sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Beberagem amarga


Segundo Hannah Arendt os filósofos andam a reboque dos cientistas, dizendo e desdizendo sem que das suas teorias contradições e objecções se possa retirar outra conclusão senão a de que é pueril e inútil a sua actividade, não altera nada nem no estado do mundo nem nas relações humanas em geral. Por outro lado a ciência no seu afã produtivo recria a natureza através da captação da sua lei universal mas não nos dá a compreensão do porquê, apenas do como. Curioso como estas suas ideias respondem à minha intuição e ansiedade em relação à Filosofia e à Ciência. Por mais que se fale das  novas descobertas do ADN e da Física de Partículas que me permitem saber com exactidão o meu pai, eu já sabia antes disso, assim como estar aqui a escrever estas imbecilidades numa máquina cara que daqui a uns anitos ( menos, espero, do que aqueles que me aproximam da morte), vai ficar obsoleta, eu já escrevia. O meu ADN e a máquina trocam-se sendo a única diferença uns anitos a mais ou a menos. O que são uns anitos? O mesmo nada do ponto de vista da eternidade. Mas todos sabemos o óbvio, o meu ADN não é o mesmo que uma máquina e eu não sou o meu ADN, mas morrerei, assim como esta máquina não é aquilo que escrevo e morrerá, cada coisa e ser morrem na sua individualidade,enquanto coisas singulares, remetidas para uma identidade fictícia ou científica; a procura de imortalidade ou da eternidade soçobrou, a ciência só nos ensinou isso e a Filosofia sem isso não sabe o que há-de fazer.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Barómetro natalício



Chove e falta dia e meio para o Natal. A gata dorme na sala ainda quente do fogo das noites anteriores. Penso em todas as pessoas de quem gosto e que estão presentes aqui pela casa, gostava de lhes dar um abraço, de trocar duas ou três palavras com elas, e deixo aqui estas minhas vertentes folha, castanhola e clorofila aos seus risos e gestos, aos gostos e às truculências que foram e vão aquecendo a manhã.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nota de rodapé


A racionalização de qualquer acto tem um efeito perverso, normaliza-o, torna-o justificável. Há actos que não podem ser racionalizados,devem permanecer intactos na sua monstruosidade insolúvel e inexplicável. São seres racionais que os pensam e executam mas há seres racionais que não se definem enquanto tal, nem enquanto animais se definem, situam-se antes naquele espaço desvairado e vesgo da compulsividade paranóide. são excrescências. A frase do Terêncio  "Nada do que é humano me é estranho" é falsa. absolutamente falsa. Muitas coisas, é todo um mundo humano que me é estranho e vai permanecer assim até que morra. Também tenho direito a este juízo. ora bem!! Poderá ser também este juízo uma excrescência, haverá quem o pense, se o ler, mas nenhum juízo é tão monstruoso  como um acto.O pensamento torna-nos fracos perante os actos, amolece, disciplina e nomeia o informe, espalha o ódio em parcelas tão pequeninas, que deixa de ser ódio, é um ódio pensado, qualquer coisa que nos envergonha. Será que sem odiar poderei amar? Poderei ser alegre sem ser triste? Poderei verdadeiramente querer compreender se não me recusar, em certos casos, a compreender?

Foto: Bruce Gilden

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Aniversário

O OBVIÁRIO fez seis anos no dia 30 de Novembro!!Yupiii! 

Tanto ano!! 

Agradeço a todos os que por aqui passaram nos últimos seis anos, deixo-vos com Brel. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Entre a essência e o Atlas

o essencial é o quê?o que fica depois de depuradas as particularidades, a nata do leite, as folhas do chá, a molécula, o átomo, o necessário, o substancial?a forma?o sentimento? ou o conceito?fruto da mente ou existência inominável? o que se repete muitas vezes ou aquilo a que se acede uma única vez? Será invisível aos olhos como dizia  o Príncipezinho, ou será apenas o visível, a coisa bruta metamorfoseada, será o estático ou  a própria mudança?e visto que como o amor, pode ser tudo, não deixa de nos atormentar, de um absoluto, de uma sede mas nunca de uma recusa, como se embora não sabendo a sua forma, pudéssemos garantir tratar-se de algo bom e desejável. Tudo a propósito do novo livro do Gonçalo M.Tavares: Atlas do Corpo e da Imaginação que dinamita as essências.Parece um cadáver esquisito, a imagem que me veio à mente, talvez por causa das fotografias de partes do corpo que vêm no interior, remete para aquelas fotografias de corpos cadáveres do Witkin, a aparência é de um livro de anatomia, livro de doenças e deformidades, mas depois a escrita é o contrário, lógica, leve, aforística e sobretudo de um caos pensado, ordenado, se é que isso é possível. Agarrei-o na livraria Barata, há muitos anos que não ia à Barata, naqueles já extintos rituais de Barata e King. literatura e cinema ao sábado à noite. O eco das palavras do Tavares que prefere a conjunção à disjunção. Eu também, prefiro a conjunção à disjunção, daí que este problema da essência envolve já uma disjunção fastidiosa, um ou ou que não se resolve nunca. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

