenadas, por momentos perdidas no lodo áspero das coisas pequenas. Fazem-no sem uma réstia de ressentimento, ou de orgulho, numa incandescência breve de revelação.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
sismo
hoje é um dia infeliz, um dia onde compreendemos que a globalização é uma galinha manca , um enredo, uma ficção de cenário de papel. o Haiti é uma colónia de férias do Ocidente e neste momento lá por dentro das pedras, está gente a sufocar, gente são pessoas mortas, em catadupa, aos milhares. Como é possível num mundo tecnológico com telemóveis capazes de comunicar com o Haiti em fracções de segundo, num mundo onde dezenas de satélites permanecem a girar incansáveis à roda da terra para captar esta taquicárdia de informações tolas, não haja um satélite, uma sonda, um mapa, uma amostra, que possa prever uma catástrofe destas. Como? Que raio de ciência é esta? A ciência de quê? Para quem? Geógrafos? Sismólogos? Geólogos? Para que vos quero.segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
na sala de espera da urgência do hospital há agora um quadro electrónico limpo, moderno ,informado no tempo de espera das várias especialidades. em psiquiatria é o tempo aproximado de 1.20h. Uma mulher à minha frente de cabelo colado com gel e fato de treino fala à enfermeira que se sente cansada e pesada, que não sabe bem mas está desmotivada e sem forças. A enfermeira dá-lhe uma bracelete amarela, de coisa urgente. os carros chapinham lá fora na modorra da chuva, chegam, partem, deixam gente, mais adiante um bosque denso,a mulher senta-se e espera. não é um tempo desperdiçado sinto no olhar dela, é um tempo de esperança, de alguém para lhe aliviar o cansaço. este Inverno custa e dentro do Inverno, bem lá dentro, mal se ouve, crescem vozes.sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
dia feliz


Hoje é um dia feliz,mesmo o mais empedernido não pode deixar de sentir uma emoção profunda e uma renovada fé nos homens e mulheres que nos representam,
Hoje foi o dia da vitória do bom-senso, da generosidade e da justiça. A lei do casamento homossexual foi aprovada, uma inegável tranquilidade para muitas pessoas que se amam e desejam que a sociedade o reconheça.
e o acordo entre os sindicatos e o ministério da educação sobre o estatuto e progressão dos professores. Tchim! Tchim! BRINDO A ISSO!
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
com a idade vamos mudando os gostos, alguns, estou certa, porque outros permanecem, mas muitos deixam de nos apoquentar, pois para quem se vê em conflitos até por ter alguns gostos, nesse campo premeio aqueles para quem todas as matérias desejantes têm um je ne sais pas quoi de amargo dada a sua condição volitiva, retirada da pacatez de ser sem nada desejar, sonho etéreo irmão gémeo desse outro arrepiado que nada contenta e nada satisfaz, para esses mudar de gostos parece ser somente entregar-se a mais uma sensação de que o tempo é um grande falseador e um grande mágico. nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma. transforma-se o amador na coisa amada e acontece-lhe saber que nessa sua convulsão não está só pois que outros também assim se transformaram.
domingo, 3 de janeiro de 2010
2010
fui a Cádiz sem saber nada, enevoada de espírito. pretendia desanuviar e nada melhor que rumar on sea direction. pois nem pensei muito, rumei. trovoadas e quedas de água puseram à prova os pneus e a atenção. as estradas mostravam-se solitárias, só os doidos se aventuram com este tempo! fazíamos contas de somar e dividir, ouvíamos músicas na rádio do carro, sonhávamos com o Sol às portas do Mediterrâneo, umas quantas abertas que não existiram. certo é que Cádiz surpreendeu entre nuvens e ondas, catedrais e ruelas, antigo e cruel, daquela crueldade das coisas paradas que já tudo viram da crueldade dos homens. não quis saber do manual de história, ia de nariz no ar, de sensação em sensação e não são as palavras aqui, os olhos mais, os ângulos, as cores, os vestígios e talvez a imaginação. Com aquele mar como pudemos partir em tão frágeis caravelas? que bicho nos mordia os calcanhares? o mesmo me levou a Cádiz, (não me julguem os heróis, antes os homens e as mulheres vulgares em tempos de cólera mansa) o mesmo. o bicho da inquietação, da insatisfação e da coragem de vencer os medos. só quem vive perto do mar o sabe, ele habita na espuma daquelas ondas.quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
domingo, 20 de dezembro de 2009
noite gélida na calçada e nós de sombra com a parede a evitar aquelas pontes de vento entre as ruas, somos noite e estalamos os dedos dermentes, noite. bandos com mãos enfiadas nos bolsos respiram pequenas névoas de vapor apressadas, o táxi não deve vir, raparigas de percings no umbigo e mais uns quantos bandos de rapazes sem barba e garrafas de plástico à boca, vinho, talvez, vertido da pipa para o plástico e deste directamente à veia da língua sob o céu da boca. noite. antes éramos menos e não nesta zona da cidade, agora a noite transbordou de gente mas nem por isso de euforia, somos meio melancólicos meio taciturnos ainda, apesar de nos sabermos melancólicos e taciturnos, somos ao invés de espanhóis, não acreditamos na crise porque sempre vivemos nela. agora, como sempre, vivemos sem querer saber, vivemos com o que temos, quando não parece chegar há sempre uma luz acesa à noite, um lugar de aconchego, um copo de vinho, um desconhecido, áspero mas depois doce.
