domingo, 13 de junho de 2010

mostrar o corpo

talvez seja "bota de elástico" (onde terá vindo o raio desta expressão idiomática? ) mas esta moda modernaça de mostrar o corpinho mais as partes íntimas a toda a toda a hora e em qualquer situação causa-me uma certa náusea, aquela de que falava o Sartre, quando sentado no café, com uma bica caneta e papel, imagino, se punha a olhar em volta e via a opacidade das vestes e das expressões. diria que se vivesse no Brasil, talvez não lhe desse para escrever sobre essa espécie de tédio antecipado que deriva da súbita emergência de uma falta de sentido, talvez que para os países quentes faça sentido esse despe despe já com umas tantas bejecas e caipiras, uma boa música uma disposição para seguir embriagado em desejos, mas aqui no país de Viriato, não sei, não cola bem, parece exibição de boneco de feira, tipo olha para mim, que despudorado sou, que me estou lixando pra roupa, é uma montra de vaidades de ginásio ou de banhas de hamburguer ,coca cola e tardes mornas entre canais Zon a ver os Losts deste e doutro mundo. temos uma rigidez de costumes, ou se quiserem, uma tradição que não se dá bem com isto de andar a mostrar o rego do rabo, ou o tronco nu, no restaurante ou nas aulas ou no centro comercial, seja onde for. serei "bota de elástico" mas gosto de decoro, de um certo pudor, o pudor é infinitamente mais erótico que a barriga ao léu. dirão que o pudor é um sentimento íntimo que nada tem a ver com a forma como vestimos e concordarei, se nos vestirmos, claro, continuarei no entanto a pensar que o corpo é a nossa intimidade, expô-lo demasiado é fazer da intimidade um "out door" com luzinhas a acender e a apagar.fica tudo no mesmo plano, há só o corpo na sua imediatez, para ser visto, sem que o olhar, possa seguir desocultando-o, entrevendo ou imaginando, quando tudo se dá ao olhar, ficamos cegos, cansados de ver.há uma certa confusão modernaça entre a exaltação do corpo e a libertação sexual, a sexualidade é da intimidade ou do privado, a exaltação do corpo é público, confundi-los molesta as duas esferas, enfraquece-as ou mesmo nadifica-as, tira a graça toda, o mistério de haver corpos por dentro de coisas que os protegem, roupas.
Fotografia de Verena Grobli

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Agradeço à R a lealdade e respondo ao seu desafio:

1. Porque que é que criou um blogue e, quando o criou, tinha expectativas de que fosse popular?
Li um livro há dois anos da Fred Vargas que se chamava: “Vai e não voltes tão depressa” lá surgia um pregoeiro que tinha uma rubrica nos pregões, essa rubrica era um “obviário”. Adorei o livro, a palavra era soberba, decidi-me a pô-la em qualquer lado e foi no blogue. Criei-o pela escrita, para trocar impressões e para ser impelida a escrever.

2. Em que data exacta iniciou o blogue?
Em Novembro de 2008.

3. Nomeie 5 seguidores leais.

isto é complicado, vou nomear mais de cinco, por lealdade, e porque sim.

JPD

Distopia

Mixtu

À conversa

Ardósia azul

O corpo estremece de saudade

Catharsis

Alma gémea

Se quiserem aceitar o desafio, por favor, sejam meus convidados, estou curiosa.

PORTUGAL


"HERÓIS DO MAR
NOBRE POVO
NAÇÃO VALENTE."

