Estas eleições confirmaram a ideia "mudam-se as moscas mas a merda é a mesma". Por causa disso ou da chuva ou do calor ou do calo ou do vazio ou sei lá de quê, muitos se abstiveram da democracia que os obriga a escolher quando querem provavelmente não ter de escolher e resmungar contra a política como se ela fosse outra coisa senão o que fazemos todos os dias. A política "gaija" mal amanhada e porca que vai ao nosso bolso sem pedir licença. Vai daí viramos-lhe o rabo e palitamos os dentes. Tudo estaria bem na mediocridade se não fosse ainda os gestos largos e convincentes de políticos com cidadãos por detrás, que assumem a porca da política e têm quem neles acredite e neles vote e ainda bem, ainda bem que votamos ordeiramente e temos muitas opções para votar, ninguém nos obriga a votar em ninguém daí que a maioridade deste povo continue por alcançar, o melhor seria talvez um caldo vitamínico para os artelhos crescerem, a testa também e já agora tudo o resto. A abstenção seria, portanto, o escândalo da noite se não fosse um escândalo ainda mais sórdido. Esse veio da classe A, a classe instruída e rica do concelho de Oeiras onde nasci e onde o meu avô foi o habitante 240, inscrito com a sua cota para a construção do apeadeiro de caminho de ferro em Santo Amaro de Oeiras. De Oeiras veio o voto num tipo alarve que se alardeia de ser o espírito livre do ladrão preso Isaltino Morais autarca mítico pela fecundidade da sua corrupta atuação. E, pasme-se! tal espírita mimético, ganha as eleições com este truque ocultista de ser ventríloquo do outro que da prisão bate palmas. Isto mostra que a instrução e o dinheiro não dão nem civismo nem inteligência e muito menos qualquer vislumbre de Ética apesar de parecer que dão. Lá dizia Kant e confirma-se que a moral não depende da instrução, não sabia ele é como se podia enganar muitas vezes os mesmos porque naquele tempo os ilusionistas eram saltimbancos paupérrimos de circo, hoje são paupérrimos os habitantes dos condomínios, paupérrimos de discernimento e campeões de circo os ilusionistas da construção civil e do betão.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
Actores, actrizes
Tenho paixão de morte por bons actores, (por agora, e enquanto não for mesmo obrigada, recuso-me a dizer atores) delicio-me com a
metamorfose dos seus corpos, gestos, voz, pronúncia, mas sobretudo, com a sua
capacidade de viver e dar a viver emoções. Muitas são as formas de o
fazer bem, isto é, com credibilidade. Há
actores que são capazes de dar a ver a sua representação, permanecendo por
detrás dela a observar-se e a observar-nos; o Matt Damon é um exemplo disso,
é sempre ele por detrás das personagens, distanciado, percebe-se no gesto a composição, diz-nos como está a representar e ao fazê-lo desmonta a representação; o resultado é brutal. Há outros como o Tom Hanks ou o Michael Douglas, que
vestem várias peles e fazem-no com uma energia e uma confiança tal que não
descortinamos como seria de outro modo, ou se há lá alguém para além da personagem. "Por detrás do candelabro" poderia ser um filme menor de
TV para encher o olho voyerista, se não tivesse esses tremendos actores a
jogarem-se cena a cena, a exporem-se, a medirem o campo para se deitarem dali
abaixo, é impossível não admirar a sua arte. Noutro registo Cate Blanchett em
"Blue Jasmine" um cineasta dos diálogos: Allen, e uma actriz que
dinamita as palavras. Tirem-lhe as palavras e está tudo lá, todas as emoções, o
passado e o presente, no olhar. Quando saio do cinema acontece-me a noite
desabar nostálgica pela interrupção de realidades, pela mudança de registos. Continuo a achar o cinema uma arte de actores, e bons cineastas os
