sábado, 31 de agosto de 2013

Praia da carriagem

Infelizmente a minha velha máquina traiu-me bloqueando a passagem do rolo de película e, julgando ter 24 fotografias, acabei sem uma única imagem das muitas que captei por aqui. A estrada de pó que resolvemos seguir até ao fim desembocava numa tira finíssima de areia e num lupanar infindável de xistos e ardósias. Pensava conhecer bem o Algarve  mas este recanto entre a praia da Amoreira a Sul e a praia de Vale dos Homens a Norte era uma placa de sinalização na estrada, apenas. É certo que, na generalidade, todas as praias se assemelham, mar, areia, dunas ou rochas em proporções variáveis, a maravilha da singularidade, reside um pouco naquilo que valorizamos em certos momentos, a temperatura e estado do mar, o recorte artístico da rocha, o ambiente humano, o espaço largo ou apertado do areal, os acessos ou a fauna marítima de peixes ou moluscos. Gosto de me entreter nas poças formadas pelas rochas à procura de caranguejos ou lapas, daquela sensação de despertar da vida marítima em estado virgem, esses espaços ainda existem mas os seus acessos são para alpinistas bem preparados ou então arriscamos descer mas ficamos a meio,  entre o desfrute, o desafio e o medo, o último ganha e voltamos para trás. Esta praia ainda era acessível ao meu estado físico francamente decadente,  agradeço-lhe isso, descobri novas sensações na descida e uma quantidade de pedras e pedrinhas surpreendentes. Poderia chamar-lhe a praia das pedras redondas, ovais, das pedras com formatos bizarros, das pedras antigas e intocáveis, das pedras que surripiamos à generosa natureza para não mais esquecermos que, por momentos,  habitámos aquele lugar sem nunca (aqui nunca está a mais de óbvio) o podermos conquistar.

Foto retirada daqui

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

as praias


Não sei se o meu forte amor por praias e mar  foi herança paterna, se foi intrusa proximidade desde nascença ou uma simbiose entre aspirações do meu coração,  ansiando por horizontes largos, pela possibilidade aberta de uma fuga, e a generosidade das águas reconhecendo a irmandade e o afeto que lhes dedicava, contas feitas, fui crescendo com esse testemunho constante e, tirando os cafés, foi também nas praias que  aconteceram momentos marcantes do meu percurso emocional - dos desvarios,  reconciliações, dos medos e dos triunfos. Tenho um punhado delas fechadas na mão, com cuidado, sem deixar cair um único grão de areia, chamo-lhes minhas com o orgulho da leoa pelas crias porque as criei ou recriei ao sabor de uma consciência fugidia de náufrago calcorreando terra e deixando na areia húmida pegadas e pegadas de passos em volta.

 

Guincho, Monte Clérigo, Meia Praia, Baleal, Ingrina, Praia Pequena, Santa Cruz, Samouqueira. Dedicarei algumas palavras a cada uma delas. Da primeira, a mais fotografada, quiçá a mais percorrida, não recordo o primeiro momento da descoberta mas deve ter sido naqueles dias da infância com o meu pai de ouvido colado à rádio para ouvir o relato,  desatento às minhas preces. Nos domingos de praia não trazia os apetrechos normais dos baldes e das boias mas uma bola, apenas uma bola e a vontade de jogar com o meu único cúmplice nem sempre disponível, compensava-me
quando íamos os dois pescar para as falésias escarpadas da ponta norte, ou apanhar mexilhões na neblina fria da manhã. Do Guincho guardo o azul mais marinho e encantatório, um azul que se me abria nos olhos e me fazia ver para dentro de tão intenso. O azul que tentei mil vezes reproduzir nas cores dos lápis e das tintas. O azul atlântico que me espera inalterável de todas as vezes que incauta entro no mar e sinto uma fraqueza de pernas, uma pequenez de arrojada, do mesmo ardor deste povo que só posso intuir, um dia arregaçou calças e se fez ao infinito.