PORTUGAL LEVANTA-SE CONTRA OS CANHÕES E MARCHA, A FUMAÇA DAS EXPLOSÕES ERGUE-SE REVOLTA NO AR, MAS NÃO INTERROMPE A VONTADE DE DEFENDER A PÁTRIA. A NOSSA PÁTRIA.
A PÁTRIA QUE ARRUMOU AS ESPINGARDAS E EXPORTA A SUA IMAGEM DE HISTÓRIA E MAR, PARA QUEM QUISER USUFRUIR, É O QUE TEMOS PARA VENDER, GEOGRAFIA E HUMANIDADE. A GEOGRAFIA É NOSSA POR ACASO MAS A HUMANIDADE GANHÁMO-LA. A IDENTIDADE CULTURAL É ÚNICA, POR MÉRITO. A LÍNGUA, A HISTÓRIA, A CIVILIZAÇÃO.


O FACTO DE ESTARMOS ENDIVIDADOS PODE-NOS FAZER VENDER BARATO O QUE É VALIOSO, A GRÉCIA POR EXEMPLO ESTÁ EM SALDO E SE A BANCA EXIGIR O PAGAMENTO DA DÍVIDA A CURTO PRAZO, VENDERÁ O PARTENON, COMO NÓS, SE NÃO TIVERMOS DINHEIRO PARA PAGAR , VÃO-NOS AOS JERÓNIMOS. JÁ ATACARAM A NOSSA MELHOR EMPRESA A PORTUGAL TELECOM, E A VER VAMOS SE NÃO CHEGAM AOS JERÓNIMOS. PASSARIA A SER DA GALP, POR EXEMPLO, E NÃO DO ESTADO PORTUGUÊS.

O MECANISMO CAPITALISTA EXERCE HOJE UM CONTROLE SOBRE TODA A ACTIVIDADE POLÍTICA DO ESTADO PORQUE CADA VEZ MAIS ME PARECE QUE AS POLÍTICAS SÃO COMUNS E TODAS CONDICIONADAS PELA FALTA DE PODER DO EURO, OS EUROPEUS PERDEM PARA OS AMERICANOS, CHINESES AND SO ON, A QUESTÃO JÁ NÃO É DE PAISES MAS DO PODER DE UMA MOEDA.

A CULPA É NOSSA. NÃO PRODUZIMOS O SUFICIENTE. OLHEM-ME OS CHINESES? MAS COMO PODEMOS PRODUZIR MAIS SE AS MULTINACIONAIS ANDAM A FECHAR FÁBRICAS? PRODUZIR PARA DEPOIS NÃO TER COMO ESCOAR O PRODUTO? (VEJA-SE QUANDO SE PRODUZ LEITE EM EXCESSO)


O PIOR QUE NOS PODE ACONTECER É COMPRAREM-NOS POR TUTA E MEIA, MAS NINGUÉM VAI NOTAR, JÁ COMPRARAM MUITA COISA, AOS POUCOXINHOS...NOSSO...NOSSO TEMOS O PESSOA, O MEALHEIRO, O PORQUINHO! PORQUE A MOEDA PODE NÃO VALER NADA, E A HISTÓRIA GLORIOSA, AH, JÁ ME ESQUECIA UMA HORLITA DE MAR EM CONTRACÇÃO.

É HORA DE DEFENDER O QUE É NOSSO E GARANTIR (NÃO SEI COMO) O SEU VALOR

segunda-feira, 7 de junho de 2010

IO SONO l'AMORE "eu sou o amor" é um título capaz de nos levar ao cinema ou seja onde for que o possamos encontrar, aqui ou noutro lugar qualquer, apesar de falado e visto o amor continua a ser o imaginado, mais que qualquer outro, o imaginado. e se nenhuma paisagem geográfica o confina, nenhum obstáculo o afasta é por isso mesmo por essa sua qualidade que o mantém audaz menino das tropelias dos sonhos, menino capaz de transgredir, fazer em cacos tanta muralha pacientemente construída. eu vi, sou testemunha, eu e vários milhões que se multiplicam pelo tempo e dele nos descrevem o fulgor, se não fossem elas, as imagens e elas as palavras seríamos nós capazes de o identificar? sim claro, de algum modo quem o nega, por momentos ser seu dono. o embriagado das sensações, dando-lhe a mão, o corpo, não? sim, claro, e será que sem a literatura e o cinema, que são as artes do amor, poderíamos continuar a sonhá-lo? é tão óbvio que os sonhos não se podem viver, ou será o contrário é na vida que o sabor do amor nos confunde, sonho e vida se bebem mutua, indistintamente. mutua indistintamente. é vero. a ver.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Louise Bourgeois. Paris, 1911/Nova Iorque 2010

