Numa certa altura da vida falta-nos tempo, não
porque temos muitas coisas mas porque somos mais lentos e ainda desejamos muito, como se nada nessa
lentidão nos fosse familiar. O motor, a força tempestade, entrou em
desaceleração e a percepção desta súbita mudança faz-nos querer chegar a todos os
lados que o desejo laço tinha preguiçosamente adiado. Antes de parar, de parar
definitivamente. Dentro de mim há também uma figura absorta, uma
marioneta a que temos de puxar pela mão porque se quedou embevecida pela
luz do próprio tempo a passar, assustada pelo absurdo de poder parar, como
quando alguém corre atrás de nós com uma arma e o horror prende-nos as pernas,
não conseguimos fugir, uma espécie de torpor hipnótico, talvez, um rodilho de
silhuetas mudas seguram-se no limite. Os meus dois: o que observa espantado um
outro mergulhado no pântano luminoso, no extravio absíntico da languidez da
queda. Um tem pressa demais e o outro, nenhuma.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
domingo, 4 de maio de 2014
The Killing: Crónica de um assassinato
Esta é uma série que se vê
religiosamente, a terceira temporada passava às terças, 21.45 no AXNBLACK e
nunca um local no sofá foi tão ansiosamente aguardado. De facto, as americanices policiais deixaram de me seduzir, desde os tempos de uma
antiga série, que pouco tem a ver com esta: "Modelo e detective". Eram
todas muito profissionais e previsíveis, com retratos psicológicos estereotipados e recursos ao sexo constantes e repetitivos. Esta lavou o prato dos condimentos enjoativos, veio da Dinamarca e responde sem mácula ao que se espera de um policial: acção, lógica e mistério. Embora sendo produzida em 2007 só
por cá passou, a primeira temporada, em 2012, o atraso é corriqueiro mas
inaceitável, pergunto-me porque temos de aguentar horas de séries americanas
sem interesse e esperamos 3 anos para poder ver um produto dinamarquês de
qualidade notoriamente superior. Andanças do demónio certamente.
A acção passa-se em Copenhaga, a heroína é Sarah Lund, uma inspectora da polícia obcecada com o trabalho, hermética, pouco emotiva, persistente. Nela se concentra a investigação de um assassinato, com avanços e recuos, erros e intuições espantosas. A rede da trama é larga e envolve famílias políticas, pessoas solitárias e grupos de pressão. Um dos factores originais é exactamente esse, a dinâmica entre a pessoa e o grupo, demonstra de forma convincente como a vontade e as vontades, os interesses e o desejo de verdade se podem articular sem que haja um protagonismo redentor de qualquer uma das personagens, todas, por momentos, são influenciadas pelo grupo onde agem e simultaneamente teimam em ter os seus próprios caminhos, mesmo contra todos, numa espécie de alternância caótica em que as consequências de cada acção têm desfechos para além do que pode ser antecipadamente previsto pelo pensamento do grupo ou de um só, como se cada uma das acções ao chocar com outras vontades nos conduza por meandros inesperados. Estou triste por ter acabado a terceira temporada. Neste deserto televisivo de novelas e produtos para consumo instantâneo, uma janela onde o barulho das gentes não é só ruído, faz falta.
