quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Ligação directa
Andei repisando a faixa móbil de um desespero
sem trinco
camada de gafanhotos cegos
zumbindo
fiz ligação directa
até à terra inteira e a Deus
sem mediação
sem passar por este ou aquele
tentei universos galáxias
mas sendo que nenhum dos inertes aprofundou
o teorema antigo que me vincava a testa
retirei.me à esfera
Oh sequestrados do sonho!
bramia o estilete verbal da Natália
mas tinha comido ostras
lambido os dedos
atirado as espinhas para longe
(que mais me restaria?-disse)
a dor ciática a lembrança vaga
num ar de toilette inacabado
e a foice
Fiz ligação directa
ao colo de flores brandas
de palavras abertas no orvalho.
Ofelizei-me até o rio dar duas voltas e entrar-me nas lágrimas
como uma mecha acesa.
domingo, 28 de setembro de 2014
Diatribes
II
Vi Bishop deslumbrar-se.
Furiosa virgem aterrada
Sobre a nobre paisagem do sul,
a paisagem das carcaças crianças
que remedeiam a pobreza com a alegria.
Vi-a desperdiçar o mundo por uma frase,
mas qualquer lágrima vale mais
que um magnífico tratado de ergonomia sentimental.
Tomamos sempre partido pelos que sofrem.
Arrogância talvez futurologia
Consignada à assinatura autoral
Bebo-te Bishop.
Alimento-me dos ácaros da tua roupa
Da linha escura entre a unha alada
E o sabugo
Alimento meu corpo fidalgo
meu corpo ritmo de samba
meu corpo ritmo de samba
Adiado
na história da tua imaculada concepção.
Também em ti houve o milagre
Sem sémen
da concepção virgem.
O rio não pára.
São assim mesmo as regras
Da narrativa
III
Atiro-te a primeira pedra
Poderás ripostar
Andei de marcha atrás na estrada recta
Até te avistar
nua ou ensonada
nua ou ensonada
na cama pomba onde muitos espreitaram
mas nenhum rolou a carne em sangue
sobre os lençóis muralhas
sobre os lençóis muralhas
Tu aí, ensonada ou nua
Tanto faz
Abrindo a boca rosa
Sobre a arcaica humanidade de pinóquios falantes
(Senhor, livrai-nos do mal das palavras!)
Tu
Ensonada ou nua
Tanto faz
Sobre a mágoa do meu corpo
Caminhando sobre as águas
Tu em mim sobre mim
Ou nós ou eu só
sobre as águas.
ainda sem nome
Interpreta-me mal
Eu não consigo respirar sem o traço limpo da esperança
Entendo que cada uma das frases já feriu de morte uma dor
E voltou a feri-la por a ter esquecido ou ignorado
Somos culpados mesmo do esquecimento, vê
sempre foi uma disposição
aceitar que a água não pode lavar
Nem o esquecimento apagar.
Caminho onde há guerra.
Caminho onde a guerra começou.
Primeiro o desentendimento preparou tisanas,
depois, serras de arame.
Deus nos livre de pensar
Encontrar a liberdade plana
De uma frase abandonada
Uma que caiu entre
tantas
e do chão testemunhou
O dilúvio do sentido
talhar,
madrugada dentro,
tábuas de uma ponte
que nunca concluiu
sexta-feira, 4 de julho de 2014
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Comunicação e fingimento
Anna Magnani
No palco a repetição dos gestos, das frases, dos olhares, até dos sentimentos, é intencional, armada antecipadamente, pensada como rede artificial para apanhar o peixe espectador. Arte de representar a vida escolhendo dela o que se quer. Generoso, o actor entrega-se à personagem criando por momentos uma nova vida, oferencendo-a aos que ali estão fazendo-os viver de novo,voltar atrás, fechar os olhos, imaginar. Actualmente, o Teatro reflecte o mundo social de indivíduos muito preocupados com a autenticidade, o fingimento é de evitar, só que em teatro o toque, o passe de magia, é ser autêntico no fingimento. Helas!!! Há portanto uma pedra na linguagem da representação, os actores olham-se narcisicamente, não esperam convencer ninguém, exibem a sua arte, pela arte. Ora a Arte é sobretudo comunicação, falha a comunicação e falha a Arte. Saudades da Magnani. Volta! Estás perdoada!!
domingo, 22 de junho de 2014
Miguel, aqui te choramos.
Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,
este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.
Horácio
sábado, 21 de junho de 2014
quarta-feira, 18 de junho de 2014
sábado, 14 de junho de 2014
Freud disse bem.
"Expressando-o de modo sucinto, existem duas características humanas
muito difundidas, responsáveis pelo facto dos regulamentos da
civilização só poderem ser mantidos através de um certo grau de coerção, a
saber, que os homens não são espontaneamente amantes do trabalho e que
os argumentos não têm valia alguma contra suas paixões."
Freud, O mal estar na civilização
BINGO!!!
O Chicote ou a ameaça parecem ser as únicas formas de levar as massas ao trabalho pois argumentos são impotentes contra paixões. Depois, para disfarçar a imposição violenta, dão-nos circo. Grandes espectáculos para adormecer as dores. Estaria tudo bem se não estivesse tudo amordaçado sob o manto de um despotismo encoberto. Abram a brecha e solta-se a besta. Esta técnica sem dúvida que deu resultados na produção de melhores condições materiais (para alguns!! acrecente-se) mas na justiça e equilíbrio das relações humanas, à escala global, estamos na mais genuína selvageria.
domingo, 8 de junho de 2014
ETNA
É verdade que as gatas têm três cores e os gatos apenas duas. Também é verdade que um gato não é um cão, não ladra, por exemplo, mas há uma verdade melhor a revelar: a graça, a fidelidade, a perseverança, a ternura. Dessas qualidades se faz um amigo. Um amigo sólido.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
capicua
Numa certa altura da vida falta-nos tempo, não
porque temos muitas coisas mas porque somos mais lentos e ainda desejamos muito, como se nada nessa
lentidão nos fosse familiar. O motor, a força tempestade, entrou em
desaceleração e a percepção desta súbita mudança faz-nos querer chegar a todos os
lados que o desejo laço tinha preguiçosamente adiado. Antes de parar, de parar
definitivamente. Dentro de mim há também uma figura absorta, uma
marioneta a que temos de puxar pela mão porque se quedou embevecida pela
luz do próprio tempo a passar, assustada pelo absurdo de poder parar, como
quando alguém corre atrás de nós com uma arma e o horror prende-nos as pernas,
não conseguimos fugir, uma espécie de torpor hipnótico, talvez, um rodilho de
silhuetas mudas seguram-se no limite. Os meus dois: o que observa espantado um
outro mergulhado no pântano luminoso, no extravio absíntico da languidez da
queda. Um tem pressa demais e o outro, nenhuma.
domingo, 4 de maio de 2014
The Killing: Crónica de um assassinato
Esta é uma série que se vê
religiosamente, a terceira temporada passava às terças, 21.45 no AXNBLACK e
nunca um local no sofá foi tão ansiosamente aguardado. De facto, as americanices policiais deixaram de me seduzir, desde os tempos de uma
antiga série, que pouco tem a ver com esta: "Modelo e detective". Eram
todas muito profissionais e previsíveis, com retratos psicológicos estereotipados e recursos ao sexo constantes e repetitivos. Esta lavou o prato dos condimentos enjoativos, veio da Dinamarca e responde sem mácula ao que se espera de um policial: acção, lógica e mistério. Embora sendo produzida em 2007 só
por cá passou, a primeira temporada, em 2012, o atraso é corriqueiro mas
inaceitável, pergunto-me porque temos de aguentar horas de séries americanas
sem interesse e esperamos 3 anos para poder ver um produto dinamarquês de
qualidade notoriamente superior. Andanças do demónio certamente.