 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sardenha




Os sardos chamam Sardignea a esta ilha amena e afável, a presença do mar é constante e surpreendente, há mar de vários modos e dele respiramos a atmosfera de abandono ao declive suave dos montes,  de fronteira ao território, de comunhão selvagem com o povo, nele, no Mediterrâneo, adivinhamos a história e aprendemos a irmandade na luz com os povos do sul.

terça-feira, 23 de julho de 2013

"Heroin" Theatreclub no Festival de Almada


Dublin. Lisboa. um espetáculo de teatro com tema forte, associação imediata com o ambiente de Trainspotting, filme de 96. A dependência das drogas, a experiência da toxicodependência como vulgarmente se chama e foi manchete de jornais sobretudo nos anos 80/90 mas hoje é assunto quase desaparecido das notícias. Não fora a morte de um ou outro ator americano e o problema estava diluído ou esquecido arrebanhado pelo horror vacuis da crise, espécie de emplastro ou parasita que nos comeu a língua. 
Quando vejo estes trabalhos da nova geração tenho a impressão que o teatro português está morto e assassinado, nós portugueses ainda estamos no teatro texto e mais texto, dizer para dizer, autores and so on,  muita mensagem, muita seriedade e pomposidade, a verdadeira experimentação e criação com as palavras, os corpos, os sons e os temas que corporizam o presente  parece arredada. Neste espetáculo temos um palco mal amanhado, sem pretensões, vai-se construindo  com bocados, bocado fala, bocado música, bocado movimento, atabalhoado, forte, impreciso. Poucos meios, imaginação e atores soltos, em improviso e gozo, sem pose, com vontade e raiva. O resultado é inquietante, apontamentos ocasionais cruzam-se com repetições à exaustão, como se aquilo que se quer dizer não se sabe, ou não há uma forma linear de o fazer, enreda-se, apaga-se, retoma, como uma vela a consumir a cera e em risco de apagar pelo vento, destruição, impotência,  nunca acaba, não tem princípio, não tem epílogo, é mais uma batalha extenuante de onde não se sai e da qual nada se ganha.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Gulliver e a literatura

Os alunos têm péssimas classificações nos exames nacionais de português e, todavia, eles são fáceis e pobres. veja-se a entrevista de Carlos Vaz Marques a António Osório (na prova de exame de português de hoje) sobre as emoções vividas que estão nos antípodas, segundo os dois, das pensadas do Pessoa. vividas e pensadas. estamos com 12 anos de escolaridade e insistimos num cardápio indigesto. a literatura por suposta pessoa em entrevista não é literatura mas texto jornalístico e apesar do poema de Camões ser poesia, pura e dura, (com glossário para o caso das crianças não saberem o que querem dizer as palavras mais difíceis) eu pergunto-me hoje, quando se escreve a rodos sobre tudo e mais um par de botas, porque será que os alunos não podem ser confrontados com os textos dos autores e daí se desembrulharem, pergunto porque perdeu a literatura o estatuto de coisa importante e difícil para se tornar num amontoado de lugares comuns a trazer e a repetir à exaustão? O verbo não é o princípio e não é ele ainda o fim a julgar pela quantidade de letras produzidas? porque me irrita a simplificação da literatura e irrita-me esta coisa da unificação de critérios e da panóplia de cientificidade e coeficientes de sucesso, quando é cada vez mais gritante o insucesso. A literatura não é para todos, mas  não é esse o problema, o problema é a quem ela serve e para quê. há um medo da inutilidade como se fosse tudo programado para o serviçal. serviçal de quem? para quem? Há mais felicidade e desafio no hermético do que no clarificado da sebenta mastigada por uma série de serviçais. dê-se voz ao canto, sejamos mais comedidos na produção e idolatre-se com reverência de poder, esquisito mas poder, a VERDADEIRA literatura que não serve ninguém e não serve imediatamente para nada

