sexta-feira, 16 de maio de 2014

capicua



Numa  certa altura da vida falta-nos tempo, não porque temos muitas coisas mas porque somos mais lentos  e ainda desejamos muito, como se nada nessa lentidão nos fosse familiar. O motor, a força tempestade,  entrou em desaceleração e a percepção desta súbita mudança faz-nos querer chegar a todos os lados que o desejo laço tinha preguiçosamente adiado. Antes de parar, de parar definitivamente. Dentro de mim há também uma figura absorta, uma marioneta  a que temos de puxar pela mão porque se quedou embevecida pela luz do próprio tempo a passar, assustada pelo absurdo de poder parar, como quando alguém corre atrás de nós com uma arma e o horror prende-nos as pernas, não conseguimos fugir, uma espécie de torpor hipnótico, talvez, um rodilho de silhuetas mudas seguram-se no limite. Os meus dois: o que observa espantado um outro mergulhado no pântano luminoso, no extravio absíntico da languidez da queda. Um tem  pressa demais e  o outro, nenhuma.



domingo, 4 de maio de 2014

The Killing: Crónica de um assassinato




Esta é uma série que se vê religiosamente, a terceira temporada passava às terças, 21.45 no AXNBLACK e nunca um local no sofá foi tão ansiosamente aguardado. De facto,  as americanices policiais deixaram de me seduzir, desde os tempos de uma antiga série, que pouco tem a ver com esta: "Modelo e detective".  Eram todas muito profissionais e previsíveis, com retratos psicológicos estereotipados e recursos ao sexo constantes e repetitivos. Esta lavou o prato dos condimentos enjoativos, veio da Dinamarca e responde sem mácula ao que se espera de um policial: acção, lógica e mistério. Embora sendo produzida em 2007 só por cá passou, a primeira temporada, em 2012, o atraso é corriqueiro mas inaceitável, pergunto-me porque temos de aguentar horas de séries americanas sem interesse e  esperamos 3 anos para poder ver um produto dinamarquês de qualidade notoriamente superior. Andanças do demónio certamente. 
A acção passa-se em Copenhaga, a heroína é Sarah Lund, uma inspectora da polícia obcecada com o trabalho, hermética, pouco emotiva, persistente. Nela se concentra a investigação de um assassinato, com avanços e recuos, erros e intuições espantosas. A rede da trama é larga e envolve famílias políticas, pessoas solitárias e grupos de pressão. Um dos factores originais é exactamente esse, a dinâmica entre a pessoa e o grupo, demonstra de forma convincente como a vontade e as vontades, os interesses e o desejo de verdade se podem articular sem que haja um protagonismo redentor de qualquer uma das personagens, todas, por momentos, são influenciadas pelo grupo onde agem e simultaneamente teimam em ter os seus próprios caminhos, mesmo contra todos, numa espécie de alternância caótica em que as consequências de cada acção têm desfechos para além do que pode ser antecipadamente previsto pelo pensamento do grupo ou de um só, como se cada uma das acções ao chocar com outras vontades nos conduza por meandros inesperados. Estou triste por ter acabado a terceira temporada. Neste deserto televisivo de novelas e produtos para consumo instantâneo, uma janela onde o barulho das gentes não é só ruído, faz falta.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Coimbra antes da Páscoa


