quarta-feira, 2 de novembro de 2011

devoções

Podíamos ser devotos de Jesus Cristo ou da Virgem Maria, normal, são figuras culturalmente sagradas, mas também podemos ser devotos de um tom de cabelo, de um certo odor, de uma expressão, de um movimento. A sacralidade está na submissão do sentir áquilo que pela sua beleza é de outro mundo, julgamos nós, quando sentimos ser desmesuradamente completo, absoluto em si, o seu aparecer ou ser; paradoxal é descobrirmos nessa submissão uma forma insuspeita de liberdade, a liberdade de sentir e nomear sem medo dos territórios fechados onde a vivência do sagrado nos é consentida. São, por isso, permitidas todas as ficções e até imensamente desejáveis se por elas reescrevermos o mapa das nossas pequenas e insignificantes relíquias. Podemos usá-lo para descobrir a direcção, o nosso mapa do tesouro, mas teremos de guardar para nós o mecanismo da sua descoberta.

sábado, 29 de outubro de 2011

PRAXE PRAGA

Fui ao Doclisboa com uma turma. Vimos três documentários: Flying Anne, The last day of summer e Praxis. Este último era um documentário sobre as praxes dos caloiros universitários. Portugal: 2011. Não precisava de ver no ecrã de um cinema o que a minha sobrinha já tinha relatado em primeira mão: em Farmácia andaram presos por cordas uns aos outros, ajoelharam perante o padrinho e tinham farinha e vinagre em todos os orifícios do corpo. ela ria-se contente...gostei muito do meu padrinho. Deixa, eu percebo, mundo novo, queres ser aceite, na desportiva. Mas assalta-me a perplexidade: Se é de integração que se trata porquê assim? Porquê pela humilhação? Chafurdar na lama, ajoelhar com orelhas de burro, simular ser violada, comer alho de olhos vendados e mãos atadas, chamar-se a si próprio nomes horríveis enquanto se obedece às ordens avacalhadas de um "superior" de capa e batina negra, cheia de símbolos. Se este modelo não é fascizante, então não sei o que é fascista. Este é um fascismo consentido, o fascismo possível. Seja qual for, é nojento. Era tempo de se recusarem todos a estas palhaçadas.

domingo, 23 de outubro de 2011

serviço ao domicílio

Já tinha comprado de manhã este pedaço de bolo mármore depenicado na sua caixa de papel engordurada, não lhe liguei,viajou comigo no banco detrás do carro, avantajou-se despercebido sobre a mesa de uma cozinha portuguesa, (para evitar sentimentalismos) e voltou aqui à secretária, para servir esta pequena demonstração mesmo agora descoberta: aquilo que nos traz à tona, inadvertidos, solta-se das fagulhas da memória. Dentro, fundo de nós, nascem oásis, fotografias doces, pedaços de bolo mármore ao canto dos lábios tornam à vida, na lembrança. A minha tia (que jaz num lar à espera da morte) fazia grandes bolos destes e, ao domingo, o pessoal pequeno não lhe deixava a janela. Em guardanapos de papel minúsculos ela passava-nos para as mãos, depois de mergulhar na penumbra da casa, grandes fatias que nós devorávamos com os olhos e com a boca, agachados à janela do rés-do-chão. Viajo também até Monte Clérigo onde, mais velhinha, naquelas madrugadas de verão nevoentas, interrompíamos o sono para esperar à porta do café da praia." Um café e uma fatia de bolo mármore" as ainda quentes fatias de bolo mármore. E se para nada servisse o amor, responderia aos mais cépticos, que ele, o amor, abre grandes clareiras de luz, certas amenidades, num domingo como este, onde ninguém o esperaria.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

particularidades

fala-se muito e obsessivamente sobre o mesmo, mas poderia eu dizer, a curva de um ombro, uma perna.

o efeito ralo, um sorvedouro por onde se esgota o pensamento, passa, mas poderíamos dizer o fresco da tarde, a lonjura vaga de uma manhã.

o mar aos dias ímpares estaria certo, mas diria as vagas uma ou outra salpicando, os mais belos e afortunados ancorarão a esperança no abraço, no riso, o pão da proximidade corajosa, um e outro ou mundo inteiro para conquistar, seria irrisório afirmar peremptoriamente: mundo inteiro e fugazes sequências lunares na verticalidade do caminho, quando nos inclinamos para beijar.




