
A GRELHA E O GRELHADO
Agora também os professores, mas a obsessão está mesmo generalizada, falo da exigência de ter objectivos para todas as actividades, como se, sem eles, nos sentíssemos perdidos, inúteis, incompetentes. para cada assunto, tema, tarefa, há outros tantos temas, assuntos ou tarefas a atingir com aqueles, numa espécie de escala onde são estabelecidas formas de atingir e formas de aferir a sua obtenção. Dá-se-lhe depois um nome: monitorização. o seu suporte: a grelha. tudo, de preferência, é monitorizável e a ideia é a de que falta sempre qualquer coisa para monitorizar. A actividade é insone.Quantas vezes levou o aluno o lápis à boca? quantas fichas foram bem aceites? que objectivo monitorizavam? A urbe, a cultura, a aprendizagem são como a criação suína.quantos e quanto tempo levam a engordar? quais as condições ideais para a engorda rápida e com menor custo? testaremos esta e esta, até ao resultado ser optimizado.
Estarão as Escolas melhores com tanto controle? Estarão os alunos mais educados, sábios e capazes? Não, não estamos mais capazes, mais espertos, mais sábios, não, só estamos mais medidos, mais controlados, e mais paranóicos do controle. cada um com a sua grelha de sucesso.cada um com a sua escala, feita por peritos em escalas que são por cada escala pagos. Se não fosse actividade maníaca era só enjoativa. nem vou explicar porquê, é alarve a explicação, isto é, fede. e as escalas das comidas? as calorias? monitorizemos o que comemos. e o sexo? quantas vezes? qual a melhor posição? o que é preciso para atingir o orgasmo?Venha daí a loiça das Caldas, chamemos o Bordalo, invoco a Invenção do Amor. Posso?
mas antes, porque o registo é assaz diferente, respiremos fundo, façamos uma pequeno esquecimento voluntário como se nada do que se escreveu antes fosse realmente importante e, não é.miudezas.
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo
Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia
Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Mergulhar na ansiedade, do mesmo modo que os panos brancos mergulham na tinta e tingem-se. os tipos que mergulham com tubo sustêm a respiração enquanto a luz do sol se esvai à medida que mergulham mais fundo e o peso da água é uma parede. mas de que serve escrever sobre isso?Os cadernos de literatura rejeitam a ansiedade, a poesia feminina nem tanto, não pode fugir-lhe. Escrever sobre qualquer coisa de íntimo terá um efeito qualquer, esse efeito depende talvez da vontade de quem escreve. eu quero dizer, preciso de dizer, que te encantem as minhas palavras, também, embora não surjam com guizos, desejariam tê-los. articulemos:a ansiedade é nossa e tudo o que é nosso é desejável, pela razão de ser da nossa natureza. se a ansiedade é natural então ela é desejável. se funcionássemos assim, então não havia ansiedade, porque esta surge na medida em que há um aquém e um além. além o rasto de um paraíso, aquém o mesmo, coisas, poucas. há mesmo qualquer coisa de errado connosco. devo torcer-me ou deixar-me ir? ficamos a meio dos dois, inclinados para os dois, boquiabertos e ligeiramente enraivecidos com os dois, será mesmo uma inaptidão para viver a liberdade ou o resultado de a viver, ou de a pensar? pensar cria uma erosão estranha, uma distância ao mundo exterior, traz para muito perto as sensações, não como são, mas esgotadas, exaustas, de se medirem sem resultado pela perspectiva de um estranho, o pensamento. intruso incontrolável. usurpador sofisticado.










