domingo, 6 de novembro de 2016

Café Society, o último Allen


Café Society é um filme a reviver intensamente, 80 anos depois, o glamour do cinema Americano dos anos 30. Não faltam as referências ao Wilder do "Crepúsculo dos Deuses" e a Barbara Stanwick. Um tributo de um cineasta que admira os antigos, que admira a escola e a tradição de Hollywood. Mise em scéne perfeita, fotografia luminosa, e uma vedeta com uma beleza oscilante entre a femme fatal e a inocência. Entre a displicência da Kim Novak e a beleza contemplativa da Eddy Lamarr. As referências sucedem-se naquele ritmo frenético que nada tem dos thirty's mas que é Allen ele mesmo,num discurso que quer apanhar em palavras o indecifrável das emoções. Nas tiradas irónicas do self made man encantado e pragmático a quem foge sempre qualquer coisa do essencial a que aspira e sempre pouco à vontade no meio da society de que faz parte, admirando distanciado a sofisticação das roupas e das poses com que o poder vai tecendo os seus simulacros, um jogo que o atrai mais do que algum dia poderia admitir. 

domingo, 28 de agosto de 2016

manhã

Eram sete e meia
hora dourada sem poetas ou touros mortos
a tiro de carabina.
Acidentalmente, ao redor da fonte
o contorno de uma cotovia
levanta um pouco de vento
sacudindo o pó ao mármore
simétrico das janelas cercas
onde supomos haver céu

Era hora de recomeçar
ouvir trinar o melancólico peito
enrolar um fio a jeito
e a seguir já sobre o balcão
limpar a faca de pão
da laranja aberta
e, quem sabe, pensar
(com alguma sorte)
que o café a ferver não vai sair muito forte.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

enferma1











Pintura Andrew Wyeth
Semeado o halo da morte multiplica-se o nojo
o ramo de orquídeas entre as palmas vê 
o Truísmo da idade ser  alimento da vontade
musa desaparecida, alcateia de murmúrios.
Meu apelo de pega ociosa entre ordens ancestrais
actua como cinto de frémito 
Alcança-me a gambiarra a arder
Antes de desfalecer em visões  grão
Brancas desmaiadas enfermeiras
Sobre o meu corpo suturado


sexta-feira, 22 de julho de 2016

os blogues, o narcisismo e o amor


Anna Magnani em L'amore de Rossellini. Retrato da submissão a um sentir que, mesmo tendo um contorno definido de alguém, projecta-se sempre dentro de nós como infinito, é em toda a dimensão da sua ausência. O amor vivido alimenta-se dessa convulsão, impossível, entre o finito material da vida e o infinito intemporal do desejo, será dramático, não pode deixar de ser.

domingo, 10 de julho de 2016


Há acontecimentos que não devem ser narrados para poderem ser facilmente esquecidos. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Paris

Paris é uma cidade que apurou o gosto da civilidade, serve-nos o olhar, o paladar e a exigência de um lugar onde as obras perenes se quedaram e se oferecem à nossa contemplação.

quinta-feira, 31 de março de 2016

I

Vejo-me a andar às arrecuas
sobre a ventoinha suspensa do real
berço da vida
palimpsesto
a bóia segura por andaimes em risco de turvar
e o meu olhar pedra rasa
o meu olhar olho
 meu radar
de mulher que morreu duas vezes
enquanto as imagens iam e vinham
em cadência sobre a pele baça
 membrana inútil
do tempo que falta para não ter alternativa à morte.




