domingo, 24 de abril de 2011

Lagos





A míuda tira excelentes fotografias. ( a minha sobrinha).Eis um testemunho de mais uma Páscoa em terras do Sul, esta, muito especial, diria, um pouco mais triste que o habitual. (rimei fortuitamente Hélas!).
BOA PÁSCOA A TODOS!!


domingo, 17 de abril de 2011

Zambujeira



Sob o signo do azul, assim poderia descrever este lugar, e se as sensações são tão azuis mesmo, cobalto, marítimo, turquesa. sobrepõem-se ao grito agudo das falésias. neste sol, em formato mica, resplandecente, oiço o piar das cegonhas e desço até ao mar por uma escada de corda. é meu o mar. disse-o em voz alta. ainda assim não acordei os tritões meio indolentes do fundo. os adamastores comiam filetes brancos de peixe aranha na tasca e partiam em barcos sob a espuma concertada da maré. dá-se o mar e toma-se, continuei, as palavras esconjuraram o que é perfeito sem elas.

terça-feira, 12 de abril de 2011

into my arms



Não acredito na presença de um Deus interventivo mas se acreditasse ajoelharia e pediria para não intervir no que toca a ti, para não tocar nem num dos teus cabelos...

domingo, 10 de abril de 2011

é uma estranha sensação, perder o telemóvel, alívio e preocupação, simultaneamente.serão as ondas a ter a expectativa da chamada, imagino o artefacto, tão recorrente à mão, enfiado num buraco da areia, ou vagueando no meio do mar, será até risível. a caixinha preta a debitar às nuvens, impotente e inútil como uma caixa preta pequena e escorreita. Não me aborreço, afinal entro em férias, e se não é este o maior sinal que me afundo na estepe do silêncio, carinhosa com a presença e cansada de mensagens em bips magnéticos, então não sei qual será, e depois, acredito em sinais, em acasos. dá-me gozo imaginar propósitos, intenções onde se calhar só existem fenómenos cuja causa é a distracção. Querem-me sem telemóvel as forças do destino? pois aqui me têm, baixando a guarda alta, confiando que quem me queira ver, ou falar, há-de também socorrer-se da imaginação. tentada a dizer: sigam essa gaivota!!

domingo, 3 de abril de 2011

há frases surpreendentes ditas no mais indiscreto local: " és uma emoção perdida no oceano Atlântico das emoções" e estas frases são o diagnóstico sumário do mal geral de que padece um coração. qualquer um atirado em alto mar.e o nosso, mesmo em questões de sentimentalidade, é bom de referir, é geograficamente situado. ter-se perdido no Atlântico entre eflúvios de alga e onda não será o mesmo que perdê-lo num Pacífico, inodoro e raso, e se perdi à mesa de um restaurante chinês o que nem sequer ganhei em lado algum, não deixa de ser um dado curioso a acrescentar a esta atmosfera emocional. mas todas estas palavras são epidérmicas, quanto ao fundo, dói tão desmesuradamente quanto a pressão das profundezas, quero dizer em proporção, porque, apesar de tudo, a pressão das profundezas cilindra-nos a ponto de não sobrevivermos e os estados de alma não, não assim, e não sou capaz de dizer de que modo nos matam.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ângelo de Sousa e as histerias bancárias

nesta altura precisamente, em que há no éter, uma perigosa e derrapante opacidade discursiva, das taxas de juro, e da dívida pública, negócios que ao português médio como eu, têm o significado duma atoarda de gafanhotos bêbados, isto é, passo a explicar, uma espécie de bombardeamento à toa de cuspo, que por mais realista que possa ser é, ainda um total e desbocado "non sense", a não ser o de sermos culpados de mau olhado cuja solução não está ao nosso alcance mas numa autoridade diabólica apostada em nos fazer ver como pecámos e como é insustentável o nosso pequeno viver, espalhando o espectro, até ao limite do filme de terror, sem figuras maléficas, com pézinhos numéricos. Taxas e taxas e taxas, descabeladas, agrupam-se à nossa frente como teclas de um piano desafinado. QUAL O PROPÓSITO, PERGUNTO EU? Depois olho para os quadros do Ângelo de Sousa e sorrio, passa o esconjuro, volta-se a respirar, há melros e cotovias, luz e sombra, pessoas e essas coisas de que a vida é feita, voltam a ganhar os seus devidos contornos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