A acção passa-se em Copenhaga, a heroína é Sarah Lund, uma inspectora da polícia obcecada com o trabalho, hermética, pouco emotiva, persistente. Nela se concentra a investigação de um assassinato, com avanços e recuos, erros e intuições espantosas. A rede da trama é larga e envolve famílias políticas, pessoas solitárias e grupos de pressão. Um dos factores originais é exactamente esse, a dinâmica entre a pessoa e o grupo, demonstra de forma convincente como a vontade e as vontades, os interesses e o desejo de verdade se podem articular sem que haja um protagonismo redentor de qualquer uma das personagens, todas, por momentos, são influenciadas pelo grupo onde agem e simultaneamente teimam em ter os seus próprios caminhos, mesmo contra todos, numa espécie de alternância caótica em que as consequências de cada acção têm desfechos para além do que pode ser antecipadamente previsto pelo pensamento do grupo ou de um só, como se cada uma das acções ao chocar com outras vontades nos conduza por meandros inesperados. Estou triste por ter acabado a terceira temporada. Neste deserto televisivo de novelas e produtos para consumo instantâneo, uma janela onde o barulho das gentes não é só ruído, faz falta.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Coimbra antes da Páscoa
é suposto admirar este lugar a norte do meu apartamento de três assoalhadas nos subúrbios da grande capital; esta cidade esfingica de secretismo e história, de capas negras e sabedoria. Coimbra reagirá certamente mal a este odor pequeno burguês, que lhe fareja o rasto escondido, este halo de visita turistica sem guia, entre máquina digital e contemplações embevecidas. Ela que foi cantada pelos barbos mais sérios nas curvas do seu mondego triste, nas arcadas e escadarias dos doutores, na eloquência dos seus manifestos onde o regime começou a desfazer-se. E se não fosse o seu passado anti-fascista, teríamos Pedro e Inês, os amores e segredos, a sua tragédia. Talvez estes novos tempos de números e vacuidades clubísticas a tenha desolado e amargado o vinho dos toneis; hoje Coimbra parece-me muda e expectante, só, cenário de uma movimentação a que é alheia, tumular como um velho correndo a guardar os seus pergaminhos e tesouros com a chegada dos vândalos. Há almas assim que não se dão logo, ocultam-se num ponto recuado onde ficam à espera que desistas e te vás. Assim deve ter acontecido, não tive tempo para bater forte com os pés no chão e abrir a gruta, faltou-me ou esqueci esse dom, o dom da palavra que desvela as pedras.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Arsenal
Glória aos Vândalos
Aos tártaros
Aos sândalos
Aos mártires robustos do
apocalipse dos tesos
Às varinas, aos mágicos
Glória soturna e
franca
aos Fantasmas ou rainhas santas
Permeáveis à treva mas
também
Entusiastas da plebe
Eurásia
Eufrásia
Glória Tomásia
Entre nós a máxima a genuína
transumância
Aforística
Ribeira Odalisca entre
frase
Suástica
A bomba pomba rasurada
Sobre um Sol tombado com
mosca
De plástico
Cartolas gigantes
Na Câmara ardente dos génios
Moribundos fonemas
E Ficção
Ficção a rodos para os
presidentes
E para o Povo
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Paródia, abril.
como as praias, os bares são testemunhas da passagem do tempo, a vertente Saturno a funcionar para quem vive por fora do tempo no pensamento e no tempo pelo corpo tem uma tendência obsessiva de marcar a linha sinuosa do antes e do depois, precisa de elaborar um cardápio de lugares onde possa fazer o jogo da Glória pra vida. casa 1, casa 2, cada uma como uma imagem e uma sensação particular inscreve-se poderosa na lembrança para poder parar o tempo ou para o compreender nos fotogramas dos momentos, nas pequenas fronteiras bem delimitadas de espaço tempo. Agora, Abril, o bar Paródia. As margaritas, o cinzeiro do Bordalo Pinheiro cheio de pontas de cigarros até ao filtro e o timbre abafado das vozes, das que se movem como arabescos no éter, das que se deixam apanhar amorosas, na teia dos desejos. Os bares, como as praias, ritualizam-me, amedrontam na sua exigência de cenários perfeitos mas vem deles ou de nós também, o fluir da dolorosa e fina mancha de prazer perdida e retomada não sei bem se no gosto de desmanchar palavras, se no ponto de descobrir formas, de as imaginar entre o quartzo meio negligente da luz.
domingo, 6 de abril de 2014
Vic e Flo viram um urso.
a sala compôs-se, era ainda dia, a textura do filme , a sua coloração amarelada cumpria a do ocaso como algo antigo, uma fotografia velha, quase o mesmo para a escolha dos rostos, para os movimentos da câmara, lentos, pesados, inertes, opacos, expectantes, e os diálogos crus, ou de uma estranha poesia, quão estranha quanto assoma de uma realidadde que parece que a esqueceu em definitivo e para todo o sempre. Árvores e pessoas, um estrebuchar dos corpos contra a fatalidade da natureza nos ligar simetricamente à morte e à vida, carregando um estigma, o que somos resultado do que fomos, o passado desenha a linha do inevitável para quem vive. O amor brotava do seu desespero, do desespero das duas mulheres, forte mas frágil, diante de uma lei implacável, uma impossibilidade de fuga, o amor redime e dá sentido mas abocanha-o o absurdo. No absurdo do mundo nada é sagrado, nada está ao abrigo da voracidade dos homens e das plantas de transformar a vida em morte.