domingo, 6 de dezembro de 2009
erosão e construção, sombra e luz. a veia, secou, há na mente um vazio e no corpo uma ausência. como dizer-te...a civilização às vezes deita-se na minha cama e faz-se de morta, é certo que pulsa ainda mas só a dor antiga elevando-se terá o efeito da morte. é a guerra lá fora mas quantas guerras cá dentro? quantas? quantas sem final anunciado? Come chocolates pequena come chocolates, diria o Pessoa. a metafísica espalhou-se ou entranhou-se entre factos e não factos, rarefez-se, perdeu a bússola. só sentimentos. frio pela noite, vontade de se diluir ou resgatar, apequenar dentro da chuva, ser chuva, vento, poça de água e... esquecer.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
divagações
hoje vou falar sobre o espírito e a carne enquanto vou fumando um cigarro, não há pressa nenhuma, apesar de supostamente haver sempre qualquer coisa urgente, qualquer coisa que não dominamos, qualquer coisa que nos escapa, é isso a pressa, mas agora pressa nenhuma, sei perfeitamente o tempo limite de uma prosa curta, algumas linhas e as mangas do casaco a roçarem o teclado, há que as arregaçar, pequenas contrariedades, interrogo-me sobre este facto tão simples: porque será que a minha mãe teve uma influência tão decisiva no meu carácter mas nunca me impediu apesar de tentar vezes sem conta de me vestir mal, comprar roupa larga demais apesar de isso não revelar nada, porque gosto do meu corpo mas também gosto de roupa larga, e assim para falar do espírito ele como cresce para os lados e para a frente absoluto e teimoso mas a carne não, mantém as curvas, as dobras, os intestinos, silenciosamente busca a saciação e encontra o desejo.
domingo, 29 de novembro de 2009
cinema
"A linguagem verbal está morta" diz Tetro, di-lo no entanto através da linguagem verbal, é ainda pela linguagem verbal que surgem os compromissos e se desfazem. Em Tetro há um pensamento que se interroga mas para além e mais importante há laços que nenhum pensamento por mais despegado poderá quebrar. vi o filme numa noite chuvosa e gélida onde a meteorologia previa alerta laranja para certas regiões do país e as árvores esperneavam com o vento. são-me saborosas estas rotinas de cinema, este calor das salas no inverno e as imagens a correrem à frente dos meus olhos. gosto disto, depois sair de novo e a noite já não nos apanhar desprevenidos porque não paramos de querer meter nas palavras a bravura do que sentimos por dentro, esse entusiasmo. reparo num homem que caminha com os pés descalços na rua molhada, a realidade confunde-se na fantasia e de olhos vermelhos, ainda enevoados de outras ruas, reconheço burguesa esta arte da fuga. ai ir. ir mesmo, para enfrentar tudo de olhos bem abertos. quarta-feira, 25 de novembro de 2009
democracia e dinheiro
a letra dos dias tem sido a justiça. os processos em tribunal e a quantidade de arguidos desde o Caso Casa Pia, alimenta os jornais e as opiniões. São arguidos em processos que duram e duram até não sabermos quem é de facto culpado porque já não os julgamos a eles mas julgamos antes a justiça. Julgar a justiça é estúpido e perigoso. Tribunais e juízes confrontam-se com todo o tipo de argumentos e provas e contra-provas nestes casos tubarões (gente com poder), testemunhas reais e compradas, infindáveis artimanhas criadas na habilidade dos advogados a lidarem com lacunas e fraquezas da lei. São as leis que permitem estas brechas mas no caso dos pés-descalços todos sabemos que os julgamentos são rápidos e eficazes. Questiono mais a seriedade dos advogados que a dos juízes, a fraqueza da lei, a sua falta de clareza e os seus limites deixam ao critério de advogados sem escrúpulos todo o tipo de recurso. Bons advogados podem alterar a visão da verdade, podem fazer condenar inocentes e libertar criminosos e isso não é justiça. Veja-se o Caso Casa Pia, os desvios constantes ao essencial, a poeira lançada pelos advogados, nenhum esclarece seja o que for.Porque não há-de o Carlos Cruz ter um advogado desconhecido escolhido ao acaso? Toda essa gentalha só contribui para este clima de impunidade. O dinheiro assenta a democracia no banco dos réus. Não parece, mas é.sábado, 21 de novembro de 2009
gripe F