domingo, 14 de julho de 2013

A festa


Há bocados de minh'alma no disco gigante da feira. Parcelas de desejos brutos soltam-se do carrossel das girafas risonhas e  não há dúvida que a mulher atrás da cortina de motivos egípcios, tem mesmo visões do futuro e sabe como viajar nas galáxias do tempo,  inteira, pode emendar-te o destino cortando-te à faca outra linha na mão,  sem verter pinga de sangue, com o poder dos olhares cicatrizantes. Atrás da grua que eleva ao céu gritos e mais gritos e bracitos no ar, há uma palha revolvida, às vezes acamada cama dos feirantes bêbados, dos trôpegos, dos encardidos ébrios pesados do sono da noite muito antiga onde querem estar mesmo de dia.   Não vi mulheres barbadas nem a Moto da Morte, nem o Comboio Fantasma, nem Elefantes da Índia em jaulas apertadas, comi farturas,  lambi os dedos. Entre empurrões  pares dançantes deslizavam agarrados e suados sobre o chão poeirento, de olhos fechados para sentir  um momento daquele gosto  não deixei de continuar a sentir o gosto meu a vê-los dançar. Olhos abertos, a rapariga do palco em fato rosa cabelos louros roçava o corpo no cantor sólido de boca escancarada, os sons da guitarra e o calor das luzes afunilavam a noite, os homens pegavam com solenidade nas mãos das mulheres e conduziam-nas à pista de dança, em comando, o sexo deles e delas marcado pela vontade disfarçada de cair para dentro um do outro. Compreendo ou sinto ou vejo a festa prosseguindo, em cada minuto outro minuto desdobrando-se num pico e outro de luz,  seria também bacante, juro, se não fosse tudo o resto.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Agatha

Uma tirada engraçada de um policial que estou a ler: " A maioria das pessoas bem-sucedidas é infeliz". Quem o diz é uma das personagens mais amadas da Agatha Christie o rapaz secreto e vagabundo cujo talento para apreciar mulheres e aventuras é uma garantia da experiência necessária para julgar  pessoas. A vozinha da autora travestida em sedutor bronzeado e com princípios. A opinião não é inocente e traz agarrada a mais agradável das razões: as pessoas de sucesso estão demasiado preocupadas em provar a si próprias que são boas e  não têm tempo para ser o que são, isto é, subentende-se, serem como ele, vocacionadas para o prazer e  para a descoberta. Uma espécie de vingançazinha encapotada em lei da justa medida. A rapariga a quem a frase é dirigida padece de ofuscação, urge tirar-lhe a poeira  dos olhos, ele Anthony (assim se chama a personagem) não tem sucesso, cabe-lhe portanto, o precioso resto. Assim colhe-se facilmente a simpatia de todos em qualquer parte do mundo. Porque esta filosofia corresponde na perfeição aos arquétipos mastigados pela humana estirpe e que se resumem ao ditado popular "Não há bela sem senão".

sexta-feira, 28 de junho de 2013

talvez ensinar a sonhar

 

Não alinho em extremismos, em actos violentos de consequências imprevisíveis e irremediáveis, parte do mal do mundo deve-se a extremismos. A sensação de que se está encurralado e não há saída pode empurrar-nos para actos extremistas, parece ser a única saída para quem está desesperado. Não me lembro de nada parecido me ter algum dia acontecido. Quando se fecha uma porta descubro sempre uma janela e quando se fecha a janela descubro uma escada e se a escada leva a uma parede sento-me a pensar e a imaginação tem barro suficiente para, mesmo no escuro, moldar um sol, uns pássaros, uma frase absoluta, um sorriso inesperado. Renasce aí, como do nada, um inebriamento, um deslizamento do betão e uma outra planície se abre. Acredito haver vidas difíceis que conduzam ao desespero e daí a actos extremistas, mas não acredito que seja uma relação de causa/efeito, tão pouco uma relação directa. Podemos imaginar muitas vidas fáceis (isto é, vidas onde está assegurado o que é básico para uma boa vida, amigos, dinheiro, amor) com desespero. A dificuldade da vida não conduz necessariamente ao desespero, há uma certa disposição enraizada porventura numa certa forma de olhar para o que nos acontece, forma essa que negligencia um aspecto importante, o sonho. Sonhar não é um verbo para fracos e escapistas, ou uma categoria parva de auto-convencimento por quimeras, mas uma forma lúcida de compreender os saltos e a diversidade no modo de ver. Daí que não sei se podemos ensinar a sonhar, mas é sem dúvida importante tentar. A memória e a imaginação são instrumentos mas o resto é arte.