é suposto admirar este lugar a norte do meu apartamento de três assoalhadas nos subúrbios da grande capital; esta cidade esfingica de secretismo e história, de capas negras e sabedoria. Coimbra reagirá certamente mal a este odor pequeno burguês, que lhe fareja o rasto escondido, este halo de visita turistica sem guia, entre máquina digital e contemplações embevecidas. Ela que foi cantada pelos barbos mais sérios nas curvas do seu mondego triste, nas arcadas e escadarias dos doutores,  na eloquência dos seus manifestos onde o regime começou a desfazer-se. E se não fosse o seu passado anti-fascista, teríamos Pedro e Inês, os amores e segredos, a sua tragédia. Talvez estes novos tempos de números e vacuidades clubísticas a tenha desolado e amargado o vinho dos toneis; hoje Coimbra parece-me muda e expectante, só, cenário de uma movimentação a que é alheia, tumular como um velho correndo a guardar os seus pergaminhos e tesouros com a chegada dos vândalos. Há almas assim que não se dão logo, ocultam-se num ponto recuado onde ficam à espera que desistas e te vás. Assim deve ter acontecido, não tive tempo para bater forte com os pés no chão e abrir a gruta, faltou-me ou esqueci esse dom, o dom da palavra que desvela as pedras.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Arsenal



Glória aos Vândalos

Aos tártaros

Aos sândalos

Aos mártires robustos do apocalipse dos tesos

Às varinas, aos mágicos

Glória soturna e franca

aos Fantasmas ou rainhas santas

Permeáveis à treva mas também

Entusiastas da plebe

Eurásia

Eufrásia

Glória Tomásia

Entre nós a máxima a genuína transumância

Aforística

Ribeira Odalisca entre frase

Suástica

A bomba pomba rasurada

Sobre um Sol tombado com mosca

De plástico

Cartolas gigantes

Na Câmara ardente dos génios

Moribundos fonemas

E Ficção

Ficção a rodos para os presidentes

E para o Povo

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Paródia, abril.


como as praias, os bares são testemunhas da passagem do tempo, a vertente Saturno a funcionar para quem vive por fora do tempo no pensamento e no tempo pelo corpo tem uma tendência obsessiva de marcar a linha sinuosa do antes e do depois, precisa de elaborar um cardápio de lugares onde possa fazer o jogo da Glória pra vida. casa 1, casa 2, cada uma como uma imagem e uma sensação particular inscreve-se poderosa na lembrança para poder parar o tempo ou para o compreender nos fotogramas dos momentos, nas pequenas fronteiras bem delimitadas de espaço tempo. Agora, Abril, o bar Paródia. As margaritas, o cinzeiro do Bordalo Pinheiro cheio de pontas de cigarros até ao filtro e o timbre abafado das vozes, das que se movem como arabescos no éter, das que se deixam apanhar amorosas, na teia dos desejos. Os bares, como as praias, ritualizam-me, amedrontam na sua exigência de cenários perfeitos mas vem deles ou de nós também,  o fluir da dolorosa e fina mancha de prazer perdida e retomada não sei bem se no gosto de desmanchar palavras, se no ponto de descobrir formas, de as imaginar entre o quartzo meio negligente da luz.

domingo, 6 de abril de 2014

Vic e Flo viram um urso.



a sala compôs-se, era ainda dia, a textura do filme , a sua coloração amarelada cumpria a do ocaso como algo antigo, uma fotografia velha, quase o mesmo para a escolha dos rostos, para os movimentos da câmara, lentos, pesados, inertes, opacos, expectantes, e os diálogos crus, ou de uma estranha poesia, quão estranha quanto assoma de uma realidadde que parece que a esqueceu em definitivo e para todo o sempre. Árvores e pessoas,  um estrebuchar dos corpos contra a fatalidade da  natureza nos ligar simetricamente à morte e à vida, carregando um estigma, o que somos  resultado do que fomos, o passado desenha a linha do inevitável para quem vive. O amor brotava do seu desespero, do desespero das duas mulheres, forte mas frágil, diante de uma lei implacável, uma impossibilidade de fuga, o amor redime e dá sentido mas abocanha-o o absurdo. No absurdo do mundo nada é sagrado, nada está ao abrigo da voracidade dos homens e das plantas de transformar a vida em morte.

