sexta-feira, 28 de junho de 2013

talvez ensinar a sonhar

 

Não alinho em extremismos, em actos violentos de consequências imprevisíveis e irremediáveis, parte do mal do mundo deve-se a extremismos. A sensação de que se está encurralado e não há saída pode empurrar-nos para actos extremistas, parece ser a única saída para quem está desesperado. Não me lembro de nada parecido me ter algum dia acontecido. Quando se fecha uma porta descubro sempre uma janela e quando se fecha a janela descubro uma escada e se a escada leva a uma parede sento-me a pensar e a imaginação tem barro suficiente para, mesmo no escuro, moldar um sol, uns pássaros, uma frase absoluta, um sorriso inesperado. Renasce aí, como do nada, um inebriamento, um deslizamento do betão e uma outra planície se abre. Acredito haver vidas difíceis que conduzam ao desespero e daí a actos extremistas, mas não acredito que seja uma relação de causa/efeito, tão pouco uma relação directa. Podemos imaginar muitas vidas fáceis (isto é, vidas onde está assegurado o que é básico para uma boa vida, amigos, dinheiro, amor) com desespero. A dificuldade da vida não conduz necessariamente ao desespero, há uma certa disposição enraizada porventura numa certa forma de olhar para o que nos acontece, forma essa que negligencia um aspecto importante, o sonho. Sonhar não é um verbo para fracos e escapistas, ou uma categoria parva de auto-convencimento por quimeras, mas uma forma lúcida de compreender os saltos e a diversidade no modo de ver. Daí que não sei se podemos ensinar a sonhar, mas é sem dúvida importante tentar. A memória e a imaginação são instrumentos mas o resto é arte.

domingo, 23 de junho de 2013

Herberto

Há unanimidade crítica em relação ao Herberto Helder. Os seus livros esgotam antes de saírem para as livrarias, obras raras valiosíssimas pois o poeta exige escassez editorial, uma selecção dos eleitos, poucos iluminados terão a hipótese de ler o mestre, só mesmo os mais atentos . A imagem, não duvido que corresponda a um anseio legítimo e sentido, foi meticulosamente tecida pelos meios de comunicação social, que Herberto odeia, e que adoram o seu mistério, a sua invisibilidade física como a de um deus, que não está em parte alguma e está em todo o lado, como um acutilante espírito nas insondáveis atmosferas longínquas do génio retido pela infame banalização do artista, alheio aos prémios do vil metal, enfim...tenho nas mãos "Ofício cantante" alguma da poesia reunida, não ouço cantar as entranhas, nem o coração, estes poemas não me tocam, não sinto por nenhum deles um arrepiozinho fino e inquietante, como sinto por alguns versos do AlBerto ou do Carlos Oliveira ou do Pessoa, ou do O'Neill, do Yets, da Dickinson ou da Peri Rossi, só para enumerar alguns dos meus poetas de eleição. Não vejo como se pode considerar um grande poeta se não sentirmos por ele essa paixão. Não vejo como.Outros o sentirão, presumo, quantos farão a diferença?

sexta-feira, 21 de junho de 2013

ditirambo


Grevistas contra não grevistas. Era assim no tempo das grandes greves da era Thatcher, Margaret e a greve dos mineiros. Crato e a greve dos professores. As reformas do sector público e o discurso da dívida pública, a resposta das tranches, mais endividamento, Portugal e o Brasil, que diferença!! O público e o privado. A minha colega do secretariado de exames a carimbar resmas de papéis, o funcionário no lugar do operário, no lugar do intelectual, no lugar nem público nem privado, anestesiado, dormente, temeroso, dividido. Como se faz para não entristecer? Como se faz para enganar a tristeza? A hora é de luta. Mais nada.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Reflexões sobre a greve de professores


 
 