No supermercado


Estamos assim, sem pensar, entre compras, metidos dentro de armazéns atafulhados de coisas grandes e pequenas redondas e pontiagudas, com uma luz plana sem sombra, e um som indefinido que apaga a vontade de dizer, repetimos mentalmente: 3 bifes de peru, por favor. Atum Tenório a 2.19 Euros. Cola UHU em embalagens de dois pelo preço de uma. Entramos numa estante e sentamo-nos ao lado das caixas das Barbies, podemos imaginar que num outro corredor, o dos chocolates, há tartarugas gigantes em cima umas das outras a tentar chegar à antena que de repente se vê no céu escurecido, e o rapaz da caixa tem as calças com um vinco perfeito e lê Proust. dizemos-lhe: Rápido, pois vemos aproximar-se uma onda gigante vinda directamente do corredor do vinho francês mas é demasiado tarde, deixamo-nos levar na corrente e aportamos a uma ilha, ele sem o vinco das calças e eu com o Proust no soutien, deito a mão a uma garrafita que bóia incauta. Compras no saco de plástico e quando saio, viro-me para trás, comando em riste,  antes de mudar de canal, abro as portas do veículo, do meu veículo, e dou o salto.

Pintura de Rodolfo Amoedo

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Superfícies 4

é nesta moldura de cardos
nesta moldura de cedros
nesta moldura de nada
que amanso lendas
recubro penas
sem culpa formada


sou de série
contas que no rosário caíram
sem o meu consentimento
a solidez dos versos
passa como asa
sem ter nascimento
nem morte anunciada




quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Superfícies 3

Acho que não tenho mais nada para dizer
secou-se o veio
vejo passar os rapazes com os sacos de plástico
a minha amante toma banho sem usar amaciador
e nos pinheiros bate um vento leve
ao meu lado num outro mundo vislumbrado
a vozearia dos cavalitos de pau
e uma promessa de solidão
absoluta e inexorável
estende-se sobre as minhas pálpebras
deposita-se no tampo liso da mesa
onde alinho as palavras boas
as palavras que me salvam,
se a minha jovem amante não cantarola no duche
porque a convivência comigo a fez pesada e inerte como eu
pesada e inerte
como as palavras malquistas
só a cacimba de uma suspeita
pode dar por mim os passos
até ao lago que tu deixaste aos pés
de sabão e dedos grandes
a boiar
e correndo o risco de me encharcar
me abrigue sobre o teu duche
segrede ao ouvido
amo-te
e o trinco da porta com o peso
abrir-se-á
e cairemos abraçadas
sobre o tapete felpudo da entrada.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

superfícies 2

ao todo há muitas formas de chorar



















deambulações na copa dos dias
para o canto da boca
amar
palavra presentiva
de cedros e  pontes
costura longitudinal rente
ao ponto da alma
animal
que incendeia os olhos sem querer

 
Lá longe no muro
oiço
alguém canta ou eu
sou um emigrante de vidro
a soprar em barcos de papel
julgando ouvir fontes


terça-feira, 29 de outubro de 2013

superfície 1


pela tarde, ainda no veio da rua uma coisa qualquer
indisposta gozava o último sol e todavia
a hora ou o que restava dela sorvia na esquina
sem que nenhum de nós desse pela fina visão 
rendilhada da sombra
a estátua transparente de um clássico pecado
inerte e sem data 
marcado pela fronteira diluída
da tarde
caminhava connosco, não que fosse novo
era óbvio que não
era, assim o tratavam os ecos
um pecado antigo
mas da mesquinha indiferença
ou melhor inépcia para se apoquentar
só nomear era  lícito
sendo assim a manga dobrada
para as lembranças poucas
afazeres limpos
superfícies com ruídos de automotoras
a eito sobre o buço
outras lembranças de gritos
ásperas formas
ocupavam apenas o tecido da roupa 
ninguém sabia ou fingia não saber
por fortuitos azares ou necessidade éramos só do presente
por ele maquilhávamos as doridas horas da tarde
e emergíamos indecisos 
no peito o arco ou o côncavo sombrio
do medo ou dor de o vir a ter

quinta-feira, 24 de outubro de 2013



amo  pedras e árvores sem raízes
caídas
amo penas de gaivotas
mortas
e se pudesse construía uma pequena cicatriz no tempo
um apontamento triunfal boquiaberto e irónico
uma dança de ventre ou uma chamada urgente
ao teu corpo
servente de asas
cintura de dedos