por entre a obra vasta ,colossal, destaca-se a sua figurinha de costureira, com as mãos torcidas de artrose. quando morre uma artista há uma relutância e uma surpresa. a morte não lhes toca e no entanto avassala. queríamo-los para sempre, para testemunhar o milagre.

domingo, 30 de maio de 2010

formas aladas

Marc Ferrez

"e tu ,deixa-te estar sentado na cercadura do infinito e limita-te a olhar o meu corpo aberto sobre o mar revolto"
esta frase persegue-me, na quarta feira enquanto andava à procura de um livro no quarto às escuras, assaltou-me , de repente, e depois repete-se com pequenas variações, já não sei se começa com tu, ou se o tu entra depois, nos sonhos vejo nitidamente a cercadura do infinito e enrolam-se as imagens com as frases. já tenho dúvidas sobre a sua origem, para a tornar real disse-a em voz alta a alguém que foi peremptória: Ah, isso é do Ricardo Reis! do Ricardo Reis? ao princípio tinha a certeza de ter sido eu a produzi-la, até me lembrava das circunstâncias, mas agora vacilo, a memória e a imaginação jogam às escondidas, jogam, mas não, na verdade não me lembro bem do poeta proposto, mas lembro-me muito bem da situação onde nasceu a frase, o melhor de envelhecer são as memórias. a memória tem uma quantidade apreciável de pequenas formas aladas que mesmo sem serem convocadas descem do seu adormecimento para nos socorrer.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

ir

Frederic Church



passeamos à beira mar, ou na falésia ,com cuidado, os dias passam e entre eles há sempre o mar, o mar transfigurado, o mar feroz, o mar da minha infância. procuro os lugares ermos de onde seja possível partir, há na partida uma voz, um encantamento, um vôo de ave, um rosto emberbe. Quando se vai, mesmo não indo, é tudo de novo possível, a indefinível liberdade sopesada, na testa, roçando os ombros, essa vocação aérea para ser qualquer coisa, qualquer lugar, ou poder, contra a gravidade, ou esquecendo-a deliberadamente, o molde, a quadratura do quadrado.esse remoínho do imaginado, por momentos só ele real que se alarga ou comprime até ser só ansia, o mar quando nunca é do mesmo modo, vai e vem, pulsão a correr para sítio algum,permite reconhecer que esta graça, não sendo um estado de espírito, é da natureza íntima de algumas pessoas.

domingo, 23 de maio de 2010

ai como eu gostava de ir à Argentina

"el secreto de sus ojos" sabe a whisky velho, saboreei-o como imagino que saboreamos um whisky velho, dos suaves na garganta, e lembro de uma frase que ouvi algures " a angústia faz-me estar atento" a questão do objecto da atenção pode, no entanto, ser dúbia, estar atento a quê? por ter deixado escapar a ocasião, por não ter estado atento Espósito perde o que queria, por desejo ou vontade de verdade, mas essa perda não a vê ele apenas como um acontecimento exterior mas como uma condição interior de perdedor, a angústia de Espósito engana-se no objecto ao qual devia dar atenção, ao esconjurá-la contra si, causa nos outros o vazio que sente. é demasiado psicologista? talvez, mas ajusta-se. na língua espanhola diz-se ojos. seca na garganta, um whisky por favor, vamos contar uma história de um amor que espera 25 anos, não, a história do botão numa blusa branca, um botão solto por acaso, ou por gesto louco, deixando o decote aberto ao olhar, podemos esconder tudo menos a paixão, essa, tendenciosa, acaba por nos trair. está bem assim, quando falamos de segredos temos de ter muito cuidado não vá levantar-se do nada a nossa maniazinha de tudo saber e ficar mesmo sem saber nada.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