terça-feira, 4 de março de 2014
parece, sinto isso, as palavras emigraram, foram todas para um sítio e lá ficaram cortando amarras com o passado. a escrita minha amiga mais constante e duradoura, tece artimanhas de escape, embora a frase com amiga tenha um odor piegas de confissão um aparato de trivialidade, minh'amiga. corresponde a uma certa forma de viver estes 54 anos.escrever todos os dias, escrever o que faço, escrever o que disse, escrever quem amo. não me orgulho nem me desprezo por isso, há uma superfície lisa como um espelho, incólume ao tempo, aí onde cada um é, e volta a ser a todas as horas, esse espaço ou ardor ou labor pesa. não poderia ser de outro modo, as razões só servem explicações, para quê explicar? cada frase que escrevemos explica-nos mil vezes e apaga-nos. não quero explicar mas fazer uma pausa. restringir para tocar o intervalo onde as recordações são apanhadas como estranhas, seres fugitivos e incaptáveis. hoje dia de carnaval, muitas coisas acontecem ali ao lado nas redes sociais e no mundo também embora quase todas nos sejam invisíveis, acho que nos habituámos mal a pensar que podíamos aceder ao principal, a facilidade adormece e enjoa, agora.
foto Edward Weston
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
pormenor
Radiante foi ver o céu hoje, laranja, roxo, rosa, azul, havemos de nos alegrar com os raios de sol e com as vagas do mar,com as azedas no campo e com as dunas da praia, a natureza tem uma grandiosidade que se admira como coisa antiga cujo eco perdura, agora que a humanidade perdeu de vista os grandes gestos, a generosidade sem condições ou a verdade sem omissões. Organizamo-nos como formigas cegas, enterrámos as cigarras. Temos líderes como os cães têm pulgas e o resto é mar, é tudo o que não sei contar.
A pintura é de Courbet
domingo, 9 de fevereiro de 2014
tempestade
Porque será que as tempestades têm nome de pessoa se as descrevemos à régua e ao
esquadro? Ondulação de 11 metros, ventos de 130Km, leito dos rios cresce 6
metros, população e orla marítima em estado de alerta. Lembro os quadros do
Turner, as vagas, os relâmpagos e os homens indefesos e arrepio-me desta forma
de transmitir a informação tão alarmista e cinzenta. Por detrás da
pretendida ciência dos números há o resgatar da identidade da coisa natural, a neutralidade da descrição é um cavalo cego, não há neutralidade, há só pretensão e uniformidade. Como se os números nos dessem a ilusão de controlo e
de conhecimento. Nada. Os números não são sinónimo de domínio coisa nenhuma,
são só sinal de falta de ideias, de falta de poesia, de falta de grandiosidade
na descrição. Esta omnipresença dos números é tão ilusória como manipuladora.
Eis a tempestade: os ventos assobiam nas frinchas mal vedadas das janelas, o
recolhimento da noite transformou a tempestade em som, arabescos de árvores a
bater contra os vidros. E nós reinantes de chaves à cinta encolhemo-nos no
sofá, deixamos os olhos crescer para o que a noite não deixa ver. Stop
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
A força bruta do capitalismo selvagem
Já vivemos o suficiente para antecipar consequências de certas tendências. não é preciso ser monge para intuir o que nos espera, é mais de pistoleiro pôr-se com caçadeira de canos cerrados aos tiros a tudo para afugentar o mal estar, o salário reduzido, a falta de gosto verdadeiro. Hoje sobram indignados e esta força da indignação que escorre nos discursos prolifera por todo o lado, o meu não é excepção, esgota-se a seiva da acção, apropriamo-nos do discurso como o pistoleiro da arma, mas nada atingimos senão o esgotar da raiva ou diminui-la, a comunicação que hoje parece correr acelerada e em caudal furioso é, perdoem-me a expressão, um efeito mistificador, de facto, na realidade, nada acontece e nada depois, enfim, de qualquer forma, muda. A autoridade do discurso acabou e com ela uma forma preciosa de liberdade.