que se apercebem disso.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Leibovitz e Sontag
Hoje na FNAC entretive-me a
folhear o livro da vida da Leibovitz, fotografias de uma vida, a
vida das fotografias, imensas e absolutas as imagens de Sontag, sem as
palavras é visível, sólido tanto quanto as formas, o poder do amor
que as unia. O amor que transborda mesmo quando a modelo nos olha com a
dor imensa da doença, no abandono aos cuidados de uma enfermeira, vulnerável
mas humana, piedosamente humana, bela. Bela por amada, benditos e
eternos são os amantes! Esse amor que passeia nos lugares mais íntimos,
os quartos em Berlim, Veneza, Londres, os objectos, as conchas, os papéis, o
tacto das coisas usadas, as manchas na pele, os hotéis, os
lençóis. O fulgor de uma cama desmanchada, a curva da carne, os
pelos púbicos de um sexo quente, a história de um corpo progressivamente
castigado e devassado mas continuamente descoberto a cada instantâneo da
máquina. Um corpo vibrante, um corpo possuído e impossuído. Gesto desesperado de querer guardar, querer
manter, o que a doença vai progressivamente separando, afastando. De
repente uma fotografia de um cadáver. Um velório de
uma idosa da aldeia, possivelmente. Procuro a legenda, nada. Era uma
fotografia larga, a ocupar duas páginas de um livro grande. Qualquer
coisa naquela imobilidade mumificada era alarmante e incompreensível. O cabelo
cortado curto, branco, uma teia apertada e seca de texturas rígidas, já não um
corpo mas um tronco, uma árvore antiga que expunha as suas raízes. A compreensão
trouxe-me o choque. Era o cadáver de Sontag mas não era a mesma mulher. Uma
desconhecida, uma estranha num estranho ritual de imobilidade. A morte é mesmo
incompreensível, um salto, nem isso, não é na vida que existe.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
O Gosto do Saké
Antes de ser cinéfila sou comedida de gastos, tenho exagerado na costela judia, não sou sovina porque o prazer não tem preço mas prefiro mesmo que não tenha preço porque de graça é prazer dobrado. Contas feitas entre deve e haver pagar 6.5 euros por um filme de 52, já exibido na Cinemateca ainda para mais enganada, já que pelas contas do Público deveria nesse dia passar "A Viagem a Tóquio", torna-se interlúdio demasiado pesado para uma noite de verão a estrebuchar. Pus-me a amaldiçoar o Paulo Branco e as suas negociatas com os objectos preciosos da cultura, sobrou para o rapazelho franzino que se desculpava do Cinecartaz estar equivocado, e eu tenho culpa do Cinecartaz estar equivocado?? Um cinema de reprise em qualquer parte do mundo não tem estes preços, resmunguei e gritei. Depois sentei a ver o Ozu, havia matéria brilhante no celofane e esqueci rapidamente os euros. A noite estava amena e cinema é sempre cinema, puro e duro,não desmereceu, continuo a adorar a forma como o tipo põe a câmara, a fotografia é sublime. No carro vim a ouvir os ABBA deleitada com os Kimonos e os impecáveis fatos dos homens.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Eça, para sempre.
O Eça na Relíquia zurze selvaticamente na sebosa
parafernália da igreja e nos seus mecanismos de manipulação e
auto-convencimento, chama-lhes rançosa trupe de cruzes,
incensos, santinhos e rezas. De forma assaz mordaz acrescenta, a
propósito do culto da vida dos santinhos e das peregrinações aos locais
sagrados: "Conheço bem os sítios
onde habitou esse outro intermediário divino, cheio de enternecimento e de
sonhos, a quem chamamos Jesus Nosso Senhor - e só neles achei brutalidade,
secura, sordidez, solidão e entulho." A tendência
anticlerical produz a melhor literatura, isso, por si, chegaria para nos fazer pensar.