dia mundial do teatro

Este ano no dia mundial do teatro assisti à procissão do Senhor dos Passos. não será o mesmo, num certo sentido, no propósito são bem diferentes, mas podem ambos ser apreciados esteticamente, é o que faço, o andor com a figura do Cristo curvado sob o jugo da cruz, de manto roxo, os espinhos cravados, o fio de sangue na testa e nas fontes, depois o discurso da expiação, o sofrimento, no altifalante do carro Deus ajuda-nos a suportar a dor, porque sofreu e pelo sofrimento salvou-se, e salvou-nos, fará sentido, o teatro salva-nos pela arte de nos fazer rir ou chorar, mas é humano, e ali também o humano ganhou a palma ao espiritual. a minha mãe apertou-me o braço comovida quando o andor passou por ela e vi os seus olhos marejados de lágrimas,a verdade é que me emocionei terrivelmente com a emoção dela e assim ficámos as duas num momento de êxtase e beatitude, como se de repente tivessem aberto uma longa avenida onde antes só havia ortigas e mato.


sábado, 26 de março de 2011


assistimos na vida política a passes de ballet que só convencem quem andou a dormir. suspensão da avaliação de professores? agora? depois de várias vezes terem chumbado propostas semelhantes dos outros partidos quando não lhes convinha? mas onde é que está a seriedade das ideias? hein? o governo caiu por causa do PEC e agora, quem o chumbou, vai de novo pegar nele com muito jeitinho, ou não? então para que caiu o governo? precisavamos de um bode expiatório, alguém que levasse umas bolachadas, para compensar... e agora? alguns meses e alguns milhões de euros depois, teremos mais do mesmo, portanto, mas pior, porque é governo saído de traições e golpes de cintura. rasteiras baixas, oportunismos, partidarite em fase aguda, já com infecção grave.
a política é nobre, muitos que nela andam são nobres, não duvido, mas há uma face circo, a começar na presidência da República, depois de toda a dignidade ofendida, vai incentivar a "indignação jovem", ressentido com o que fizeram há uns anitos ao santana, quer experimentar o mesmo frisson.
Ai que saudades do Batman!!

quinta-feira, 24 de março de 2011

A Taylor is dead

Era miúda, e a minha mãe já me falava dela, da mulher dos olhos violeta, depois cresci, e não percebia no Tchnicolor da Cléopatra se eram de facto violeta, os olhos, ainda hoje não consigo descortinar, a minha mãe dizia que eram únicos e esse mistério ficou. Vi muitos filmes, mas não me encantava a sua voz de falsete, a sua figura abonecada, nem na meia idade do "Quem tem medo de Virginia Wolff" , me rendi ao seu talento de actriz, mas os olhos, sim. os olhos, e aquele cinema todo que ela atravessou, o Tenesse Williams, o acidente do Montgomery Clift, antes magnífico, depois tolhido pelas cicatrizes, esse cinema de grandes dramas psicológicos e de não menos grandes dramas na vida real em que tela e vida se misturavam numa só representação. O actor/personagem trazia o poder de alimentar os sonhos e de os consubstanciar com o que tinham de magnífico e trágico. agora, compreendemos melhor que essa dimensão se apagou.