terça-feira, 4 de março de 2014


parece, sinto isso, as palavras emigraram, foram todas para um sítio e lá ficaram cortando amarras com o passado. a escrita minha amiga mais constante e duradoura, tece artimanhas de escape, embora a frase com amiga tenha um odor piegas de confissão um aparato de trivialidade, minh'amiga. corresponde a uma certa forma de viver estes 54 anos.escrever todos os dias, escrever o que faço, escrever o que disse, escrever quem amo. não me orgulho nem me desprezo por isso, há uma superfície lisa como um espelho, incólume ao tempo, aí onde cada um é, e volta a ser a todas as horas, esse espaço ou ardor ou labor pesa. não poderia ser de outro modo, as razões só servem explicações,  para quê explicar? cada frase que escrevemos explica-nos mil vezes e apaga-nos. não quero explicar mas fazer uma pausa. restringir para tocar o intervalo onde as recordações são apanhadas como estranhas, seres fugitivos e incaptáveis. hoje dia de carnaval, muitas coisas acontecem ali ao lado nas redes sociais e no mundo também embora quase todas nos sejam invisíveis, acho que nos habituámos mal a pensar que podíamos aceder ao principal, a facilidade adormece e enjoa, agora.

foto Edward Weston

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

pormenor


Radiante foi ver o céu hoje, laranja, roxo, rosa, azul, havemos de nos alegrar com os raios de sol e com as vagas do mar,com as azedas no campo e com as dunas da praia,  a natureza tem uma grandiosidade que se admira como coisa antiga cujo eco perdura, agora que a humanidade perdeu de vista os grandes gestos, a generosidade sem condições ou a verdade sem omissões. Organizamo-nos como formigas cegas, enterrámos as cigarras. Temos líderes como os cães têm pulgas e o resto é mar, é tudo o que não sei contar. 

A pintura é de Courbet

domingo, 9 de fevereiro de 2014

tempestade



 
Porque será que as tempestades têm nome de pessoa se as descrevemos à régua e ao esquadro? Ondulação de 11 metros, ventos de 130Km, leito dos rios cresce 6 metros, população e orla marítima em estado de alerta. Lembro os quadros do Turner, as vagas, os relâmpagos e os homens indefesos e arrepio-me desta forma de transmitir a informação tão alarmista e  cinzenta. Por detrás da pretendida ciência dos números há o resgatar da identidade da coisa natural, a neutralidade da descrição é um cavalo cego, não há neutralidade, há só pretensão e uniformidade. Como se os números nos dessem a ilusão de controlo e de conhecimento. Nada. Os números não são sinónimo de domínio coisa nenhuma, são só sinal de falta de ideias, de falta de poesia, de falta de grandiosidade na descrição. Esta omnipresença dos números é tão ilusória como manipuladora. Eis a tempestade: os ventos assobiam nas frinchas mal vedadas das janelas, o recolhimento da noite transformou a tempestade em som, arabescos de árvores a bater contra os vidros. E nós reinantes de chaves à cinta encolhemo-nos no sofá, deixamos os olhos crescer para o que a noite não deixa ver. Stop

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A força bruta do capitalismo selvagem