sábado, 31 de agosto de 2013
Praia da carriagem
Infelizmente a minha velha máquina traiu-me bloqueando a passagem do rolo de película e, julgando ter 24 fotografias, acabei sem uma única imagem das muitas que captei por aqui. A estrada de pó que resolvemos seguir até ao fim desembocava numa tira finíssima de areia e num lupanar infindável de xistos e ardósias. Pensava conhecer bem o Algarve mas este recanto entre a praia da Amoreira a Sul e a praia de Vale dos Homens a Norte era uma placa de sinalização na estrada, apenas. É certo que, na generalidade, todas as praias se assemelham, mar, areia, dunas ou rochas em proporções variáveis, a maravilha da singularidade, reside um pouco naquilo que valorizamos em certos momentos, a temperatura e estado do mar, o recorte artístico da rocha, o ambiente humano, o espaço largo ou apertado do areal, os acessos ou a fauna marítima de peixes ou moluscos. Gosto de me entreter nas poças formadas pelas rochas à procura de caranguejos ou lapas, daquela sensação de despertar da vida marítima em estado virgem, esses espaços ainda existem mas os seus acessos são para alpinistas bem preparados ou então arriscamos descer mas ficamos a meio, entre o desfrute, o desafio e o medo, o último ganha e voltamos para trás. Esta praia ainda era acessível ao meu estado físico francamente decadente, agradeço-lhe isso, descobri novas sensações na descida e uma quantidade de pedras e pedrinhas surpreendentes. Poderia chamar-lhe a praia das pedras redondas, ovais, das pedras com formatos bizarros, das pedras antigas e intocáveis, das pedras que surripiamos à generosa natureza para não mais esquecermos que, por momentos, habitámos aquele lugar sem nunca (aqui nunca está a mais de óbvio) o podermos conquistar.
Foto retirada daqui
Foto retirada daqui
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
as praias
Não sei se o meu forte amor por praias e
mar foi herança paterna, se foi intrusa proximidade desde nascença ou
uma simbiose entre aspirações do meu coração,
ansiando por horizontes largos, pela possibilidade aberta de uma fuga, e
a generosidade das águas reconhecendo a irmandade e o afeto que lhes dedicava,
contas feitas, fui crescendo com esse testemunho constante e, tirando os
cafés, foi também nas praias que aconteceram momentos marcantes do meu percurso
emocional - dos desvarios, reconciliações,
dos medos e dos triunfos. Tenho um punhado delas fechadas na mão, com
cuidado, sem deixar cair um único grão de areia, chamo-lhes minhas com o
orgulho da leoa pelas crias porque as criei ou recriei ao sabor de uma
consciência fugidia de náufrago calcorreando terra e deixando na areia húmida
pegadas e pegadas de passos em volta.
Guincho, Monte Clérigo, Meia Praia, Baleal, Ingrina,
Praia Pequena, Santa Cruz, Samouqueira. Dedicarei algumas palavras a cada uma
delas. Da primeira, a mais fotografada, quiçá a mais percorrida, não recordo o
primeiro momento da descoberta mas deve ter sido naqueles dias da infância
com o meu pai de ouvido colado à rádio para ouvir o relato, desatento às
minhas preces. Nos domingos de praia não trazia os apetrechos normais
dos baldes e das boias mas uma bola, apenas uma bola e a vontade de jogar
com o meu único cúmplice nem sempre disponível, compensava-me
quando íamos os dois pescar para as falésias escarpadas da ponta norte, ou apanhar mexilhões na neblina fria da manhã. Do Guincho guardo o azul mais marinho e encantatório, um azul que se me abria nos olhos e me fazia ver para dentro de tão intenso. O azul que tentei mil vezes reproduzir nas cores dos lápis e das tintas. O azul atlântico que me espera inalterável de todas as vezes que incauta entro no mar e sinto uma fraqueza de pernas, uma pequenez de arrojada, do mesmo ardor deste povo que só posso intuir, um dia arregaçou calças e se fez ao infinito.
