segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

No dentista

clínica dentária, quatro e picos, um frio dentro e fora da alma. Brocas não são a minha especialidade ao contrário do sofrimento com dentes, e hoje, estava um dia dado a geada, não fosse o Tejo por perto, um dia com vislumbre de tortura, tortura de luxo, coíbo-me de revelar preços. A rapariga tinha uns magníficos olhos verdes e uma pele morena, a máscara na boca e fichas por todo o lado, à minha frente deitada na marquesa dentária a radiografia dos meus dentes como na caveira, que hei-de ter se ainda os tiver. Decidir, por onde começar, porque havia tratamentos que poderiam levar-me à ruína, começar pelo básico, cáries, limpeza de boca e lá veio o zunido da broca, água a esguichar por todo o lado, eu a fazer um esforço para não engolir e ela a fazer-me doer por todos os poros. Não, assim não. Quer anestesia? também não, quero que faça a coisa sem doer, não gosto de dor, ela, mas é assim minha senhora e eu a ter saudades dos dentistas mais velhos e cuidadosos que paravam para perguntar: "Está a doer?" Segurei-lhe a mão, veio-me à ideia as grandes pradarias da América ou as Savanas, não sei bem , corsas a correrem por ali fora. Não lhe pude dar uma dentada na barriga, como fazia quando era impulsiva demais e mal chegava ao umbigo das pessoas, mas não perdi a gana, arranquei o babete e saí dali para fora, o gosto do sangue na boca. Gosto do sabor do sangue, pena ser o meu.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

na exposição

Nesta exposição não havia só os quadros a reter, outros quadros sem moldura ou com aquela dada pela emoção descompassada suscitavam a atenção. Mas primeiro: os protagonistas.Tinham vindo em caixas ventiladas e protegidas, viajado como vips de guarda-costas e seguros milionários, cientes do seu estatuto de embaixadores da arte, da grande arte, da que o tempo já canonizou. Esses olhavam-nos irónicos, naturezas mortas, lebres, perdizes, laranjas hortenses, enguias, jarras, copos, leques, houve quem dissesse que era mais adequada a expressão inglesa "still life painting" tal nos parecia interrogador e expectante o seu ser extático. Havia os teus pés de um lado para o outro com botas pretas e os casacos e golas de tanta gente apanhada voluntariamente na sala sem máquina fotográfica, champanhe ou acepipes, apenas pelo gosto de ali estar, nesse último dia de exposição, testemunhas de um encontro sobre o qual permaneciam na mais total das ignorâncias.
e se fosse apenas pelos quadros apanharia a noite sem pré-aviso e comporia em seu redor reflexos de figuras sobre mesas, texturas, maçãs douradas, iria de uma para outra com as linhas que as crianças traçam para unir pontos entre pequenas estrelas e teria valido a pena. eu já sabia. e atribuo tudo, até o teu olhar alarmado, ao poder da arte.

O quadro, este, magritte: " O retrato"

domingo, 8 de janeiro de 2012

artrite das palavras impacto solar da imagem
enfim longe da mulher que ladra...
não muito longe da que só precisa de um banho quente
adoro

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

anda ali, a debicar nas pedras.

domingo, 1 de janeiro de 2012

ao verbo e à fortuna



ano novo e vida a estrear. vida ainda embrulhada em papel celofane para não partir com as curvas e os solavancos da viagem, percursos sinuosos nem sempre evitáveis. Esfarelámos bolachas para encontrar o caminho de volta mas como na história da Gretel, os pássaros comeram, os pássaros comem, em geral, quando não comem põem-se a voar, não deixa de ser um facto estranho, que haja pássaros e na noite se porem a voar. este ano muitos dos meus amigos optaram por passar o ano sozinhos nas suas casas, quartos, salas, janelas com vista de cidade e de estrada, vontades várias, porque ninguém está sozinho quando o coração o puxa para um lado ou outro, vamos estando com os ferozes rumores, batendo latas na janela mais alta, para espantar os fantasmas. A janela mais alta não é muito acessível, há que pôr vários bancos em equilíbrio subir-lhes para cima e daí sim, a vista pode ser diferente. A todos eles. Tchim Tchim! ao verbo e à fortuna!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

deixo de lado

deixo de lado
os ramos e os pés
a luz e o coração
o fantoche de palha das emoções bárbaras cicatrizes
a figura trémula do meu pai
a figura presente da minha irmã
Rimbaud que se desfigurou
a atravessar planícies