II

À porta do museu alinho as frases azuis
dos diabos celestes
magros peregrinos
sobre a superfície lisa do papel
Somos agora tu e eu
e seremos ainda mais  tempo em nenhum tempo
não interessa
pois somos agora
seremos
arredondadas açucaradas
gárgulas nos dentes de ouro dos ciganos
Somos agora tão ansiosamente eternas
como as vertentes douradas
do monte ao entardecer primaveril
seremos ainda quando os passos avivarem a pedra gasta da rua
e a respiração for silenciosa
e não houver rio nenhum
e nenhuma sombra a deixar atrás
Seremos ainda agora
expectantes e belas no tampo marron da mesa de café
enlutadas sem história
furando os mínusculos orifícios das palavras veladas
ódio indiferença
no frontispício dos teatros que vão construindo
sem o nosso consentimento.





segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O preço do Sal


Agora é o momento de ver os filmes para o óscar, e gosto, porque são bons filmes os que começam nesta altura a estrear, a produção americana tem produtos de bom gosto e escorreitos, mas faz falta lavar a vista com outras produções, Outro cinema, o mundo é vasto e a arte não pode ser manipulada ao ponto, cada vez mais, de ser americana.Fui ver o Carol, no Amoreiras cinema, a história da Highsmith tinha sido uma bomba quando a li ainda nos anos 80 editada pela Europa América. Boa história, levaram 60 anos para a contar em filme. Hollywood tão cansada de velhas histórias de amor tem um novo filão a explorar, mas tem que o fazer bem. Neste caso sim, embora eu imaginasse, como sempre quando lemos primeiro o livro, esta Therese Belivet muito mais arriscada e marginal do que eventualmente a personagem do filme representa, mas corre um fio de intensidade emocional no filme, esse fio é tanto mais perturbador quanto ele se esconde por detrás dos valores de produção sólidos da indústria americana. Não acho que seja uma história de sedução de uma mulher mais velha a uma mais nova e de uma classe mais baixa, não é isso que Therese é, e o livro é a perspectiva dela, a certeza do amor dela que corre, essa certeza que nem uma vez esmorece, é que dá a intensidade emocional do filme. A história não é Carol mas Therese, é nela que corre o desabrido, uma ponta de abismo por onde começa e acaba todo o amor.

sábado, 14 de novembro de 2015


...mais mortes, mais guerra, mais vazio, mais espanto, mais perplexidade. Bogart dizia para Bergman, we always have Paris, concordamos. enquanto Paris for Paris a civilização aguenta-se contra a injustiça e a barbaria. A cultura de morte e destruição só pode ser parada por uma cultura de inteligência e compreensão, é preciso saber como e porquê, descobrir uma nova vacina para dissolver a maldade. ver de onde vem o dinheiro, secar a veia, porque sem dinheiro esta gente estrebucha por falta de alimento.Haverá verdadeira vontade?  Acho que deve haver muita gente na finança a ganhar com a morte destes inocentes.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

DIA FELIZ!


Hoje é um dia feliz. Acabei finalmente a minha tese de Mestrado e isso é importante para mim. Seria também importante para o meu pai se ele fosse vivo, pois há 20 anos quando iniciei as aulas para um mestrado em Michel Foucault que nunca cheguei a concluir, o meu pai disse-me entre a cozinha e a sala, à hora de um almoço de Domingo - eu já tinha saído de casa há uns bons 10 anos mas o almoço de domingo era sagrado - então o meu pai disse-me assim en passant : Se terminares esse mestrado o pai oferece-te um anel de oiro .  Não me esqueci pai. Disse-te que um dia haveria de acabar o mestrado, pois bem, cumpri a promessa, pena não estares cá para cumprires a tua. Mas estou feliz porque consegui, porque sempre tive a sensação de que precisava de completar os meus estudos pois aquela licenciatura foi demasiado louca entre teatros e trabalhos, e todos já estavam fartos de me ouvir dizer...a tese e tal e tal...e depois abriu-se tardiamente a tal janela na minha vida, onde eu pude ouvir o coração e devo-te a ti também, o teres guardado com o cuidado de uma verdadeira princesa o meu coração plebeu...estou sentimental, mas são bálsamos os sentimentos. Hoje está uma noite fresca e o céu está estrondoso e eu sinto tudo de novo como o Álvaro de Campos dizia, como se acabasse de nascer mas já com os meus sentidos em malha fina capazes de ver na lua o reflexo gigante de um Deus que joga ao toca e foge.  

