DEDILHANDO
se eu quisesse fazer poesia
era o serviço do meu dia a 21 seria
mas anoto a letra miúda
do calendário escolar
hoje não é dia de poetar
ao virar a página encontro
outros dias pequenos conto
em nenhum me poderia prestar
o ofício ou arte de poetar
se fosse mais tarde ou cedo talvez
no campo ou no mar em vez
de me ter esquecido a medo
pudesse despertar de novo o credo
mas terei de constatar
que apesar de disposição e do verbo
acabei por me atrasar
escrevinho um soneto cego?
não, hoje não é dia de poetar
domingo, 22 de março de 2015
terça-feira, 3 de março de 2015
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
auschwitz
A Rússia é um país autoritário e musculado, eufemismos de tirânico, mas foi a Rússia, sobretudo a URSS, que bateu a Alemanha nazi, à custa do sacrifício de 20 milhões de russos (os mais massacrados da história da II Guerra). Pretender que isso não existiu é mau. Sermos tão amiguinhos dos alemães que nos cobram mundos e fundos pela dívida quando a deles, depois da quantidade de inocentes assassinados, ficou por saldar, é injusto. A Europa pagou. Excluir a Rússia, que libertou Auschwitz, das comemorações dos 70 anos da sua libertação é como comemorar o 25 de Abril sem os capitães. É dar um pontapé nas costas da história. Não fica bem. É ingratidão. Continuamos sem ter aprendido nada, as imagens horrendas não são suficientes para unir os povos.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Charlie Hebdo
Oliver Jaffers
O que temos agora no Ocidente são assassinos que sob o pretexto religioso têm cobertura mediática, trata-se de gente que assassinaria a troco de nada, deviam ter sido postos a coleira e malga de água e não perder mais palavras.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
BORDERLINE
Lee Miller
acho que vou escrever. aporética escrita em balanço tribal. vou pôr no caldeirão uma pitada de saudade e outra de humanidade, algum ressentimento, não tenho medo das palavras feias, nem das outras, corriqueiras, como, fiz bacalhau cozido e vagueei pela casa poeirenta à procura do último pai natal de chocolate. serventia de astros os meus tornozelos de condessa com papelotes de urso das cavernas. arrumei a gabardine e pus no prego alguma da emoção esvoaçante dos últimos dias. Dezembro era, por esta altura, um mês dado ao edredon e à falange das filosofias perfiladas num estendal de papeis, les raisonements em pedaços, os meus pés eriçados de frio no chão áspero da cozinha testemunhavam a aflição. malditos "raisonements", antes Paris, à la Bastilhe!! renunciei em definitivo aos copos de leite e ao acre das bebidas fortes, assoei-me ao papel de embrulho enquanto a caneta escorregava pelo sono como uma lança escorrega do cinto lasso.
chamo-te a mim nestas ocasiões e em todas as outras em que o fim era um começo branco e a tua boca adormecia na minha para juntas calarmos a fé do corpo e a majestade dos ossos. atrevia-me a ver-nos regar as flores de uma varanda dada ao mar e às ociosidades cinéfilas, onde o sol, as gaivotas e as meias de lã bordavam a sequência dos dias.
chamo-te a mim nestas ocasiões e em todas as outras em que o fim era um começo branco e a tua boca adormecia na minha para juntas calarmos a fé do corpo e a majestade dos ossos. atrevia-me a ver-nos regar as flores de uma varanda dada ao mar e às ociosidades cinéfilas, onde o sol, as gaivotas e as meias de lã bordavam a sequência dos dias.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Nataleeeee
Sabine Weiss
Sinceramente, irrita-me o capitalismo, o conceito e a prática, suspeito que esta irritação, muito à flor da pele, não possa ser transformada em força libertadora, não penso iniciar qualquer novo sistema, nem juntar-me a essas poeirentas aldeias onde se vive em comunidade e na paz sem desperdício, a ideia de viver comunitariamente não me agrada nada, não me apetece aquele "nós" dos projectos colectivos. Tenho a certeza que não estou só nesta irritação, muitos dos ocupados na consumação sacrificial dos centros comerciais, rejubilam de ódio contra o capitalismo, parece o eterno odiado pai, amado e odiado mas imprescindível. A ser modelo deixa-nos abandonados às nossas congeminações, não nos pune por isso, também não nos faz sentir melhores. Enfim, estava pensando nos malefícios tóxicos deste Natal mas agora lembrei-me da história, a história enfraquecida pela repetição: é preciso encontrar nos nossos corações o amor, ou fingir que o encontramos. Descobri então o meu coração no lugar certo, sei onde está, basta-me. Desejo.o a todos, mantenham o coração em algum lugar fora do peito.