A acção passa-se em Copenhaga, a heroína é Sarah Lund, uma inspectora da polícia obcecada com o trabalho, hermética, pouco emotiva, persistente. Nela se concentra a investigação de um assassinato, com avanços e recuos, erros e intuições espantosas. A rede da trama é larga e envolve famílias políticas, pessoas solitárias e grupos de pressão. Um dos factores originais é exactamente esse, a dinâmica entre a pessoa e o grupo, demonstra de forma convincente como a vontade e as vontades, os interesses e o desejo de verdade se podem articular sem que haja um protagonismo redentor de qualquer uma das personagens, todas, por momentos, são influenciadas pelo grupo onde agem e simultaneamente teimam em ter os seus próprios caminhos, mesmo contra todos, numa espécie de alternância caótica em que as consequências de cada acção têm desfechos para além do que pode ser antecipadamente previsto pelo pensamento do grupo ou de um só, como se cada uma das acções ao chocar com outras vontades nos conduza por meandros inesperados. Estou triste por ter acabado a terceira temporada. Neste deserto televisivo de novelas e produtos para consumo instantâneo, uma janela onde o barulho das gentes não é só ruído, faz falta.
A acção passa-se em Copenhaga, a heroína é Sarah Lund, uma inspectora da polícia obcecada com o trabalho, hermética, pouco emotiva, persistente. Nela se concentra a investigação de um assassinato, com avanços e recuos, erros e intuições espantosas. A rede da trama é larga e envolve famílias políticas, pessoas solitárias e grupos de pressão. Um dos factores originais é exactamente esse, a dinâmica entre a pessoa e o grupo, demonstra de forma convincente como a vontade e as vontades, os interesses e o desejo de verdade se podem articular sem que haja um protagonismo redentor de qualquer uma das personagens, todas, por momentos, são influenciadas pelo grupo onde agem e simultaneamente teimam em ter os seus próprios caminhos, mesmo contra todos, numa espécie de alternância caótica em que as consequências de cada acção têm desfechos para além do que pode ser antecipadamente previsto pelo pensamento do grupo ou de um só, como se cada uma das acções ao chocar com outras vontades nos conduza por meandros inesperados. Estou triste por ter acabado a terceira temporada. Neste deserto televisivo de novelas e produtos para consumo instantâneo, uma janela onde o barulho das gentes não é só ruído, faz falta.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Coimbra antes da Páscoa
é suposto admirar este lugar a norte do meu apartamento de três assoalhadas nos subúrbios da grande capital; esta cidade esfingica de secretismo e história, de capas negras e sabedoria. Coimbra reagirá certamente mal a este odor pequeno burguês, que lhe fareja o rasto escondido, este halo de visita turistica sem guia, entre máquina digital e contemplações embevecidas. Ela que foi cantada pelos barbos mais sérios nas curvas do seu mondego triste, nas arcadas e escadarias dos doutores, na eloquência dos seus manifestos onde o regime começou a desfazer-se. E se não fosse o seu passado anti-fascista, teríamos Pedro e Inês, os amores e segredos, a sua tragédia. Talvez estes novos tempos de números e vacuidades clubísticas a tenha desolado e amargado o vinho dos toneis; hoje Coimbra parece-me muda e expectante, só, cenário de uma movimentação a que é alheia, tumular como um velho correndo a guardar os seus pergaminhos e tesouros com a chegada dos vândalos. Há almas assim que não se dão logo, ocultam-se num ponto recuado onde ficam à espera que desistas e te vás. Assim deve ter acontecido, não tive tempo para bater forte com os pés no chão e abrir a gruta, faltou-me ou esqueci esse dom, o dom da palavra que desvela as pedras.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Arsenal
Glória aos Vândalos
Aos tártaros
Aos sândalos
Aos mártires robustos do
apocalipse dos tesos
Às varinas, aos mágicos
Glória soturna e
franca
aos Fantasmas ou rainhas santas
Permeáveis à treva mas
também
Entusiastas da plebe
Eurásia
Eufrásia
Glória Tomásia
Entre nós a máxima a genuína
transumância
Aforística
Ribeira Odalisca entre
frase
Suástica
A bomba pomba rasurada
Sobre um Sol tombado com
mosca
De plástico
Cartolas gigantes
Na Câmara ardente dos génios
Moribundos fonemas
E Ficção
Ficção a rodos para os
presidentes
E para o Povo
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Paródia, abril.