A questão parece-me que é fácil de compreender, passa pela subversão do verdadeiro poder dos indivíduos, o poder de estarem juntos e de lutarem juntos por qualquer coisa, a desconfiança nos negócios públicos começa com as mediações da esfera privada, o privado torna-se no espaço de liberdade, no sentido em que nele, só nele, podemos preservar-nos da uniformização e furtar-nos silenciosamente ao ruído omnipresente. A propaganda ideológica do capitalismo tem este efeito reduzir-nos ao privado, atestar os nossos lares coelheiras dos mais sofisticados aparelhos para nos entretermos no nosso labor de formigas desossadas e acabrunhadas. Presas fáceis do consumo, que vamos amontoando a um canto, nós os indignados corremos de um lado para o outro entre a produção e o consumo, entre os dois comunicamos através de aparelhos e cobiçamos outros mais virtuosos e caros para nos sentirmos seguros. A multiplicação infinita dos nossos discursos individuais dá-nos a ilusão que comunicamos para o mundo inteiro ou para uma plataforma alargada mas a nossa comunidade virtual não é uma comunidade, mas um gazeamento comunicacional, todos falam ao mesmo tempo num prolongamento do eu, um prolongamento da sua vida privada mas não para um espaço público. Presas do consumo, ainda porque a ele estamos sujeitos em todas as esferas da nossa "privacidade" invadida. deixamos de frequentar o cinema e o teatro, o café e a tasca, deixamos os rituais comunitários, as refeições, as festas. Não nos revemos em nenhum grupo, nem nos revemos no Estado, nem nos soberanos nem nos súbditos, julgamos ter poder por podermos dizer tudo o que pensamos, mas já não pensamos muito, reagimos. O pensamento é fastidioso, moroso, ninguém aguenta, já estamos noutra ainda nem sabemos qual.
Foto: Rodney Smith
Foto: Rodney Smith
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Que se proíba as praxes de vez.Haja coragem política.
Não
me importa que se fale ao abrigo da onda, que todos falem do mesmo, ou
que seja mesmo pelo cansaço que a cretinice e o silêncio vençam sobre a
indignação. não há que ponderar nada nem fazer de conta que a vida
universitária deve ser tratada tal e tal, nestes casos em que se pode ser democrata porque não custa nada, não está dinheiro em jogo, na verdade quando se trata de
dinheiro não há diálogo nem democracia,os nossos governantes
aplicam as regras da mercearia e o resto que se amole, corta-se a eito e não se
pede licença. mas agora com as praxes é um "com licença se
faz favor" vamos debater. Debater o quê? Alguém debateu os cortes autoritários
das bolsas de investigação? Alguém debateu os cortes orçamentais às faculdades? Agora há mortes associadas a praxes, os sobram indícios de abusos e
crimes cometidos ao abrigo desta aberração dita universitária, casos abafados de Alunos que se queixam, mas o governo vai debater, agora que o assunto lhe é perfeitamente indiferente parece muito respeitador das aberrações que foram criando bicho à conta da indiferença e do paternalismo. Proíba-se de
vez esta palhaçada, há razões mais que suficientes, haja coragem de defender pela lei o que está correcto .
O caso do Meco tem contornos de grande tragédia mas as Erínias da vingança, estas mães que clamariam sangue para restituir o equilíbrio que foi destruído, estão sós, esperando um golpe de misericórdia, contemporizando num inexplicável e medonho caso de morte simétrica, seis, todos os participantes a morrer enquanto se safa um chefe de praxe, que faz voto de silêncio. Quem restitui o equilíbrio? Nada, parece só sobrar uma inócua revolta. o que não deixa grande espaço para acidente, por ser tudo demasiado simétrico. Quero eu dizer, que o acidente é sempre qualquer coisa de que se fala logo com espanto mas que se compreende num quadro circunstancial, enquanto aqui está tudo para compreender, tudo para explicar, adia-se a investigação, a coberto de quê? Quanto às praxes já aqui me apeteceu vomitar sobre este quebranto e esta aquietação das instituições para proteger estes rituais macabros. Escrevi sobre isso enquanto as minhas sobrinhas declaravam alegremente que andaram a rastejar e a comer alho cru a mando dos "padrinhos" e o nome diz tudo.