Já vivemos o suficiente para antecipar consequências de certas tendências. não é preciso ser monge para intuir o que nos espera, é mais de pistoleiro  pôr-se com caçadeira de canos cerrados aos tiros a tudo para afugentar o mal estar, o salário reduzido, a falta de gosto verdadeiro. Hoje sobram indignados e esta força da indignação que escorre nos discursos prolifera por todo o lado, o meu não é excepção, esgota-se a seiva da acção, apropriamo-nos do discurso como o pistoleiro da arma, mas nada atingimos senão o esgotar da raiva ou diminui-la, a comunicação que hoje parece correr acelerada e em caudal furioso é, perdoem-me a expressão, um efeito mistificador, de facto, na realidade, nada acontece e nada depois, enfim, de qualquer forma, muda. A autoridade do discurso acabou e com ela uma forma preciosa de liberdade. 
A questão parece-me que é fácil de compreender, passa pela subversão do verdadeiro poder dos indivíduos, o poder de estarem juntos e de lutarem juntos por qualquer coisa, a desconfiança nos negócios públicos começa com as mediações da esfera privada, o privado torna-se no espaço de liberdade, no sentido em que nele, só nele, podemos  preservar-nos da uniformização e furtar-nos silenciosamente ao ruído omnipresente. A propaganda ideológica do capitalismo tem este efeito reduzir-nos ao privado, atestar os nossos lares coelheiras dos mais sofisticados aparelhos para nos entretermos no nosso labor de formigas desossadas e acabrunhadas. Presas fáceis do consumo, que vamos amontoando a um canto, nós os indignados corremos de um lado para o outro entre a produção e o consumo, entre os dois comunicamos através de aparelhos e cobiçamos outros mais virtuosos e caros para nos sentirmos seguros. A multiplicação infinita dos nossos discursos individuais dá-nos a ilusão que comunicamos para o mundo inteiro ou para uma plataforma alargada mas a nossa comunidade virtual não é uma comunidade, mas um gazeamento comunicacional, todos falam ao mesmo tempo num prolongamento do eu, um prolongamento da sua vida privada mas não para um espaço público. Presas do consumo, ainda porque a ele estamos sujeitos em todas as esferas da nossa "privacidade" invadida. deixamos de frequentar o cinema e o teatro, o café e a tasca, deixamos os rituais comunitários, as refeições, as festas. Não nos revemos em nenhum grupo, nem nos revemos no Estado, nem nos soberanos nem nos súbditos, julgamos ter poder por podermos dizer tudo o que pensamos, mas já não pensamos muito, reagimos. O pensamento é fastidioso, moroso, ninguém aguenta, já estamos noutra ainda nem sabemos qual.

Foto: Rodney Smith

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Que se proíba as praxes de vez.Haja coragem política.

Não me importa que se fale  ao abrigo da onda, que todos falem do mesmo, ou que seja mesmo pelo cansaço que a cretinice e o silêncio vençam sobre a indignação. não há que ponderar nada nem fazer de conta que a vida universitária deve ser tratada tal e tal, nestes casos em que se pode ser democrata porque não custa nada, não está dinheiro em jogo, na verdade   quando se trata de dinheiro não há diálogo nem democracia,os nossos governantes aplicam as regras da mercearia e o resto que se amole, corta-se a eito e não se pede licença. mas agora com as praxes é um "com licença se faz favor" vamos debater. Debater o quê? Alguém debateu os cortes autoritários das bolsas de investigação? Alguém debateu os cortes orçamentais às faculdades? Agora há mortes associadas a praxes, os sobram indícios de abusos e crimes cometidos ao abrigo desta aberração dita universitária, casos abafados de Alunos que se queixam, mas o governo vai debater, agora que o assunto lhe é perfeitamente indiferente parece muito respeitador das aberrações que foram criando bicho à conta da indiferença e do paternalismo. Proíba-se de vez esta palhaçada, há razões mais que suficientes, haja coragem de defender pela lei o que está correcto . 
O caso do Meco tem contornos de grande tragédia mas as Erínias da vingança, estas mães que clamariam sangue para restituir o equilíbrio que foi destruído, estão sós, esperando um golpe de misericórdia, contemporizando num inexplicável e medonho caso de morte simétrica, seis, todos os participantes a morrer enquanto se safa um chefe de praxe, que faz voto de silêncio. Quem restitui o equilíbrio? Nada, parece só sobrar uma inócua revolta. o que não deixa grande espaço para acidente, por ser tudo demasiado simétrico. Quero eu dizer, que o acidente é sempre qualquer coisa de que se fala logo com espanto mas que se compreende num quadro  circunstancial, enquanto aqui está tudo para compreender, tudo para explicar, adia-se a investigação, a coberto de quê? Quanto às praxes já aqui me apeteceu vomitar sobre este quebranto e esta aquietação das instituições para proteger estes rituais macabros. Escrevi sobre isso enquanto as minhas sobrinhas declaravam alegremente que andaram a rastejar e a comer alho cru a mando dos "padrinhos" e o nome diz tudo.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Foz do Arelho, Dezembro de 2013