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

permilagem


mas o que é que isto me lembra?? tenho para mim que esta moçoila é rapariga de grandes causas!!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

divagações

Será possível escolher conteúdos programáticos de uma disciplina sem ter um propósito ideológico subjacente? Evidentemente que não. Pior é que os representantes das escolhas pensem que sim.Mas, qual será a ideologia numa sociedade que assume maioritariamente que as ideologias são redutoras e, em excesso, manipuladoras? Seja qual for o sentido que se dê a ideologia, como ideia orientadora defendida por um conjunto de pessoas ou como instrumento de manipulação de um classe sobre outra, ela surge quando pensamos num modelo melhor, como deveria ser esse modelo e como deveríamos proceder para o atingir. Ela é portanto produto do pensamento, seja a sua intenção perpetuar um estado opressor ou tentar concretizar uma utopia, ou sendo a primeira o caminho para a segunda o perigo das ideologias, elas contam sempre com a submissão de todos e de cada um ao projeto de alguns, tal cheira-nos mal, a nós que somos individualistas e democráticos. Pensamos então, erradamente, estar ao largo das ideologias e culpamo-nos de não existirem ideias, pois se não queremos aceitar os riscos de ter ideias e de as perseguir, então temos de aceitar viver no imediato, no pragmático, no superficial das coisas e não há outro meio. A verdade é que não nos furtamos à ideologia, somos apanhados pela ideologia capitalista, as ideias estão vivas e amam-se se forem para ganhar dinheiro. O novo conceito disto e daquilo. No campo do saber como se propaga o capitalismo? Arreda-o para segundo plano e dá-lhe valor quando aplicado a um qualquer instrumento. Se não tem utilidade imediata, é  inútil. Assim vemos as Humanidades serem reduzidas a trivialidades e a História quase desaparecer dos currículos. Mas não é a ausência de ideologia, é estoutra que detestamos nomear mas que é única, não é má, mas precisa de ser vista como é, será o preço que temos de pagar pela liberdade? Mas poderá haver liberdade sem alternativas? Quem cria alternativas senão o pensamento?

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

gulag

Hoje um puto. no final da aula, veio dizer-me como se tinha fartado de rir com uma boca de um colega. Detestei. Já não basta gozarem uns com os outros enquanto me concentro a ensinar-lhes qualquer coisita, têm ainda de me dizer!!!. mas o momento pior do dia, estava ainda para vir, a estocada miserável veio da  minha resposta: "Pois é, com tanta brincadeira distrai-se e não presta atenção à matéria!" Mal desferi este pedaço de conformismo mal amanhado, disparou o que me resta de cérebro depois de 8 horas de aulas: que insipidez de comentário, que frouxidão, que acefalia mais medíocre. desci as escadas a amaldiçoar-me mas aos poucos percebi: ao fim de um dia como este sou, na melhor das hipóteses, um saco de plástico vazio onde já não está lá o essencial, não pode, só tralha automática. Perceber isso conciliou-me com o devir. Respirei tão fundo que se colou céu ao céu da boca e acendi um cigarro mal cheguei ao portão. "Continua, dizias, que da metafísica de Kant a Hegel, alguma coisa se perdeu...estive realmente a ouvir" Campos dixit.

sábado, 5 de outubro de 2013

Hannah Arendt o filme

 
quando saímos deste filme vínhamos alvoraçados, entregamo-nos à cerveja branca e preta no bar da avenida, luzes dos carros, calor, moedas a tinir em cima do balcão. a vontade de puxar de um cigarro atinou-se numa planície de concórdia. puxei dele sim e saboreei-o até ao tutano. isto foi antes e depois, no durante a cerveja ardia nos olhos brilhantes dos litigantes.