Quadro: Hermann Seeger

títulos deprimentes

Já aqui tive oportunidade de dizer que atribuo o meu ser conservador, com uma costela raquítica de reaccionário, à idade. envelhecer em nós envelhece o redor de nós. aplicamos a fórmula: seguritas, vice silenciosa. que a segurança é silenciosa e adormecemos confiantes. hoje, só hoje, (é incrível a pretensão que ter um blog pode dar...)vou abrir uma excepção e articular algumas palavras sobre o que penso deste problema:


Democracia e falência capitalista.


Vejamos três tópicos que cobrem o espectro opinativo imediato:

1.Estamos falidos.

Portugal não é uma empresa falida. É o Estado actual que está falido. mas a falência não é só nossa, os Estados capitalistas estão todos falidos. o capitalismo arrasou. não são os Estados políticos a governar. o capitalismo é que governa. o FMI, a Banca. etc




2. Passos Coelho com os óculos encavalitados e o ar de retoma (austera) faz lembrar Salazar.

FAZ LEMBRAR e ele próprio acha que sim...não sei bem quais as consequências mas não auguro boas porque Angola, Guiné e Moçambique não podem ser a escapatória, logo, não há por onde escapar à miséria.


3. A economia é estranha, anda tudo com ela na algibeira, a poupança e bla bla bla mas não há uma ideia política inovadora. era esta a altura de ousarmos. por exemplo: descobrir o equivalente ao caminho marítimo para a Índia que já descobrimos.


4. Os protestos nas ruas dão-nos a cor da nossa desconfiança mas também são manipulados vergonhosamente por partidos insatisfeitos e anacrónicos como PC e Bloco.Urge outra revolução para instaurar outra ordem, (acho que vou morrer sem ver). A nova ordem política deixa a cisão esquerda direita. Sempre achei que essa treta dos direitos assentava num facto essencial: O dinheiro. Há que depôr o capitalismo. Fazê-lo baixar a crista. Como vivemos todos segundo o capitalismo, fazê-lo baixar a crista é baixarmos nós a crista ao consumismo desenfreado.Os nossos hábitos de vida são o capitalismo. Vou pensar sobre isso.

Fotografia de Kertész

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

a quadratura do círculo

Comprometermo-nos com este pacote de medidas que nos cortam os subsídios e nos reduzem o poder de compra, comprometermo-nos com o Estado/governo eleito democraticamente? ou desobedecer, indignar-se, sair à rua contra esta entropia capitalista que nos quer asfixiar? A segunda hipótese parece-me mais poética e mais dinâmica, a primeira é mais sensata. A questão está na banca e na especulação bancária da qual os governos são reféns, o nosso especialmente. Mas nós, aqui, confortavelmente assentes na comedura bancária, cheios de hipotecas e fragilidades para manter o nosso status, não podemos ignorar que o Estado forte é a nossa garantia, daí que a escolha para mim é óbvia. A democracia parece-me um bem mais valioso, a democracia e a independência podem estar ameaçadas se não nos conseguirmos aguentar. É como ter a nossa casinha e dever montes de dinheiro, vamos fazer economias para pagar as contas ou vamos deixar de pagar tudo? E depois? A minha mãe sempre me ensinou, deves? pagas. Parece-me justo mas que custa, custa.

sábado, 8 de outubro de 2011

fase de negação

peço desculpa à meia dúzia de fiéis leitores deste blogue mas tenho a declarar uma heresia: contra a religião actual, eu não acredito no "deus gola alta da Apple" e, tenho também a declarar, que não contribuiu um milímetro para mudar a minha vida. Deve ter contribuído para a humanidade inteira ficar fascinada com o ilusionismo de criar necessidades em bagatelas. tablete a mais ou a menos mas se querem saber, os louros são para os cientistas que permitiram a computação, equacionaram as leis dos quantas, e, sim, esses permitiram o futuro. Admira-me que um milionário vendedor de produtos seja o grande visionário do século. uma espécie de cristo- vendedor informático. a Apple factura bem com este herpes colectivo.