como as praias, os bares são testemunhas da passagem do tempo, a vertente Saturno a funcionar para quem vive por fora do tempo no pensamento e no tempo pelo corpo tem uma tendência obsessiva de marcar a linha sinuosa do antes e do depois, precisa de elaborar um cardápio de lugares onde possa fazer o jogo da Glória pra vida. casa 1, casa 2, cada uma como uma imagem e uma sensação particular inscreve-se poderosa na lembrança para poder parar o tempo ou para o compreender nos fotogramas dos momentos, nas pequenas fronteiras bem delimitadas de espaço tempo. Agora, Abril, o bar Paródia. As margaritas, o cinzeiro do Bordalo Pinheiro cheio de pontas de cigarros até ao filtro e o timbre abafado das vozes, das que se movem como arabescos no éter, das que se deixam apanhar amorosas, na teia dos desejos. Os bares, como as praias, ritualizam-me, amedrontam na sua exigência de cenários perfeitos mas vem deles ou de nós também, o fluir da dolorosa e fina mancha de prazer perdida e retomada não sei bem se no gosto de desmanchar palavras, se no ponto de descobrir formas, de as imaginar entre o quartzo meio negligente da luz.
domingo, 6 de abril de 2014
Vic e Flo viram um urso.
a sala compôs-se, era ainda dia, a textura do filme , a sua coloração amarelada cumpria a do ocaso como algo antigo, uma fotografia velha, quase o mesmo para a escolha dos rostos, para os movimentos da câmara, lentos, pesados, inertes, opacos, expectantes, e os diálogos crus, ou de uma estranha poesia, quão estranha quanto assoma de uma realidadde que parece que a esqueceu em definitivo e para todo o sempre. Árvores e pessoas, um estrebuchar dos corpos contra a fatalidade da natureza nos ligar simetricamente à morte e à vida, carregando um estigma, o que somos resultado do que fomos, o passado desenha a linha do inevitável para quem vive. O amor brotava do seu desespero, do desespero das duas mulheres, forte mas frágil, diante de uma lei implacável, uma impossibilidade de fuga, o amor redime e dá sentido mas abocanha-o o absurdo. No absurdo do mundo nada é sagrado, nada está ao abrigo da voracidade dos homens e das plantas de transformar a vida em morte.
terça-feira, 4 de março de 2014
parece, sinto isso, as palavras emigraram, foram todas para um sítio e lá ficaram cortando amarras com o passado. a escrita minha amiga mais constante e duradoura, tece artimanhas de escape, embora a frase com amiga tenha um odor piegas de confissão um aparato de trivialidade, minh'amiga. corresponde a uma certa forma de viver estes 54 anos.escrever todos os dias, escrever o que faço, escrever o que disse, escrever quem amo. não me orgulho nem me desprezo por isso, há uma superfície lisa como um espelho, incólume ao tempo, aí onde cada um é, e volta a ser a todas as horas, esse espaço ou ardor ou labor pesa. não poderia ser de outro modo, as razões só servem explicações, para quê explicar? cada frase que escrevemos explica-nos mil vezes e apaga-nos. não quero explicar mas fazer uma pausa. restringir para tocar o intervalo onde as recordações são apanhadas como estranhas, seres fugitivos e incaptáveis. hoje dia de carnaval, muitas coisas acontecem ali ao lado nas redes sociais e no mundo também embora quase todas nos sejam invisíveis, acho que nos habituámos mal a pensar que podíamos aceder ao principal, a facilidade adormece e enjoa, agora.
foto Edward Weston
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
pormenor
Radiante foi ver o céu hoje, laranja, roxo, rosa, azul, havemos de nos alegrar com os raios de sol e com as vagas do mar,com as azedas no campo e com as dunas da praia, a natureza tem uma grandiosidade que se admira como coisa antiga cujo eco perdura, agora que a humanidade perdeu de vista os grandes gestos, a generosidade sem condições ou a verdade sem omissões. Organizamo-nos como formigas cegas, enterrámos as cigarras. Temos líderes como os cães têm pulgas e o resto é mar, é tudo o que não sei contar.