domingo, 23 de junho de 2013

Herberto

Há unanimidade crítica em relação ao Herberto Helder. Os seus livros esgotam antes de saírem para as livrarias, obras raras valiosíssimas pois o poeta exige escassez editorial, uma selecção dos eleitos, poucos iluminados terão a hipótese de ler o mestre, só mesmo os mais atentos . A imagem, não duvido que corresponda a um anseio legítimo e sentido, foi meticulosamente tecida pelos meios de comunicação social, que Herberto odeia, e que adoram o seu mistério, a sua invisibilidade física como a de um deus, que não está em parte alguma e está em todo o lado, como um acutilante espírito nas insondáveis atmosferas longínquas do génio retido pela infame banalização do artista, alheio aos prémios do vil metal, enfim...tenho nas mãos "Ofício cantante" alguma da poesia reunida, não ouço cantar as entranhas, nem o coração, estes poemas não me tocam, não sinto por nenhum deles um arrepiozinho fino e inquietante, como sinto por alguns versos do AlBerto ou do Carlos Oliveira ou do Pessoa, ou do O'Neill, do Yets, da Dickinson ou da Peri Rossi, só para enumerar alguns dos meus poetas de eleição. Não vejo como se pode considerar um grande poeta se não sentirmos por ele essa paixão. Não vejo como.Outros o sentirão, presumo, quantos farão a diferença?

sexta-feira, 21 de junho de 2013

ditirambo


Grevistas contra não grevistas. Era assim no tempo das grandes greves da era Thatcher, Margaret e a greve dos mineiros. Crato e a greve dos professores. As reformas do sector público e o discurso da dívida pública, a resposta das tranches, mais endividamento, Portugal e o Brasil, que diferença!! O público e o privado. A minha colega do secretariado de exames a carimbar resmas de papéis, o funcionário no lugar do operário, no lugar do intelectual, no lugar nem público nem privado, anestesiado, dormente, temeroso, dividido. Como se faz para não entristecer? Como se faz para enganar a tristeza? A hora é de luta. Mais nada.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Reflexões sobre a greve de professores


 
 
Ao fim de largas horas de indecisão optei por fazer greve. Estava, como sempre, dividida, e não estava sozinha, havia muitos professores como eu, divididos. Ouvi depois o ministro indiferente ao drama, sobranceiro, a convocar todos para vigiar os exames, como se os professores fossem substituíveis até pelo merceeiro e percebi o desrespeito pela classe e pelo diálogo, nesse momento houve valores antigos que se tornaram importantes, a solidariedade de classe, a indignação por sermos colocados entre a espada e a parede. Não nos restava nenhum outro modo de afirmar essa indignação perante a política cega e imediatista que agrava o desemprego e empobrece o ensino público. Ora, penso, o maior mal do nosso país é o desemprego, a falta de trabalho. Muitos há que não fizeram greve por medo de o perder, desses, muitos, têm mesmo o emprego ameaçado. O que se pretende afinal? Se alargamos o horário de trabalho de alguns professores é óbvio que outros ficarão sem trabalho, não é preciso ser muito perspicaz para retirar essa conclusão. Quantos ordenados se economizam? Quantos subsídios de desemprego? Quantas pessoas à toa? Poderia ser um assunto insignificante mas é todo o assunto, uma política destas têm consequências, além do desemprego de muitos, temos os outros, os que ficam a trabalhar em todo o tipo de tarefas para além de dar aulas, substituições de professores que faltam, assessorias, tutorias, apoios vários para suprir a falta de funcionários, trabalho administrativo para poupar no pessoal de secretaria etc etc etc. Esse é o projecto, ser professor será cada vez mais uma tarefa de funcionalismo. O professor do ensino público será um funcionário, isto é, uma espécie polivalente capaz de manter a instituição e os respectivos jovens ocupados em tarefas, atentos fiscais do seu cumprimento mais do que do ensino e na avaliação reais, quando digo real digo, uma avaliação honesta que separasse os alunos que aprendem dos que não o fazem e exigindo que os que não aprendam voltem a tentar e a perceber que têm de o fazer, pois isso não é indiferente para a sua permanência na instituição. O problema surge aqui, na tendência para se desvalorizar a actividade do ensino e do saber, de facto a sociedade liberal valoriza empreendedores, mas não sábios, esses são até uma raça de gente a evitar. Quanto ao ensino “a sério” passaria a estar a cargo de instituições privadas. Basta olhar para os resultados do ensino Público e Privado nos exames do 12ºano para perceber a tendência. Se há dez anos o Público rivalizava em resultados semelhantes, hoje a clivagem é muito maior. Porquê? Porque o investimento na preparação para os exames, que passa por um certo grau de exigência científica, está, no público, minimizado, se um professor do ensino público quiser mantê-lo terá de se recusar a levar a exame muitos alunos, ora, reprovar alunos hoje é sinónimo de mau ensino, logo de mau professor e ninguém quer estar na margem desse "sucesso" de conseguir os resultados mínimos (mesmo que esse mínimo seja muito pouco) para os seus alunos.
Pela primeira vez a sociedade está dividida, porque pela primeira vez há uma atitude que tem resultados visíveis na sociedade, parece que consideramos normal que uma paralisação do trabalho seja coisa privada de uma classe, prejudicando apenas aqueles que a fazem ao reduzir-lhes o ordenado. Mas a responsabilidade deste caos é a massa de silêncios e atropelos dos últimos anos reduzindo progressivamente a justiça e o bom senso necessários para que todos possam exercer o seu trabalho com segurança.
 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Para diante