a banhos



na tv uma reportagem sobre o calor e a praia, agora que a liga acabou (não, não são essas ligas! essas continuam), fala-se do calor.e se as pessoas vão à praia ou não, afinal isso faz toda a diferença, o estado do tempo é um assunto de conversa engraçado, serve quando temos raríssima ou nenhuma coisita de jeito para falar e isso aborrece-nos, mas é uma boa forma de observarmos as pessoas. exemplo:


os que falam do tempo como um desabafo emocionado:


-ai que calooor!


ou os que o situam geográficamente


- é na europa toda!


ou os que informam da graduação e juntam o juízito de valor:


- Tão 34º!!!! isto não é normal!!!


os que são históricos:


-lembro-me que no ano passado por esta altura...


ou práticos;


-bora beber umas bejecas...


filosóficos ou apocalípticos


- assim não sei onde vamos parar...(dentro de água possivelmente, embora não seja isso que querem dizer, falam do apocalipse da secura que é um problema grosso e de difícil digestão, adiante)


os saudositas:


quando era piqueno não havia estes calores...


ou os reivindicativos:


assim não há condições de trabalho, quando é que estes inergúmenos abrem os cordões à bolsa e instalam o piiiiii do ar condicionado?


e este post não serve para nada mesmo mas fica-se com o mar e pronto, bem, assim mesmo, talvez, sorry lá, é mesmo do calor, a propósito não falei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, é natural, depois da coisa feita, da lei aceite,e ainda bem, uf,não há mais nada para falar.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

a meu favor


há um poema do Alexandre O'Neill ,chama-se "A meu favor" e começa com a frase

a meu favor tenho o verde secreto dos teus olhos

algumas palavras de ódio algumas palavras de amor

o tapete que vai partir para o infinito


apetece-me transfigurá-lo, amassá-lo no verde azul do coração e dizer

a meu favor o azul límpido dos olhos
algumas frases em italiano
as preces que não ouviram
os teus dentes brandos
e se me permites
antes de acabar
o desejo bruto de te agarrar
A meu favor a harpa
o jornal amarrotado na mesa
a fuga melancólica para a festa
o riso
e se me permitem
antes de acabar
onde lêem tu devem ler lugar

sábado, 15 de maio de 2010

Razões de estado e outras

Depois de uma semana atribulada de festas futebolísticas e beatíficas, veio o déficit em forma de bicho papão, o capital , as oscilações da bolsa, o preço da moeda europeia, a competitividade do mercado. Pelas ruas as palavras do papa ainda ecoavam, o pai que perdoa e acredita, o pai que ensina a esperar. Haverá uma razão de estado para esta sequência? O Papa, o pai e o Homem de Estado, (santíssima trindade) o mesmo pai que alerta para a dissolução dos costumes (como se estes não sofressem constantes mudanças) e com a sagrada emenda do casamento indissolúvel entre um homem e uma mulher, esquecendo um milhão de pessoas em Portugal que declaram amar pessoas do mesmo sexo, essas, contra a evidência do número (argumento de credibilidade para muitos) são julgadas como responsáveis por essa "dissolução de costumes" e estão indubitavelmente enganadas. Alguém aqui está enganado. que argumentos reais tem o papa a dar? que exemplos?que factos históricos para demonstrar a sua verdade? A constante utilização de conotações morais para palavras como "dissolução" quando estas são descritivas de factos, não revelará uma forma ideológica e manipuladora de as utilizar? Será que de tudo isto se salva uma lógica? é muito mais fácil e reconfortante acreditar no milagre de Fátima, ou acreditar em alguém culto e erudito que acredita no milagre de Fátima, se tantos cultos e eruditos acreditam deve ser verdade ( mesmo que seja uma grande mentira) do que compreender a bolsa, as variações da taxa de juro, a vizinha que vive com uma mulher e quer casar com ela. a crise dos mercados, tudo isto é moderno demais, não entra bem, é estranho, é uma moda, passa.