A pintura é de Courbet
domingo, 9 de fevereiro de 2014
tempestade
Porque será que as tempestades têm nome de pessoa se as descrevemos à régua e ao
esquadro? Ondulação de 11 metros, ventos de 130Km, leito dos rios cresce 6
metros, população e orla marítima em estado de alerta. Lembro os quadros do
Turner, as vagas, os relâmpagos e os homens indefesos e arrepio-me desta forma
de transmitir a informação tão alarmista e cinzenta. Por detrás da
pretendida ciência dos números há o resgatar da identidade da coisa natural, a neutralidade da descrição é um cavalo cego, não há neutralidade, há só pretensão e uniformidade. Como se os números nos dessem a ilusão de controlo e
de conhecimento. Nada. Os números não são sinónimo de domínio coisa nenhuma,
são só sinal de falta de ideias, de falta de poesia, de falta de grandiosidade
na descrição. Esta omnipresença dos números é tão ilusória como manipuladora.
Eis a tempestade: os ventos assobiam nas frinchas mal vedadas das janelas, o
recolhimento da noite transformou a tempestade em som, arabescos de árvores a
bater contra os vidros. E nós reinantes de chaves à cinta encolhemo-nos no
sofá, deixamos os olhos crescer para o que a noite não deixa ver. Stop
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
A força bruta do capitalismo selvagem
Já vivemos o suficiente para antecipar consequências de certas tendências. não é preciso ser monge para intuir o que nos espera, é mais de pistoleiro pôr-se com caçadeira de canos cerrados aos tiros a tudo para afugentar o mal estar, o salário reduzido, a falta de gosto verdadeiro. Hoje sobram indignados e esta força da indignação que escorre nos discursos prolifera por todo o lado, o meu não é excepção, esgota-se a seiva da acção, apropriamo-nos do discurso como o pistoleiro da arma, mas nada atingimos senão o esgotar da raiva ou diminui-la, a comunicação que hoje parece correr acelerada e em caudal furioso é, perdoem-me a expressão, um efeito mistificador, de facto, na realidade, nada acontece e nada depois, enfim, de qualquer forma, muda. A autoridade do discurso acabou e com ela uma forma preciosa de liberdade.
A questão parece-me que é fácil de compreender, passa pela subversão do verdadeiro poder dos indivíduos, o poder de estarem juntos e de lutarem juntos por qualquer coisa, a desconfiança nos negócios públicos começa com as mediações da esfera privada, o privado torna-se no espaço de liberdade, no sentido em que nele, só nele, podemos preservar-nos da uniformização e furtar-nos silenciosamente ao ruído omnipresente. A propaganda ideológica do capitalismo tem este efeito reduzir-nos ao privado, atestar os nossos lares coelheiras dos mais sofisticados aparelhos para nos entretermos no nosso labor de formigas desossadas e acabrunhadas. Presas fáceis do consumo, que vamos amontoando a um canto, nós os indignados corremos de um lado para o outro entre a produção e o consumo, entre os dois comunicamos através de aparelhos e cobiçamos outros mais virtuosos e caros para nos sentirmos seguros. A multiplicação infinita dos nossos discursos individuais dá-nos a ilusão que comunicamos para o mundo inteiro ou para uma plataforma alargada mas a nossa comunidade virtual não é uma comunidade, mas um gazeamento comunicacional, todos falam ao mesmo tempo num prolongamento do eu, um prolongamento da sua vida privada mas não para um espaço público. Presas do consumo, ainda porque a ele estamos sujeitos em todas as esferas da nossa "privacidade" invadida. deixamos de frequentar o cinema e o teatro, o café e a tasca, deixamos os rituais comunitários, as refeições, as festas. Não nos revemos em nenhum grupo, nem nos revemos no Estado, nem nos soberanos nem nos súbditos, julgamos ter poder por podermos dizer tudo o que pensamos, mas já não pensamos muito, reagimos. O pensamento é fastidioso, moroso, ninguém aguenta, já estamos noutra ainda nem sabemos qual.
Foto: Rodney Smith
Foto: Rodney Smith
Assinar:
Postagens (Atom)











