sábado, 8 de maio de 2010

domingas

Domingas no final da aula , quando se atrasava, noite alta, não sabia como voltar para casa. dava-lhe então boleia.logo na primeira vez, o cheiro no carro, e os campos a passarem, inquietavam-me, perguntava: ainda é muito longe?, ela dizia não, não, enfiávamos então por um declive no meio do campo raso, e lá em baixo uns prédios, a estrada andava como em espiral, no último reduto, ao fundo,numa praceta de asfalto degradado, deixava a Domingas e os sacos que trazia agarrados, e não sabia como sair daquele fim de mundo. como volto para trás? ela explicava mas só ao fim de algum tempo de levar e trazer, pude situar-me e voltar para casa sem enganos. Domingas queria ser fisioterapeuta, mas no Centro de Emprego diziam sempre que já não havia curso, que tinha passado o prazo, nem emprego,e via muitos que se inscreviam e arranjavam logo boas ofertas, continuava por isso a cuidar de crianças durante o dia e a estudar à noite, queria muito aprender, mas não conseguia aprender, a letra da Domingas, as frases da Domingas. quando voltares para Angola a vida vai correr melhor! dizia-lhe, quando se punha a chorar porque não conseguia aprender. As minhas irmãs todas aprenderam, o meu pai diz que sou mesmo burra!. Não sei quantos anos lá andou enganada fazendo de conta que aprendia, num ensino de módulos muito exigente, agora possivelmente já desistiu e não sabe que um novo ensino substituiu o antigo, aí pode tirar o 12ºAno rapidamente. chama-se EFA. Domingas se me estás a ouvir, volta!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

a geração de 60

Steele Perkins
somos todos de 60, este é o ano de todos os perigos, ontem encontrei mais uma na noite com a voz entremelada de algum sono, álcool ou só canseira, o corpo aguenta-se lindamente mas é preciso, às vezes, cerrar os dentes. a vontade de dormir é sempre proporcional à de não dormir, o estribilho das músicas do Léo Ferré, das insónias provocadas a comprimidos ou curiosidade levanta-nos a pestana e põe-nos em bicos de pés, esta sagrada decadência fascina-nos, é inegável. as olheiras, o cigarro, a mente disponível para longas conversas ou apenas para observar, o entrar e sair das gentes, quase todos escandalosamente novos. claro, começámos com o habitual "o que tens feito" como se ainda ontem nos tivéssemos visto e, no entanto, passaram vinte e tal anos. onde está fulano, divórcios, desempregos, lembro-me da tua casa na Costa da Caparica, era tarde, tinhas uns curiosos abat-jours, tão curiosos quanto era impensável nesses idos 80, ter abat-jours na sala. do resto não me lembro. esta geração teve filhos, relações, desilusões, mas o mesmo espírito de procura, procurávamos dar forma a um mundo livre, árdua tarefa, agora essa forma está traçada, não há ilusões, fizemos o melhor que soubemos, somos definitivamente uma geração de demanda, de experiência. estávamos à experiência, ainda estamos.

domingo, 2 de maio de 2010



MAS CA GRANDE DESILUSÃO!!


É MESMO SOFRER ATÉ AO ÚLTIMO MINUTO!

sábado, 1 de maio de 2010

hoje a inspiração foge. não sem antes tamborilar com os dedos na mesa, não sem antes um rubor, um sacudir de cabeça nos alerte da sua surpresa. A consciência sente o incómodo à dor de fugir sem alguém para apanhar, minha inspiração, digo ainda,baixinho,mas, sem pressas, ela roça-se na parede e desaparece. deito-me ao canto da casa do lugar onde veja as ondas e o caniçal, desfio um rosário branco,um canto lento, uma ladaínha: a trepadeira ou o tica-tac do relógio, os foguetes do 1º de Maio, ao longe, a bigorna e o metal, a voz de um compromisso com quê? acho que não me lembro. Se na torrente forte tiveres uma força a submergir-te outra a amparar-te. Hesitas ou sobrevives. Há coisas que correm à nossa frente outras que flutuam em redor.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