segunda-feira, 21 de março de 2011

hoje é dia de efemérides várias. assinaláveis no presente na proporção directa com que no presente são repetidamente esquecidas ou negligenciadas. acordamos para as efemérides cheios de vontade de acordar mas repetimos, como alguém a pensar subir escadas e na realidade a jogar com um degrau, brincadeira de miúdos pulando à vez com um pé ou outro no mesmo sítio. dá-nos a segurança das referências e mais um bocadinho do mesmo. hoje, a propósito ainda da efeméride do dia mundial da mulher uma deputada do PC levada à Escola para falar aos alunos da dita emancipação da mulher, invectivava-os com a luta pelos seus direitos, têm direito ao ensino gratuito, pagar 30 euros por ano de propinas é um roubo, a taxa moderadora nos hospitais é um roubo, têm direito a saúde gratuita, têm direito a uma sala para associativismo, em muitas Escolas não existem...falamos de quê?? de um discurso estagnado há 35 anos que se vale do descontentamento actual para lançar a gritaria e a divisão. estes direitos estão todos assegurados no presente, o que não me parece assegurado são os deveres que cada um tem perante esses direitos. estudam os alunos esforçadamente para melhorar o futuro com mais conhecimentos? São respeitadores de horários? discutem ideias políticas para melhorar o estado de coisas? as utopias do pc encontraram agora terreno fértil, como qualquer ideologia messiânica achar-lhes-ia graça se não escondessem o mais sinuoso e oportunista objectivo.

sábado, 19 de março de 2011


Quando leio "A voz humana" do Cocteau fico sempre encalhada nas reticências, elas são o que interessa, o que se queria dizer de facto e não se diz, o subtexto, mudo, o submundo emocional, desregrado e obsessivo. quando o discurso é o que nos resta, sabemos que o resto está perdido para o mundo, ficará, aprisionado, dormente, com a chancela de incapaz. Doravante estará condenado a deixar o tempo consumir, pois se o presente o dispensa, o futuro já não o poderá ouvir.

segunda-feira, 14 de março de 2011



Para melhorares depressinha porque mesmo que não possamos ver este, prometo-te, vamos ver o próximo!

quarta-feira, 9 de março de 2011

destroce!!

A geração à rasca que vai a protestos no dia 12 de Março, com a protecção do saudoso PCP, é a mesma que ajavarda o festival da canção com gritaria e linguagem de Cais-do-sodré, a mesma que dá 6o euros para ouvir os Coldplay. Estes que falam em "povão", entopem de carros os parques de estacionamento das faculdades, porque vão de pó-pó para a escola e são muito ruidosos lá em Andorra quando vão pra férias na neve e ainda mais ruidosos na fumaçeira da Zambujeira. Vou dar-lhes um conselho amigo: comprem menos maconha, vão de transportes e aprendam a falar, sempre há dicionários, ora bem!!! eu sei que é tudo malta porreira, mas já agora, deixo um desabafo, e se fossem vergar a mola!? hein? a expressão é forte?? bolir!! dar o corpo ao manifesto!! mexer a bunda...não?! não é nada pessoal, é só a reacção a falar, as forças da reacção, quero dizer, neste caso eu, já agora se me permitem, sou uma força da reacção, reajo assim, camaradas.

sábado, 5 de março de 2011


A GRELHA E O GRELHADO

Agora também os professores, mas a obsessão está mesmo generalizada, falo da exigência de ter objectivos para todas as actividades, como se, sem eles, nos sentíssemos perdidos, inúteis, incompetentes. para cada assunto, tema, tarefa, há outros tantos temas, assuntos ou tarefas a atingir com aqueles, numa espécie de escala onde são estabelecidas formas de atingir e formas de aferir a sua obtenção. Dá-se-lhe depois um nome: monitorização. o seu suporte: a grelha. tudo, de preferência, é monitorizável e a ideia é a de que falta sempre qualquer coisa para monitorizar. A actividade é insone.Quantas vezes levou o aluno o lápis à boca? quantas fichas foram bem aceites? que objectivo monitorizavam? A urbe, a cultura, a aprendizagem são como a criação suína.quantos e quanto tempo levam a engordar? quais as condições ideais para a engorda rápida e com menor custo? testaremos esta e esta, até ao resultado ser optimizado.
Estarão as Escolas melhores com tanto controle? Estarão os alunos mais educados, sábios e capazes? Não, não estamos mais capazes, mais espertos, mais sábios, não, só estamos mais medidos, mais controlados, e mais paranóicos do controle. cada um com a sua grelha de sucesso.cada um com a sua escala, feita por peritos em escalas que são por cada escala pagos. Se não fosse actividade maníaca era só enjoativa. nem vou explicar porquê, é alarve a explicação, isto é, fede. e as escalas das comidas? as calorias? monitorizemos o que comemos. e o sexo? quantas vezes? qual a melhor posição? o que é preciso para atingir o orgasmo?Venha daí a loiça das Caldas, chamemos o Bordalo, invoco a Invenção do Amor. Posso?


