quarta-feira, 23 de setembro de 2009

tentação


penso cada vez mais. não que resolva com isso os enigmas, tão pouco muda o que sinto, só me dá mais precaução. pensar é equacionar possibilidades e deitar algumas pro lixo, porque concluímos que não passam de impossíveis e estou cansada de impossíveis, aproximam-se com a sua beleza, o seu desafio. o absoluto e deitam-nos logo ao chão, subimos ágeis para o baloiço e rejubilamos de coração pequeno e grande , alma tão ao largo da bolina que se vê lá longe a rápida vela branca a espanejar, just me, a eleita do conto em estado puro vogando. daria o mar, todo o que vi, e a história do meu assombro por um liso e atento olhar assim. mas penso. vêm as sirenes, amarro-me ao mastro e conto os minutos, os dias e os anos, não ouvirei o teu canto.ponto. contrição. não que a admire, à contrição, mas pode ser, maybe maybe que outro canto possa nascer desse luminoso canto. será triste, pois sim, que seja.

domingo, 20 de setembro de 2009

Ghosted

Ghosted de MoniKa Treut, Hamburgo, Taiwan. 2009
No festival Queer, S. Jorge
.
Trata-se de uma história de amor entre duas mulheres, uma alemã de Hamburgo e outra de Taiwan, um país aparentemente ocidentalizado mas onde as tradições orientais permanecem, nomeadamente nos rituais de morte e no modo como vivem a perda. Dois traços parecem separar estas culturas: O individualismo e autonomia de Sophie, alemã, choca com o espírito familiar e de pertença de Ai Ling. Ao morrer inesperadamente Ai Ling adensa a solidão e a incompreensão de Sophie que não encontra forma de restabelecer um equilíbrio e continuar a viver. O facto de ser tocada por um espírito, um fantasma, é uma forma metafórica de descrever o que se passa psicologicamente com a personagem mas é também um convite a seguir um outro percurso, o que leva à libertação da culpa. Dialogar com os fantasmas e despedir-se num ritual de oferendas e de comunhão parece ser mais libertador que viver eternamente com a culpa. É disso que trata o filme e bem.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

às três da tarde ouvindo falar sobre Kant


são três horas e está calor dentro do anfiteatro, as portas em linha com a secretária e o ecrã onde se sentam os conferencistas abrem e fecham num vaivém de gente a sair e a entrar. Pausadamente o orador brasileiro cita Kant para provar que, contrariamente ao esperado e amplamente divulgado, a teoria do direito não defende sempre a proporção entre a sanção e o crime. é comum pensar-se Kant como defensor da pena de morte e é correcto visto que considera a indulgência uma forma de confusão entre o domínio público e o privado. A lei pública deve respeitar o princípio de Talião:para o assassino que mata a pena deve ser a morte. Havia, todavia um reparo a fazer, se a Constituição que dita os princípios da legalidade social não for de modo a permitir a liberdade então a punição não pode ter legitimidade. Só se pode castigar aquele que livremente violou a lei, quando a lei é conforme à igualdade e liberdade de cada um enquanto pessoa, se não o fizer, então a punição não restaura o equilíbrio social mas, por não ser a ele conforme, dá direito à revolta e à desobediência. As portas não cessam de abrir e fechar. No anfiteatro oscilam as presenças, há quem entre, sente-se 5m e volte a sair. Estão cerca de dez pessoas numa sala com capacidade para cem. Dirão depois que a culpa é do governo que devia ter instalado um barzito na sala, para as necessidades gastronómicas dos ouvintes. Kant com a mania do progresso e do Iluminismo não percebe nada de bárbaros porque não vem mal nenhum ao mundo substituir a liberdade e o respeito pela alarvisse e pela ignorância.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Fim do verão, já se pressente nas marés, nas noites frescas e sobretudo no voltar às aulas. Aquela soma de papelada que se acomoda rápida em cima da secretária, os procedimentos para a eficácia do sistema, a comunicação empresarial em que se tornou a conversa escola, nada de novo, um ano a seguir a outro, a expectativa e a angústia, o arrepio fino crescendo na base das costas, alargando-se aos ombros, tornando-os hirtos. Conheço-a bem a angústia, sei todas as suas metamorfoses, os seus fingimentos, a sua chegada mentirosa, como quem não quer a coisa quando vem de malas feitas para se instalar. Reparo que sou professora há demasiado tempo, e esse tempo parece ter crescido sem o meu consentimento, sem o consentimento da razão pela qual sou hoje professora, corro atrás delas, das razões, mas parecem enevoar-se, perder-se na densidade do nevoeiro da repetição, da falta de apoio, da perplexidade real de uma dinâmica que esfarelou a razão, atomizou-a em fragmentos e nenhum deles é suficiente para nos clarificar. Talvez fosse bom parar ou talvez seja apenas a estação com seus cachos tristes no fim do ciclo.não sei. talvez fosse bom parar.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