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sicília: no rasto do Etna

Taormina. Acústica rara, enquadramento belíssimo, os gregos tinham uma apurada sensibilidade estética.
Isola Bella. Água tépida e luminosa, pedras multo perigolosas!
Ortígia. O núcleo virado a mar da cidade de Siracusa. O calor. Como um seixo polido a harmonia das cores e das linhas a penetrar o passado, a sentir um vestígio e a caminhar muito devagar sobre ele.
O vulcão. olho presente, cíclope.
Caltagirone. Imperial e arenosa.                              
                             Etna. A seguir a terra. O magma adormecido volta-se lentamente no leito. Ao turista pré.fabricado resta a ilusão da máquina conseguir captar o  que o seu coração esqueceu.

O tom da Sicília, encontra-se entre o azul forte e doce do Mediterrâneo, o ocre das argilas e o negro da terra calcinada do vulcão. Há na paisagem uma inquietação, um desamparo à mercê da força telúrica brutal e cega . Aqui no sudeste da Sicília, o senhor da terra é o Etna e a sua respiração sente-se sobre as colinas, as crateras extintas, o carvão depositado de anteriores erupções que despejaram fumo negro sobre vidros e portas da cidade de Catânia. Mas a violência da terra é acariciada pelo calmo azul do mar, a tranquilidade translúcida e calorosa das suas águas dá a expressão ao temperamento Siciliano. Gentil mas imprevisível.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Estado da arte

Ao não entender a curiosidade alienada das corujas
adio o vínculo do meu encontro nas nuvens
ao limo.
Vigio o traço contínuo das sinapses.
Acabo a acertar passo no exército funcional
do trabalho pára-quedas sem janela
e só desemboco no poema
ao amanhecer
oiço-o respirar ao longe
escondido sob os sapatos de ténis
raspando as unhas na cervical
das minhas fugas logradas

Foto de Martine Franck

terça-feira, 21 de julho de 2015

elegia


Alberto Rubio, Rapariga na praia

Talvez nos acabemos por habituar. A partir de uma certa idade vamos ficando na vida e assistimos à partida de outros, são muitos os que têm partido. Estou a escrever isto e indigno-me contra o meu estilo apatetado, os que partem e os que ficam é linguagem estafada para descrever o que sinto. A morte é um estilete fino pelas costas. Não sutura, não sangra. Habituar-me...o caminho é de terra batida, as pedras soltas batem nos queixos, não há como nos habituarmos ao absurdo. Ver morrer alguém próximo repete a primeira dor, a perplexidade encarquilhada da primeira vez. Envelhecemos também com a experiência da morte, não por nós, é o  tributo do nosso corpo aos que morrem.

domingo, 5 de julho de 2015

cinema


Volto às Nuvens de Sils Maria, à cobra do tempo sobre o rosto, como as nuvens no vale de Sils Maria e, não sei se por causa das legendas acrescentarem entendimento aos diálogos- ver na versão original em Inglês  acaba por ser frustrante, o som, a dicção e os meus medíocres conhecimentos da língua, deixam-me meia cega - seja por me ter sentado na sala escura de um cinema, o écran, a intimidade com o filme, surpreendi-me a descobrir uma nova morfologia nos corpos e nas falas. Amei o filme, devagar, amei-o em cada cena, amei-o em cada pormenor e sobretudo amei a representação da Binoche. as razões, vou precisar de tempo para as digerir, por agora "Je lève mon chapeau!," amo de morte os actores, amo a sua vaidade e a sua fraqueza e amo de morte a capacidade do cinema, a sua resistência à Internet, como um velho sábio moribundo crivado de setas dos pokemons das crianças traquinas. Voilá!