O inverno do meu descontentamento

Estive três dias de cama com gripe, gripe dos homens não das aves. Se fosse das aves diria, não há aqui qualquer pudor de espécie, mas não foi, foi gripe versão para humanos de boa vontade. Gripe para gastar a boa vontade de qualquer idiota. Pois neste exílio de Benurons e cefaleias, um facto benigno ocorreu. Partilhei a humanidade, da qual fui temporariamente apartada, na horizontal do meu sofá, vendo compulsivamente  TV, com o gato aos pés e os lenços de papel por perto. Há que discorrer um pouco sobre este facto de passar três dias a ver TV, sendo que maior parte do tempo estava meia senil de febre. Primeiro dado: Vi um bom filme, entre três ou quatro de que já nem me lembro: “ The Master” do Paul Thomas Anderson. Trata o filme da mistificação das seitas que foram surgindo a eito para o  final da segunda guerra mundial.  Desvario de aldrabices e  ignorância, uma destas seitas intitulada  “A Causa” acaba por ter consequências positivas sobre um desgraçado de um espécimem horripilante que no filme dá pelo nome de Freddi ou Fred…cujo único prazer e desejo na vida era poder estar com uma mulher, isso mesmo a guerra lhe tira, "A Causa" retribui-lhe e vemos, no fim do filme, imagens do seu calvário destruído, numa queca com uma moçoila algures nessas terras americanas cheias de bonés e dentes cariados. O filme conduz-nos e não se apresenta de fácil desfecho, o que só por si, é uma bênção. Um dia, depois do inverno passar, voltarei aqui para vos falar do The Master, porque sim, porque seria bonito.
Mas voltando à TV. A Praça da Alegria, gostei dos fios de ovos logo pela manhã;  do sorriso congelado do rapaz de serviço João Baião; dos olhos verdes da Tânia Ribas de Oliveira  e dos enchidos de uma terreola a norte para onde o entrevistador se deslocava de samarra e chapéu de feltro e de onde saíam grandes  baforadas de fumo cada vez que abria a boca. Por último, nas Notícias, recordo os meus confrangedores irmãos de gripe enchendo as urgências dos hospitais como aves de aviário enchem os bebedouros de penas, verdadeiras penas estas, e um bebedouro (esta comparação é imbecil), a conta gotas,assim se fazia a notícia.

A imagem é um fotograma do filme " The Master" com o Joaquin Phoenix numa pose impressiva.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A troca

Há palavras incómodas que podem fazer-nos enrugar o nariz se as aplicarmos às relações humanas. Trocar, por exemplo,  trocávamos cromos como outros antes de nós trocavam cestas por sementes, trocamos vontades, trocamos o que temos por aquilo de que precisamos. A palavra servia para coisas mas não para sentimentos ou relações. Claro que não podemos trocar sentimentos mas a verdade é que os alimentamos pela troca de mimos e atenções, um sentimento não é uma aura autónoma e prevalecente, é , como tudo, algo com necessidades. Habituamo-nos a pensar de uma certa maneira de acordo com um código moral tacitamente aceite mas muitas vezes esse código não corresponde a nada, está desconectado do mundo. Na amizade e no amor não deve haver troca, diz-se, "a troca está associada a espírito mercantil e não há deve e haver em relações espirituais como o amor e a amizade" diz-se. Todos estes tour de force me parecem piegas e inúteis. A troca corresponde ao mais vital dos impulsos humanos, é com aqueles que estamos próximos que queremos trocar coisas, queremos dar mas também que nos recompensem, que nos dêem em troca, se assim não for a a amizade e o amor podem existir enquanto sentimentos mas começam a ter ressentimento e perplexidade, e ressentimento e perplexidade é o resultado de uma clivagem entre o que necessito e aquilo que recebo. Há prazer na troca, (hoje aparece como "partilha" que é um nome pomposo para o básico). Quase tudo se pode trocar, as nossas necessidades não têm fim e seja de que natureza forem é nelas e na sua satisfação que o prazer nos visita e um dos maiores prazeres é, sem dúvida, trocar coisas com quem amamos ou somos amigos.