o confronto entre Arte e Natureza conduz-nos inevitavelmente à beleza mas também à monstruosidade, ao inusitado, ao sublime. a Arte complementa a natureza humanizando-a, dominando-a sob os canônes da técnica e da expressão, na Arte tudo é domínio e se não é, falha. adquire por vezes a perfeição ao parecer elevar-se e ultrapassar os limites do possível, mas é só um leve tumulto, um êxtase da alma, compreendemos num assomo que é ainda do humano que se trata e isso exalta-nos, mas na natureza há uma cegueira que nos é estranha, que não compreendemos, que nos ultrapassa. Daí que os argumentos tolos da natureza isto e aquilo como se a natureza fosse boa , sublime , grandiosa e exemplo a seguir, baralham-me. Essa é a natureza que queremos ver, não é a natureza. Os gregos são mais sábios que nós os modernos, a eles interessa-lhes a natureza humana e não a confundem de modo nenhum com a natureza porque são diferentes. Os modernos é que partem da falha, da queda do homem que afastado da natureza se refugia na sociedade, falso.O homem não é um ser natural. Como assim? perguntarão, então não se alimenta e etc. mas pergunto: que animal criaria a Arte? Conciliá-lo com a natureza é o mesmo (sempre foi) que conciliar a natureza a ele. Falso novamente. O melhor é entenderem-se como diferentes e com diferentes finalidades.

sábado, 24 de abril de 2010

atmosferas

entrava-se no restaurante por uma escada transparente com luzinhas verdes a apagar e a acender, sob a escada os breves clarões reflectiam sobre uma série de objectos em vidro multiplicando tonalidades como se subíssemos ao céu, assim, directamente mal entrávamos a porta da rua e seguíamos a seta que dizia restaurante indiano. Lá dentro penumbra, apenas iluminada por velas que o empregado, gentil e silencioso, acendia mal entrava alguém para ocupar uma mesa. Nas paredes predominava o verde folha e o vermelho vinho, e as pinturas ocupavam o espaço todo em redor, senhoras deitadas em luxuosos trajes, o Taj Mahal ao fundo, rostos de homens belos com turbantes, cavalos, cidades, palmeiras, se a ideia era criar uma atmosfera ou se era apenas deixar os artistas exprimirem-se livremente pelas paredes antigas,foi amplamente conseguida e quando olhámos a noite cá fora pelas largas janelas entreabertas, houve dúvidas se estaríamos em Lisboa, na calçada da ajuda, era uma dúvida meiga e compensadora, depois de um dia desgastante. do Tandoori diria razoável, mas a comida não seria o mais importante. quando terminámos, veio a fome do cigarro e o leve incómodo de não poder fumar ali, de ter que ir à rua, de quebrar aquela coisa verde e vermelha que se instalava , a cantilena, a dormência dos olhos à penumbra ou ao vinho, não sei bem, olhámos em redor, o casal da mesa ao lado trouxe-nos o ensejo à fala; será que podemos fumar aqui? Os outros dois casais, saídos da sua gruta, juntaram-se-nos no cigarro e comungámos todos, por breves momentos, da mesma festa.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Joanna Concejo




Joanna Concejo (ilustração)
a palavra justa para descrever sensibilidade, será sensibilidade mas se não chegar então o melhor é colocar por perto uma figurinha, uma pequena poça de água, uma árvore muitíssimo despida ou, talvez , um suspiro, (como poderá ilustrar o suspiro?) ou um casaco velho com bolsos cozidos ao forro, uma meia com um buraco no dedo grosso do pé, uma borboleta esvoaçante ao redor do pescoço, os dedos finos abandonados sobre o parapeito da varanda. A sensibilidade usa-se ou deslumbra-se? descobre-se ou esconde-se na página seguinte? Uma delícia que vivamente se recomenda.

sábado, 17 de abril de 2010

Beauvoir e Lawrence



Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, a propósito de D.H. Lawrence:




"macho ou fêmea, nunca deve procurar nas relações eróticas o triunfo do orgulho nem a exaltação do eu; servir-se do sexo como instrumento da sua vontade é um erro irreparável; é preciso destruir as barreiras do ego, ultrapassar os próprios limites da consciência, renunciar a toda a soberania pessoal.(...)o sexo não é ferimento ; cada um dos indivíduos é um ser complexo, perfeitamente polarizado; (...)o acto sexual é, sem anexação sem rendição de nenhum dos parceiros, a realização maravilhosa de um pelo outro."




