segunda-feira, 5 de julho de 2010

tudo o que é sólido: o mármore, o granito, as linhas verticais. tudo o que é fluído: as disposições, os sentimentos, as convicções, o tempo desgasta e anima. tem assim, o tempo, duas tarefas para diminuir as diferenças: tornar o sólido, fluido e o fluido, irremediável. ao almoço, domingo, no centro comercial, um ensurdecedor ruído de fundo, dois velhotes comem sem dizer nada. ele, cabelo ralo, colado com brilhantina ou suor, vermelho, ela míope com os seus braços largos, flácidos, sobre a mesa, leva o garfo à boca. ele acaba um arroz de marisco aguado, levanta-se e vai embora. ela fica a olhar em frente, a maleta a tiracolo "se ficarmos em casa estamos sozinhos, assim vemos gente" diz, ansiosa por conversa. "ele faz sempre isto" "levanta-se e vai para casa, daqui a um bocado volta para me vir buscar" "para que casei eu? estou tão sozinha como quando era solteira!" Ao fim da tarde, no meio da avenida, dois jovens abraçam-se e beijam-se furiosamente. entre eles há apenas os anos, só o tempo, nada de sólido.
fotografia de August Sander

sexta-feira, 2 de julho de 2010


Quero revoltar-me contra o capitalismo desbragado e sem limites!


Dizem.nos, estas mentes de gravata que povoam os telejornais, que tudo se vende e tudo se compra, tudo tem um valor de mercado, nada está acima do capital, pois anda tudo amalucado com o dinheiro, desculpem-me a afasia, em terra de galos de capoeira convém chamar o dono, como dizia Kant, tudo tem um preço menos a dignidade, a dignidade não tem preço no mercado de acções porque o seu valor é intrínseco não pode ser substituído por outro. neste caso da conversa das empresas, já não é só portuguesa a PT mas sabe-nos bem crer que sim, fomos nós que a ajudámos a crescer, e sabe-nos bem sentir que o governo também crê que sim, é uma questão de dignidade e aí o discurso capitalista é só oco e repetitivo.
fotografia de Christopher Anderson

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Ana Carolina no festival Delta Tejo



É no Sábado, a não perder."Pegue o vestido estampado, guarde para um carnaval" bem, adoro este tema...

domingo, 27 de junho de 2010

Rapunzel

Comecei um atelier de escrita criativa e ilustração a meias com uma colega de artes. Planeámos uma viagem pelas histórias tradicionais e na passada quinta feira foi a vez da Rapunzel, como todas estas histórias cuja origem é provavelmente oral, as versões são diferentes umas das outras mas há certos acontecimentos que se mantêm e, pela sua persistência podemos inferir que são mesmo os traços essenciais da história. Em todos as versões se mantém o modo como Rapunzel vai parar às mãos da Bruxa. Tudo começa com a esterilidade dos pais da futura Rapunzel, anseiam muito um filho, até que um dia por milagre isso acontece, mas em vez de ficarem sossegados e felizes, a futura mãe deseja desmesuradamente as alfaces, espinafres ou raponzos (consoante a versão)do quintal do lado. À beira da morte por inanição consegue comover o marido que salta o muro durante a noite e rouba os ditos legumes. Mas a mulher não fica satisfeita,a obsessão é cada vez maior e o crime do futuro pai irá continuar, até ser apanhado pela bruxa, proprietária do quintal. Incapaz de lhe dar um murro ou de negociar, aceita as suas condições e dá-lhe a filha recém-nascida em troca das alfaces roubadas.A facilidade com que cede às exigências da bruxa sem se bater, são inexplicáveis. Passemos à frente, anos mais tarde Rapunzel, encarcerada numa torre, infeliz e solitária, encontra um princípe, e parte com ele (em muitas versões fica imediatamente grávida quando o conhece...) é então proposto ao grupo que, a partir da frase :E RAPUNZEL GANHOU ASAS continue a história e oh espanto! quais as versões propostas?Pois são as seguintes: Rapunzel tinha os filhos, enlaçava-os juntamente com o marido, na sua longa trança (ficando com um peso brutal) e ia à procura dos pais para lhes perdoar. Dos pais que a tinham trocado por um punhado de alfaces ou espinafres, legumes enfim. Surpreendeu-me esta resposta, tinha outra expectativa, contava com mais ousadia por parte dos adolescentes. Uma loucurazita, não?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

hoje, tenho uma imagem, mas não tenho palavras.