Vejo a roseira do jardim
ao alto
o pânico de voltar ao lugar
onde descubro nem ser feliz
sem crueldade como quem traça a perna no sofá e amassa na ponta dos dedos a factura do gás
Deixo de lado
o meu amor cansado
as partidas dos aviões para o Norte de África
ao início do crepúsculo
lembro-me de quase nada
de tanto me tentar lembrar
permissivas gotas de absinto
no calendário
os anos
seguram
crianças ébrias
sorrisos florescentes
matas
à temperatura de um corpo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

madrugadas

embora a madrugada possa recusar ser testemunha de insónias ou balanço de poemas que não a viram, talvez de longe mas duvido, embora não se misture com palavras, por causa certamente dos pequenos corvos debandados por tão pequenos riscos sobre o seu horizonte, embora não pareça a ninguém que definha pois o mais razoável é sobreviver limpa na menina acocorada dos olhos, embora possa servir mote ou metáfora de renovados dias, embora seja para recordar vê-la no fim, será de bom tom refrescar-se na sua capa dura e brincar a baralhar as rotações da terra mantendo-se acordado sem qualquer razão só, quem sabe, a teimosia de uma mente expectante, teimosamente expectante, ao arrepio de um corpo lasso que pede cama.



BOM NATAL para todos.

sábado, 17 de dezembro de 2011

reflexão natalícia

há certos valores em desuso. bom e mau, por exemplo. um homem bom ou uma mulher boa. uma mulher boa é mais "como'milho", um homem bom, é um tolo. quando utilizamos bom, é em geral para comida, este guisado está bom, ou no futebol: aquele "gaijo" é bom jogador. coisas boas são, em geral, para o paladar, ou cumpridoras da função. Mas, nós punimo-nos muito por descurar a virtude moral, ora para aliviar a tensão, a máquina social produz, à velocidade da luz, solicitações solidárias. dar para aqui e para ali, ajudar os pobres. Os milionários fazem-no, a virtude cristã idolatra-o. poderia ser uma forma de manter o equilíbrio, entre o egotismo e a instrumentalização. seria, até uma boa forma se não fosse perpetuar esta situação, e esta situação não se quer perpetuada. O humanismo não nos desvincula das obrigações morais, mas fá-lo num quadro de referências diferente, este quadro, agora é falso e não muda nada verdadeiramente. urge desenvolver a noção de um homem integral, não vinculado a obrigações postuladas por um quadro social em que a virtude se contabiliza pelas coisas feitas, produzidas. A questão base é a falta de confiança na humanidade, a visão de uma humanidade injusta e imatura que perpetuamos porque nada fazemos para alterar, esta humanidade precisa de rédea curta e de ensinamentos, mas os ensinamentos não tornam a humanidade melhor, não é isso que se lhe exige; exige-se antes pagamento ou punição por cumprir aquilo que se lhe exige: Produzir, produzir e como não sobra tempo, a caridade é o mais rápido e eficaz porque não incomoda a produção nem o consumo. ambos o BOM.




Foto Eisenstardt

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

gaivotas em terra

Alguém espantado por haver gaivotas na fonte-cascata da rotunda em Oeiras, ali, na rotunda marmorizada do Isaltino, entre carros e carros. -Olha!! Gaivotas!! Era suposto estarem no mar, nas falésias, hei, falésias!? Agora desarvoradas e corridas das falésias inexistentes atiram-se para cima das vilas, abancam no meio dos centros comerciais, não será de admirar que andem aos restos de pizza ali mesmo no meio do lixo e dos tabuleiros sujos, entre a azáfama da empregada de limpeza, e as televisões gigantescas, é o estado da arte, suponho, tirar as coisas dos sítios onde pertencem, desarrumar a paisagem, se tudo isto fosse um puzzle diria que perdemos o desenho, arrumámos peças ao acaso. mas se calhar nada disto é um puzzle e não existe desenho nenhum.