Ao fim de largas horas de indecisão optei por fazer greve. Estava, como sempre, dividida, e não estava sozinha, havia muitos professores como eu, divididos. Ouvi depois o ministro indiferente ao drama, sobranceiro, a convocar todos para vigiar os exames, como se os professores fossem substituíveis até pelo merceeiro e percebi o desrespeito pela classe e pelo diálogo, nesse momento houve valores antigos que se tornaram importantes, a solidariedade de classe, a indignação por sermos colocados entre a espada e a parede. Não nos restava nenhum outro modo de afirmar essa indignação perante a política cega e imediatista que agrava o desemprego e empobrece o ensino público. Ora, penso, o maior mal do nosso país é o desemprego, a falta de trabalho. Muitos há que não fizeram greve por medo de o perder, desses, muitos, têm mesmo o emprego ameaçado. O que se pretende afinal? Se alargamos o horário de trabalho de alguns professores é óbvio que outros ficarão sem trabalho, não é preciso ser muito perspicaz para retirar essa conclusão. Quantos ordenados se economizam? Quantos subsídios de desemprego? Quantas pessoas à toa? Poderia ser um assunto insignificante mas é todo o assunto, uma política destas têm consequências, além do desemprego de muitos, temos os outros, os que ficam a trabalhar em todo o tipo de tarefas para além de dar aulas, substituições de professores que faltam, assessorias, tutorias, apoios vários para suprir a falta de funcionários, trabalho administrativo para poupar no pessoal de secretaria etc etc etc. Esse é o projecto, ser professor será cada vez mais uma tarefa de funcionalismo. O professor do ensino público será um funcionário, isto é, uma espécie polivalente capaz de manter a instituição e os respectivos jovens ocupados em tarefas, atentos fiscais do seu cumprimento mais do que do ensino e na avaliação reais, quando digo real digo, uma avaliação honesta que separasse os alunos que aprendem dos que não o fazem e exigindo que os que não aprendam voltem a tentar e a perceber que têm de o fazer, pois isso não é indiferente para a sua permanência na instituição. O problema surge aqui, na tendência para se desvalorizar a actividade do ensino e do saber, de facto a sociedade liberal valoriza empreendedores, mas não sábios, esses são até uma raça de gente a evitar. Quanto ao ensino “a sério” passaria a estar a cargo de instituições privadas. Basta olhar para os resultados do ensino Público e Privado nos exames do 12ºano para perceber a tendência. Se há dez anos o Público rivalizava em resultados semelhantes, hoje a clivagem é muito maior. Porquê? Porque o investimento na preparação para os exames, que passa por um certo grau de exigência científica, está, no público, minimizado, se um professor do ensino público quiser mantê-lo terá de se recusar a levar a exame muitos alunos, ora, reprovar alunos hoje é sinónimo de mau ensino, logo de mau professor e ninguém quer estar na margem desse "sucesso" de conseguir os resultados mínimos (mesmo que esse mínimo seja muito pouco) para os seus alunos.
Pela primeira vez a sociedade está dividida, porque pela primeira vez há uma atitude que tem resultados visíveis na sociedade, parece que consideramos normal que uma paralisação do trabalho seja coisa privada de uma classe, prejudicando apenas aqueles que a fazem ao reduzir-lhes o ordenado. Mas a responsabilidade deste caos é a massa de silêncios e atropelos dos últimos anos reduzindo progressivamente a justiça e o bom senso necessários para que todos possam exercer o seu trabalho com segurança.
 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Para diante


avanço para o meio da praça

trago comigo o couro e o lenho

a sirene das entranhas

o medo talvez

 numa epígrafe desolada

mas sobre o trigo maduro

quase nada

avanço para o meio da praça

abro os braços  e entre os braços

um vertical abraço

surge ainda 

um veio de sangue quente

para desculpar da poeira

do vazio e da má sorte

o tempo seguinte.

quarta-feira, 12 de junho de 2013


imagens de homens e mulheres sacrificados e vulneráveis a esgravatar invocando o mais cru e real da gente a quem falta um bocado, uma parte amputada continua a doer vivendo por sobrevivência, por vitalidade, essa parte amputada visível, para ser escondida impõe-se. tem efeito prensa rebarbador. com isto faz-se cinema. magnifique.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Festa na Escola



Não sei por que me enervam tanto as festas de Escola. aquela camaradagem de foca amestrada, aquela vontadinha que todos têm de receber palmas e babar, aquela auto complacência da união alegre e familiar, aquele embezerramento, cocktail de sucesso e masturbação, nauseia-me ao ponto do vómito. Ao minuto cresce o ensejo de deixar este ofício de prof e dedicar-me a uma marginalidade solitária e ensimesmada, perfeita para segurar pelos cornos esta revolta antiga (tão antiga que nem teve começo) pela sociedade arrumadinha e paroquial onde as festas de escola são a cereja no topo do bolo.