Bom Natal!!!
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Aquário: Hannah Arendt entrevistada por Roger Errera (1973)...
Aquário: Hannah Arendt entrevistada por Roger Errera (1973)...: Arendt e a força dialogante da sua reflexão: A comédia trata de uma forma mais séria o sofrimento humano que a tragédia. Ficamos ofendidos com o riso, mas Eichmann é um palhaço e é um carrasco. Faria hoje 108 anos.
domingo, 12 de outubro de 2014
o nome da rosa
Como te chamas Rosa?
esta pergunta substitui na minha mente
ocre o que não devia. rosa. qualquer coisa
a meio
A cerveja sobre a mesa um início
qualquer coisa
rosa
o teu bigode na minha fonte de mel
a pauta e o cinzel
essas austeras presenças imaginadas
sobre um corcel ferido
cintilam como sobrancelhas falsas
Tu não podes imaginar rosa
mas estes tempos serão iguais a outros
tempos de betume e sede
trautearemos músicas de treta
os carros estarão sempre presentes
como os dias quentes
ouviremos as patinhas ainda jovens dos animais selvagens
escapar sobre o pelo áspero do papel
onde a tinta continua a traçar o sonho mole das letras
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Ligação directa
Andei repisando a faixa móbil de um desespero
sem trinco
camada de gafanhotos cegos
zumbindo
fiz ligação directa
até à terra inteira e a Deus
sem mediação
sem passar por este ou aquele
tentei universos galáxias
mas sendo que nenhum dos inertes aprofundou
o teorema antigo que me vincava a testa
retirei.me à esfera
Oh sequestrados do sonho!
bramia o estilete verbal da Natália
mas tinha comido ostras
lambido os dedos
atirado as espinhas para longe
(que mais me restaria?-disse)
a dor ciática a lembrança vaga
num ar de toilette inacabado
e a foice
Fiz ligação directa
ao colo de flores brandas
de palavras abertas no orvalho.
Ofelizei-me até o rio dar duas voltas e entrar-me nas lágrimas
como uma mecha acesa.
domingo, 28 de setembro de 2014
Diatribes
II
Vi Bishop deslumbrar-se.
Furiosa virgem aterrada
Sobre a nobre paisagem do sul,
a paisagem das carcaças crianças
que remedeiam a pobreza com a alegria.
Vi-a desperdiçar o mundo por uma frase,
mas qualquer lágrima vale mais
que um magnífico tratado de ergonomia sentimental.
Tomamos sempre partido pelos que sofrem.
Arrogância talvez futurologia
Consignada à assinatura autoral
Bebo-te Bishop.
Alimento-me dos ácaros da tua roupa
Da linha escura entre a unha alada
E o sabugo
Alimento meu corpo fidalgo
meu corpo ritmo de samba
meu corpo ritmo de samba
Adiado
na história da tua imaculada concepção.
Também em ti houve o milagre
Sem sémen
da concepção virgem.
O rio não pára.
São assim mesmo as regras
Da narrativa
III
Atiro-te a primeira pedra
Poderás ripostar
Andei de marcha atrás na estrada recta
Até te avistar
nua ou ensonada
nua ou ensonada
na cama pomba onde muitos espreitaram
mas nenhum rolou a carne em sangue
sobre os lençóis muralhas
sobre os lençóis muralhas
Tu aí, ensonada ou nua
Tanto faz
Abrindo a boca rosa
Sobre a arcaica humanidade de pinóquios falantes
(Senhor, livrai-nos do mal das palavras!)