Seja como for, os não crentes no poder da igreja não esperam outro discurso senão o tradicionalista, a tradição, claro, é tão cómodo e tão falso apelar a um passado mítico e romãntico onde se exorta o bem e se esquece o sujo, o violento , o degradante. Todas as formas de totalitarismo causam arrepios, é certo que este totalitarismo hoje só se move no discurso e na evangelização, mas também é certo que tempos houve em que se moveu com o poder das armas e não foi agradável. Precisaremos nós que alguém vestido de branco nos venha dizer como as coisas devem ser? Precisamos de facto? parece-me que ainda não saímos da menoridade moral, precisamos do Pai, do tutor e enquanto precisarmos dele, ele virá, mas não nos enganemos, nada é de graça, esta protecção tem o seu preço, em tempo de dúvidas acreditar numa verdade sem demonstração, liberta-nos individualmente, é verdade, mas não nos faz crescer enquanto humanidade.


A verdadeira realidade é a de muita gente que sofre e vê os seus direitos esquecidos pelo discurso dominante e o seu sofrimento menorizado pela moral dominante, de vítimas passam imediatamente a carrascos, a elementos a dissuadir e daí que a manifestação contra a Homofobia, em Coimbra dia 17 de maio, às 16.30. seja oportuna e necessária, o discurso contra poder é o único capaz de manter o equilíbrio e a democracia, sinto-o agora,mais que nunca, como uma emergência!

domingo, 9 de maio de 2010





este blogue hoje é todinho vermelho!

sábado, 8 de maio de 2010

domingas

Domingas no final da aula , quando se atrasava, noite alta, não sabia como voltar para casa. dava-lhe então boleia.logo na primeira vez, o cheiro no carro, e os campos a passarem, inquietavam-me, perguntava: ainda é muito longe?, ela dizia não, não, enfiávamos então por um declive no meio do campo raso, e lá em baixo uns prédios, a estrada andava como em espiral, no último reduto, ao fundo,numa praceta de asfalto degradado, deixava a Domingas e os sacos que trazia agarrados, e não sabia como sair daquele fim de mundo. como volto para trás? ela explicava mas só ao fim de algum tempo de levar e trazer, pude situar-me e voltar para casa sem enganos. Domingas queria ser fisioterapeuta, mas no Centro de Emprego diziam sempre que já não havia curso, que tinha passado o prazo, nem emprego,e via muitos que se inscreviam e arranjavam logo boas ofertas, continuava por isso a cuidar de crianças durante o dia e a estudar à noite, queria muito aprender, mas não conseguia aprender, a letra da Domingas, as frases da Domingas. quando voltares para Angola a vida vai correr melhor! dizia-lhe, quando se punha a chorar porque não conseguia aprender. As minhas irmãs todas aprenderam, o meu pai diz que sou mesmo burra!. Não sei quantos anos lá andou enganada fazendo de conta que aprendia, num ensino de módulos muito exigente, agora possivelmente já desistiu e não sabe que um novo ensino substituiu o antigo, aí pode tirar o 12ºAno rapidamente. chama-se EFA. Domingas se me estás a ouvir, volta!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