FOTO: ALESSANDRA SANGUINETTI

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O estado do mar

Para sermos justos teríamos de admitir que individualmente nós, homens, temos rasgos e que somos imprescindíveis uns aos outros, esta é a boa suposição, perfeita e inatacável. Os actos eremitas seriam bem-vistos por medievais e ainda são, em certos casos, idealizados por mentes confusas com o marulhar "non- sense" da humanidade ruidosa, mas o eremita não deixa de ser, mesmo em sonhos, um selvagem irado ou um louco feliz. Se vivemos em humanidade porque a ela pertencemos e só com ela podemos fazer e falar e alterar e desfazer, sendo nisso que gastamos o labor mundano, não podemos contudo admirar a humanidade, a humanidade nos seus dados materiais e objectivos parece-nos gananciosa, destruidora e cobardolas. Veja-se os encapuçados com câmaras de vídeo filmando as ondas que destroem os carros e levam as esplanadas da costa, veja-se a mesquinhez da coisa, se fosse alguém a ser levado pelas ondas a sua exultação seria, possivelmente, ainda maior, o momento seria precioso para mais tarde recordar. Esta forma tão moderna de se esconder atrás de máquinas é a mesma mania moderna de as pôr por todo o lado para nos dar a sensação de controlo e eficácia mas que perante a natureza explosiva só nos dá a medida de uma inutilidade confrangedora, parecemos macacos cujas cascas vazias das nozes que fomos devorando tivessem crescido tanto que nos tapassem a visão, vivemos no meio do lixo dos nossos artifícios, às vezes, quando a natureza vem, vem forte, e varre de um só impulso as construções erigidas para gáudio do consumo de whisky ao pôr-do-sol com mar ao fundo, temos oportunidade de pensar e quiça perceber. Se calhar esta imbecilidade de instrumentalizar da pior forma a natureza seja culpa da publicidade. Mas, apesar dos estragos serem um aviso ou indício, como parece mais correcto pensar-se, para quem não tem negócios com o mar, apesar da majestade das ondas, a consequência destas pequenas tragédias é nula  para a mudança de hábitos, amanhã voltar-se-á a empurrar o mesmo lixo para perto do mar e,se possível, um pouco mais para dentro.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Beberagem amarga


Segundo Hannah Arendt os filósofos andam a reboque dos cientistas, dizendo e desdizendo sem que das suas teorias contradições e objecções se possa retirar outra conclusão senão a de que é pueril e inútil a sua actividade, não altera nada nem no estado do mundo nem nas relações humanas em geral. Por outro lado a ciência no seu afã produtivo recria a natureza através da captação da sua lei universal mas não nos dá a compreensão do porquê, apenas do como. Curioso como estas suas ideias respondem à minha intuição e ansiedade em relação à Filosofia e à Ciência. Por mais que se fale das  novas descobertas do ADN e da Física de Partículas que me permitem saber com exactidão o meu pai, eu já sabia antes disso, assim como estar aqui a escrever estas imbecilidades numa máquina cara que daqui a uns anitos ( menos, espero, do que aqueles que me aproximam da morte), vai ficar obsoleta, eu já escrevia. O meu ADN e a máquina trocam-se sendo a única diferença uns anitos a mais ou a menos. O que são uns anitos? O mesmo nada do ponto de vista da eternidade. Mas todos sabemos o óbvio, o meu ADN não é o mesmo que uma máquina e eu não sou o meu ADN, mas morrerei, assim como esta máquina não é aquilo que escrevo e morrerá, cada coisa e ser morrem na sua individualidade,enquanto coisas singulares, remetidas para uma identidade fictícia ou científica; a procura de imortalidade ou da eternidade soçobrou, a ciência só nos ensinou isso e a Filosofia sem isso não sabe o que há-de fazer.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Barómetro natalício