a velhinha Simone com o seu feminismo militante, um livro que o ano passado fez 60 anos de publicação e é hoje considerado demasiado radical, volta a ser acutilante, numa época cheia de mariquices ego/relativistas de "eu acho" e "eu não acho" e "cada um acha", etc. A propósito dos casos frequentes nos tablóides de que há gente viciada em sexo. A questão de reduzir o sexo a um acto de consumação da conquista torna-o vazio. Sempre existiram esses comportamentos, basta lembrar-nos do D.Juan, mas enquanto no passado era crime moral e civil, hoje é de louvar, os viciados em sexo são secretamente invejados, porque há muita frustração na sexualidade e a frustração é terrível para deturpar o juízo. A repetição exaustiva do mesmo comportamento resulta do vazio que se instala no depois, como se o acto se esgotasse no momento e não trouxesse qualquer fulguração de mudança. Não se sai do eu, da imanência, depois de consumado, volta tudo a ser o que sempre foi, renovada a necessidade de conquista. A conquista dá a ilusão de poder satisfazer essa carência, mas é uma mera ilusão. Quando se faz do corpo um instrumento que só com o outro pode transcender a condição mais ou menos carente de que todos padecemos, libertamo-nos dessa ferida. Faz todo o sentido.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

confiança

a minha sobrinha anda confusa, no alto das suas Flys, das suas esguias pernas, dos seus magros dezasseis anos, procura, entristece, sacode a longa cabeleira. sofro horrores por ela, sinto-me mosca sem asa porque não sei como lhe dar alguma luz e alguma tranquilidade. trata-se do reino mais lodoso e espinhoso: o reino dos afectos. todos sabemos que não há como evitar sofrer, temos mesmo que sofrer para aprender, e cada um vai aprendendo assim, mais ou menos, porque também podemos aprender nada, seja como for, depois de mastigar inúmeros pensamentos com palavras, (queria resumir numa frase tudo o que aprendi sobre isso, sem temor, desassombrada) só me ocorreu dizer-lhe: Digno do nosso afecto é aquele ou aquela em quem confiamos. repeti o conceito.confiança. não há fórmulas mágicas e neste subúrbio emocional o que menos interessa são palavras, bolas, é impossível dizer tudo o que aprendi numa frase, mas pareceu-me a mais certa, oxalá te possa servir.
quadro: Aleksandra Nowak, girl in black

sábado, 10 de abril de 2010

Millennium

Noomi Rapace é "A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo." a hacker com um dragão de fogo tatuado nas costas, Lisbeth Salander personagem central de uma trilogia policial sueca escrita por Stieg Larsson.O cinema sueco não deixou o crédito das boas histórias para os americanos (o Fincher vai fazer uma remake, a ver vamos) mas não há dúvida que pulveriza as americanices de efeitos especiais e visão maniqueísta da realidade. Há aqui um material verdadeiramente moderno, nos modos de vida, e trágico, velhissimamente trágico, edipiano, lembramo-nos das velhas tragédias de Tebas em Estocolmo. Movemo-nos com ela em alta velocidade à beira dos limites, num misto de medo e coragem, todos (sobretudo, nós mulheres) gostaríamos de ter aquela determinação, a sua credibilidade vem da interpretação fabulosa da actriz e do argumento que nos faz questionar o bem, o mal e o poder de os separar.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

férias

areia fina, seca, horla de areia molhada, pequena rebentação, mar, o piar das gaivotas com seus passos muito rápidos para a frente. a queda da tarde, a queda tarde com a dissolução lenta das cores. e o momento este que se eterniza como um tributo ou uma oferenda, o cordeiro sacrificado sobre a breve indiferença do tempo.
A quem fez tudo tão perfeito não posso deixar de tirar o chapéu. agradeço-te...
ai! hoje estou definitivamente piegas.

domingo, 28 de março de 2010

dia de teatro











dia 27 é dia de teatro. desde o princípio que soube celebrar o Teatro, faço-o porque me sinto traidora, infame, cínica, e nada como a má consciência para nos mover ao altruísmo. este ano fui ver Ivanov ao Maria Matos, o ano passado levava peça a cena, peça ainda inacabada como quase tudo o que faço, alinhavo, mesmo assim cumpria o repto, sacudia a culpa de não me esforçar para dar melhor voz ao chamamento. há quem seja chamado a Deus, eu fui chamada para o Teatro e nem gosto especialmente dele, é uma relação familiar, uma coisa de não escolher , de ser assim , nem é uma fatalidade, mas surpreende-me, só isso.


voltando à peça, frases dos actores largadas ao improviso arrepiaram-me, não foi Tchékov certamente que escreveu " só cá faltava mais este!" e outras barbaridades surgidas ao acaso, para ser divertido. sacrifique-se o texto, a bem do espectáculo,até se podia aceitar se fosse um texto qualquer, mas Tchékov não é "um qualquer", meter buxas a heito para simplificar a modorra das frases parece-me desleal. (resta saber se a lealdade tem alguma coisa a ver com arte, até nem tem) mas corta a melodia do texto, conspurca-o. (nem sei como dizer isto porque sinto-o mas depois dito soa a moralismo de pacotilha) Mas este Ivanov tem o mérito de nos confundir, ficamos a remoer: espera, isto é tragédia ou comédia? ora essa dúvida coloca o dedo na ferida, de facto Tchékov faz a tragédia parecer ridícula, uma tragédia ridícula num mundo ridículo onde o amor tem o mesmo valor de uma pescaria ao sável.
Imagem do Grupo "A TRUTA" e Tchékov