Supremamente especial para eu ignorar estes impulsos vitais era a minha sobrinha. A minha sobrinha tinha-me pedido, e eu não era mulher para negar nada à minha sobrinha. Tratava-se da primeira apresentação de um trabalho realizado durante o ano lectivo. Chamava-se "O Bairro" era um filme de meia hora. Produto de pequenas e deliciosas ideias, belo, enternecedor, meticuloso. Orgulhei-me dela, muito, ainda tentei reconhecer paralelismos entre a sua veia artística e a minha, reter alguns louros do evento criativo, mas depressa abandonei a pretensão por egoísta e destemperada. Ela, a sobrinha, era boa, tinha ideias, sabia concretizá-las e andava numa escola que queria e estimava o seu talento. Apesar do enjoo geral, tinha de reconhecer...etc etc e ainda reconhecer que das minhas sobrinhas têm vindo as melhores aventuras etc etc.

A noite e os problemas técnicos cresciam lado a lado na sala onde esperávamos com o rabo dorido a chegada dos filmes. Estas festas de Escola não têm horas, um ror de problemas e ninguém para os resolver fazem parte do seu "charme juvenil".Valeu a noite ser grande e ambas nos encontrarmos perto da porta, mas só eu tinha Golden Virginia no bornal.

 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

madeixa ao vento



a maior parte das vezes somos só nós, uns quantos amigos, umas quantas canções, poeira e frio. fomos fustigados por ideais mas o verdadeiro caldo, morno caldo, assentou na mesa os cotovelos e desejou por incapacidade de luta ou porque nada do que a memória retinha de aconchegante se dizia por slogans ou sólidas frases, desejou um grande amor, uma paixão, que arrebatasse tudo. traduzia-se esse desejo numa imensa saudade de um copo de vinho na intimidade de uma conversa sussurrada. a política era o que restava do eco dela, na cama, ou no pretexto para dar uns abraços e colar uns cartazes entre noitadas. Acho que sabemos o que é o prazer, na palavra curta ainda não o sabíamos à época, acoplávamos à palavra outras, cheias de promessas, deixávamos que se mascarasse, não por querer mas por ignorância, de qualquer modo o prazer tem várias caras e vários são os seus processos de aparecer. mas assim como vemos a qualidade da bica na réstia de espuma da chávena, assim também podemos agora abarcar o que restou deste desejo. não é pouco, é outra coisa, traz a marca de uma liberdade, uma ventania, um alvoraçado ninho.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

maio



esqueço-me que estamos em Maio, e eu adoro Maio, esqueço-me do que gosto de adorar sem razão nenhuma, mas tenho muitas razões para me esquecer, nenhuma por si importante mas todas juntas obra apreciável.papéis e putos. putos e papéis.é certo que tenho as noites e as luas incandescentes, essas coisas sem dono  facilmente as faço minhas. é do meu feitio.as outras, algumas têm muitos donos, outras maus donos e muitas são de não terem dono, nem o quererem aceitar, pensam, mas eu penso diferente, têm pouco espaço, são muito apertadinhas nos seus objectos desejáveis e como não faço parte deles não posso tomar nada, bebo umas bejecas e leio livros, muitos livros que não são papéis e estão seguros por fios de ouro ao coração largo do desejo. às vezes passeio no mar, mas maio não me viu passar, acordei tarde talvez já o mar tinha deitado a língua de fora. mesmo assim avistei gaivotas de arribação sobre os muros de pedra da escola e abri o jornal em cima da mesa do café para o voltar a fechar invadida pelo desconforto de não poder negar que essas vidas sem dono algumas de perdidas também são minhas e os dias solitários partem sobre as casas, os tordos e o vento para voltarem de novo, a verdade é que apesar do esforço, apesar de querer, a esses não os consigo apanhar.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

olhar


os olhos por exemplo.

a pupila, a íris

a  procura de qualquer coisa, uma emoção, um segredo, uma intenção

terça-feira, 7 de maio de 2013

serra da estrela

aqui movimento das forças armadas


 
andamos de nuvens carregadas, com palavrões debaixo da língua, a lógica e a justiça, à vez, tratam de nos fugir à frente ou deixam-se ficar para trás. o inevitável não deriva nem de uma nem de outra mas de uma série de circunstâncias beras. envelhecemos aqui, no canto do mundo. eflúvios de maresia e catástrofes mansas, das que não pressentimos, e ninguém, ninguém mesmo, parece estar à altura da situação. os velhos e bolorentos discursos, as mesmas poses, o silêncio da vida de cada um armadilhada. Parece que tudo, amigos e amantes descobrem a sua face negra. falta-nos uma voz, falta-nos o ar para o pontapé ou o abraço, cerceamos desejos, damos voltas e voltas à chave. Aqui, Portugal, movimento das Forças Armadas...aqui vamos começar ou acabar.
 
foto de André Kertész

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Benfica!!