domingo, 20 de junho de 2010

SARAMAGO

Morreu José Saramago, morreu o homem mas a sua obra agora talvez seja apreciada de outro modo. A obra de um escritor, os livros escritos e por nós lidos, ganham mais autonomia depois da morte do seu autor, apreciarei melhor a sua obra depois da sua morte, sinto já que relê-lo é o meu tributo ao escritor que admirava pela coragem e pela lucidez. A familiaridade com um autor que, de algum modo, é um amigo, como nós, capaz das maiores fragilidades, parvoíces e grandezas, aproxima a escrita de uma certa vulgaridade, retira-lhe a distanciação e a neutralidade necessárias para uma apreciação livre. Um autor engrandecido por prémios e pela divulgação impar da língua portuguesa, pressiona a leitura, distorce-a, talvez ao lê-lo queiramos ver tudo aquilo que o tornou grande,presos de um certo ressentimento face a outros escritores amados que não obtiveram nenhum desses reconhecimentos. Os criadores laureados são, de algum modo, homens do sistema e, como tal, afastados do mito do escritor maldito ou incompreendido, esse pormenor/ garantia da verdadeira obra de arte estar sempre além do seu tempo, a morte do autor reconcilia-nos com a sua obra, afasta o ressentimento associado ao homem. Voltar a ler Saramago sem essa pressão é libertador e obrigatório.
Reconheço o seu valor de homem público, a sua luta, a responsabilidade cultural que sempre abraçou com seriedade e generosidade, reconheço o seu valor enquanto homem de crenças profundas, enquanto desmistificador do ofício de escritor, um escritor é um trabalhador, não um artista: "Estas paredes foram pagas com palavras" dizia, ao falar da sua casa de Lançarote. Agradeço-lhe a obra que legou a Portugal e a sua coragem de nunca fazer o que se esperava dele, "Seguir em frente" era o seu lema. Também lhe agradeço esse exemplo de liberdade.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Resolvi mudar de visual, aquele preto estava a deprimir-me e como estou a ficar meia cegueta custava-me ler, assim é mais fácil. foi só pintar paredes, a casa é a mesma.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Alfama

Alfama aprumou-se, das casas velhas a cair, das ruas sujas a cheirar a peixe e das tascas sombrias há apenas a lembrança. pintam-se as casas para o turista, as tascas viram restaurantes com esplanada e até se aprende umas coisitas de inglês. como o turista ama o pitoresco, um dia destes, em prol da causa, recriam-se as ruas nos anos 50 com varinas de canasta à cabeça, pregões, vizinhas a discutir de janela a janela, fado ao desafio pela noite fora. Compreende-se o saudosismo, as cidades estão cada vez mais impessoais, Hi-tech, marasmo de vidro e mobliário clean, gente a passar cheia de pressa. Se houvesse um beco parado no tempo onde pudessemos ver carvoarias e homens sentados num banquinho a jogar às cartas, melhor, para apaziguar a consciência, afinal ainda há gente, pensaríamos, e tudo voltaria à normalidade. O saudosismo responde ao medo do desconhecido, não sabemos como irá ser, agora que tudo se modificou, ansiamos pelo que foi, aí sim estaríamos seguros. Os portugueses dão-se bem com este sentimento, a saudade, há quem diga que inventámos a palavra, não me lembro de saudade em francês, ou mesmo a "soledad" espanhola, não tem o mesmo significado.
"Sódade" canta a Cesária com os pés calejados, balançando no seu tom triste, "Sódade da m'nha terra S. Nicolau.". A saudade dá-nos esta mania de olhar as coisas na perda, de penetrar docemente na dissolução, sem revolta, abrindo os braços à fatalidade. Não há outro sítio como Alfama para encontrar esta saudade e não é só a presença do fado, do fado que foi, porque o fado tem esta estranha forma de comemorar a sua ausência, de celebrar antecipadamente a sua morte, são também as casas, as escadinhas, a banca dos mangericos, os becos improvisados, os pormenores de arcos e balões soltando-se esfiapados ao vento. Na decência composta desta Alfama turística, adivinhamos a dissolução das velhas almas, escorregando mansas para a sombra e a embriaguês, enquanto alguém , contra sua vontade ,as engalana para a festa.