domingo, 11 de dezembro de 2011

o que nos dói quando nos dói. uma opressão no peito.uma angústia. uma necessidade de chorar. mesmo assim, há uma autoria de nós mesmos sobranceira, a olhar-nos com desdém, e um outro, dobrado sobre si. um outro dobrado sobre si. dobrado.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Waking life





Porque será que estes filmes não passam por cá? Ou será que me passou despercebido?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

livros

Nas livrarias, de ano para ano, aumentam os colossais volumes de papel, vulgo romances. Formam por esta altura grossas colunas por cima das bancas. Livrarias, bibliotecas e editoras lutam contra a falta de espaço. Na biblioteca que frequento o Zé, pesaroso, abana a cabeça, não, não aceitamos doações, temos que mandar livros para abate, não temos onde os pôr. (curiosa a expressão livros para abate, óbvia analogia entre o livro e o gado bovino ou caprino). Nunca se escreveu tanto, oh, orgulho da cultura! Livros, para que vos quero! Como fazer a seriação? Como saber, entre os milhares de páginas escritas, quais são verdadeiramente livros e quais são letras com egos lá dentro!? Sou suspeita em relação ao que se escreve hoje, folheio, e decido-me sempre pelos clássicos, quando tenho de escolher. O romance actual não me interessa. Nem no estilo, nem no conteúdo, os escritores portugueses esticam-se para ser originais, e não há pudor, escreve-se sobre tudo, pedras, lenços, fantasmas ou divórcios, morangos ou sida, e sobre o amor, claro, sobre o amor obviamente. A geração dos verbalistas do amor, das relações, da paixão, as variações possíveis e impossíveis, as repetições possíveis e impossíveis. Acredito que no meio da xusma haverá novos escritores dignos desse nome, mas perdem-se na nebulosa gigantesca de títulos. Dos novos um apenas: Dulce Maria Cardoso. Os antigos, depurados pelo tempo dão-me mais garantias, mas pergunto-me: Qual será o critério do Zé quando tiver de queimar umas centenas de volumes? Haja pudor!! Interditem-se imediatamente José Rodrigues dos Santos e Migueis Sousa Tavares e outros quejandos, Fátimas Lopes e por aí fora. Escrevam à família e deixem-nos em paz!!


Quadro: Biblioteca de Vieira da Silva

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

trabalhar mais e trabalhar nos feriados





pergunto-me da lógica deste disparate. O Luís Pacheco teria uma frase ajustada para converter esta charada numa porno chachada. Se vamos trabalhar mais, vamos fazer o trabalho que muitos outros poderiam fazer, pessoas que não o têm, são muitas, aos magotes, e tristes por não haver trabalho. Estaremos nós no coração apertado e claustrofóbico do capitalismo? Na esquizofrenia do capitalismo? Nos anos 70 falavam disso os filósofos, profetas sem dúvida, e se o conceito parecia ridículo nesse tempo, hoje a constatação é empírica. não há que enganar.





Foto: Yves Klein, 1960, Salto no vazio

domingo, 27 de novembro de 2011

os bares

sempre frequentei bares, com assiduidade alguns, fortuitamente outros, em tempestade alcoolizada, em euforia tribal, na conquista amalucada ou na sedução, também em desespero confessional ou só para encher a noite de fábulas, os bares acolheram com desvelo ou apenas indiferença as minhas necessidades de encontro ou fuga, ambos ao mesmo tempo e sem reflexão ao pormenor. Estaria tentada a confirmar a afirmação ingénua do bar como palco onde podemos seguir as cenas da nossa, agora que escrevo sobre isso, vidinha, episódios e cenários, figurantes e protagonistas. Vem-me ao ouvido a música da Alcione " Mesa de bar é onde se toma um porre de liberdade...de companheiros em pleno exercício de democracia." Seja como for, amordaçando nostalgias ou tiradas pseudo moralistas sobre a utilidade ou inutilidade de tudo isso, à parte o gozo experimentado, gozo real, sólido, metamorfoseado nos intuitos ou no acaso, os bares ensinaram-me a perceber a lógica entre o espaço e o estado de espírito, o Vertigo é um desses mestres, há nele uma rara percepção da coisa da noite, desse vórtice infinito e expectante da noite. Sentar-se ali reenvia para catedrais e sótãos antigos, espaços de memórias subitamente presentes, vindas não se sabe de onde, papéis com poemas escrevinhados, contemplação amorosa, um não saber, uma intuição de como podem ser decisivos certos momentos, insubstituíveis. Os vitrais do tecto ou as mesas muito limpas e enceradas, a música em compassos longos, realçando uma espécie de silêncio onde as palavras ganham força de actos decisivos, a luz familiar, íntima ameninando os rostos, tocando-lhes as fragilidades. É um bar, pagas o que comeste e o que bebeste, e sais. A noite apresenta-se então de novo, inteiriçada, indagando sobre a tua disponibilidade, e respondes sim, afirmativo e não há nada, mas nada mesmo, mais precioso.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Apesar de você



