domingo, 10 de maio de 2009

quando temos fome estamos presos ao prato da comida
ou à comida

na sede ao copo da bebida

à bebida

na raiva ao disparar do gatilho

à explosão

e na ganância ao lucro

digo com ou sem razão

estamos presos

na paixão ao desejo do outro

e na ambição ao sonho

e com ou sem coração estamos presos

depende então a liberdade do comprimento da trela

ou da consciência dela.

foto: Leni Riefenstahl

quarta-feira, 6 de maio de 2009

de manhã o jardim cheirava a relva cortada e ao entardecer ao cheiro adocicado das flores,não saberia nunca enumerar o nome de todas elas ou identificá-las, sabia como me sabiam, como contornavam os olhos e conversavam com a memória. das flores ordenadas amores perfeitos roxos da paixão e das rosas do meu canto, quando tinha um canto com rosas...mas o jardim...nunca fui pessoa a quem oferecessem flores, não têm muito de flores aquelas braçadas em papel colorido, opacas cortadas, não, apesar da tentação para o lamento, não acharia graça...prefiro que me arranquem uma, pequena, e ma dêem na ponta dos dedos com pedaço de musgo esfarelado, a sujar as unhas de terra. Passear no jardim era um momento de sussurros, fala-se baixo com medo de acordar ou espantar aquele adormecimento, então levava um caderno onde desenhava versos e planetas, saturnos vários com suas órbitas de esferográfica preta e assim me deixava ficar por ali, escutando os silêncios interiores. se falo de jardins é porque os deixei num qualquer sítio para onde não sou capaz de voltar, onde não sei chegar, e do alto do meu corpo de saturno cheio de voltas e mais voltas, transformei-me, e agora ao andar de um lado para o outro, piso as flores e vejo nítidas as folhas do caderno
de desenhos a voltarem-se abandonadas ao vento. se pudesse escrevia outro verso e quebrava o encantamento, mas agora não posso.
fotografia de Adriana Silva Graça

segunda-feira, 4 de maio de 2009

No espaço onde vivo, um empreendimento novo (10 anos) de casas iguais de três andares, havia vista de mar e um espaço selvagem onde cresciam malmequeres, campânulas, jasmins, e onde as pessoas passeavam os cães, andavam ou corriam ou simplesmente passeavam. Passados dez anos a vista de mar foi-se, engolida por um bairro de casas altas e apertadas, o espaço selvagem que ainda perdurou está a ser aplanado por uma retro escavadora, um "jardim" com circuito de manutenção e cafetaria, dizem alguns...mais um espaço de árvores raquíticas alcatrão e betão, um espaço humanizado. Os moradores olham com tristeza a destruição daquele pedaço de campo onde lavavam os olhos, lá se vai o pedacinho que me fazia lembrar o meu Alentejo, dizia a minha vizinha. Pergunto: até quando nos vamos resignar a viver em bunkers completamente fechados por janelas que dão para muros? Até onde a nossa resignação de vermos um a um fugir os espaços verdes? A Câmara de Cascais não perguntou nada a quem aqui mora, nenhum protesto é eficaz, mesmo os mais justos caem em saco roto ou levam anos na justiça. Democracia? Quem estará contente com esta democracia que só cede a interesses económicos?
fotografia de Adriana Silva Graça

domingo, 3 de maio de 2009

sinto nostalgia. de fogo, de mato, um acto insano, serpentina, fogo de artifício, audácia. a conformidade encerra uma desistênca bolorenta, nenhum paraíso nos espera no além, nem um inferno virá, é aqui, agora enquanto o sangue nos corre nas veias que o temos de inventar.focar o ponto minúsculo onde nos fere a mordaça e gritar. um grito audível, uma fronteira.bem no centro da dor, antes a dor que a ausência.o adiamento, o tanto faz. percorro as estradas sem ti, sabendo que as voltarei a percorrer sem ti. isso não teria importância alguma se algures uma palavra ou um gesto irrompesse o dique e alimentasse a esperança, porque há um lago enorme ao fundo dos teus olhos.há um lago enorme ao fundo dos teus olhos.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Enquanto ia na estrada, fina película arrepiada que cobre a terra, circular, pensei que isto de ir para lá e para cá, dentro dos carros, numa terra quadrificada, tem o seu quê de foleiro (fujo ao absurdo como o diabo da cruz). Basicamente somos apanhados nas redes e dentro delas fingimos que somos qualquer coisa de importante e bom e assim estimulante mas não, nenhum peixe gosta de ser pescado, porque fica sem oxigénio e morre. Tout court. A morte é a morte, mais nada. Quantas horas passo aqui ao computador? Extasiada…irritada ou simplesmente nada, passa-se. Quantas? Falo, trabalho, compro, contacto, tudo sem levantar os olhos da caixa. Apanhada. na rede. De nariz afocinhado num sistema virtual complexo, completo, rentável, eficaz , sedutor. Mas um sistema e cada um de nós obrigado, submetido, de livre vontade, pensamos, idiotice, não há alternativa. Na aula cada aluno tem o seu portátil, cada sala o seu computador e ecrã de projecção ligado…
uma amiga apaixonou-se recentemente. Entusiasmada no primeiro mês, agora vê o seu apaixonado sentar-se ao computador até de madrugada. ela fica na sala a ver TV e depois vai para cama…sozinha. O que estou eu aqui a fazer…pergunta-se…simples retórica de põr a pergunta só para não dar de caras com a resposta...
Imagem: reprodução de um quadro de Yves Klein