Guincho, Monte Clérigo, Meia Praia, Baleal, Ingrina,
Praia Pequena, Santa Cruz, Samouqueira. Dedicarei algumas palavras a cada uma
delas. Da primeira, a mais fotografada, quiçá a mais percorrida, não recordo o
primeiro momento da descoberta mas deve ter sido naqueles dias da infância
com o meu pai de ouvido colado à rádio para ouvir o relato, desatento às
minhas preces. Nos domingos de praia não trazia os apetrechos normais
dos baldes e das boias mas uma bola, apenas uma bola e a vontade de jogar
com o meu único cúmplice nem sempre disponível, compensava-me quando íamos os dois pescar para as falésias escarpadas da ponta norte, ou apanhar mexilhões na neblina fria da manhã. Do Guincho guardo o azul mais marinho e encantatório, um azul que se me abria nos olhos e me fazia ver para dentro de tão intenso. O azul que tentei mil vezes reproduzir nas cores dos lápis e das tintas. O azul atlântico que me espera inalterável de todas as vezes que incauta entro no mar e sinto uma fraqueza de pernas, uma pequenez de arrojada, do mesmo ardor deste povo que só posso intuir, um dia arregaçou calças e se fez ao infinito.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Sardenha
Os sardos chamam Sardignea a esta ilha amena e afável, a presença do mar é constante e surpreendente, há mar de vários modos e dele respiramos a atmosfera de abandono ao declive suave dos montes, de fronteira ao território, de comunhão selvagem com o povo, nele, no Mediterrâneo, adivinhamos a história e aprendemos a irmandade na luz com os povos do sul.
terça-feira, 23 de julho de 2013
"Heroin" Theatreclub no Festival de Almada
Dublin. Lisboa. um espetáculo de teatro
com tema forte, associação imediata com o ambiente de Trainspotting, filme de
96. A dependência das drogas, a experiência da toxicodependência como
vulgarmente se chama e foi manchete de jornais sobretudo nos anos 80/90 mas hoje é assunto quase desaparecido das notícias. Não fora a morte de
um ou outro ator americano e o problema estava diluído ou esquecido
arrebanhado pelo horror vacuis
da crise, espécie de emplastro ou parasita que nos comeu a
língua.
Quando vejo estes trabalhos da nova geração tenho a impressão que
o teatro português está morto e assassinado, nós portugueses ainda estamos no teatro texto e
mais texto, dizer para dizer, autores and so on, muita mensagem, muita seriedade e pomposidade, a verdadeira
experimentação e criação com as palavras, os corpos, os sons e os temas que
corporizam o presente parece arredada.
Neste espetáculo temos um palco mal amanhado, sem pretensões, vai-se construindo com bocados, bocado fala, bocado música, bocado movimento, atabalhoado, forte, impreciso. Poucos meios, imaginação e atores soltos, em
improviso e gozo, sem pose, com vontade e raiva. O resultado é
inquietante, apontamentos ocasionais cruzam-se com repetições à exaustão, como
se aquilo que se quer dizer não se sabe, ou não há uma forma linear de o fazer,
enreda-se, apaga-se, retoma, como uma vela a consumir a cera e em risco de
apagar pelo vento, destruição, impotência, nunca acaba,
não tem princípio, não tem epílogo, é mais uma batalha extenuante de onde
não se sai e da qual nada se ganha.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Gulliver e a literatura
Os alunos
têm péssimas classificações nos exames nacionais de português e, todavia, eles
são fáceis e pobres. veja-se a entrevista de Carlos Vaz Marques a António
Osório (na prova de exame de português de hoje) sobre as emoções vividas que
estão nos antípodas, segundo os dois, das pensadas do Pessoa. vividas e
pensadas. estamos com 12 anos de escolaridade e insistimos num cardápio
indigesto. a literatura por suposta pessoa em entrevista não é literatura mas
texto jornalístico e apesar do poema de Camões ser poesia, pura e dura, (com
glossário para o caso das crianças não saberem o que querem dizer as palavras