Deixo-vos com Ana Mendieta, uma rebeldia com duas pernas grossas,vasos sanguíneos, ervas e corpos em revolta. justamente.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

millennium 3

Sobre a trilogia "Millennium" temos Noomi Rapace no papel de Lisbeth Salander: "A raínha no Palácio das correntes de ar". O Filme, de produção sueca, não teve, neste terceiro episódio, os meios monetários do primeiro e, é pena, porque esta saga vai muito bem com suecos e aquela língua bergmaniana cheia de cruzes. Talvez o espectro da versão Americana - canastrão Bond em efeitos especiais à velocidade da luminária que é, embora finja que não...ele há destas coisas...os tenha feito despachar mal alinhavado este filme, urgia antecipar-se. O primeiro episódio era soberbo,. O grande feito deste era o final. Salander alone no rochedo de Gibraltar. (leia-se no livro)" Lisbeth tinha verdadeira intenção de não ficar em Gibraltar mais de duas semanas, até dar uma nova orientação à sua vida. Ficou doze." e o encontro " Já não a magoava vê-lo. Abriu a porta..." ELIPSE, Gibraltar is missing, o encontro final é transviado, senti-me ultrajada, mas à Noomi ergo a taça, esta Lisbeth é um golpe de águia cortante e inspirador.

domingo, 2 de outubro de 2011

tou com saudade



essencial, visceral,o sindroma, parece-me mesmo sob o prisma conceptual mais erróneo, que está certo, ou melhor, trouxe a Bethânia e disse: canta! e ela cantou, cantou só para mim, ao meu ouvido.

domingo, 25 de setembro de 2011

bátega

neste tempo aqui, agora, há coisas a fazer, nada para dizer. disse tudo, disse demais, usei muitas palavras, não disse nada, consente-se em dizer, depois em não dizer, só puxam pelos colarinhos umas das outras, as palavras, então, basta, falar. pode-se rir, chorar. abraçar.correr. acercar-se do corpo, respiração dolorosa, envergonhada. é triste o corpo, quando o olhamos como estrangeiro, descurámo-lo e as vísceras revoltam-se, parece-me uma ideia com pernas para andar que as grandes revoluções, até as pequenas! se iniciem com violentas dores de barriga. não é digno, não senhora, mas a dignidade ou o esforço para a repôr vem depois e é a história inteira.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

on the beach

demoro muito tempo a não fazer nada por estes dias quentes de Setembro. demoro nas coisas porque as disponho de forma diferente para me certificar da surpresa de não as encontrar no sítio habitual. demoro-me também nas tarefas, reconduzo e recomeço, separo, reconstruo.adio. demoro-me muito nos sonhos e nas imagens do pensamento acordado ou no pensamento a dormir e demoro-me sobretudo nos sentimentos. olho-os. com vagar. deixo-os chegar mesmo à flor da língua mas não os seguro ao nome, prefiro que dancem sobre a tentação de os agarrar a um ou outro, meus serão mas não tenho a certeza.vêm e vão. aprendem e esquecem. e são novos, resplandecentes, guerreiros e escravos. neste dia quente de setembro, na praia, com a Escola longe, uma onda veio rebentar nas nossas pernas de banhistas tardios, sequiosos de fresco, não resistindo ao impacto caímos como um castelo de cartas. de gatas no meio da espuma olhámos uns para os outros e desatámos a rir. comungar um sentimento é uma alegria. (sobretudo com as calças na mão) seria até desejável reconhecermos que andamos todos de calças na mão, ou seja, de gatas na espuma.