domingo, 26 de abril de 2009

Este 25 de Abril lembrei o meu pai, a espaços, enterneci-me com ele, passeei um pouco pelo Chiado e na Igreja, conversei em silêncio, estava tomada da exaltação de viver momentos exigentes, várias vozes entravam em litígio e umas mais que as outras falavam mais alto. O eco da revolução com a sua poesia, o cravo vermelho no casaco porque ainda assim soprava um vento frio e o Cristo crucificado em dor. Não me posso libertar das minhas prisões, serei sempre uma individualista, o que me levou ao Chiado neste dia não foi a militância da causa porque é nos nossos actos quotidianos que se mantém a luta, foi uma solidariedade amorosa, uma necessidade de estar lá, de acompanhar quem connosco compõe o tracejado do nosso destino. Os meus motivos do coração são sempre individualizados. Sempre assim foi.Tentava encontrar uma harmonia ou uma ideia conciliadora entre esses sentimentos contraditórios, a dor e a alegria do momento. Um Cristo, um cravo vermelho, o incómodo do fecho das calças que não se sustinha, a dor de não poder comemorar com o meu pai, a luz promissora de uma tarde de sábado e a estreia que se adivinhava e na qual não podia falhar. As pequenas coisas debatiam-se tu cá tu lá com as grandes como se no escaninho da nossa alma tudo tivesse igual importância.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Preciso de lançar palavras, pensar e dizer, amassá-las nas palmas das mãos, desensombrá-las, salivá-las. Reconstruir casa jardim e quarto com seus abat-jours imaginários mais o espaço circundante, a estrada, o frágil sentimento, a atmosfera do corpo, a rede onde baloiço, o piano onde toco se fosse capaz de compor e os dedos que cegos serão guiados sem palavras. Volto à noite, só, à noite e o eco das palavras enreda cidades e fortificações, sempre entre uma coisa e outra, o desejo, submersão em água pura empurra a arquitectura com que vamos tecendo o medo, de novo em fuga com o rasto das palavras que deixamos. Sou só eu, e o escuro da noite, a memória é um deus cansado e doce de unhas cortadas ao sabugo e qualquer uma , qualquer uma das palavras com que do éter me vou entendendo, é um palácio antigo onde se derrama o mel.

segunda-feira, 20 de abril de 2009



O AUTO DA ÍNDIA de Gil Vicente, depois de 20 anos volto ao Teatro, tá tudo convidado, é na Sociedade recreativa Os Unidos de Leceia no dia 25 de Abril!

" Que lei me dais vós senhora? Digo que venhais embora!"

quarta-feira, 15 de abril de 2009

das sete que há em Lisboa, esta é a minha colina, a da Graça, dou de barato o nome que encanta, prezo a mistura, vamos aos fados, ao St.António, à feira, ouvir clássicos, perder o princípio e o fim das ruas ao Sol. Naquele Liceu, ali mesmo em frente, fiz os exames do Propedêutico, por aqui na Feira passei incontáveis sábados desde o nascer ao pôr do Sol e, apesar de certas zonas de Lisboa estarem de cara lavada mas incaracterística, e outras ruirem sem apelo nem piedade aos olhos de todos, a Graça vai passando altiva como a marcha, fiel, assobiando para o ar.

terça-feira, 14 de abril de 2009


ainda assim porquanto nada mais no mundo pudesse haver para esperar ou ansiar eu esperaria e ansiaria por ti.