semenya antes e depois dos testes




ANTES e DEPOIS
YEEEE!
Já estão satisfeitos?...
Posso ir tomar banho e vestir uma coisa decente??

domingo, 6 de setembro de 2009

notas de viagem

A azáfama de uma cidade e a Lua, a linha encostada de mar, as vozearias, as correrias, ocupam os espaços vazios do pensamento no intervalo das emoções. Aquela absorção de cada um na vida de si próprio. Absorção de cada um na vida de si próprio, assim vejo a vida da cidade.Passar nas ruas e olhar à vez as montras, as pernas e as unhas escondidas no pó dos dedos inchados dos pés. As coisas atrás e à frente e os meus pés. Volto à cidade agora que não posso lá voltar e compreendo que no pensamento voltam as emoções identificadas, delineadas, correctamente ordenadas pelas suas causas. o rasto das pessoas prende-se-me nos dedos e lembro uma velha frase "gosto mais de ti quando te ausentas". Hoje o pensamento refugia-se, ampara-se nessa ausência. Talvez seja frouxo, é seguramente vibrante.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

ISTAMBUL




Istambul, a cidade entre as margens, uma observando a outra, subindo e descendo entre braços de mar e rio, crescendo meia sonâmbula ao som dos cânticos projectados nos altifalantes dos minaretes, são essas vozes que juntam as margens e unem o povo. O significado religioso tem aqui uma muito bela ressonância, religare, unir o distante e o diferente num mesmo gesto, ajoelhar e orar. A maciez dos tapetes acolhe os nossos pés cansados e sentimo-nos seguros, numa mesma família que fala uma linguagem antiga e comum apesar das sonoridades estranhas da língua. Techekur ederim levou algum tempo a aprender mas dizê-la provocava-lhes uma emoção surpreendente, baixavam a cabeça e tocavam com a mão direita no peito repetindo a palavra baixinho, como para dentro, numa breve e tocante cerimónia de agradecimento. Só para nos retribuir muito obrigada. Insallah! talvez um dia possa voltar com mais palavras, muito mais palavras!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

feminino vs masculino e outros

a sul africana que venceu os 800 metros em Berlim tem 18 anos e toda a gente discute se é homem ou mulher, para ela, deve ser humilhante, numa altura em que podia alegrar-se com o sabor da vitória, vem aí uma leva de cuspo mal disfarçado de verdade científica, cuspo, escandaleira, venda de jornais. Tem testerona a mais, três vezes mais, será que feminino e masculino dependem dos níveis de testerona? Se assim fosse teríamos possivelmente de chamar a muito homem mulher e vice versa mas eles ainda não sabem, estão nos testes. que testes serão? aos cromossomas? se for XX é mulher, mas se for XY, dá para cá a medalha? Tudo isto fede a estupidez, pois os genitais não contam? uma senhora que a veja nua? Não? O comité inteiro why not? para não restarem dúvidas...tou mortinha de curiosidade para saber o resultado de tão secretos testes! será ao sangue? uma dissecação da pelve? talvez nos ossos, ou quiçá nos beiços esteja a sua esperada prova de que é macho, querem que a rapariga seja macho porque lhes parece macho, estão confundidos os pobres...cá para mim vão dizer que há transição, hermafroditismo não pode ser que se vê à vista desarmada, e se for transsexual? terá direito à medalha? Semenya, tu não ligues, se calhar estavam à espera que no final da corrida baixasses as calcinhas...agora que devia haver um tribunal para julgar estes tipos que dizem estas coisas sem provas conclusivas, isso devia...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