acho que tenho uma gripe mas nem sei de que letra é, certamente das que começam com f...não haja dúvidas. tenho a sensação de ter furos por todo o lado e verto, ehehe é um horror, ajeitei lá no supermercado o saco ecológico para caírem os pingos do nariz longe da bancada das compras. que no saco só toco eu e bem ,não tinha lenços, não merecem estas amostras de papel que me lixam o nariz o nome de lenços, coisa esquisita, nada a ver com os lençinhos macios bordados ao canto que a minha mãe me dava quando estava constipada, mas seja como for na cegueira vale tudo para estancar a torneira. e não tenho nenuma certeza se no meio destes espirros monumentais não contagiei os tipos todos da fila, mas que querem? tenho de fazer compras, não? esta mania de ficarmos de quarentena é complicada para quem vive sozinho e tem de comer, assoar-se, beber, etc. ainda não adoptei a moda das compras ao domícilio, faz-me sempre lembrar quando vivia em Alfama num quarto andar sem elevador e telefonava para o homem do gás.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
hedda gabler
a história de hedda gabler, a bela e má, conta-se em três linhas: Hedda ama L mas casa com S. com S pode ter um compromisso, com L não, é só desvario. hedda quer segurança por ou apesar do fogo e da turbulência que sente, querendo recusar o irrecusável acaba vítima dele, domina e no fim é dominada. o texto do ibsen não diz nada disto, não fala da psicologia, ela, a psicologia, está no comportamento, hedda enfastia-se casada, anseia, da beleza faz ariete, da inteligência um laço de caça. na moral burguesa é a manipuladora de sentimentos, sem moral, vemos uma mulher dominadora, a mais forte. mas no seio da burguesia os fortes são os fracos, os que não opõem resistência. quem ganha afinal? o marido, o que não tem talento para nada senão para a paciência. perdem os apaixonados.domingo, 15 de novembro de 2009
auden
em fios finíssimos se tece a teia com que resguardo o corpo quando o mesmo dotado de alma (que nem sei se existe), treme. em fios finíssimos se tece a teia de uma história feita de avanços recuos e galáxias e fogo, aguentaremos. se o universo afinal for apenas indiferente, não me regozijo da dispersão arrojada do pensamento mas a trama não se perde nunca, essa obscurece qualquer pensamento ou o ilumina, pois que na essência onde o movimento se dá também os contrários se juntam no mesmo. Lembro a discussão com o meu aluno: A homossexualidade é feia, disse ele. Vá, André, que acharás deste poema? Diz-me tu. Auden era homossexual. A palavra não colhe? E se é a alma (que não sei se existe) a impor-se?
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good
W.H Auden, Funeral Blues
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
união de facto ou casamento?
O PSD propõe uma modalidade soft para as uniões de casais do mesmo sexo. Uniões registadas. A princípio pareceu-me a solução mediadora: resolvia a questão dos direitos cívicos, saúde, habitação,impostos com a protecção que têm os casais legitimamente casados e, ao mesmo tempo evitava a fractura social que a legalização do casamento homossexual poderia trazer. Depois, de pensar um pouco, já não me pareceu uma boa solução porque não resolve nada. O nome parece-me descriminatório. Porque não legalização de uniões de facto? Continuo a pensar que a questão tem que ser resolvida, não se pode ignorar 10% da população como se não existisse, quando existe e é activa, votante, contribuinte etc. Mas se a questão fosse só de direitos, legalizar as uniões de facto resolvia. A questão do casamento é no entanto mais arriscada e mais ousada porque essa sim pretende tornar a relação homossexual uma relação com o mesmo grau de aceitação da heterossexual. Porque o casamento tem um vínculo social mais profundo que a união de facto, esse vínculo alicerça-se no tempo, na memória, na história. Nos anos 60 considerava-se coisa burguesa e hipócrita. Lutava-se pela autenticidade do amor fora do aval do conformismo institucional. Agora um movimento pela liberdade das minorias faz do casamento uma bandeira. O movimento que permitiu a liberdade sexual também se opôs ao casamento e agora reinvindica-o. Os tempos mudaram. Sim, mas porque será uma bandeira de liberdade o que há quarenta anos não passava de um símbolo de escravidão?
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