Fotografia daqui

domingo, 13 de junho de 2010

mostrar o corpo

talvez seja "bota de elástico" (onde terá vindo o raio desta expressão idiomática? ) mas esta moda modernaça de mostrar o corpinho mais as partes íntimas a toda a toda a hora e em qualquer situação causa-me uma certa náusea, aquela de que falava o Sartre, quando sentado no café, com uma bica caneta e papel, imagino, se punha a olhar em volta e via a opacidade das vestes e das expressões. diria que se vivesse no Brasil, talvez não lhe desse para escrever sobre essa espécie de tédio antecipado que deriva da súbita emergência de uma falta de sentido, talvez que para os países quentes faça sentido esse despe despe já com umas tantas bejecas e caipiras, uma boa música uma disposição para seguir embriagado em desejos, mas aqui no país de Viriato, não sei, não cola bem, parece exibição de boneco de feira, tipo olha para mim, que despudorado sou, que me estou lixando pra roupa, é uma montra de vaidades de ginásio ou de banhas de hamburguer ,coca cola e tardes mornas entre canais Zon a ver os Losts deste e doutro mundo. temos uma rigidez de costumes, ou se quiserem, uma tradição que não se dá bem com isto de andar a mostrar o rego do rabo, ou o tronco nu, no restaurante ou nas aulas ou no centro comercial, seja onde for. serei "bota de elástico" mas gosto de decoro, de um certo pudor, o pudor é infinitamente mais erótico que a barriga ao léu. dirão que o pudor é um sentimento íntimo que nada tem a ver com a forma como vestimos e concordarei, se nos vestirmos, claro, continuarei no entanto a pensar que o corpo é a nossa intimidade, expô-lo demasiado é fazer da intimidade um "out door" com luzinhas a acender e a apagar.fica tudo no mesmo plano, há só o corpo na sua imediatez, para ser visto, sem que o olhar, possa seguir desocultando-o, entrevendo ou imaginando, quando tudo se dá ao olhar, ficamos cegos, cansados de ver.há uma certa confusão modernaça entre a exaltação do corpo e a libertação sexual, a sexualidade é da intimidade ou do privado, a exaltação do corpo é público, confundi-los molesta as duas esferas, enfraquece-as ou mesmo nadifica-as, tira a graça toda, o mistério de haver corpos por dentro de coisas que os protegem, roupas.
Fotografia de Verena Grobli

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Agradeço à R a lealdade e respondo ao seu desafio:

1. Porque que é que criou um blogue e, quando o criou, tinha expectativas de que fosse popular?
Li um livro há dois anos da Fred Vargas que se chamava: “Vai e não voltes tão depressa” lá surgia um pregoeiro que tinha uma rubrica nos pregões, essa rubrica era um “obviário”. Adorei o livro, a palavra era soberba, decidi-me a pô-la em qualquer lado e foi no blogue. Criei-o pela escrita, para trocar impressões e para ser impelida a escrever.

2. Em que data exacta iniciou o blogue?
Em Novembro de 2008.

3. Nomeie 5 seguidores leais.

isto é complicado, vou nomear mais de cinco, por lealdade, e porque sim.

JPD

Distopia

Mixtu

À conversa

Ardósia azul

O corpo estremece de saudade

Catharsis

Alma gémea

Se quiserem aceitar o desafio, por favor, sejam meus convidados, estou curiosa.

PORTUGAL


"HERÓIS DO MAR
NOBRE POVO
NAÇÃO VALENTE."

PORTUGAL LEVANTA-SE CONTRA OS CANHÕES E MARCHA, A FUMAÇA DAS EXPLOSÕES ERGUE-SE REVOLTA NO AR, MAS NÃO INTERROMPE A VONTADE DE DEFENDER A PÁTRIA. A NOSSA PÁTRIA.
A PÁTRIA QUE ARRUMOU AS ESPINGARDAS E EXPORTA A SUA IMAGEM DE HISTÓRIA E MAR, PARA QUEM QUISER USUFRUIR, É O QUE TEMOS PARA VENDER, GEOGRAFIA E HUMANIDADE. A GEOGRAFIA É NOSSA POR ACASO MAS A HUMANIDADE GANHÁMO-LA. A IDENTIDADE CULTURAL É ÚNICA, POR MÉRITO. A LÍNGUA, A HISTÓRIA, A CIVILIZAÇÃO.