O caso do Meco tem contornos de grande tragédia mas as Erínias da vingança, estas mães que clamariam sangue para restituir o equilíbrio que foi destruído, estão sós, esperando um golpe de misericórdia, contemporizando num inexplicável e medonho caso de morte simétrica, seis, todos os participantes a morrer enquanto se safa um chefe de praxe, que faz voto de silêncio. Quem restitui o equilíbrio? Nada, parece só sobrar uma inócua revolta. o que não deixa grande espaço para acidente, por ser tudo demasiado simétrico. Quero eu dizer, que o acidente é sempre qualquer coisa de que se fala logo com espanto mas que se compreende num quadro circunstancial, enquanto aqui está tudo para compreender, tudo para explicar, adia-se a investigação, a coberto de quê? Quanto às praxes já aqui me apeteceu vomitar sobre este quebranto e esta aquietação das instituições para proteger estes rituais macabros. Escrevi sobre isso enquanto as minhas sobrinhas declaravam alegremente que andaram a rastejar e a comer alho cru a mando dos "padrinhos" e o nome diz tudo.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
O inverno do meu descontentamento
Estive três
dias de cama com gripe, gripe dos homens não das aves. Se fosse das aves diria,
não há aqui qualquer pudor de espécie, mas não foi, foi gripe versão para
humanos de boa vontade. Gripe para gastar a boa vontade de qualquer idiota. Pois
neste exílio de Benurons e cefaleias, um facto benigno ocorreu. Partilhei a
humanidade, da qual fui temporariamente apartada, na
horizontal do meu sofá, vendo compulsivamente TV, com o gato aos pés e os lenços de papel por perto. Há
que discorrer um pouco sobre este facto de passar três dias a ver TV, sendo que
maior parte do tempo estava meia senil de febre. Primeiro dado: Vi um bom
filme, entre três ou quatro de que já nem me lembro: “ The Master” do Paul
Thomas Anderson. Trata o filme da mistificação das seitas que foram surgindo a
eito para o final da segunda guerra
mundial. Desvario de aldrabices e ignorância, uma destas seitas intitulada “A Causa” acaba por ter consequências positivas sobre um desgraçado de
um espécimem horripilante que no
filme dá pelo nome de Freddi ou Fred…cujo único prazer e desejo na vida era poder estar com uma mulher, isso mesmo a guerra lhe tira, "A Causa" retribui-lhe e vemos, no fim do filme, imagens do seu calvário destruído, numa queca com uma moçoila algures nessas
terras americanas cheias de bonés e dentes cariados. O filme conduz-nos e não
se apresenta de fácil desfecho, o que só por si, é uma bênção.
Um dia, depois do inverno passar, voltarei aqui para vos falar do The Master,
porque sim, porque seria bonito.
Mas voltando
à TV. A Praça da Alegria, gostei dos fios de ovos logo pela manhã; do sorriso
congelado do rapaz de serviço João Baião; dos olhos verdes da Tânia Ribas de Oliveira e dos enchidos de uma terreola a norte para
onde o entrevistador se deslocava de samarra e chapéu de feltro e de onde saíam
grandes baforadas de fumo cada vez que
abria a boca. Por último, nas Notícias, recordo os meus confrangedores irmãos de gripe enchendo as urgências dos hospitais como aves de aviário enchem os bebedouros
de penas, verdadeiras penas estas, e um bebedouro (esta comparação é imbecil), a conta gotas,assim se fazia a notícia.