avanço para o meio da praça

trago comigo o couro e o lenho

a sirene das entranhas

o medo talvez

 numa epígrafe desolada

mas sobre o trigo maduro

quase nada

avanço para o meio da praça

abro os braços  e entre os braços

um vertical abraço

surge ainda 

um veio de sangue quente

para desculpar da poeira

do vazio e da má sorte

o tempo seguinte.

quarta-feira, 12 de junho de 2013


imagens de homens e mulheres sacrificados e vulneráveis a esgravatar invocando o mais cru e real da gente a quem falta um bocado, uma parte amputada continua a doer vivendo por sobrevivência, por vitalidade, essa parte amputada visível, para ser escondida impõe-se. tem efeito prensa rebarbador. com isto faz-se cinema. magnifique.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Festa na Escola



Não sei por que me enervam tanto as festas de Escola. aquela camaradagem de foca amestrada, aquela vontadinha que todos têm de receber palmas e babar, aquela auto complacência da união alegre e familiar, aquele embezerramento, cocktail de sucesso e masturbação, nauseia-me ao ponto do vómito. Ao minuto cresce o ensejo de deixar este ofício de prof e dedicar-me a uma marginalidade solitária e ensimesmada, perfeita para segurar pelos cornos esta revolta antiga (tão antiga que nem teve começo) pela sociedade arrumadinha e paroquial onde as festas de escola são a cereja no topo do bolo.

Supremamente especial para eu ignorar estes impulsos vitais era a minha sobrinha. A minha sobrinha tinha-me pedido, e eu não era mulher para negar nada à minha sobrinha. Tratava-se da primeira apresentação de um trabalho realizado durante o ano lectivo. Chamava-se "O Bairro" era um filme de meia hora. Produto de pequenas e deliciosas ideias, belo, enternecedor, meticuloso. Orgulhei-me dela, muito, ainda tentei reconhecer paralelismos entre a sua veia artística e a minha, reter alguns louros do evento criativo, mas depressa abandonei a pretensão por egoísta e destemperada. Ela, a sobrinha, era boa, tinha ideias, sabia concretizá-las e andava numa escola que queria e estimava o seu talento. Apesar do enjoo geral, tinha de reconhecer...etc etc e ainda reconhecer que das minhas sobrinhas têm vindo as melhores aventuras etc etc.

A noite e os problemas técnicos cresciam lado a lado na sala onde esperávamos com o rabo dorido a chegada dos filmes. Estas festas de Escola não têm horas, um ror de problemas e ninguém para os resolver fazem parte do seu "charme juvenil".Valeu a noite ser grande e ambas nos encontrarmos perto da porta, mas só eu tinha Golden Virginia no bornal.

 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

madeixa ao vento



a maior parte das vezes somos só nós, uns quantos amigos, umas quantas canções, poeira e frio. fomos fustigados por ideais mas o verdadeiro caldo, morno caldo, assentou na mesa os cotovelos e desejou por incapacidade de luta ou porque nada do que a memória retinha de aconchegante se dizia por slogans ou sólidas frases, desejou um grande amor, uma paixão, que arrebatasse tudo. traduzia-se esse desejo numa imensa saudade de um copo de vinho na intimidade de uma conversa sussurrada. a política era o que restava do eco dela, na cama, ou no pretexto para dar uns abraços e colar uns cartazes entre noitadas. Acho que sabemos o que é o prazer, na palavra curta ainda não o sabíamos à época, acoplávamos à palavra outras, cheias de promessas, deixávamos que se mascarasse, não por querer mas por ignorância, de qualquer modo o prazer tem várias caras e vários são os seus processos de aparecer. mas assim como vemos a qualidade da bica na réstia de espuma da chávena, assim também podemos agora abarcar o que restou deste desejo. não é pouco, é outra coisa, traz a marca de uma liberdade, uma ventania, um alvoraçado ninho.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