mais difíceis) eu pergunto-me hoje, quando se escreve a rodos sobre tudo e mais
um par de botas, porque será que os alunos não podem ser confrontados com os
textos dos autores e daí se desembrulharem, pergunto porque perdeu a literatura
o estatuto de coisa importante e difícil para se tornar num amontoado de
lugares comuns a trazer e a repetir à exaustão? O verbo não é o
princípio e não é ele ainda o fim a julgar pela quantidade de letras
produzidas? porque me irrita a simplificação da literatura e irrita-me esta
coisa da unificação de critérios e da panóplia de cientificidade e coeficientes
de sucesso, quando é cada vez mais gritante o insucesso. A literatura não
é para todos, mas não é esse o problema, o problema é a quem ela serve e
para quê. há um medo da inutilidade como se fosse tudo programado para o
serviçal. serviçal de quem? para quem? Há mais felicidade e desafio no
hermético do que no clarificado da sebenta mastigada por uma série de
serviçais. dê-se voz ao canto, sejamos mais comedidos na produção e idolatre-se
com reverência de poder, esquisito mas poder, a VERDADEIRA literatura que não
serve ninguém e não serve imediatamente para nada
domingo, 14 de julho de 2013
A festa
Há bocados de minh'alma no disco gigante da feira. Parcelas de desejos brutos soltam-se do carrossel das girafas risonhas e não há dúvida que a mulher atrás da cortina de motivos egípcios, tem mesmo visões do futuro e sabe como viajar nas galáxias do tempo, inteira, pode emendar-te o destino cortando-te à faca outra linha na mão, sem verter pinga de sangue, com o poder dos olhares cicatrizantes. Atrás da grua que eleva ao céu gritos e mais gritos e bracitos no ar, há uma palha revolvida, às vezes acamada cama dos feirantes bêbados, dos trôpegos, dos encardidos ébrios pesados do sono da noite muito antiga onde querem estar mesmo de dia. Não vi mulheres barbadas nem a Moto da Morte, nem o Comboio Fantasma, nem Elefantes da Índia em jaulas apertadas, comi farturas, lambi os dedos. Entre empurrões pares dançantes deslizavam agarrados e suados sobre o chão poeirento, de olhos fechados para sentir um momento daquele gosto não deixei de continuar a sentir o gosto meu a vê-los dançar. Olhos abertos, a rapariga do palco em fato rosa cabelos louros roçava o corpo no cantor sólido de boca escancarada, os sons da guitarra e o calor das luzes afunilavam a noite, os homens pegavam com solenidade nas mãos das mulheres e conduziam-nas à pista de dança, em comando, o sexo deles e delas marcado pela vontade disfarçada de cair para dentro um do outro. Compreendo ou sinto ou vejo a festa prosseguindo, em cada minuto outro minuto desdobrando-se num pico e outro de luz, seria também bacante, juro, se não fosse tudo o resto.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Agatha
Uma tirada engraçada de
um policial que estou a ler: " A maioria das pessoas bem-sucedidas é infeliz". Quem o diz é uma das personagens mais amadas da Agatha Christie
o rapaz secreto e vagabundo cujo talento para apreciar mulheres e aventuras é
uma garantia da experiência
necessária para julgar pessoas. A vozinha da autora
travestida em sedutor bronzeado e com princípios. A opinião não é inocente e
traz agarrada a mais agradável das razões: as pessoas de sucesso estão
demasiado preocupadas em provar a si próprias que são boas e não têm
tempo para ser o que são, isto é, subentende-se, serem como ele, vocacionadas
para o prazer e para a descoberta. Uma espécie de vingançazinha
encapotada em lei da justa medida. A rapariga a quem a frase é dirigida padece de ofuscação, urge tirar-lhe a poeira dos olhos, ele Anthony (assim se chama a personagem) não tem sucesso, cabe-lhe portanto, o precioso
resto. Assim colhe-se facilmente a simpatia de todos em
qualquer parte do mundo. Porque esta filosofia corresponde na perfeição aos arquétipos mastigados
pela humana estirpe e que se resumem ao ditado popular "Não há bela sem
senão".