quarta-feira, 24 de março de 2010

resultado

abecedário da forma, acercadura da aparência. resultado.
baixando o olhar podemos seguir a linha até ao sítio mais permeável em que já é mancha, podemos também num gesto magnânimo abandonar
como quem diz, estou farta mas não queria dizer e escorrega para o vácuo
aí sem conta nesse preciso momento onde
possuída por um dromedário de vozearias ríspidas deixa que elas risquem ao acaso sem se importar.
recomeça
o resultado do meu olhar (deste meu olhar)vence a espuma com que te vou olhando a ti, sem serenidade alguma,
fazendo figas.
o outro , o olhar que te seguia, bebe, ferido, estende os dedos
escuta o compasso com que respiras.



Imagem:Robert Longo, desenho

domingo, 21 de março de 2010

Ara Guler: o fotógrafo



as imagens são de Istambul nos anos 50, o momento único, insubstituível, a vida mínima ao milionésimo de segundo do click.aquele som, o tumulto, ou a história, o movimento onde se segue o passado e adivinha o futuro e a cidade, a gente e a pedra, a água perdida na sombra, o pó do sapato. o que ali, justamente, se passou, inscrito na mancha e na linha que impressiona o papel.
se há momentos de revelação, este foi um deles.

sexta-feira, 19 de março de 2010

no cabeleireiro


o rapaz brasileiro tem voz meiga , braços compridos, mãos ágeis. e certamente não uiva em estádios de futebol. naquela fábrica de "arranjar mulheres" são cada vez mais os cabeleireiros masculinos brasileiros. hoje percebi porquê. não é só o cabelo e a unha, é a auto-estima que é preciso compor, e, nessa área, são mestres aqueles rapazes bonitos que nos rodeiam a cintura com delicadeza para retirar o papelote com o pedido e nos mostram no meio de um cabelo espigado a mais afrodisiaca das formas. Não fui apenas cortar o cabelo, fui assistir a uma aula de como ser amorável. aula ao vivo e sem matéria teórica. poderia ter saído dali arranjadinha como uma jarra de sala num domingo de festa, mas preferi limitar-me ao corte de cabelo, com secagem rápida, um pacote junkie. ricardo, assim se chamava o rapaz, explicou-me as possibilidades, dada a presente circunstância, (reduzidas). competia-me a decisão, ora, muito correcto, mas hesitei, veio-me a saudade da minha antiga cabeleireira que começava na tesoura e acabava no secador sem me perguntar nada. para que serve a liberdade de escolha se nem sei o que quero? prefiro que ouse tomar a iniciativa, logo se vê, disse. para abreviar, foi rápido e brilhante, saí do cabeleireiro como o católico do confessionário, não era só o cabelo, era a alma lavada e...com amaciador.

quarta-feira, 17 de março de 2010

romaria

no carro, entre carros, oiço os primeiros acordes, num dia que seria um sonho mau se não fosse apenas realidade pura e dura, sem a habitual poesia que como o coentro na açorda vem salpicar os pés e sobe mansa pelas veias, soletro Caipira, "Sou caipira, pira, pora, nossa, senhora de aparecida, ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida", um toque de seda, um gole e outro, o sol, sacudir a cabeça, "como eu não sei rezar, só queria mostrar, meu olhar, meu olhar, meu olhar" ao ouvir esta música, (ou foi depois de beber as duas caipirinhas? não sei,mas acredito em coincidências) a meio do charco empapado da minha angústia de não vislumbrar solução para a peça, a peça, a peça, vejo já as caravelas por aí fora, a culpar-me sem remédio, tive uma ideia, e se fosse um mendigo a sonhar? um mendigo a sonhar com o vasco da Gama e a vê-lo no seu sonho? Claro, a ideia resulta, é um pouco como nos sentimos todos, ou como gostamos de nos sentir, uns coitados que já foram reis.curioso ter encontrado uma solução tão lusitana entre tanta euforia brasileira.