 
O Benfica é uma equipa portuguesa que, segundo muitos, é uma bandeira do país, embora -curiosamente- não jogue com artistas portugueses. O facto não deixa de me fazer confusão, está bem que bebo chá como os ingleses e o Chelsea também tem o David Luís e outros  mas o chá não é Inglês, contas a fazer sobre o que é de quem e se temos mesmo direito à posse daquilo que criamos e é nosso, seria melhor saber a quem corresponde esse nosso, aos que vivem cá? aos DESCENDENTES DE Afonso Henriques? aos falantes da língua? O QUE É SER PORTUGUÊS? mas o Benfica, será ainda um clube português? Harvard será uma universidade americana apesar de ter mais alunos "estranjeiros" que americanos? Sim claro, claro. É o governo da instituição e a sede que interessam (interessam?) para a identidade. A verdade é que a nacionalidade já não conta como identidade, a não ser para os imigrantes famintos que querem aportar à Meca Europa; os clientes de uma empresa são de todas as origens, assim como os empresários, administradores etc. The big market. A globalização só tem um critério: o gito, o money, o pilim. O dinheiro permite escolher, o melhor, o dinheiro é mais do que nunca o passaporte para o sucesso ou para a excelência e, não precisa de vistos. O mercado de compra e venda tornaram o Benfica uma empresa internacional como outros clubes, capaz de gerar riqueza, assim como Harvard, gerará riqueza e prestígio, uma empresa, um mercado. Causa-me náuseas o discurso acerca dos valores humanos e direitos e assim...segundo esta lógica esse discurso é um sapo a ser engolido por uma cobra. Seja como for, cá em casa, desde que me puseram xuxa, berraram comigo BENFICA!!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Proust

 
José Malhoa "Atelier do Artista"
 
«Deixou de apreciar o rosto de Odette segundo a melhor ou pior qualidade das suas faces e a doçura de pura cor de carne que supunha dever encontrar-lhe ao tocá-las com os lábios se alguma vez ousasse beijá-la, mas como uma meada de linhas subtis e belas que os seus olhares dobaram, continuando a curva do seu enrolamento, juntando a cadência da nuca à efusão dos cabelos e à flexão das pálpebras, como num retrato dela em que o seu tipo se tornava inteligível e claro.
Contemplava-a; um fragmento do fresco aparecia no seu rosto e no seu corpo, e desde então procurou sempre encontrá-lo lá quer estivesse junto de Odette, quer estivesse apenas a pensar nela; e embora não tivesse apego à obra-prima florentina a não ser, sem dúvida, porque a encontrava nela, contudo aquela semelhança conferia-lhe, também a ela, uma certa beleza, tornava-a mais preciosa. Swann censurou-se gostos de arte mais refinados. Esquecia-se de que Odette já não era por isso uma mulher conforme ao seu desejo, já que precisamente o seu desejo sempre fora orientado num sentido oposto aos seus gostos estéticos. A expressão «obra florentina» prestou um grande serviço a Swann. Permitiu-lhe, como um título, fazer penetrar a imagem de Odette num mundo de sonhos a que ela não tivera acesso até então e onde se impregnou de nobreza. E ao passo que a visão apenas carnal que tivera daquela mulher, renovando constantemente as suas dúvidas sobre a qualidade do seu rosto, do seu corpo, de toda a sua beleza, enfraquecia o seu amor, essas dúvidas foram destruídas, e esse amor garantido, quando, em vez disso, teve como base os dados de uma estética indiscutível; sem contar que o beijo e a posse, que pareciam naturais e medíocres se lhe fossem concedidos por uma carne arruinada, ao virem coroar a adoração de uma peça de museu pareceram-lhe ser sobrenaturais e deliciosos.
 