"Você que inventou a tristeza ora tenha a fineza de desinventar." Grande Chico e grande interpretação!

domingo, 20 de novembro de 2011

post doc

caminhar pelas ruas de lisboa, as velhas ruas dos velhos bairros de janelas estreitas, caliça desmaiada e opaca, calçada irregular, portas fechadas com batentes, degraus. Pergunto-me o que vejo, o que é ver, se nesse acto de me comprazer com as linhas, volumes, cores e tons, não há também passado, um passado de histórias e sobressaltos, frases ditas, no acto de ver as botas a subir o lancil de um passeio distraídas pernas, frases cruzadas, no calor de uma conversa, ou ar fresco depois de uma noite de chuva limpando a poeira da cor, gritando-a suavemente sobre a tarde, a emoção do corpo, onde há também pensar, a estranha presença do corpo, desta rua, do meu corpo dentro e fora dela, desprendendo as redes com que teço a atenção, penetrando dedos húmidos no olhar como um felino rombo, um feroz servidor de cálices, baixando os olhos, vendo por dentro, compondo a fugacidade para a desviar do lugar onde não a podemos usar, uma e outra vez, desmaiá-la, desdobrá-la, arrepiar-se nela. se somos nas coisas ou elas em nós, se nesse momento em que sentimos, só nesse ainda e sem nome, instante, vemos. A dificuldade de separar, traduzir escolher palavras é ainda ver, de uma outra maneira. A memória do discurso quando ele se estende à nossa frente, muito à frente do que sentimos e se multiplica em inutilidades, como parágrafos e letras, conjugações e metáforas, eu dizia, caminhar (só) pelas ruas antigas de lisboa.




foto: Willy Ronis

domingo, 13 de novembro de 2011

os idos de março

O título deste filme "Nos idos de Março" tem uma ressonância estimulante. poderia lembrar-nos "Julio César" e a profecia do adivinho perdido no meio do entusiasmo da multidão: "Tem cuidado com os idos de Março". Na verdade o imperador caía assassinado pelos seus amigos e conselheiros, a 15 de Março. Em Roma as discussões de poder arrematavam-se com uma qualquer tragédia. Não se discutiam as infidelidades e os casos de alcova nas manchetes dos jornais, mas hoje, em 2011, o imperador é um candidato a presidente, numa América hipócrita com os bons costumes. Em democracia não se mata dessa morte de sangue, mata-se a honra, mata-se a dignidade, matam-se os escrúpulos e depois de meia alma morta, temos homem para presidente. Se as formas de afastar alguém do poder mudaram muito, a traição e a lealdade não, os jogos de sombra permanecem e as virtudes do carácter são a referência, mesmo quando não passam de um obstáculo para o poder. O filme de Clooney trata com pinças a velhíssima história de César e Fausto. Trair, vender a alma ao diabo pela glória. mas a verdadeira questão, a mais lúcida, é a de que o facto de alguém o fazer não faz recair sobre ele a pena mas condiciona todos os outros ao mesmo. Basta alguém viciar o jogo para que nele ninguém mais possa jogar limpo. É disso que se trata, do efeito das acções de um sobre todos. Quando Clooney diz que a sociedade tem de ser melhor que o indivíduo, está a referir-se a um ciclo vicioso, que ela, a sociedade, não pode ser melhor enquanto cada indivíduo agir apenas por si. Esta será apenas uma frase boa, mas utópica. Depois, actores, actores, actores e o milagre dos filmes.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

místicos


Aquesta divina unión,

del amor con que yo vivo,

hace a Dios ser mi cautivo,

y libre mi corazón;

mas causa en mí tal pasión

ver a Dios mi prisionero,

que muero porque no muero.