A imagem é um fotograma do filme " The Master" com o Joaquin Phoenix numa pose impressiva.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
A troca
Há palavras incómodas que podem fazer-nos enrugar o nariz se as aplicarmos às relações humanas. Trocar, por exemplo, trocávamos cromos como outros antes de nós trocavam cestas por sementes, trocamos vontades, trocamos o que temos por aquilo de que precisamos. A palavra servia para coisas mas não para sentimentos ou relações. Claro que não podemos trocar sentimentos mas a verdade é que os alimentamos pela troca de mimos e atenções, um sentimento não é uma aura autónoma e prevalecente, é , como tudo, algo com necessidades. Habituamo-nos a pensar de uma certa maneira de acordo com um código moral tacitamente aceite mas muitas vezes esse código não corresponde a nada, está desconectado do mundo. Na amizade e no amor não deve haver troca, diz-se, "a troca está associada a espírito mercantil e não há deve e haver em relações espirituais como o amor e a amizade" diz-se. Todos estes tour de force me parecem piegas e inúteis. A troca corresponde ao mais vital dos impulsos humanos, é com aqueles que estamos próximos que queremos trocar coisas, queremos dar mas também que nos recompensem, que nos dêem em troca, se assim não for a a amizade e o amor podem existir enquanto sentimentos mas começam a ter ressentimento e perplexidade, e ressentimento e perplexidade é o resultado de uma clivagem entre o que necessito e aquilo que recebo. Há prazer na troca, (hoje aparece como "partilha" que é um nome pomposo para o básico). Quase tudo se pode trocar, as nossas necessidades não têm fim e seja de que natureza forem é nelas e na sua satisfação que o prazer nos visita e um dos maiores prazeres é, sem dúvida, trocar coisas com quem amamos ou somos amigos.
FOTO: ALESSANDRA SANGUINETTI
FOTO: ALESSANDRA SANGUINETTI
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
O estado do mar
Para sermos
justos teríamos de admitir que individualmente nós, homens, temos rasgos e que
somos imprescindíveis uns aos outros, esta é a boa suposição, perfeita e
inatacável. Os actos eremitas seriam bem-vistos por medievais e ainda são, em
certos casos, idealizados por mentes confusas com o marulhar "non-
sense" da humanidade ruidosa, mas o eremita não deixa de ser, mesmo em
sonhos, um selvagem irado ou um louco feliz. Se vivemos em humanidade porque a
ela pertencemos e só com ela podemos fazer e falar e alterar e desfazer, sendo
nisso que gastamos o labor mundano, não podemos contudo admirar a humanidade, a
humanidade nos seus dados materiais e objectivos parece-nos gananciosa,
destruidora e cobardolas. Veja-se os encapuçados com câmaras de vídeo filmando
as ondas que destroem os carros e levam as esplanadas da costa, veja-se a
mesquinhez da coisa, se fosse alguém a ser levado pelas ondas a sua exultação seria, possivelmente, ainda maior, o momento seria precioso para mais tarde recordar. Esta forma tão moderna
de se esconder atrás de máquinas é a mesma mania moderna de as pôr por todo o
lado para nos dar a sensação de controlo e eficácia mas que perante a natureza
explosiva só nos dá a medida de uma inutilidade confrangedora, parecemos
macacos cujas cascas vazias das nozes que fomos devorando tivessem crescido
tanto que nos tapassem a visão, vivemos no meio do lixo dos nossos artifícios, às
vezes, quando a natureza vem, vem forte, e varre de um só
impulso as construções erigidas para gáudio do consumo de whisky ao pôr-do-sol
com mar ao fundo, temos oportunidade de pensar e quiça perceber. Se calhar esta imbecilidade de instrumentalizar da
pior forma a natureza seja culpa da publicidade. Mas, apesar dos estragos serem um aviso ou indício, como parece mais correcto pensar-se, para quem não tem negócios com o mar, apesar da majestade das
ondas, a consequência destas pequenas tragédias é nula para a mudança de hábitos, amanhã voltar-se-á a
empurrar o mesmo lixo para perto do mar e,se possível, um pouco mais para dentro.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Beberagem amarga
Segundo
Hannah Arendt os filósofos andam a reboque dos cientistas, dizendo e desdizendo
sem que das suas teorias contradições e objecções se possa
retirar outra conclusão senão a de que é pueril e inútil a sua actividade, não altera nada nem no estado do mundo nem nas relações humanas em geral. Por outro lado a ciência no
seu afã produtivo recria a natureza através da captação da sua lei universal
mas não nos dá a compreensão do porquê, apenas do como. Curioso como estas suas
ideias respondem à minha intuição e ansiedade em relação à Filosofia e à