Marcel Proust "Do lado de Swann"
 
A imaginação apesar de maltratada ressurge como o instrumento primário da vida, ou melhor da possibilidade de vivê-la, pois sendo alguma coisa a vida, como tantas outras  coisas modela-se com as mãos mas escapa para esse pensamento admirado e inconformado propenso a ver mais ou menos, e de outro modo, para além das evidências. Há uma outra porta, por onde havemos de sair quando já abrimos todas as do quarto e vimos as vistas do saguão, a coragem de levar isso a sério, ou a brincar mas levá-lo por diante, abrir portas que ninguém vê, pequenas, grandes, para outros saguões que ninguém esperaria. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

pai

 


Ontem foi dia 25 de Abril. Comprei cravos vermelhos para pôr na campa do meu pai. As nuvens estavam altas no céu e mais calor do que o habitual em outros iguais dias de diferentes anos e, apesar de estarmos no lugar onde os mortos repousam,  era alegre a vista das flores e das campas brancas na tarde solarenga. Não precisei de muito esforço para me lembrar dele, sentado frente ao mar na praia D. Ana, do o seu ar absorto. Nove anos depois de nunca mais o ter visto, vejo-o com mais nitidez, era um homem nostálgico o meu pai, nostálgico do mar. Corto o pé aos cravos, encho a jarra de água, fico ali  um tempo, quanto tempo? Não o suficiente, pouco, muito pouco, lembro-me dos seus pés, parecidos com os meus, vem-me também insidioso o pensamento de uma queixa, queixo-me em silêncio de não me ter amado mais expressivamente e vou-me embora apressada e confundida com este encontro. Fica com os deuses pai. Parabéns.

domingo, 21 de abril de 2013

cinema


Os cinemas estão em perigo de morte, não é o cinema que pode desaparecer mas as salas, a tendência moderna  para gravar os filmes e ver no computador enquanto se dá um salto ao "Face" para responder numa conversa em "Chat" e se joga paciências, não pára de amputar espectadores.  2 horas ou uma noite inteira numa sala de cinema é perda de tempo,pensam,  no computador podes ter sala de cinema, café, cama, biblioteca, rua, sem sair da cadeira. tudo ao mesmo tempo, daí que ganhes tempo e o tempo para ganhar é precioso, no Mc Donalds também, impera a rapidez, embora saiba tudo ao mesmo. Quinze pessoas assistem ao último Almodovar estreado um dia antes. Temo pelas salas, pelos nomes, (A castello lopes desapareceu) . Está tudo a mudar demasiado depressa. O cinema não é produto televisivo para comer entre garfadas de esparguete, o cinema é uma arte, e como tal há que a deixar expressar-se, dar-lhe protagonismo, usufruir em écran grande e no escuro do silêncio, em cumplicidade muda com outros, sentados ao nosso lado. Recuso o passadismo do "dantes é que era", o computador é essencial,  mas tirar as pessoas da frente dos computadores será uma tarefa social da máxima importância, como uma desintoxicação de heroína. É mais simples, cómodo e diversificado na caixinha minúscula,  mas agora vai passar o Lawrence da Arábia nas salas de cinema e juro-vos que a experiência inicial é incomportável com barulhos de autoclismo, panelas na cozinha e anúncios de dietas milagreiras. é mergulhar no escuro e daí ver emergir a imagem, o azul do technicolor e a largueza do scope. não há como, de outro modo.

A imagem é um fotograma do "Lawrence da Arábia" de David Lean

sábado, 13 de abril de 2013

onde vivo

 
Hoje de manhã o nevoeiro caía sobre as jovens árvores do parque que se vê da janela do quarto, jovens árvores que há dois anos estariam no viveiro da câmara de Cascais e hoje começam a lançar alguma sombra sobre os bancos do jardim. Há dois anos atrás era mato,este espaço, ervas ao acaso, campo bravio a subir a encosta de onde se vê o farol do Bugio, hoje é um espaço organizado de árvores, relva, arbustos flores e circuitos de manutenção. Há ainda muito bairro atapetado de betão  e grafite  estridente, muito bairro branco, como gosto de chamar, aos prédios muito juntos com pintura já borrada da humidade e onde só se avistam ruas estreitas pejadas de carros, pessoas apressadas ou grupos de jovens de ar desafiador entre bonés e calças de ganga descaídas. Há muitas zonas, no entanto, em que o cuidado imperou,  transformaram-se em zonas humanizadas, bairros inteiros servidos por pequenos espaços como este onde se pode ver nitidamente a chegada das estações pela passarada que aqui aportou esforçando-se  por nos afastar da cama com a sua afinada vozearia. Ai Primavera, adoro-te, adoro-te sem restrições!!!