 estava em causa o nazismo e  a força dos efeitos das sociedades totalitaristas sobre a vontade dos indivíduos, na mesa duas ordens de ideias:  a possibilidade de um sadismo consentido e justificado de acordo com uma vontade geral, ou, por outro lado,  a banalização do mal, o indivíduo anulado, sem pensamento - ou demitindo-se de pensar - para não ver o absurdo? para não sentir a responsabilidade? por medo? os funcionários zelosos das ordens obedecem mas não pensam, são os que provocam  o mal mais radical porque neles não há consciência do mal, alavancando a máquina, são por ela absolvidos e nela decapitados, são eles os acionistas da gigantesca máquina de assassinatos. Depois a figurinha anódina do Eichmann, patético, católico fervoroso (foi o Vaticano que lhe deu o visto para ele poder fugir para a América do Sul) e SS convicto, responsável pelo "empacotamento" de milhares de judeus em comboios para os campos de concentração . Arendt uma intelectual, no meio deste cataclismo, alquimista de palavras rudes mas novas , palavras para compreender, mas quando há violência desmedida, quando se clama vingança, a compreensão não será  um artifício arrogante? uma  excrescência  humilhante? Sendo judia  "devia" alinhar na "catarsis" colectiva, mas os pactos de sangue com o povo não abafam a necessidade de clarividência, clama pelo pensamento mesmo se  não é cómodo, e é perseguida por isso, as vítimas transformam-se rapidamente em carrascos, perpetuam a brutalidade e a intolerância mas justificam-na, serenamente, com a necessidade de justiça.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

vergonha

Estas eleições confirmaram a ideia  "mudam-se as moscas mas a merda é a mesma". Por causa disso ou da chuva ou do calor ou do calo ou do vazio ou sei lá de quê, muitos se  abstiveram da democracia que os obriga a escolher quando querem provavelmente não ter de escolher e resmungar contra a política como se ela fosse outra coisa senão o que fazemos todos os dias. A política  "gaija" mal amanhada e porca que vai ao nosso bolso sem pedir licença. Vai daí viramos-lhe o rabo e palitamos os dentes. Tudo estaria bem na mediocridade se não fosse ainda os gestos largos e convincentes de políticos com cidadãos por detrás, que assumem a porca da política e têm quem neles acredite e neles vote e ainda bem, ainda bem que votamos ordeiramente e temos muitas opções para votar, ninguém nos obriga a votar em ninguém daí que a maioridade deste povo continue por alcançar, o melhor seria talvez um caldo vitamínico para os artelhos crescerem, a testa também e já agora tudo o resto. A abstenção seria, portanto, o escândalo da noite se não fosse um escândalo ainda mais sórdido. Esse veio da classe A, a classe instruída e rica do concelho de Oeiras onde nasci e onde o meu avô foi o habitante 240, inscrito com a sua cota para a construção do apeadeiro de caminho de ferro em Santo Amaro de Oeiras. De Oeiras veio o voto num tipo alarve que se alardeia de ser o espírito livre do ladrão preso Isaltino Morais autarca mítico pela fecundidade da sua corrupta atuação. E, pasme-se! tal espírita mimético, ganha as eleições com este truque ocultista de ser ventríloquo do outro que da prisão bate palmas. Isto mostra que a instrução e o dinheiro não dão nem civismo nem inteligência e muito menos qualquer vislumbre de Ética apesar de parecer que dão. Lá dizia Kant e confirma-se que a moral não depende da instrução, não sabia ele é como se podia enganar muitas vezes os mesmos porque naquele tempo os ilusionistas eram saltimbancos paupérrimos de circo, hoje são paupérrimos os habitantes dos condomínios, paupérrimos de discernimento e campeões de circo os ilusionistas da construção civil e do betão.
 

domingo, 22 de setembro de 2013

Actores, actrizes

Tenho paixão de morte por bons actores, (por agora, e enquanto não for mesmo obrigada, recuso-me a dizer atores) delicio-me com a metamorfose dos seus corpos, gestos, voz, pronúncia, mas sobretudo, com a sua capacidade de viver e dar a viver emoções. Muitas são as formas de o fazer bem, isto é, com credibilidade. Há actores que são capazes de dar a ver a sua representação, permanecendo por detrás dela a observar-se e a observar-nos; o Matt Damon é um exemplo disso, é sempre ele por detrás das personagens, distanciado, percebe-se no gesto a composição, diz-nos como está a representar e ao fazê-lo desmonta a representação;  o resultado é brutal. Há outros como o Tom Hanks ou o Michael Douglas, que vestem várias peles e fazem-no com uma energia e uma confiança tal que não descortinamos como seria de outro modo, ou se há lá alguém para além da personagem. "Por detrás do candelabro" poderia ser um filme menor de TV para encher o olho voyerista, se não tivesse esses tremendos actores a jogarem-se cena a cena, a exporem-se, a medirem o campo para se deitarem dali abaixo, é impossível não admirar a sua arte. Noutro registo Cate Blanchett em "Blue Jasmine" um cineasta dos diálogos: Allen, e uma actriz que dinamita as palavras. Tirem-lhe as palavras e está tudo lá, todas as emoções, o passado e o presente, no olhar. Quando saio do cinema acontece-me a noite desabar nostálgica pela interrupção de realidades, pela mudança de registos. Continuo a achar o cinema uma arte de actores, e bons cineastas os que se apercebem disso.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Leibovitz e Sontag