Chove e falta dia e meio para o Natal. A gata dorme na sala ainda quente do fogo das noites anteriores. Penso em todas as pessoas de quem gosto e que estão presentes aqui pela casa, gostava de lhes dar um abraço, de trocar duas ou três palavras com elas, e deixo aqui estas minhas vertentes folha, castanhola e clorofila aos seus risos e gestos, aos gostos e às truculências que foram e vão aquecendo a manhã.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nota de rodapé


A racionalização de qualquer acto tem um efeito perverso, normaliza-o, torna-o justificável. Há actos que não podem ser racionalizados,devem permanecer intactos na sua monstruosidade insolúvel e inexplicável. São seres racionais que os pensam e executam mas há seres racionais que não se definem enquanto tal, nem enquanto animais se definem, situam-se antes naquele espaço desvairado e vesgo da compulsividade paranóide. são excrescências. A frase do Terêncio  "Nada do que é humano me é estranho" é falsa. absolutamente falsa. Muitas coisas, é todo um mundo humano que me é estranho e vai permanecer assim até que morra. Também tenho direito a este juízo. ora bem!! Poderá ser também este juízo uma excrescência, haverá quem o pense, se o ler, mas nenhum juízo é tão monstruoso  como um acto.O pensamento torna-nos fracos perante os actos, amolece, disciplina e nomeia o informe, espalha o ódio em parcelas tão pequeninas, que deixa de ser ódio, é um ódio pensado, qualquer coisa que nos envergonha. Será que sem odiar poderei amar? Poderei ser alegre sem ser triste? Poderei verdadeiramente querer compreender se não me recusar, em certos casos, a compreender?

Foto: Bruce Gilden

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Aniversário

O OBVIÁRIO fez seis anos no dia 30 de Novembro!!Yupiii! 

Tanto ano!! 

Agradeço a todos os que por aqui passaram nos últimos seis anos, deixo-vos com Brel. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Entre a essência e o Atlas

o essencial é o quê?o que fica depois de depuradas as particularidades, a nata do leite, as folhas do chá, a molécula, o átomo, o necessário, o substancial?a forma?o sentimento? ou o conceito?fruto da mente ou existência inominável? o que se repete muitas vezes ou aquilo a que se acede uma única vez? Será invisível aos olhos como dizia  o Príncipezinho, ou será apenas o visível, a coisa bruta metamorfoseada, será o estático ou  a própria mudança?e visto que como o amor, pode ser tudo, não deixa de nos atormentar, de um absoluto, de uma sede mas nunca de uma recusa, como se embora não sabendo a sua forma, pudéssemos garantir tratar-se de algo bom e desejável. Tudo a propósito do novo livro do Gonçalo M.Tavares: Atlas do Corpo e da Imaginação que dinamita as essências.Parece um cadáver esquisito, a imagem que me veio à mente, talvez por causa das fotografias de partes do corpo que vêm no interior, remete para aquelas fotografias de corpos cadáveres do Witkin, a aparência é de um livro de anatomia, livro de doenças e deformidades, mas depois a escrita é o contrário, lógica, leve, aforística e sobretudo de um caos pensado, ordenado, se é que isso é possível. Agarrei-o na livraria Barata, há muitos anos que não ia à Barata, naqueles já extintos rituais de Barata e King. literatura e cinema ao sábado à noite. O eco das palavras do Tavares que prefere a conjunção à disjunção. Eu também, prefiro a conjunção à disjunção, daí que este problema da essência envolve já uma disjunção fastidiosa, um ou ou que não se resolve nunca.