O FACTO DE ESTARMOS ENDIVIDADOS PODE-NOS FAZER VENDER BARATO O QUE É VALIOSO, A GRÉCIA POR EXEMPLO ESTÁ EM SALDO E SE A BANCA EXIGIR O PAGAMENTO DA DÍVIDA A CURTO PRAZO, VENDERÁ O PARTENON, COMO NÓS, SE NÃO TIVERMOS DINHEIRO PARA PAGAR , VÃO-NOS AOS JERÓNIMOS. JÁ ATACARAM A NOSSA MELHOR EMPRESA A PORTUGAL TELECOM, E A VER VAMOS SE NÃO CHEGAM AOS JERÓNIMOS. PASSARIA A SER DA GALP, POR EXEMPLO, E NÃO DO ESTADO PORTUGUÊS.

O MECANISMO CAPITALISTA EXERCE HOJE UM CONTROLE SOBRE TODA A ACTIVIDADE POLÍTICA DO ESTADO PORQUE CADA VEZ MAIS ME PARECE QUE AS POLÍTICAS SÃO COMUNS E TODAS CONDICIONADAS PELA FALTA DE PODER DO EURO, OS EUROPEUS PERDEM PARA OS AMERICANOS, CHINESES AND SO ON, A QUESTÃO JÁ NÃO É DE PAISES MAS DO PODER DE UMA MOEDA.

A CULPA É NOSSA. NÃO PRODUZIMOS O SUFICIENTE. OLHEM-ME OS CHINESES? MAS COMO PODEMOS PRODUZIR MAIS SE AS MULTINACIONAIS ANDAM A FECHAR FÁBRICAS? PRODUZIR PARA DEPOIS NÃO TER COMO ESCOAR O PRODUTO? (VEJA-SE QUANDO SE PRODUZ LEITE EM EXCESSO)


O PIOR QUE NOS PODE ACONTECER É COMPRAREM-NOS POR TUTA E MEIA, MAS NINGUÉM VAI NOTAR, JÁ COMPRARAM MUITA COISA, AOS POUCOXINHOS...NOSSO...NOSSO TEMOS O PESSOA, O MEALHEIRO, O PORQUINHO! PORQUE A MOEDA PODE NÃO VALER NADA, E A HISTÓRIA GLORIOSA, AH, JÁ ME ESQUECIA UMA HORLITA DE MAR EM CONTRACÇÃO.

É HORA DE DEFENDER O QUE É NOSSO E GARANTIR (NÃO SEI COMO) O SEU VALOR

segunda-feira, 7 de junho de 2010

IO SONO l'AMORE "eu sou o amor" é um título capaz de nos levar ao cinema ou seja onde for que o possamos encontrar, aqui ou noutro lugar qualquer, apesar de falado e visto o amor continua a ser o imaginado, mais que qualquer outro, o imaginado. e se nenhuma paisagem geográfica o confina, nenhum obstáculo o afasta é por isso mesmo por essa sua qualidade que o mantém audaz menino das tropelias dos sonhos, menino capaz de transgredir, fazer em cacos tanta muralha pacientemente construída. eu vi, sou testemunha, eu e vários milhões que se multiplicam pelo tempo e dele nos descrevem o fulgor, se não fossem elas, as imagens e elas as palavras seríamos nós capazes de o identificar? sim claro, de algum modo quem o nega, por momentos ser seu dono. o embriagado das sensações, dando-lhe a mão, o corpo, não? sim, claro, e será que sem a literatura e o cinema, que são as artes do amor, poderíamos continuar a sonhá-lo? é tão óbvio que os sonhos não se podem viver, ou será o contrário é na vida que o sabor do amor nos confunde, sonho e vida se bebem mutua, indistintamente. mutua indistintamente. é vero. a ver.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Louise Bourgeois. Paris, 1911/Nova Iorque 2010

por entre a obra vasta ,colossal, destaca-se a sua figurinha de costureira, com as mãos torcidas de artrose. quando morre uma artista há uma relutância e uma surpresa. a morte não lhes toca e no entanto avassala. queríamo-los para sempre, para testemunhar o milagre.