é no Alentejo que o conceito TERRA atinge a sua materialização mais forte. Terra, bravia e expectante, mansa, omnipresente, gloriosa e pobre. terra poeira, terra suja e pura. terra com céu.ténue linha adormecida.
Trouxe pedrinhas pequenas e grandes e a recordação de uma luz que amortece e deflagra, uma luz que se queda e convoca antigas histórias, antigas faces, há nessa luz uma disposição para o encantamento, quase um hipnotismo, fixação num devaneio nosso que nos enlaça e entorpece. Abandonar-se no Alentejo no meio do abandono, na presença esquecida e atenta que vive com muito pouco e respira silenciosamente.
talvez não seja bem tempo para estas leituras mas por distracção dos editores nem todos os livros vêm com conselhos de estação, tipo: este é para ler na praia enquanto este outro vai mais com lareiras e assim, nevar lá fora, bom, seja como for encontrei-me na psicanálise e se bem que não possa negar a razão primordial do seu discurso, sobretudo os conceitos de inconsciente e pulsão, preocupam-me algumas das suas asserções, nomeadamente a de que a maturidade sexual da mulher estaria ligada biologicamente ao prazer vaginal e psiquicamente à ultrapassagem da castração primordial da infância que seria, no caso feminino, a inveja do pénis. A minha sobrinha, quando novita, dizia que queria um, sem dúvida que daria jeito, pensava ela, sobretudo para poder urinar de pé (estive três minutos a pensar qual a palavra melhor para esta acção...todas elas são ou rascas ou demasiado afectadas). A primeira asserção é obviamente falsa, o prazer sexual das mulheres não tem a sua origem na vagina e a segunda permite as interpretações e diagnósticos mais contraditórios. Isto é, na psicanálise, seja qual for o nosso comportamento, a sua causa é a mesma - a castração - e seja o que for que aconteça podemos estar seguros de ser todos psicóticos ou neuróticos sem excepção porque projectamos sempre fantasias sobre nós ou sobre os outros e estas são fugas ao complexo primordial, fugas essas que se pagam com a autoflagelação ou a flagelação dos outros, consoante a culpa seja nossa ou dos outros, há sempre o castigo. Bolas!! A acreditar em tudo isto ficamos não curados, mas verdadeiramente neuróticos!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ao meu amigo Zé