sábado, 11 de abril de 2009

O calendário religioso e as procissões criam-me sempre uma interrogação: aquelas pessoas que seguem os passos de um Cristo que imita o sofrimento do Cristo histórico ou Bíblico e se parecem com aquelas que com as suas túnicas o seguiam, os cristãos, terão compreendido a mensagem? Serão mesmo aquilo que na sua mistificação acreditam? Tenho inúmeras dúvidas. Encontro-lhes sempre uma pretensão que não se coaduna com a sua condição, é pretensão da verdade e isso causa-me sempre algum espanto. Não que a julguem ter encontrado, pois esse direito assiste-lhes mas que sobre essa mesma luz possam julgar os outros como perdidos. Os perdidos da Fé, seriam eternamente os carrascos, os materialistas da história hoje repetidos e acusados. Não tenho dúvidas sobre a poesia e a beleza do ensinamento de Cristo, mas tenho muitas dúvidas sobre o modo como o entendemos e sobre a forma como pode ser utilizado. Por isso, esta Páscoa, farei a penitência da reflexão, como faço sempre, mas continua a repugnar-me a arrogância, essa mais do que qualquer outra coisa, afasta-me dos cristãos praticantes/beatos e aproxima-me dos que sofrem, de todos os que sofrem com ou sem Fé.

terça-feira, 7 de abril de 2009

crónica das amendoeiras em flor que não chegámos a ver

Algarve.Lagos, mais propriamente, apartamento 153. A avó dorme copiosamente enquanto na TV , as criancitas amestradas pulam e esganiçam. A noite já caiu há algum tempo e a Magui levitou três vezes numa clara demonstração da insustentável leveza do ser. A mim, titi, deixaram-me a falar sozinha e eu resolvi-me a começar este discurso com as amendoeiras em flor Ah Ah! e as estevas em flor! que não chegámos a ver. Doravante havemos de ter mais cuidado no modo como nos pomos à estrada, teremos de vir munidas de chumbo para não levitar e de amêndoas de Páscoa para adoçar a boca caso as amendoeiras corram demasiado depressa à nossa frente. A propósito, a presença do Obama em Praga é histórica e o seu discurso a favor dos acordos de Quioto, o modo como ele fala e não só o que diz,emocionaram o meu coraçãozito de papel amachucado, ai pudesse eu ser outra em outro tempo! Mais à frente!
a fotografia é retirada da net.

terça-feira, 31 de março de 2009

o amante funcionário

ninguém esqueça que o amante é funcionário
pega, despega a horas e desoras
acotovela-se na fila
e, às vezes, deixa escorregar a pérola que tráz na íris
e rodopia do lóbulo da orelha para os papéis amontoados no chão

o amante raramente sai à rua sem o modo funcionário dobrado debaixo do braço
e uma praga debaixo da língua
protela e recolhe
e só depois faz o gesto da anca
tarde
já os pássaros debicaram a pele
e a esfregona da mulher da limpeza
se abateu sobre o patamar da escada

o amante está para a anca
como o funcionário para o relógio
vigia-a cuidadosamente
e sempre que o ponteiro pára
sai pela janela a voar.
O teatro tem de falar a sua linguagem. não são as palavras, nem a música, nem os actores, nem os ritmos, mas uma outra linguagem feita dos pedaços juntos, misturados ou afastados, obedecendo a uma lei misteriosa e completamente inacessível à razão. linguagem da vida mas numa imitação da vida, retirando-lhe o sumo, condensando-a em ecos familiares que foram perdurando no nosso inconsciente e de repente irrompem quando convocados. O teatro é isso, o reencontro de qualquer coisa que andava perdido, como um irmão uma única vez visto e que alguns anos depois reencontramos. Penso que toda a arte é um reencontro de algo que está em nós perdido e que se conjuga em virtude de um movimento, um brilho, um compasso ou um tom. Tudo isto para falar de pedrinhas atiradas a uma janela. Em si pouco é, todos nós o fazemos, mas para quem as ouve apenas, um som, elas terão de obedecer a um mecanismo misterioso, que a sensibilidade poderá identificar, aquele som, só aquele, não outro semelhante, e aquele ritmo, só aquele, não outro, ou um qualquer, desencadeiam aquela atmosfera, aquele riso ou satisfação de ouvir algo que reconhecemos e vem de lá detrás das dobras de uma experiência antiga, única, das emoções invocadas por uma pedrinha a bater na janela.