sexta-feira, 28 de junho de 2013
talvez ensinar a sonhar
Não alinho
em extremismos, em actos violentos de consequências imprevisíveis e
irremediáveis, parte do mal do mundo deve-se a extremismos. A sensação de
que se está encurralado e não há saída pode empurrar-nos para actos extremistas, parece ser a única saída para quem está desesperado. Não me lembro de nada parecido me ter algum dia acontecido. Quando se fecha uma porta descubro sempre uma janela e
quando se fecha a janela descubro uma escada e se a escada leva a uma parede
sento-me a pensar e a imaginação tem barro suficiente para, mesmo no escuro,
moldar um sol, uns pássaros, uma frase absoluta, um sorriso inesperado. Renasce
aí, como do nada, um inebriamento, um deslizamento do betão e uma outra
planície se abre. Acredito haver vidas difíceis que conduzam ao desespero e daí
a actos extremistas, mas não acredito que seja uma relação de causa/efeito, tão
pouco uma relação directa. Podemos imaginar muitas vidas fáceis (isto é, vidas
onde está assegurado o que é básico para uma boa vida, amigos, dinheiro, amor)
com desespero. A dificuldade da vida não conduz necessariamente ao desespero, há uma certa
disposição enraizada porventura numa certa forma de olhar para o que nos
acontece, forma essa que negligencia um aspecto importante, o sonho. Sonhar não
é um verbo para fracos e escapistas, ou uma categoria parva de
auto-convencimento por quimeras, mas uma forma lúcida de compreender os saltos
e a diversidade no modo de ver. Daí que não sei se podemos ensinar a sonhar,
mas é sem dúvida importante tentar. A memória e a imaginação são instrumentos
mas o resto é arte.
domingo, 23 de junho de 2013
Herberto
Há unanimidade crítica em relação ao Herberto
Helder. Os seus livros esgotam antes de saírem para as livrarias, obras raras
valiosíssimas pois o poeta exige escassez editorial, uma selecção dos eleitos,
poucos iluminados terão a hipótese de ler o mestre, só mesmo os mais atentos .
A imagem, não duvido que corresponda a um anseio legítimo e sentido, foi
meticulosamente tecida pelos meios de comunicação social, que Herberto odeia, e
que adoram o seu mistério, a sua invisibilidade física como a de um deus, que
não está em parte alguma e está em todo o lado, como um acutilante espírito nas
insondáveis atmosferas longínquas do génio retido pela infame banalização do
artista, alheio aos prémios do vil metal, enfim...tenho nas mãos "Ofício
cantante" alguma da poesia reunida, não ouço cantar as entranhas, nem o
coração, estes poemas não me tocam, não sinto por nenhum deles um arrepiozinho
fino e inquietante, como sinto por alguns versos do AlBerto ou do Carlos
Oliveira ou do Pessoa, ou do O'Neill, do Yets, da Dickinson ou da Peri Rossi,
só para enumerar alguns dos meus poetas de eleição. Não vejo como se pode
considerar um grande poeta se não sentirmos por ele essa paixão. Não vejo
como.Outros o sentirão, presumo, quantos farão a diferença?