Obrigada Elis!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Luís

já tinha perguntado à minha irmã: Afinal de que morreu o Luís? a morte tinha sido inesperada, ainda na semana passada o tinha visto na rua, ela não me soube dizer, vim a saber pelo Jornal, agora no Público, este Luís, imaginava-0, mas à medida que fui lendo a notícia o retrato incrédulo do Luís foi surgindo, claro, só pode ser o mesmo. Atirou-se da Ponte Vinte e Cinco de Abril. dava aulas de música, éramos vizinhos quando ainda vivia em casa dos meus pais, tocava flauta e escrevia no jornal de Oeiras. a notícia diz que foi vítima de "bullying" de uma turma de alunos, insultavam-no e não tinham qualquer castigo. impunidade. a escola aboliu os castigos...como tudo isto me parece imensamente infeliz e imensamente estúpido. mais uma vítima de insultos e humilhações em escolas sem tomates para manter a disciplina, o Luís, o Leandro, não sei se dá vontade de rir ou de chorar. SUICÍDIOS? NÃO! ISTO SÃO HOMICÍDIOS POR NEGLIGÊNCIA! veja-se aqui

terça-feira, 9 de março de 2010

o cão


estava na loja de animais, era pequeno, cachorro, olhou para mim com uns olhinhos de tristeza, foi um segundo de empatia total, corri para dentro da loja para o levar, é que emoções assim não acontecem todos os dias. alguém me puxou pelo casaco, ouve, disse, queres um cão? adopta um desses abandonados, mas eu não queria um cão, queria aquele castanhinho sentado sobre as patas traseiras a pedir para o levarem. a seguir, com o cão ao colo, lembrei-me do apartamento pequeno demais para um Labrador, do bicho aprisionado entre o sofá e a cama e voltei a pô-lo no lugar. a custo. um dia voltarei para te buscar, prometo. entretanto talvez tenhas razão, talvez se arranje por aí um franganote abandonado, de olhos tristes, que me parta o coração.

sábado, 6 de março de 2010

Já me tinha dado para escrever sobre a Leya quando lá andei a cirandar, e sinto um secreto prazer por ver confirmada a minha intuição de que aquilo não é propriamente uma editora de livros mas mais uma máquina para vender um produto rentável (cedo à tentação dos chouriços, porque nem de longe há qualquer semelhança entre a Leya e qualquer produto tradicional de cheiro). Vi-o naquele ar eficiente e crispado das pessoas, aquele ar de quem tem objectivos muito precisos a atingir. a propósito, esta mania actual de colocar objectivos muito precisos a atingir para cada um, em cada parcela de tempo, se bem que seja muita aritmética é também muito estúpido, porque focamo-nos numa coisa e perdemos o gosto para o improviso e para o espontâneo, sem dúvida, o nosso melhor.
Mas a Leya foi Fo....pelo MEC que a mandou Fo...
assim, saborosa a frase, limpinha,lançou a blogosfera num entuasiasmo Primaveril. Toda a gente fala disso.

Agora que todos batem na Leya sinto pena, quero salvá-la! Nós temos de deixar esta mania de ser Românticos e considerar os livros como negócio!! Tento convencer-me. Ok. Têm que pagar aos empregados, ter lucro, etc mas porque não publicam o Cesário Verde? Agora destruir livros para pasta de papel sem tentar vendê-los mais barato, parece-me de" gomitar"como dizia a minha amiga D.Angela depois de beber mais que a sua conta!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Alfarrabista

chovia copiosamente quando entrei no alfarrabista da Poço dos Negros, toda a rua em declive, estreita e escorregadia exigia uma atenção e uma arte para não pôr o pé em falso e desabar no chão, foi a olhar para ele que abri a porta com a tabuleta ABERTO escrita a computador em folha A4. Lá dentro a luz acesa e o cheiro, aquele cheiro a livros velhos que sempre me há-de tirar do sério e estampar-me um sorriso imbecil e sonhador no rosto, aquele cheiro para onde mudaria a traquitana da vida, em peso, e a arrumaria ao acaso entre os volumes simétricos, nas estantes a perder de vista, o Borges tinha razão: cada biblioteca é um labirinto infinito e cada livro uma chave e uma perdição para outros labirintos. O velhote escondido atrás do balcão tinha o ar calmo e solícito de um alfarrabista antigo, homem de livros, sim, tinha, foi procurar, temos 20.000 títulos, ao fim de algum tempo lá me apresentou os Irmãos Karamazov e a obra completa do Dostoievski. A edição era dos Estúdios Cor, num só volume de folhas amarelecidas. Exultei, era mesmo isso que procurava. A chuva, é preciso ter cuidado, disse, enrolou então o livro em dois sacos plásticos enquanto me fazia à conversa, para prolongar um pouco mais o momento, o momento do dia, pensei. Cá fora a chuva continuava, pus o livro na mala e não me preocupei mais com a calçada escorregadia.