Ciência. Por mais que se fale das novas descobertas do ADN e da Física de Partículas que me permitem saber com exactidão o meu pai, eu já sabia antes disso, assim como estar aqui a escrever estas imbecilidades numa
máquina cara que daqui a uns anitos ( menos, espero, do que aqueles que me
aproximam da morte), vai ficar obsoleta, eu já escrevia. O meu
ADN e a máquina trocam-se sendo a única diferença uns anitos a mais ou a menos. O que são uns anitos? O mesmo nada do ponto de vista da eternidade. Mas todos sabemos o óbvio, o meu ADN não é o mesmo que uma máquina e eu não sou o meu ADN, mas
morrerei, assim como esta máquina não é aquilo que escrevo e morrerá, cada
coisa e ser morrem na sua individualidade,enquanto coisas singulares, remetidas para uma identidade fictícia ou científica; a procura de imortalidade ou da eternidade soçobrou, a ciência só nos ensinou isso e a Filosofia sem isso não sabe o que há-de fazer.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Barómetro natalício
Chove e falta dia e meio para o Natal. A gata dorme na sala ainda quente do fogo das noites anteriores. Penso em todas as pessoas de quem gosto e que estão presentes aqui pela casa, gostava de lhes dar um abraço, de trocar duas ou três palavras com elas, e deixo aqui estas minhas vertentes folha, castanhola e clorofila aos seus risos e gestos, aos gostos e às truculências que foram e vão aquecendo a manhã.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Nota de rodapé
A racionalização de qualquer acto tem um efeito perverso, normaliza-o, torna-o justificável. Há actos que não podem ser racionalizados,devem permanecer intactos na sua monstruosidade insolúvel e inexplicável. São seres racionais que os pensam e executam mas há seres racionais que não se definem enquanto tal, nem enquanto animais se definem, situam-se antes naquele espaço desvairado e vesgo da compulsividade paranóide. são excrescências. A frase do Terêncio "Nada do que é humano me é estranho" é falsa. absolutamente falsa. Muitas coisas, é todo um mundo humano que me é estranho e vai permanecer assim até que morra. Também tenho direito a este juízo. ora bem!! Poderá ser também este juízo uma excrescência, haverá quem o pense, se o ler, mas nenhum juízo é tão monstruoso como um acto.O pensamento torna-nos fracos perante os actos, amolece, disciplina e nomeia o informe, espalha o ódio em parcelas tão pequeninas, que deixa de ser ódio, é um ódio pensado, qualquer coisa que nos envergonha. Será que sem odiar poderei amar? Poderei ser alegre sem ser triste? Poderei verdadeiramente querer compreender se não me recusar, em certos casos, a compreender?
Foto: Bruce Gilden
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Aniversário
O OBVIÁRIO fez seis anos no dia 30 de Novembro!!Yupiii!
Tanto ano!!
Agradeço a todos os que por aqui passaram nos últimos seis anos, deixo-vos com Brel.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Entre a essência e o Atlas
o essencial é o quê?o que fica depois de depuradas as particularidades, a nata do leite, as folhas do chá, a molécula, o átomo, o necessário, o substancial?a forma?o sentimento? ou o conceito?fruto da mente ou existência inominável? o que se repete muitas vezes ou aquilo a que se acede uma única vez? Será invisível aos olhos como dizia o Príncipezinho, ou será apenas o visível, a coisa bruta metamorfoseada, será o estático ou a própria mudança?e visto que como o amor, pode ser tudo, não deixa de nos atormentar, de um absoluto, de uma sede mas nunca de uma recusa, como se embora não sabendo a sua forma, pudéssemos garantir tratar-se de algo bom e desejável. Tudo a propósito do novo livro do Gonçalo M.Tavares: Atlas do Corpo e da Imaginação que dinamita as essências.Parece um cadáver esquisito, a imagem que me veio à mente, talvez por causa das fotografias de partes do corpo que vêm no interior, remete para aquelas fotografias de corpos cadáveres do Witkin, a aparência é de um livro de anatomia, livro de doenças e deformidades, mas depois a escrita é o contrário, lógica, leve, aforística e sobretudo de um caos pensado, ordenado, se é que isso é possível. Agarrei-o na livraria Barata, há muitos anos que não ia à Barata, naqueles já extintos rituais de Barata e King. literatura e cinema ao sábado à noite. O eco das palavras do Tavares que prefere a conjunção à disjunção. Eu também, prefiro a conjunção à disjunção, daí que este problema da essência envolve já uma disjunção fastidiosa, um ou ou que não se resolve nunca.
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