sexta-feira, 21 de junho de 2013
ditirambo
Grevistas contra não grevistas. Era assim no tempo
das grandes greves da era Thatcher, Margaret e a greve dos mineiros. Crato e a
greve dos professores. As reformas do sector público e o discurso da dívida
pública, a resposta das tranches, mais endividamento, Portugal e o Brasil, que
diferença!! O público e o privado. A minha colega do secretariado de exames a
carimbar resmas de papéis, o funcionário no lugar do operário, no lugar do
intelectual, no lugar nem público nem privado, anestesiado, dormente, temeroso,
dividido. Como se faz para não entristecer? Como se faz para enganar a
tristeza? A hora é de luta. Mais nada.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Reflexões sobre a greve de professores
Ao fim de largas horas de
indecisão optei por fazer greve. Estava, como sempre, dividida, e não estava
sozinha, havia muitos professores como eu, divididos. Ouvi depois o ministro
indiferente ao drama, sobranceiro, a convocar todos para vigiar os exames, como
se os professores fossem substituíveis até pelo merceeiro e percebi o desrespeito
pela classe e pelo diálogo, nesse momento houve valores antigos que se tornaram
importantes, a solidariedade de classe, a indignação por sermos colocados entre
a espada e a parede. Não nos restava nenhum outro modo de afirmar essa
indignação perante a política cega e imediatista que agrava o desemprego e
empobrece o ensino público. Ora, penso, o maior mal do nosso país é o
desemprego, a falta de trabalho. Muitos há que não fizeram greve por medo de o
perder, desses, muitos, têm mesmo o emprego ameaçado. O que se pretende afinal?
Se alargamos o horário de trabalho de alguns professores é óbvio que outros
ficarão sem trabalho, não é preciso ser muito perspicaz para retirar essa
conclusão. Quantos ordenados se economizam? Quantos subsídios de desemprego?
Quantas pessoas à toa? Poderia ser um assunto insignificante mas é todo o
assunto, uma política destas têm consequências, além do desemprego de muitos, temos
os outros, os que ficam a trabalhar em todo o tipo de tarefas para além de dar
aulas, substituições de professores que faltam, assessorias, tutorias,
apoios vários para suprir a falta de funcionários, trabalho administrativo para
poupar no pessoal de secretaria etc etc etc. Esse é o projecto, ser professor
será cada vez mais uma tarefa de funcionalismo. O professor do ensino público
será um funcionário, isto é, uma espécie polivalente capaz de manter a
instituição e os respectivos jovens ocupados em tarefas, atentos fiscais do seu
cumprimento mais do que do ensino e na avaliação reais, quando digo real digo,
uma avaliação honesta que separasse os alunos que aprendem dos que não o fazem
e exigindo que os que não aprendam voltem a tentar e a perceber que têm de o
fazer, pois isso não é indiferente para a sua permanência na instituição. O
problema surge aqui, na tendência para se desvalorizar a actividade do ensino e
do saber, de facto a sociedade liberal valoriza empreendedores, mas não sábios,
esses são até uma raça de gente a evitar. Quanto ao ensino “a sério” passaria a
estar a cargo de instituições privadas. Basta olhar para os resultados do
ensino Público e Privado nos exames do 12ºano para perceber a tendência. Se há
dez anos o Público rivalizava em resultados semelhantes, hoje a clivagem é
muito maior. Porquê? Porque o investimento na preparação para os exames, que
passa por um certo grau de exigência científica, está, no público, minimizado,
se um professor do ensino público quiser mantê-lo terá de se recusar a levar a
exame muitos alunos, ora, reprovar alunos hoje é sinónimo de mau ensino, logo
de mau professor e ninguém quer estar na margem desse "sucesso" de
conseguir os resultados mínimos (mesmo que esse mínimo seja muito pouco) para
os seus alunos.