domingo, 30 de maio de 2010

formas aladas

Marc Ferrez

"e tu ,deixa-te estar sentado na cercadura do infinito e limita-te a olhar o meu corpo aberto sobre o mar revolto"
esta frase persegue-me, na quarta feira enquanto andava à procura de um livro no quarto às escuras, assaltou-me , de repente, e depois repete-se com pequenas variações, já não sei se começa com tu, ou se o tu entra depois, nos sonhos vejo nitidamente a cercadura do infinito e enrolam-se as imagens com as frases. já tenho dúvidas sobre a sua origem, para a tornar real disse-a em voz alta a alguém que foi peremptória: Ah, isso é do Ricardo Reis! do Ricardo Reis? ao princípio tinha a certeza de ter sido eu a produzi-la, até me lembrava das circunstâncias, mas agora vacilo, a memória e a imaginação jogam às escondidas, jogam, mas não, na verdade não me lembro bem do poeta proposto, mas lembro-me muito bem da situação onde nasceu a frase, o melhor de envelhecer são as memórias. a memória tem uma quantidade apreciável de pequenas formas aladas que mesmo sem serem convocadas descem do seu adormecimento para nos socorrer.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

ir

Frederic Church



passeamos à beira mar, ou na falésia ,com cuidado, os dias passam e entre eles há sempre o mar, o mar transfigurado, o mar feroz, o mar da minha infância. procuro os lugares ermos de onde seja possível partir, há na partida uma voz, um encantamento, um vôo de ave, um rosto emberbe. Quando se vai, mesmo não indo, é tudo de novo possível, a indefinível liberdade sopesada, na testa, roçando os ombros, essa vocação aérea para ser qualquer coisa, qualquer lugar, ou poder, contra a gravidade, ou esquecendo-a deliberadamente, o molde, a quadratura do quadrado.esse remoínho do imaginado, por momentos só ele real que se alarga ou comprime até ser só ansia, o mar quando nunca é do mesmo modo, vai e vem, pulsão a correr para sítio algum,permite reconhecer que esta graça, não sendo um estado de espírito, é da natureza íntima de algumas pessoas.

domingo, 23 de maio de 2010

ai como eu gostava de ir à Argentina

"el secreto de sus ojos" sabe a whisky velho, saboreei-o como imagino que saboreamos um whisky velho, dos suaves na garganta, e lembro de uma frase que ouvi algures " a angústia faz-me estar atento" a questão do objecto da atenção pode, no entanto, ser dúbia, estar atento a quê? por ter deixado escapar a ocasião, por não ter estado atento Espósito perde o que queria, por desejo ou vontade de verdade, mas essa perda não a vê ele apenas como um acontecimento exterior mas como uma condição interior de perdedor, a angústia de Espósito engana-se no objecto ao qual devia dar atenção, ao esconjurá-la contra si, causa nos outros o vazio que sente. é demasiado psicologista? talvez, mas ajusta-se. na língua espanhola diz-se ojos. seca na garganta, um whisky por favor, vamos contar uma história de um amor que espera 25 anos, não, a história do botão numa blusa branca, um botão solto por acaso, ou por gesto louco, deixando o decote aberto ao olhar, podemos esconder tudo menos a paixão, essa, tendenciosa, acaba por nos trair. está bem assim, quando falamos de segredos temos de ter muito cuidado não vá levantar-se do nada a nossa maniazinha de tudo saber e ficar mesmo sem saber nada.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

a banhos



na tv uma reportagem sobre o calor e a praia, agora que a liga acabou (não, não são essas ligas! essas continuam), fala-se do calor.e se as pessoas vão à praia ou não, afinal isso faz toda a diferença, o estado do tempo é um assunto de conversa engraçado, serve quando temos raríssima ou nenhuma coisita de jeito para falar e isso aborrece-nos, mas é uma boa forma de observarmos as pessoas. exemplo:


os que falam do tempo como um desabafo emocionado:


-ai que calooor!


ou os que o situam geográficamente


- é na europa toda!


ou os que informam da graduação e juntam o juízito de valor:


- Tão 34º!!!! isto não é normal!!!


os que são históricos:


-lembro-me que no ano passado por esta altura...


ou práticos;


-bora beber umas bejecas...


filosóficos ou apocalípticos


- assim não sei onde vamos parar...(dentro de água possivelmente, embora não seja isso que querem dizer, falam do apocalipse da secura que é um problema grosso e de difícil digestão, adiante)


os saudositas:


quando era piqueno não havia estes calores...