a geração de 60

Steele Perkins
somos todos de 60, este é o ano de todos os perigos, ontem encontrei mais uma na noite com a voz entremelada de algum sono, álcool ou só canseira, o corpo aguenta-se lindamente mas é preciso, às vezes, cerrar os dentes. a vontade de dormir é sempre proporcional à de não dormir, o estribilho das músicas do Léo Ferré, das insónias provocadas a comprimidos ou curiosidade levanta-nos a pestana e põe-nos em bicos de pés, esta sagrada decadência fascina-nos, é inegável. as olheiras, o cigarro, a mente disponível para longas conversas ou apenas para observar, o entrar e sair das gentes, quase todos escandalosamente novos. claro, começámos com o habitual "o que tens feito" como se ainda ontem nos tivéssemos visto e, no entanto, passaram vinte e tal anos. onde está fulano, divórcios, desempregos, lembro-me da tua casa na Costa da Caparica, era tarde, tinhas uns curiosos abat-jours, tão curiosos quanto era impensável nesses idos 80, ter abat-jours na sala. do resto não me lembro. esta geração teve filhos, relações, desilusões, mas o mesmo espírito de procura, procurávamos dar forma a um mundo livre, árdua tarefa, agora essa forma está traçada, não há ilusões, fizemos o melhor que soubemos, somos definitivamente uma geração de demanda, de experiência. estávamos à experiência, ainda estamos.

domingo, 2 de maio de 2010



MAS CA GRANDE DESILUSÃO!!


É MESMO SOFRER ATÉ AO ÚLTIMO MINUTO!

sábado, 1 de maio de 2010

hoje a inspiração foge. não sem antes tamborilar com os dedos na mesa, não sem antes um rubor, um sacudir de cabeça nos alerte da sua surpresa. A consciência sente o incómodo à dor de fugir sem alguém para apanhar, minha inspiração, digo ainda,baixinho,mas, sem pressas, ela roça-se na parede e desaparece. deito-me ao canto da casa do lugar onde veja as ondas e o caniçal, desfio um rosário branco,um canto lento, uma ladaínha: a trepadeira ou o tica-tac do relógio, os foguetes do 1º de Maio, ao longe, a bigorna e o metal, a voz de um compromisso com quê? acho que não me lembro. Se na torrente forte tiveres uma força a submergir-te outra a amparar-te. Hesitas ou sobrevives. Há coisas que correm à nossa frente outras que flutuam em redor.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

o confronto entre Arte e Natureza conduz-nos inevitavelmente à beleza mas também à monstruosidade, ao inusitado, ao sublime. a Arte complementa a natureza humanizando-a, dominando-a sob os canônes da técnica e da expressão, na Arte tudo é domínio e se não é, falha. adquire por vezes a perfeição ao parecer elevar-se e ultrapassar os limites do possível, mas é só um leve tumulto, um êxtase da alma, compreendemos num assomo que é ainda do humano que se trata e isso exalta-nos, mas na natureza há uma cegueira que nos é estranha, que não compreendemos, que nos ultrapassa. Daí que os argumentos tolos da natureza isto e aquilo como se a natureza fosse boa , sublime , grandiosa e exemplo a seguir, baralham-me. Essa é a natureza que queremos ver, não é a natureza. Os gregos são mais sábios que nós os modernos, a eles interessa-lhes a natureza humana e não a confundem de modo nenhum com a natureza porque são diferentes. Os modernos é que partem da falha, da queda do homem que afastado da natureza se refugia na sociedade, falso.O homem não é um ser natural. Como assim? perguntarão, então não se alimenta e etc. mas pergunto: que animal criaria a Arte? Conciliá-lo com a natureza é o mesmo (sempre foi) que conciliar a natureza a ele. Falso novamente. O melhor é entenderem-se como diferentes e com diferentes finalidades.