na minha geração há uma série de gente feita em cacos, coladinha com fita adesiva, recoladinha, e de pé, malgré tout! o meu amigo Zé é assim. digo, Zé, tu não ouves ninguém, tu estás a delirar, devias procurar ajuda! a resposta vem, pronta: não mudes de conversa! Continua o solilóquio, o mesmo de há muitos anos, mistura as vivências imensas da cidade, as tertúlias, os amigos, a Arte que fizemos, boa arte, ainda mal sabíamos andar mas não desconhecíamos a boa arte. Agarra-se vorazmente à ideia do passado agora que o presente fede, uma amálgama da fracassos. O Zé é uma enciclopédia viva de uma certa boémia dos anos 80, gente com poucos trocos e muitos sonhos. Tem uma memória elefantina. Digo Zé, vamos beber um café, antes de entrar já ele me descreve a história do café, quando lá estivemos, o que pedimos, com quem estávamos, como se chama ou chamava o empregado. Olho para ele pasmada e na defensiva, não dou o braço a torcer percorro as ruelas da memória e sim, confirmo, mas confesso-te agora Zé, quando lá entrei não me lembrava de nada. É assim o Zé, merda, um grande actor! O actor que já não pode ser porque ninguém lhe dá emprego sem os dentes da frente. Agora não sei bem, como apertar o futuro, está o parafuso lasso, como te vais aguentar? se houvesse neste país quase sem margens um dentista pro buono, até os cigarros, o SG filtro são três euros. Não, pára aí! Vamos lá recomeçar, qual era a data da peça " O amante" do Pinter? Não, não fomos os primeiros a fazer Pinter, mas ninguém o fazia como nós não era? Diz-me, qual o valor da memória? Vá...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Apesar de não estarmos no deserto estamos a levar com uma tempestade de areia! Vai-nos inteirinha para os olhos! recolhamos o baldinho e a pá e observemos de longe. O Isaltino e a Fátima vão ser absolvidos dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, desvio do dinheiro da Câmara para benefícios pessoais etc. Dinheiro, mais dinheiro! É cómico observar toda esta tempestade da silly season, a poucos meses das autárquicas, a Fátima sobe ao céu e aposto que o Isaltino também vai subir, imaculado. O ministério público e a justiça nada podem contra o poder dos interesses, sobretudo quando eles movem poderosas influências políticas. O povo de Oeiras vai suspirar aliviado e fingir que acredita, serve para fortalecer a boa fé, um tanto abalada. O Isaltino até pode ter feito boa obra, embora o dinheiro gasto nos últimos meses para as "comemorações" dos 250 anos do Concelho (exposição -a mais cara realizada em Portugal - concertos e mais festas nos jardins) em período de crise e contenção, revele a face de um provinciano sem qualquer visão de cultura e de estrutura a longo prazo, mas agrada ao povo, todos agradam ao povo porque é muito fogo de artifício e pouca seriedade, mas se o tipo rouba, Meus Deus na minha terra é ladrão, vamos votar num ladrão? Todos roubam diz o povo, eheheh mais um menos um...os putos da Casa Pia que foram abusados há um ror de anos continuam a não ver nada e nós pagamos, pagamos para uma justiça que precisa urgentemente de uma outra que a fiscalize, este estado de direito cresce em fiscais enquanto continuarmos a eleger a maltosa dos partidos. Não há pachorra para isto porque parece que não tem fim e que não há volta a dar!

sábado, 1 de agosto de 2009

Por aqui chove e é boa a chuva depois do Sol, a chuva molhando ao de leve a terra meio ressequida das sardinheiras, a chuva pela calçada, lavando as ruas, dá uma sensação de aconchego, de proximidade às coisas. Nestas manhãs, dou por mim perdida em pensamentos, tranquila, em paz, gozo do tempo livre, aplico-o fazendo aquilo que gosto, ler, escrever, ver filmes. Gosto desta sensação da cidade semi-deserta, dos cinemas vazios, de prolongar os passos num certo silêncio, um silêncio deixado à solta pela debandada das famílias para perto do mar, a cidade sacode-se da poeira e do peso, liberta-se e disponibiliza-se para ser vista, tocada e acarinhada. A minha cidade, Lisboa e o mar, o sítio onde cresci, amadureci, ganhei asas. Não sei o que é viver longe destas coisas que amo, sei que muitos o fizeram por necessidade, porque este país lhes fugiu das mãos e lhes pareceu virar costas, sei que o fizeram com tristeza e depois voltaram, volta-se sempre ao local de infância, carregamo-lo para longe, mesmo sem querer e onde estivermos somos também e sobretudo esses locais, os sentimentos vividos não estão separados, não são apenas nossos, também estão nas ruas, esquinas, cafés, encontramo-los quando os julgávamos perdidos assim como eles nos encontram, reconhecemo-nos. Somos ambos, pessoas e cidades, feitos dessa matéria porosa e volitiva, passado e futuro.
imagem de: http://cachimbodemagritte.blogspot.com/