Pela primeira vez a sociedade
está dividida, porque pela primeira vez há uma atitude que tem resultados
visíveis na sociedade, parece que consideramos normal que uma paralisação do
trabalho seja coisa privada de uma classe, prejudicando apenas aqueles que a
fazem ao reduzir-lhes o ordenado. Mas a responsabilidade deste caos é a massa
de silêncios e atropelos dos últimos anos reduzindo progressivamente a justiça
e o bom senso necessários para que todos possam exercer o seu trabalho com
segurança.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Para diante
avanço para o meio da praça
trago comigo o couro e o lenho
a sirene das entranhas
o medo talvez
numa epígrafe desolada
mas sobre o trigo maduro
quase nada
avanço para o meio da praça
abro os braços e entre os braços
um vertical abraço
surge ainda
um veio de sangue quente
para desculpar da poeira
do vazio e da má sorte
o tempo seguinte.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
imagens de homens e mulheres sacrificados e vulneráveis a esgravatar invocando o mais cru e real da gente a quem falta um bocado, uma parte amputada continua a doer vivendo por sobrevivência, por vitalidade, essa parte amputada visível, para ser escondida impõe-se. tem efeito prensa rebarbador. com isto faz-se cinema. magnifique.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Festa na Escola
Não sei por que me
enervam tanto as festas de Escola. aquela camaradagem de foca amestrada, aquela
vontadinha que todos têm de receber palmas e babar, aquela auto complacência da
união alegre e familiar, aquele embezerramento, cocktail de sucesso e
masturbação, nauseia-me ao ponto do vómito. Ao minuto cresce o ensejo de deixar
este ofício de prof e dedicar-me a uma marginalidade solitária e ensimesmada,
perfeita para segurar pelos cornos esta revolta antiga (tão antiga que nem teve
começo) pela sociedade arrumadinha e paroquial onde as festas de escola são a
cereja no topo do bolo.
Supremamente especial
para eu ignorar estes impulsos vitais era a minha sobrinha. A minha sobrinha
tinha-me pedido, e eu não era mulher para negar nada à minha sobrinha.
Tratava-se da primeira apresentação de um trabalho realizado durante o ano
lectivo. Chamava-se "O Bairro" era um filme de meia hora. Produto de
pequenas e deliciosas ideias, belo, enternecedor, meticuloso. Orgulhei-me dela,
muito, ainda tentei reconhecer paralelismos entre a sua veia artística e a minha, reter alguns louros do evento criativo, mas depressa abandonei a pretensão
por egoísta e destemperada. Ela, a sobrinha, era boa, tinha ideias, sabia
concretizá-las e andava numa escola que queria e estimava o seu talento. Apesar
do enjoo geral, tinha de reconhecer...etc etc e ainda reconhecer que das minhas
sobrinhas têm vindo as melhores aventuras etc etc.
A noite e os problemas
técnicos cresciam lado a lado na sala onde esperávamos com o rabo dorido a
chegada dos filmes. Estas festas de Escola não têm horas, um ror de problemas e
ninguém para os resolver fazem parte do seu "charme juvenil".Valeu a
noite ser grande e ambas nos encontrarmos perto da porta, mas só eu tinha Golden
Virginia no bornal.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
madeixa ao vento
a maior parte das vezes somos só nós, uns
quantos amigos, umas quantas canções, poeira e frio. fomos fustigados por
ideais mas o verdadeiro caldo, morno caldo, assentou na mesa os cotovelos e
desejou por incapacidade de luta ou porque nada do que a memória retinha de
aconchegante se dizia por slogans ou sólidas frases, desejou um grande amor,
uma paixão, que arrebatasse tudo. traduzia-se esse desejo numa imensa saudade
de um copo de vinho na intimidade de uma conversa sussurrada. a política era o
que restava do eco dela, na cama, ou no pretexto para dar uns abraços e colar
uns cartazes entre noitadas. Acho que sabemos o que é o prazer, na palavra
curta ainda não o sabíamos à época, acoplávamos à palavra outras, cheias de
promessas, deixávamos que se mascarasse, não por querer mas por ignorância, de
qualquer modo o prazer tem várias caras e vários são os seus processos de
aparecer. mas assim como vemos a qualidade da bica na réstia de espuma da
chávena, assim também podemos agora abarcar o que restou deste desejo. não é
pouco, é outra coisa, traz a marca de uma liberdade, uma ventania, um
alvoraçado ninho.
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