Foto: Câmara de Cascais

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Páscoa

 
Esta Páscoa voltei de novo a sentir o fascínio do Cristianismo. Na figura do Cristo, na figura do novo Papa, posso projectar uma pureza de sentimento ou bondade que admito não existir de forma contínua e personificada mas que existe certamente como estado desejável o que, só por si,  constitui um bálsamo para o relativismo pragmático do mundo em que vivemos. É-me difícil acreditar sem dúvidas. Reconheço sempre em cada um dos episódios que possamos isolar duas visões opostas. Não sei se haverá uma verdade religiosa fora da vontade de a aceitar enquanto tal, isto é, independente da fé. Penso que não, mas o coração aproxima-me deste Cristo enfraquecido e misericordioso, desta visão universalista do ser humano como igual no sofrimento e na alegria, apaziguada na esperança. Repudio contudo, no Cristianismo o fanatismo evangelizador que mumifica a verdade numa revelação dada a alguns, permitindo-lhes, por isso, julgarem os outros e criando deste modo uma divisão profunda  responsável por toda uma série de violências e incompreensões;  exactamente o contrário do universalismo essencial da religião primitiva como ligação de todos num mesmo pacto onde ninguém pode ser excluído. Neste sentido, o gesto do Papa ao lavar os pés das gentes de outros credos religiosos assegura-nos que estes princípios não foram esquecidos.

terça-feira, 26 de março de 2013


Um dia sem saber

I


Um dia sem saber ela encostou um pé à parede da casa e sentiu a espessura da cal.

Cuidado!

Mas não se mexeu também. Paralisada.

E a espessura da cal era tão grossa.

E tão grossa e espessa a noite

Que lhe fugiu a voz na garganta

E por socorro ou falta dele estremeceu.

Quedou-se então no silêncio agudo

E não abriu mais a boca senão para bocejar ou comer

Durante todo o silêncio

Cada segundo

Ela o sentiu como silêncio

Como negação

Todo o silêncio é negação

Todo o silêncio é negação

Mas não foi  feliz nessa atitude

Tão pouco o poderia ser

Não morreu de velha nem de nova

Pois o tempo espesso como a cal da parede

Comeu-lhe a língua

o juízo

E o baço

o estômago ficou

Deixou-a feroz

Em poder dos elementos que de todo o lado a feriam sem que ela lhes desse qualquer luta

 Capricórnio perseverante comandou a sina da sua ama negra.



Existiu essa mulher mas ninguém soube.

Quando tudo morreu ficou ainda a cal enegrecida

Restou a aparência de rua

O sol sem signo volteou no ar

Não houve milagre algum

Nem sino

E, no entanto o tempo daquela mulher era realmente verdadeiro

Realmente o tempo.

domingo, 24 de março de 2013

Felicidade


Agora que chega a Primavera, houve muita escrita, muita frase, muito lembrete, porque agora fala-se a toda a hora, pelo computador, como eu, agora também falo, isto é, existo. Mas, este ano falou-se muito na Primavera e, logo a seguir ou antes,  da Felicidade, andam ambas em associação animada para espaventar as maleitas de corpo e pouca alma A dança  da simplicidade e dos pensamentos positivos assépticos e coisa e tal mais do mesmo, estão em franca ascensão. Falou-se pela primeira vez no dia da Felicidade. É ridículo haver um dia para a felicidade, é como haver um dia para A viagem até Calypso, ou um dia da Atlântida. Mitologias várias com o perigo de parecerem coisas assim redondas e ao alcance de todos. Mesmo aquela conversa fiada da moral utilitarista de fazer equivaler o Bem à felicidade e esta à ausência de dor e ao usufruto de variados prazeres, não serve nem como princípio do que deveria ser nem como princípio do que é. Melhor e mais perspicaz visão tem o senhor Kierkegaard ao lembrar-nos da felicidade ser proporcional à angústia, e que não se vive uma parcela de alegria sem o medo de a perder. Explico-me: A nossa vivência mais nobre é mesmo a da contradição, e não há como fugir a isso senão inventando falsas mitologias como esta, cuja única verdadeira utilidade é fazer-nos sentir miseráveis ou parvos. (mais à frente hei-de explicar melhor, num outro post que este já vai longo) .
 
Deixo-vos com o Kandinsky a brincar a brincar...