quinta-feira, 23 de julho de 2009

duas espécies de magazine para adultos: táxistas e polícia municipal

1h da manhã. Tenho a certeza que deixei aqui o carro, um molho de táxistas encostados às suas viaturas (como gostam de lhes chamar), por favor, sabe o que fizeram ao meu carro? O tipo a mascar pastilha: Era um fiesta azul? foi rebocado. isto é uma paragem de táxis! A viatura era sua?( não meu coxo era do chulo da tua mulher!!queria eu responder se tivesse tomates) o tipo era sopinha de massa e estava a divertir-se à grande com a minha cara de parva, teve sorte eu só queria sair dali rapidamente e não olhar mais para a sua fuça de esparguete mal cozido. Tirem-me deste filme! Estalei os dedos mas não sortiu efeito. Polícia, Polícia Municipal, Olhe, o carro foi rebocado para a antiga praça de touros, vai por aqui sempre em frente...bla bla bla....é longe? nã... cinco polícias olhavam-nos, cinco bófias a palitar os dentes, e eu a pagar-lhes, vai de andar, as ruas de Cascais estão soturnas, bolas, não se vê ninguém... nem o fim das ruas. Praça de touros, tudo fechado, lá dentro uma mulher segurança rodeada de gatos. Abrir o portão? Nem pensar... não está ninguém da polícia municipal...esperar, ao fim de 1h veio um carro a piscar, um carro de feira, pensei eu, para nos tirar dali e nos pôr a render como fantoches, mas enganei-me. era a polícia municipal, um cu gordo arremessou-se com dificuldade para fora do carro, disparei umas atoardas sem efeito, 60 euros de coima (nome novo para multa, que lembra outra função não matemática que para o caso não interessa nada porque nos lembra o quanto estamos fo...e mal pagos) 50 euros de reboque mais 10 euros de parque de estacionamento municipal. A gaija gorda com tickes de eficiência e complacência de hospedeira de bordo de um avião charter da republica do Chade, acompanhou-me solicita ao carro para ir buscar o multibanco e sussurrou melíflua: Posso fazer-lhe uma pergunta pessoal? Ai, pensei, o que mais virá desta noite...ela: Não deu aulas na escola...pronto, tinha sido minha aluna, estava risonha e agradecida, tinha adorado as aulas, eu não me lembrava dela, e para o caso não queria conversas, ainda rematei que era vergonhoso fazerem as pessoas esperar 1h no meio da noite e de nenhures, e tive tentada a dizer que apesar de ter gostado das aulas de Filosofia, não deve ter percebido nada dado o modo como parecia indiferente aos mais elementares direitos e deveres, naquela hora e meia de espera e de calcorrear ruas desertas tinha corrido riscos, riscos que a polícia tinha por função evitar, mas ela já me falava do curso de engenharia alimentar e eu pensei que estava bem, porque ali na polícia sempre podia contribuir para engordar o Estado à custa das distrações infantis dos seus professores de Filosofia, sem as quais não teria certamente emprego. e apertou-me a mão, eu apertei a dela, tudo muito cívico. Eram três e meia quando desabei na cama perplexa, mais pobre e não menos imbecil.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

hoje à noite, ...eu sei que foste embora mas no meu coração ficarás para sempre, diz ela, e é a mais pura verdade.

domingo, 19 de julho de 2009

Há dias em que nos sentimos imbecis, mesmo imbecis, não sei se é do calor ou da frequência de abordagens sociais inconsequentes, se é da idade, ou da saison, dos problemas da vesícula ou do autismo que não enxerga o óbvio, aquela tacanhez de pensar "eu já vi este filme" e fazer de conta que não, assobiar para o ar, bem, seja como for, tinha obrigação de fazer melhor, de juntar os calcanhares e contrair os glúteos, em vez de deixar o bago de arroz saltar-me da boca no meio do entusiasmo da conversa, ou de gastar o ordenado em restaurantes onde como que me farto e depois em casa vomito tudo. Não sei onde me abstive de pensar e me deixo levar como uma lagartixa tonta, valha-me o bronze e mesmo assim...não sei se vale de muito e também não sei quando tive a última conversa inteligente, já nem sei se sou capaz de ter conversas inteligentes, ( a questão deixa-me três minutos a reflectir para o ar enquanto puxo do cigarro) umas trivialidades parecem ainda causar momentos de reflexão trôpega, as poses, sim...sim, entre garfadas e pastagens ocasionais encostadas à noite , uns copos de vinho, os pés triunfando sobre as mãos (péssimo sinal!) e assim.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Chegaste com três vinténs
e o ar de quem não tem,
muito mais a perder...
o vinho não era bom
a banda não tinha som
mas tu fizeste a noite apetecer
mandaste a minha solidão embora
iluminaste o pavilhão da aurora
com o teu passo inseguro
e o paraíso no teu olhar
Dá-me lume
Dá-me lume
deixa o teu corpo envolver-me
até a música acabar
Dá-me lume!
Não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas há tanto tempo a acenar.