Tu
Ensonada ou nua
Tanto faz
Sobre a mágoa do meu corpo
Caminhando sobre as águas
Tu em mim sobre mim
Ou nós ou eu só
sobre as águas.
ainda sem nome
Interpreta-me mal
Eu não consigo respirar sem o traço limpo da esperança
Entendo que cada uma das frases já feriu de morte uma dor
E voltou a feri-la por a ter esquecido ou ignorado
Somos culpados mesmo do esquecimento, vê
sempre foi uma disposição
aceitar que a água não pode lavar
Nem o esquecimento apagar.
Caminho onde há guerra.
Caminho onde a guerra começou.
Primeiro o desentendimento preparou tisanas,
depois, serras de arame.
Deus nos livre de pensar
Encontrar a liberdade plana
De uma frase abandonada
Uma que caiu entre
tantas
e do chão testemunhou
O dilúvio do sentido
talhar,
madrugada dentro,
tábuas de uma ponte
que nunca concluiu
sexta-feira, 4 de julho de 2014
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Comunicação e fingimento
Anna Magnani
No palco a repetição dos gestos, das frases, dos olhares, até dos sentimentos, é intencional, armada antecipadamente, pensada como rede artificial para apanhar o peixe espectador. Arte de representar a vida escolhendo dela o que se quer. Generoso, o actor entrega-se à personagem criando por momentos uma nova vida, oferencendo-a aos que ali estão fazendo-os viver de novo,voltar atrás, fechar os olhos, imaginar. Actualmente, o Teatro reflecte o mundo social de indivíduos muito preocupados com a autenticidade, o fingimento é de evitar, só que em teatro o toque, o passe de magia, é ser autêntico no fingimento. Helas!!! Há portanto uma pedra na linguagem da representação, os actores olham-se narcisicamente, não esperam convencer ninguém, exibem a sua arte, pela arte. Ora a Arte é sobretudo comunicação, falha a comunicação e falha a Arte. Saudades da Magnani. Volta! Estás perdoada!!
domingo, 22 de junho de 2014
Miguel, aqui te choramos.
Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,
este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.
Horácio
sábado, 21 de junho de 2014
quarta-feira, 18 de junho de 2014
sábado, 14 de junho de 2014
Freud disse bem.
"Expressando-o de modo sucinto, existem duas características humanas
muito difundidas, responsáveis pelo facto dos regulamentos da
civilização só poderem ser mantidos através de um certo grau de coerção, a
saber, que os homens não são espontaneamente amantes do trabalho e que
os argumentos não têm valia alguma contra suas paixões."
Freud, O mal estar na civilização
BINGO!!!
O Chicote ou a ameaça parecem ser as únicas formas de levar as massas ao trabalho pois argumentos são impotentes contra paixões. Depois, para disfarçar a imposição violenta, dão-nos circo. Grandes espectáculos para adormecer as dores. Estaria tudo bem se não estivesse tudo amordaçado sob o manto de um despotismo encoberto. Abram a brecha e solta-se a besta. Esta técnica sem dúvida que deu resultados na produção de melhores condições materiais (para alguns!! acrecente-se) mas na justiça e equilíbrio das relações humanas, à escala global, estamos na mais genuína selvageria.
domingo, 8 de junho de 2014
ETNA
É verdade que as gatas têm três cores e os gatos apenas duas. Também é verdade que um gato não é um cão, não ladra, por exemplo, mas há uma verdade melhor a revelar: a graça, a fidelidade, a perseverança, a ternura. Dessas qualidades se faz um amigo. Um amigo sólido.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
capicua
Numa certa altura da vida falta-nos tempo, não
porque temos muitas coisas mas porque somos mais lentos e ainda desejamos muito, como se nada nessa
lentidão nos fosse familiar. O motor, a força tempestade, entrou em
desaceleração e a percepção desta súbita mudança faz-nos querer chegar a todos os
lados que o desejo laço tinha preguiçosamente adiado. Antes de parar, de parar
definitivamente. Dentro de mim há também uma figura absorta, uma
marioneta a que temos de puxar pela mão porque se quedou embevecida pela
luz do próprio tempo a passar, assustada pelo absurdo de poder parar, como
quando alguém corre atrás de nós com uma arma e o horror prende-nos as pernas,
não conseguimos fugir, uma espécie de torpor hipnótico, talvez, um rodilho de
silhuetas mudas seguram-se no limite. Os meus dois: o que observa espantado um
outro mergulhado no pântano luminoso, no extravio absíntico da languidez da
queda. Um tem pressa demais e o outro, nenhuma.