terça-feira, 30 de junho de 2015

submissões


Hannah Arendt e a sua obra conseguiram um protagonismo evidente no século XX, maior que o seu contemporâneo Heidegger, no entanto é um fenómeno recente. Nos anos 80 ninguém falava dela nos corredores largos da Faculdade de Letras, e o seu mestre  era seguido por um grupo considerável de alunos investidos da sua linguagem "poética". O que se terá passado em 30 anos? O que mudou? Na minha opinião mudou a forma de encarar a Filosofia, a complexidade hermética e a simplicidade acessível das obras de ambos faz a diferença; o declínio sobejamente conhecido de Heidegger enquanto colaborador e admirador nazi podem ter com o tempo pesado na sua leitura, de facto o retrato que dele faço é absolutamente repelente,como pessoa e carácter era de um egotismo  e de uma megalomania insuportáveis. A verdade é que a sua discípula, sua fiel admiradora e, julgo, sua amante, nos primeiros tempos física e depois intelectual, mesmo reconhecendo as suas falhas de carácter atenuadas como erros, nunca deixou de ser espectadora fiel desse mesmo egotismo exacerbado. Ela cuja obra suplanta hoje a do mestre em actualidade e em poder explicativo,nunca deixou de ser submissa, nessa aceitação sem restrições de um poder idealizado corporizado na figura do ex-amante  que não cessava por carta de se auto elogiar. Curioso o papel do amor.  Parece justificar plenamente  relações de poder, injustas, e torna até inadequadas as categorias morais. Todavia há um modelo de relação que uma vez instituído parece incapaz de mudar mesmo que as pessoas já não sejam as mesmas,  Curioso também compreender que a coragem intelectual de Arendt, a sua proclamada independência de espírito, não era uma qualidade constante mas tinha profundas e inexplicáveis excepções.

sábado, 20 de junho de 2015

se os vampiros falassem



Antes de existir o Vampiro estilizado com gel no cabelo e lindas intenções (tédio!!);antes dos Vampiros serem fantasias mal engendradas numa sociedade de consumo especialista  na proliferação de imagens estereotipadas (UF!!), antes da idade do degelo e das alterações climáticas, dos live aids, e do telemóvel, ( soa mal telemóvel!), antes mesmo de ser computador, e conjuntura electrónica, a minha iniciação literária começou com Vampiros de papel,  livros pequenos que se podem pegar com a palma da mão aberta, cores fortes na capa e histórias de crimes pensados por criminosos requintados, ou crimes requintados dados a   criminosos pensados. Eles foram a causa de me ter tornado comunista por um par de meses,  por gostar demais de ler aquelas histórias e não ter dinheiro para as comprar.  Hoje passado o tempo dos empréstimos, já proprietária assumida, acordam-me ou adormecem-me ao correr do fio dos suspeitos, os seus avanços e recuos, as pistas e os pormenores reveladores até à vitória final. O desenlace, saber quem é o criminoso é gozo menor quando comparado com o gozo de deixar o detective imaginário que somos colado nos calcanhares do outro que se mexe e toma a iniciativa, Bem sabe o porquê e o como, o quem é supérfluo, saber os sinais onde o conluio se espevita, a raposa põe o focinho de fora, nada ainda e por enquanto fazer sentido, para depois, suspiro, encaixar. Afinal...sim, sempre tinha sido ele o criminoso, suspirávamos,  fechávamos o livrinho depois de duas noites de serão,  e, no dia seguinte, esquecíamos. 
Amanhã sai nas bancas o segundo volume de uma reedição igualzinha à primeira.Abençoados!!

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Engrenages


Outra série de eleição, esta não é dinamarquesa como "Killing, crónica de um assassinato", é francesa, inventa-se em redor de três agentes da PJ, Laure, Gilou e Tintim, excelentes actores,trama onde os princípios mais nobres provocam danos colaterais tão graves como o banditismo. Os franceses, contrariamente aos dinamarqueses, são de expressar mais as emoções, têm um aspecto desarrumado, negligé é o termo apropriado, não falam tanto como os americanos em sexo, talvez por praticarem mais e serem menos puritanos,  têm fama de se dedicarem  a "baiser", é um facto e como tal não precisam de falar muito disso, preferem passar a câmara pelos monstruosos dormitórios de Paris, espécie de favelas em altura e betão onde as crianças se dedicam de alma e coração a assumir a marginalidade como forma de vida. Sou snob em relação à Europa,  creio na patine europeia, e os franceses são a creme de la creme, nada de especial,são anos de apuramento do gosto, chamo-lhe classe, à mingua de melhor termo.