O velhinho Palma, na noite de Julho e esta canção, nas falhas de memória, estamos aqui, nós cantamos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Agrada-me o ar do Algarve, leve e seco, aquela presença calma do mar, a paisagem de alfarrobeira, esteva, oliveira e amendoeira, os peixes grandes e pequenos, abundantes. O Algarve lembra-me o meu pai, a última imagem que retenho dele, justamente nesta praia D.Ana, encostado à rocha, costas direitas, olhando o mar como quem olha para a sua infância, como quem recorda. A saudade do meu pai, imensa, incontornável ,revive aqui, está aqui mais que em outro sítio, talvez porque sentisse a sua felicidade quando chegava, compreendia o quanto teria desejado aqui morrer, embora nunca o tivesse dito. Sinto agora como sou parecida com ele, como me moldo aparentemente ao que tenho mas mantenho aquele coração aberto e nostálgico, aquela fixação no que poderia ter sido se... herdada sem palavras, diria intuida a partir daquilo que entendo ser o universo forte e impositivo da minha mãe que ao agarrá-lo também o afastou, deu-lhe novas coordenadas, as dela, ele aceitou por amor, um amor leve, pouco exigente, um amor de filigrana, consistente, um amor olhado na direcção do outro. Durante muito tempo julguei que o meu pai era um fraco porque ia, concordava, não deixava o seu estado ser reconhecido e afectar quem estava perto dele, queria-o forte e combativo, estava enganada, sim. Hoje estou definitivamente triste.

terça-feira, 7 de julho de 2009

hoje debaixo da noite e da Lua aguardei que uns tipos com joalheiras, cotoveleiras e luvas grossas executassem uma estranha dança do lixo, num minuto, abriram, desengataram, arrastaram, esvaziaram, voltaram a pôr no lugar e voltaram a engatar quatro caixotes. Os movimentos dos dois sincronizados e largos, ora violentos ora não, não violentos, precisos, desenlaçavam bem à minha frente toda a superioridade ocidental: arte e eficácia. apertei a mão queimada para, caramba, reconsiderar no que estava a ver, concedo à claridade da noite as mais fantásticas visões.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

à conversa com a Anabela prof de Matemática, miúda de quem guardo especial gratidão porque me ensinou a fazer grelhas no excell, coisa que, dizem os tecnocratas, (espécie de mexilhão que a maré rasa da crise colocou à vista pra secar ao sol) é preciosa para as lides pedagógicas, e também porque é gira, inteligente e de Ponte de Lima, magnífica terra! pude confirmar o que sempre suspeitei mas não tinha razões, daquelas quentes e boas, aí vieram elas, para não dizerem que a dor de corno é só minha por sentir uma corrente de ar na forma como a coordenadora me avaliou e a forma como avaliou os meus colegas, homens. A tese é muito simples: As mulheres são umas grandes cabras umas pras outras, competem entre si, numa luta silenciosa, se lhes derem armas num instante aliviam a tensão reduzindo a pó umas quantas concorrentes. A razão? Inveja. A reacção primária é : Ai és boa?? Então és um alvo a abater!Podíamos pensar que é natural, quanto menos tiverem melhores notas mais sobressai a nossa, mas elas só são assim, mazinhas, com as outras, com os homens não, com eles meneiam os ombros,dão palmadinhas nas costas e uns risinhos cúmplices. Alarvísses de gaijas pindéricas!Enfim!
Todos lá no burgo sabem que a Anabela tem turmas de subir pelas paredes e mesmo assim é excelente! não é a gratidão a falar senhores! são os factos, e os factos são visíveis, nos alunos, nos conselhos de turma, na relação científica. A coordenadora. gaija, dá-lhe bom e ao colega excelente, ao rapazola, pois tem excelente! Não há volta a dar é primário mesmo! Para a próxima ronda mudamos de sexo, eu Manel ela António, e a coisa vai correr até muito bem, só para tirar teimas!!