domingo, 11 de setembro de 2011

Para começar o novo ano, acordei com esta música.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

coisas esquisitas

Acho que Pessoa tinha razão, pode-se perfeitamente viajar sem sair do mesmo sítio, entrar em lupanares ou escorregar em areia fina, subir aos Alpes ou atirar pedras no deserto do México, até , pasme-se!, acelerar a velocidade supersónica dentro de ondas tubos ou conversar com peixes alaranjados, isto sem precisar de garrafas de oxigénio, apenas com o simples movimento pulmonar, pode-se encontrar nas calçadas da noite reflexos de outras calçadas, inúmeras ruas e seus cruzamentos, seus espelhos de poças amachucadas onde a lua foge de estática a socorrer-se de lianas para baloiçar nos ramos de sequóias gigantes, pode-se seguir sombras de crimes e desembocar em alamedas, juro que sim. e sei que sim, porque desconheço o perímetro da terra mas já o desenhei num instante, a giz, sobre os teus ombros.

sábado, 3 de setembro de 2011

deleuze




ando a tentar perceber Deleuze e o sentido do conceito "máquina desejante" e da frase: "todo o desejo é esquizóide". Qualquer frase, até a que incorre em contradição, como "o desejo não é o desejo" tem a sua justificação ideológica à luz desta alucinação pensante, chamada pensar "de fora", pensar exterior aos mecanismos de poder (a lógica deve ser um deles) presentes no discurso. Boas intenções. Em todos nós (falo da minha geração mas não só) há um rapazola de cocktail molotov contra o poder, coraçãozinho no Maio de 68 prestes a sair à rua (entre as três e as sete da tarde, se a coisa não tiver grandes consequências, e se puder tomar café). Se o pudermos fazer no discurso, melhor, mais confortável, não precisamos de apanhar chuva, por exemplo. Então a questão é apagar o sujeito e substituí-lo por um colectivo, daí a máquina. A deseja B, lógica burguesa e rançosa, antes: Deseja-se, muito, a toda a hora numa produção constante a partir de delírios colectivos. O vestido, a festa, a rapariga, a promoção, o cantor. Esquizóide sem dúvida, mas libertador. Fabriquemos sem punição os nossos objectos desejantes, essa será a única reacção genuína contra o poder da neurose burguesa e autoritária (acasalamento, família, pátria etc). Oh yes! Tentador e refrescante!




veja-se o "Pierrot le Fou" do Godard (imagem)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Londres 2




Já que pediram, por quem sois! aqui vão mais umas quantas, estas são sobre doces. Intimidades, coisas que derretem na boca. Conseguem perceber o que está o tipo da Tshirt preta a fazer?



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Londres






Os londrinos na rua mais antiga: Fleet Street e o árabe no meio da balbúrdia da feira de Camden. Se olharmos para cima não há diferenças, são só nuvens, não creio que de haxe mas não tenho bem a certeza dada a persistência da criança em querer um nevoeiro só para si. passei o tempo todo com a cantilena "London Bridge is falling down, falling down..." talvez porque receasse uma hecatombe mas afinal não, o maior susto foi mesmo o do árabe que não queria ser fotografado e correu atrás da máquina quando a ergui ligeiramente e lhe apanhei a face.Meu caro, se visses o resultado talvez ganhasses mais facilmente a vidinha posando para turistas curiosas.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster

Elizabeth Bishop

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Talvez este não seja o ameno tempo das palavras. obscuro, mais obscuro ou pueril o que sentimos, já as usámos todas e com elas nos separamos. engano é pensar possíveis, há sempre depois os factos, o que fazemos. vamos ou ficamos. enfrentamos ou fugimos. e o tempo escoa entre os pingos da água que empapa a terra seca. pensar não atenua o fogo mas incendeia pequenas ilhas incólumes em volta. pensar alimenta o fogo, abre possíveis. não pensar é melhor, regar as plantas, lavar a loiça, ataviar o tempo de laçarotes, viver na cómoda ilusão de um tempo que virá. Pegar no martelo para construir muros ou, na melhor das hipóteses, passagens estreitas entre pedras que se desconhecem apesar da antiga proximidade. É tremendamente desconhecido, atávico, o desejo, quer a vontade que ele permaneça ao largo com seus furacões de lava, sem ele, esmorecemos e no verão vem a cacimba tuberculosa do inverno.

sábado, 6 de agosto de 2011




assim, não abandonando esta onda, especialíssima praia que de longe será virtualmente igual, mas perto, de perto prende, Calipso passou por aqui. aceitam-se apostas,