maio



esqueço-me que estamos em Maio, e eu adoro Maio, esqueço-me do que gosto de adorar sem razão nenhuma, mas tenho muitas razões para me esquecer, nenhuma por si importante mas todas juntas obra apreciável.papéis e putos. putos e papéis.é certo que tenho as noites e as luas incandescentes, essas coisas sem dono  facilmente as faço minhas. é do meu feitio.as outras, algumas têm muitos donos, outras maus donos e muitas são de não terem dono, nem o quererem aceitar, pensam, mas eu penso diferente, têm pouco espaço, são muito apertadinhas nos seus objectos desejáveis e como não faço parte deles não posso tomar nada, bebo umas bejecas e leio livros, muitos livros que não são papéis e estão seguros por fios de ouro ao coração largo do desejo. às vezes passeio no mar, mas maio não me viu passar, acordei tarde talvez já o mar tinha deitado a língua de fora. mesmo assim avistei gaivotas de arribação sobre os muros de pedra da escola e abri o jornal em cima da mesa do café para o voltar a fechar invadida pelo desconforto de não poder negar que essas vidas sem dono algumas de perdidas também são minhas e os dias solitários partem sobre as casas, os tordos e o vento para voltarem de novo, a verdade é que apesar do esforço, apesar de querer, a esses não os consigo apanhar.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

olhar


os olhos por exemplo.

a pupila, a íris

a  procura de qualquer coisa, uma emoção, um segredo, uma intenção

terça-feira, 7 de maio de 2013

serra da estrela

aqui movimento das forças armadas


 
andamos de nuvens carregadas, com palavrões debaixo da língua, a lógica e a justiça, à vez, tratam de nos fugir à frente ou deixam-se ficar para trás. o inevitável não deriva nem de uma nem de outra mas de uma série de circunstâncias beras. envelhecemos aqui, no canto do mundo. eflúvios de maresia e catástrofes mansas, das que não pressentimos, e ninguém, ninguém mesmo, parece estar à altura da situação. os velhos e bolorentos discursos, as mesmas poses, o silêncio da vida de cada um armadilhada. Parece que tudo, amigos e amantes descobrem a sua face negra. falta-nos uma voz, falta-nos o ar para o pontapé ou o abraço, cerceamos desejos, damos voltas e voltas à chave. Aqui, Portugal, movimento das Forças Armadas...aqui vamos começar ou acabar.
 
foto de André Kertész

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Benfica!!

 
O Benfica é uma equipa portuguesa que, segundo muitos, é uma bandeira do país, embora -curiosamente- não jogue com artistas portugueses. O facto não deixa de me fazer confusão, está bem que bebo chá como os ingleses e o Chelsea também tem o David Luís e outros  mas o chá não é Inglês, contas a fazer sobre o que é de quem e se temos mesmo direito à posse daquilo que criamos e é nosso, seria melhor saber a quem corresponde esse nosso, aos que vivem cá? aos DESCENDENTES DE Afonso Henriques? aos falantes da língua? O QUE É SER PORTUGUÊS? mas o Benfica, será ainda um clube português? Harvard será uma universidade americana apesar de ter mais alunos "estranjeiros" que americanos? Sim claro, claro. É o governo da instituição e a sede que interessam (interessam?) para a identidade. A verdade é que a nacionalidade já não conta como identidade, a não ser para os imigrantes famintos que querem aportar à Meca Europa; os clientes de uma empresa são de todas as origens, assim como os empresários, administradores etc. The big market. A globalização só tem um critério: o gito, o money, o pilim. O dinheiro permite escolher, o melhor, o dinheiro é mais do que nunca o passaporte para o sucesso ou para a excelência e, não precisa de vistos. O mercado de compra e venda tornaram o Benfica uma empresa internacional como outros clubes, capaz de gerar riqueza, assim como Harvard, gerará riqueza e prestígio, uma empresa, um mercado. Causa-me náuseas o discurso acerca dos valores humanos e direitos e assim...segundo esta lógica esse discurso é um sapo a ser engolido por uma cobra. Seja como for, cá em casa, desde que me puseram xuxa, berraram comigo BENFICA!!