sábado, 24 de abril de 2010

atmosferas

entrava-se no restaurante por uma escada transparente com luzinhas verdes a apagar e a acender, sob a escada os breves clarões reflectiam sobre uma série de objectos em vidro multiplicando tonalidades como se subíssemos ao céu, assim, directamente mal entrávamos a porta da rua e seguíamos a seta que dizia restaurante indiano. Lá dentro penumbra, apenas iluminada por velas que o empregado, gentil e silencioso, acendia mal entrava alguém para ocupar uma mesa. Nas paredes predominava o verde folha e o vermelho vinho, e as pinturas ocupavam o espaço todo em redor, senhoras deitadas em luxuosos trajes, o Taj Mahal ao fundo, rostos de homens belos com turbantes, cavalos, cidades, palmeiras, se a ideia era criar uma atmosfera ou se era apenas deixar os artistas exprimirem-se livremente pelas paredes antigas,foi amplamente conseguida e quando olhámos a noite cá fora pelas largas janelas entreabertas, houve dúvidas se estaríamos em Lisboa, na calçada da ajuda, era uma dúvida meiga e compensadora, depois de um dia desgastante. do Tandoori diria razoável, mas a comida não seria o mais importante. quando terminámos, veio a fome do cigarro e o leve incómodo de não poder fumar ali, de ter que ir à rua, de quebrar aquela coisa verde e vermelha que se instalava , a cantilena, a dormência dos olhos à penumbra ou ao vinho, não sei bem, olhámos em redor, o casal da mesa ao lado trouxe-nos o ensejo à fala; será que podemos fumar aqui? Os outros dois casais, saídos da sua gruta, juntaram-se-nos no cigarro e comungámos todos, por breves momentos, da mesma festa.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Joanna Concejo




Joanna Concejo (ilustração)
a palavra justa para descrever sensibilidade, será sensibilidade mas se não chegar então o melhor é colocar por perto uma figurinha, uma pequena poça de água, uma árvore muitíssimo despida ou, talvez , um suspiro, (como poderá ilustrar o suspiro?) ou um casaco velho com bolsos cozidos ao forro, uma meia com um buraco no dedo grosso do pé, uma borboleta esvoaçante ao redor do pescoço, os dedos finos abandonados sobre o parapeito da varanda. A sensibilidade usa-se ou deslumbra-se? descobre-se ou esconde-se na página seguinte? Uma delícia que vivamente se recomenda.

sábado, 17 de abril de 2010

Beauvoir e Lawrence



Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, a propósito de D.H. Lawrence:




"macho ou fêmea, nunca deve procurar nas relações eróticas o triunfo do orgulho nem a exaltação do eu; servir-se do sexo como instrumento da sua vontade é um erro irreparável; é preciso destruir as barreiras do ego, ultrapassar os próprios limites da consciência, renunciar a toda a soberania pessoal.(...)o sexo não é ferimento ; cada um dos indivíduos é um ser complexo, perfeitamente polarizado; (...)o acto sexual é, sem anexação sem rendição de nenhum dos parceiros, a realização maravilhosa de um pelo outro."




a velhinha Simone com o seu feminismo militante, um livro que o ano passado fez 60 anos de publicação e é hoje considerado demasiado radical, volta a ser acutilante, numa época cheia de mariquices ego/relativistas de "eu acho" e "eu não acho" e "cada um acha", etc. A propósito dos casos frequentes nos tablóides de que há gente viciada em sexo. A questão de reduzir o sexo a um acto de consumação da conquista torna-o vazio. Sempre existiram esses comportamentos, basta lembrar-nos do D.Juan, mas enquanto no passado era crime moral e civil, hoje é de louvar, os viciados em sexo são secretamente invejados, porque há muita frustração na sexualidade e a frustração é terrível para deturpar o juízo. A repetição exaustiva do mesmo comportamento resulta do vazio que se instala no depois, como se o acto se esgotasse no momento e não trouxesse qualquer fulguração de mudança. Não se sai do eu, da imanência, depois de consumado, volta tudo a ser o que sempre foi, renovada a necessidade de conquista. A conquista dá a ilusão de poder satisfazer essa carência, mas é uma mera ilusão. Quando se faz do corpo um instrumento que só com o outro pode transcender a condição mais ou menos carente de que todos padecemos, libertamo-nos dessa ferida. Faz todo o sentido.