ou os reivindicativos:


assim não há condições de trabalho, quando é que estes inergúmenos abrem os cordões à bolsa e instalam o piiiiii do ar condicionado?


e este post não serve para nada mesmo mas fica-se com o mar e pronto, bem, assim mesmo, talvez, sorry lá, é mesmo do calor, a propósito não falei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, é natural, depois da coisa feita, da lei aceite,e ainda bem, uf,não há mais nada para falar.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

a meu favor


há um poema do Alexandre O'Neill ,chama-se "A meu favor" e começa com a frase

a meu favor tenho o verde secreto dos teus olhos

algumas palavras de ódio algumas palavras de amor

o tapete que vai partir para o infinito


apetece-me transfigurá-lo, amassá-lo no verde azul do coração e dizer

a meu favor o azul límpido dos olhos
algumas frases em italiano
as preces que não ouviram
os teus dentes brandos
e se me permites
antes de acabar
o desejo bruto de te agarrar
A meu favor a harpa
o jornal amarrotado na mesa
a fuga melancólica para a festa
o riso
e se me permitem
antes de acabar
onde lêem tu devem ler lugar

sábado, 15 de maio de 2010

Razões de estado e outras

Depois de uma semana atribulada de festas futebolísticas e beatíficas, veio o déficit em forma de bicho papão, o capital , as oscilações da bolsa, o preço da moeda europeia, a competitividade do mercado. Pelas ruas as palavras do papa ainda ecoavam, o pai que perdoa e acredita, o pai que ensina a esperar. Haverá uma razão de estado para esta sequência? O Papa, o pai e o Homem de Estado, (santíssima trindade) o mesmo pai que alerta para a dissolução dos costumes (como se estes não sofressem constantes mudanças) e com a sagrada emenda do casamento indissolúvel entre um homem e uma mulher, esquecendo um milhão de pessoas em Portugal que declaram amar pessoas do mesmo sexo, essas, contra a evidência do número (argumento de credibilidade para muitos) são julgadas como responsáveis por essa "dissolução de costumes" e estão indubitavelmente enganadas. Alguém aqui está enganado. que argumentos reais tem o papa a dar? que exemplos?que factos históricos para demonstrar a sua verdade? A constante utilização de conotações morais para palavras como "dissolução" quando estas são descritivas de factos, não revelará uma forma ideológica e manipuladora de as utilizar? Será que de tudo isto se salva uma lógica? é muito mais fácil e reconfortante acreditar no milagre de Fátima, ou acreditar em alguém culto e erudito que acredita no milagre de Fátima, se tantos cultos e eruditos acreditam deve ser verdade ( mesmo que seja uma grande mentira) do que compreender a bolsa, as variações da taxa de juro, a vizinha que vive com uma mulher e quer casar com ela. a crise dos mercados, tudo isto é moderno demais, não entra bem, é estranho, é uma moda, passa.

Seja como for, os não crentes no poder da igreja não esperam outro discurso senão o tradicionalista, a tradição, claro, é tão cómodo e tão falso apelar a um passado mítico e romãntico onde se exorta o bem e se esquece o sujo, o violento , o degradante. Todas as formas de totalitarismo causam arrepios, é certo que este totalitarismo hoje só se move no discurso e na evangelização, mas também é certo que tempos houve em que se moveu com o poder das armas e não foi agradável. Precisaremos nós que alguém vestido de branco nos venha dizer como as coisas devem ser? Precisamos de facto? parece-me que ainda não saímos da menoridade moral, precisamos do Pai, do tutor e enquanto precisarmos dele, ele virá, mas não nos enganemos, nada é de graça, esta protecção tem o seu preço, em tempo de dúvidas acreditar numa verdade sem demonstração, liberta-nos individualmente, é verdade, mas não nos faz crescer enquanto humanidade.


A verdadeira realidade é a de muita gente que sofre e vê os seus direitos esquecidos pelo discurso dominante e o seu sofrimento menorizado pela moral dominante, de vítimas passam imediatamente a carrascos, a elementos a dissuadir e daí que a manifestação contra a Homofobia, em Coimbra dia 17 de maio, às 16.30. seja oportuna e necessária, o discurso contra poder é o único capaz de manter o equilíbrio e a democracia, sinto-o agora,mais que nunca, como uma emergência!

domingo, 9 de maio de 2010





este blogue hoje é todinho vermelho!