domingo, 4 de maio de 2014
The Killing: Crónica de um assassinato
Esta é uma série que se vê
religiosamente, a terceira temporada passava às terças, 21.45 no AXNBLACK e
nunca um local no sofá foi tão ansiosamente aguardado. De facto, as americanices policiais deixaram de me seduzir, desde os tempos de uma
antiga série, que pouco tem a ver com esta: "Modelo e detective". Eram
todas muito profissionais e previsíveis, com retratos psicológicos estereotipados e recursos ao sexo constantes e repetitivos. Esta lavou o prato dos condimentos enjoativos, veio da Dinamarca e responde sem mácula ao que se espera de um policial: acção, lógica e mistério. Embora sendo produzida em 2007 só
por cá passou, a primeira temporada, em 2012, o atraso é corriqueiro mas
inaceitável, pergunto-me porque temos de aguentar horas de séries americanas
sem interesse e esperamos 3 anos para poder ver um produto dinamarquês de
qualidade notoriamente superior. Andanças do demónio certamente.
A acção passa-se em Copenhaga, a heroína é Sarah Lund, uma inspectora da polícia obcecada com o trabalho, hermética, pouco emotiva, persistente. Nela se concentra a investigação de um assassinato, com avanços e recuos, erros e intuições espantosas. A rede da trama é larga e envolve famílias políticas, pessoas solitárias e grupos de pressão. Um dos factores originais é exactamente esse, a dinâmica entre a pessoa e o grupo, demonstra de forma convincente como a vontade e as vontades, os interesses e o desejo de verdade se podem articular sem que haja um protagonismo redentor de qualquer uma das personagens, todas, por momentos, são influenciadas pelo grupo onde agem e simultaneamente teimam em ter os seus próprios caminhos, mesmo contra todos, numa espécie de alternância caótica em que as consequências de cada acção têm desfechos para além do que pode ser antecipadamente previsto pelo pensamento do grupo ou de um só, como se cada uma das acções ao chocar com outras vontades nos conduza por meandros inesperados. Estou triste por ter acabado a terceira temporada. Neste deserto televisivo de novelas e produtos para consumo instantâneo, uma janela onde o barulho das gentes não é só ruído, faz falta.
A acção passa-se em Copenhaga, a heroína é Sarah Lund, uma inspectora da polícia obcecada com o trabalho, hermética, pouco emotiva, persistente. Nela se concentra a investigação de um assassinato, com avanços e recuos, erros e intuições espantosas. A rede da trama é larga e envolve famílias políticas, pessoas solitárias e grupos de pressão. Um dos factores originais é exactamente esse, a dinâmica entre a pessoa e o grupo, demonstra de forma convincente como a vontade e as vontades, os interesses e o desejo de verdade se podem articular sem que haja um protagonismo redentor de qualquer uma das personagens, todas, por momentos, são influenciadas pelo grupo onde agem e simultaneamente teimam em ter os seus próprios caminhos, mesmo contra todos, numa espécie de alternância caótica em que as consequências de cada acção têm desfechos para além do que pode ser antecipadamente previsto pelo pensamento do grupo ou de um só, como se cada uma das acções ao chocar com outras vontades nos conduza por meandros inesperados. Estou triste por ter acabado a terceira temporada. Neste deserto televisivo de novelas e produtos para consumo instantâneo, uma janela onde o barulho das gentes não é só ruído, faz falta.
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