Hoje na FNAC entretive-me a folhear o livro da vida da Leibovitz,  fotografias de uma vida, a vida das fotografias, imensas e absolutas as imagens de Sontag, sem as palavras é visível, sólido tanto quanto as formas, o poder do amor que as unia. O amor que transborda mesmo quando a modelo nos olha com a dor imensa da doença, no abandono aos cuidados de uma enfermeira, vulnerável mas  humana, piedosamente humana, bela. Bela por amada, benditos e eternos são os amantes!  Esse amor que passeia nos lugares mais íntimos, os quartos em Berlim, Veneza, Londres, os objectos, as conchas, os papéis, o tacto das coisas usadas, as manchas na pele, os hotéis, os lençóis. O fulgor de uma cama desmanchada,  a curva da carne, os pelos púbicos de um sexo quente, a história de um corpo progressivamente castigado e devassado mas continuamente descoberto a cada instantâneo da máquina. Um corpo vibrante, um corpo possuído e impossuído. Gesto desesperado de querer guardar, querer manter, o que a doença vai progressivamente separando, afastando.  De repente uma fotografia de um cadáver.  Um velório de uma idosa da aldeia, possivelmente. Procuro a legenda, nada. Era uma fotografia larga, a ocupar duas páginas de um livro grande. Qualquer coisa naquela imobilidade mumificada era alarmante e incompreensível. O cabelo cortado curto, branco, uma teia apertada e seca de texturas rígidas, já não um corpo mas um tronco, uma árvore antiga que expunha as suas raízes. A compreensão trouxe-me o choque. Era o cadáver de Sontag mas não era a mesma mulher. Uma desconhecida, uma estranha num estranho ritual de imobilidade. A morte é mesmo incompreensível, um salto, nem isso, não é na vida que existe.
 

 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Gosto do Saké

Antes de ser cinéfila sou comedida de gastos, tenho exagerado na costela judia, não sou sovina porque o prazer não tem preço mas prefiro mesmo que não tenha preço porque de graça é prazer dobrado. Contas feitas entre deve e haver pagar 6.5 euros por um filme de 52,  já exibido na Cinemateca ainda para mais enganada, já que pelas contas do Público deveria nesse dia passar  "A Viagem a Tóquio", torna-se interlúdio demasiado pesado para uma noite de verão a estrebuchar. Pus-me a amaldiçoar o Paulo Branco e as suas negociatas com os objectos preciosos da cultura, sobrou para o rapazelho franzino que se desculpava do Cinecartaz estar equivocado, e eu tenho culpa do Cinecartaz estar equivocado?? Um cinema de reprise em qualquer parte do mundo não tem estes preços, resmunguei e gritei. Depois sentei a ver o Ozu, havia matéria brilhante no celofane e esqueci rapidamente os euros. A noite estava amena e cinema é sempre cinema, puro e duro,não desmereceu, continuo a adorar a forma como o tipo põe a câmara, a fotografia é sublime. No carro vim a ouvir os ABBA deleitada com os Kimonos e os impecáveis fatos dos homens.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Eça, para sempre.



O Eça na Relíquia zurze selvaticamente na sebosa parafernália da igreja e nos seus mecanismos de manipulação e auto-convencimento, chama-lhes rançosa trupe de cruzes, incensos, santinhos e rezas. De forma assaz mordaz acrescenta, a propósito do culto da vida dos santinhos e das peregrinações aos locais sagrados: "Conheço bem os sítios onde habitou esse outro intermediário divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem chamamos Jesus Nosso Senhor - e só neles achei brutalidade, secura, sordidez, solidão e entulho." A tendência anticlerical produz a melhor literatura, isso, por si, chegaria para nos fazer pensar.