domingo, 29 de março de 2009


às vezes o coração quer e não tem o que quer. e nada em nós compreende porquê. compreendemos que é por condição que assim acontece mas não aceitamos, debatemo-nos. esta luta contra um fantasma poderia ser entendida como uma luta pelo absoluto, pela conformidade perfeita entre desejo e satisfação infinita, um desejo de completude e, se assim fosse, o sofrimento causado só nos engrandeceria, mas quando estamos tristes, ficamos pequenos e inúteis como trapos esburacados e recuamos para o nicho microscópico do eu onde só há sobressaltos e mais mágoas, uma solidão cósmica e um sapo que fuma cachimbo até rebentar. Encosto a cabeça contra o muro frio da casa, procuro uma sensação física forte que me roube por momentos a angústia. A águia com suas garras de sangue sobrevoa.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O tempo conjuga-se contra mim. já lhe disse que sou sua cúmplice, atirei ao rio uma pedrinha e fui-me com ela, mas Cronos voltou ao seu antigo hábito de comer seus filhos, em silêncio mostra um poder que não lhe pertence, concedido pela queda, nossa, precisamos de falar, meter uma cunha no espaço vazio para que não se feche a esperança de, por um minuto, no roçar de um olhar, espreitar para dentro da eternidade. Ninguém nos pode acusar este longo lamento contra o tempo, nós os que já habitaram estrelas na imaginação, ouvimos a voz das sereias e não regressámos mais, perdidos na miragem. Nós concedemos-te agora esse poder Cronos, tu sabes que um dia Zeus te enganará, mais uma vez, contra ti se unirão armadas e mares e dentro deles o coração quente das palavras, a chama dos sentimentos,dos quais tu, Cronos, nada entendes.

domingo, 15 de março de 2009

Eastwood, de novo



É absolutamente, absolutamente, desculpem a unanimidade mas o filme é bom, surpreendente, bem feito, humano até à medula, actual, e grande. Em vez de cavalos há um Ford dos anos 70, há carros, máquinas, homens montados em carros. Homens sem condescendência. Há uma prece em silêncio...Ave Maria... um padre sem história mas com carácter, uma rapariga chinesa que não tem medo e o choque de frente de olhos abertos a esta realidade violenta, feita de gente com valores e de gente desenraizada e sem escrúpulos.Há bons e maus mas matizados, uma série de histórias anónimas que tornam as personagens vivas e não fantoches de feira. Este e o outro filme de Eastwood voltam a criar a paixão do cinema , da arte, pura e dura de contar histórias.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A lua, a doce lua, a hipnotizadora, a exigente, a eterna e constante lua. quando assim nasce lenta, luminosa e lenta com suas curvas de lua cheia sobre o casario anónimo, abre a parte sensível da alma, esse lugarzinho apertado que quer ser infinito, porção de nós que já de nós quer sair para ser nas coisas, naquelas que tremem e lampejam e seduzem. Luz nas trevas assim são algumas noites e são mais que as palavras dizem, pois se nós as procuramos para se fazerem, também elas, luz. As pessoas com seus casacos invernais demoram na entrada e saída das casas a respirar, antes dos muros lhes cortarem a visão. em noites assim é preciso deixar vaguear os passos e nada compreender, deixar-se ir numa impressão e não voltar senão quando o corpo de cansaço ou a circunstância do trabalho nos martelar com seus ferrinhos de coisa ferrosa e persistente. porque aí noite, onde estás, haverá sempre uma parte de nós que fica, de casaco meio desfeito, nas dobras da noite que ficou.

domingo, 8 de março de 2009

Uno aprende que lo imprescindible


no eran los libros


no eram los discos


no eram los gatos


no eran los paraísos en flor


derramándose en las aceras


ni siquiera la luna grande -blanca -


en las ventanas


no era el mar arribando


su rumia rompedora en el malecón


ni los amigos que ya no se ven


ni las calles de la infancia


ni aquel bar donde hacíamos el amor con la mirada.




Lo imprescindible era otra cosa.




Cristina Peri Rossi, Estado de Exilio

terça-feira, 3 de março de 2009

A Festa na casa dos barcos, ou festa no clube de vela, os títulos deste quadro de Renoir não detêm a unanimidade, belo, a unanimidade congela e retrai nenhuma dessas sensações pode nascer ao olhar. O que me atrai neste quadro é esta atmosfera de lazer, esta descontracção e absorção no que é pueril e leve, os momentos, o presente irrepetível e espontâneo, o gesto que nenhum significado traduz só aquela tarde e a luz que dela emana sobre o corpo. Talvez precise de férias ou de me deixar banhar também nesta luz. Entrar na casa dos barcos, beber um vinho, acariciar um gato, colocar um chapéu de palha, ou deixar crescer barba e bigode. Não, melhor,um ramalhete de papoulas no cabelo.