Santa Teresa de Ávila




Quando leio os místicos não deixo de sentir perplexidade e, ao mesmo tempo, ironia. Há algo que os une, uma esperança infundada, uma agonia prazenteira. o prazer associado à dor, ao sofrimento atroz. associado significa aqui fundido num só. A perplexidade não vem com a estranheza, não me é estranha essa experiência, nem tão pouco considero estranho que ela seja libertadora. assumo que o pode ser, que o é, enfim. A perplexidade deriva de não conseguir compreendê-la como experiência de um verdadeiro convívio com o Bem Absoluto-Deus, o Espírito. Há nelas um estímulo corporal, uma emoção exacerbada que não posso evitar pensar ser fruto de uma certa loucura proveniente da falta de verdadeiro estímulo corporal do outro, físico como nós (mas não só, obviamente). o excesso não resulta de um transbordar de verdadeiras emoções e sensações face ao Absoluto mas de uma carência, carência que se toma por amor. Dai a um homem ou a uma mulher a clausura e a solidão mais austera e ao fim de um tempo ele imaginará que anjos de fogo o visitam. dai-lhe a fome e ele, para lhe resistir, imaginará a abundância. Trata-se de uma espécie de experiência da provação e, pergunto, que distingue esta experiência de outra qualquer a qual, por excessiva, pode resultar em loucura?

domingo, 6 de novembro de 2011

impertinências

estava a tentar escrever qualquer coisa e a perceber quão longe está o entusiasmo dos blogues. já risquei umas dez frases. as frases são sempre o começo de tudo. quando se trata de escrita. uma boa frase salva ou perde o dia. uma boa frase lança-se sobre nós e contamina-nos um dia inteiro. vai connosco para todo o lado. reparo que ao tentar enumerar "todo o lado", associo tarefas, lugares mas escapam-me os rituais, esses tempos nomeáveis, o tempo do trabalho, o tempo das refeições, o tempo do sono, o tempo do prazer, o tempo da diversão. estas separações cada vez mais se confundem, e daí todo o tempo ser tempo gasto, não tempo renovado, o tempo do ritual. O ritual vive da repetição, exige a entrada num outro patamar, implica a existência dos outros com quem o cumprimos e com os quais o acto adquire um certo significado. cada vez mais as refeições são comer, meter comida na boca num lugar qualquer mais à mão. e o tempo do trabalho contamina o da diversão e o do prazer ou vice versa, confundem-se. não me orgulho disso, sempre o combati, não posso nem quero ser vítima deste tempo linear curvado para nenhures onde as coisas são coisas e os actos actos, movimentos para coisas, intenções. hoje falta-me tudo mesmo. sem mediação. daí a frase não surgir. pensava escrever sobre os blogues e acabei a falar do tempo. ou de mim. ou estava a falar das frases sem nenhum deles. nem o tempo nem o sujeito. fechados. ambos a cadeado. na frase.


Gustave Courbet, A vaga

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

devoções

Podíamos ser devotos de Jesus Cristo ou da Virgem Maria, normal, são figuras culturalmente sagradas, mas também podemos ser devotos de um tom de cabelo, de um certo odor, de uma expressão, de um movimento. A sacralidade está na submissão do sentir áquilo que pela sua beleza é de outro mundo, julgamos nós, quando sentimos ser desmesuradamente completo, absoluto em si, o seu aparecer ou ser; paradoxal é descobrirmos nessa submissão uma forma insuspeita de liberdade, a liberdade de sentir e nomear sem medo dos territórios fechados onde a vivência do sagrado nos é consentida. São, por isso, permitidas todas as ficções e até imensamente desejáveis se por elas reescrevermos o mapa das nossas pequenas e insignificantes relíquias. Podemos usá-lo para descobrir a direcção, o nosso mapa do tesouro, mas teremos de guardar para nós o mecanismo da sua descoberta.