mas antes, porque o registo é assaz diferente, respiremos fundo, façamos uma pequeno esquecimento voluntário como se nada do que se escreveu antes fosse realmente importante e, não é.miudezas.


Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Morte em Veneza de Luchino Visconti



Começo por onde? Pelo fio de tinta negra que escorre sobre o pó-de-arroz da cara de Aschenbach louco? Aquele para quem a beleza era espírito e descobre que estava enganado? Que o corpo se impõe, que esse mundo de delicadeza e pudor esboroa-se face ao inevitável da paixão, ao sombrio golpe da paixão.Ou falo da beleza ambígua de Tadzio, da morte ou da revelação do mundo como aparência,face ao silêncio despudorado do desejo? Da morte da Aristocracia enredada nos seus pergaminhos,cansada,ou a morte escorrendo pela pedra dessa Veneza de luxo e peste? Todas as frases sobre este filme são patéticas.só os génios conseguem ser tremendamente verdadeiros e tremendamente artificiosos. trata-se do belo, puro, no que tem de demoníaco. e encanta-me, nada é puro, nada.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

to helena

Foto de Burçin Esin

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um
...........................................................parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente


(To Helena - Ruy Belo em 'Transporte no Tempo', Editorial Presença)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Mergulhar na ansiedade, do mesmo modo que os panos brancos mergulham na tinta e tingem-se. os tipos que mergulham com tubo sustêm a respiração enquanto a luz do sol se esvai à medida que mergulham mais fundo e o peso da água é uma parede. mas de que serve escrever sobre isso?Os cadernos de literatura rejeitam a ansiedade, a poesia feminina nem tanto, não pode fugir-lhe. Escrever sobre qualquer coisa de íntimo terá um efeito qualquer, esse efeito depende talvez da vontade de quem escreve. eu quero dizer, preciso de dizer, que te encantem as minhas palavras, também, embora não surjam com guizos, desejariam tê-los. articulemos:a ansiedade é nossa e tudo o que é nosso é desejável, pela razão de ser da nossa natureza. se a ansiedade é natural então ela é desejável. se funcionássemos assim, então não havia ansiedade, porque esta surge na medida em que há um aquém e um além. além o rasto de um paraíso, aquém o mesmo, coisas, poucas. há mesmo qualquer coisa de errado connosco. devo torcer-me ou deixar-me ir? ficamos a meio dos dois, inclinados para os dois, boquiabertos e ligeiramente enraivecidos com os dois, será mesmo uma inaptidão para viver a liberdade ou o resultado de a viver, ou de a pensar? pensar cria uma erosão estranha, uma distância ao mundo exterior, traz para muito perto as sensações, não como são, mas esgotadas, exaustas, de se medirem sem resultado pela perspectiva de um estranho, o pensamento. intruso incontrolável. usurpador sofisticado.
Fotografia de Gerard Castello Lopes

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ora, hoje, 14 de Fevereiro, antes que o dia acabe, antes de pensar, antes de amparar os papéis, voltar a cabeça, antes de deixar o dia, ou quando o vou deixando, aquietar, resguardar, manter, desacelerar.
hoje evoco Baudelaire, quando se punha a dizer que as lembranças são mais uma forma de sofrimento e, por isso, inúteis, em cima do dorso da vida, chamamos vida à mistura finíssima de todas as lembranças com pequenas queimaduras da pele, mais o latejar constante do sangue? ou o sonho, transparente, e a penugem baça de estar acordada.

(este relógio está uma hora pra frente, atraiçoando o momento)


foto de Jorge Rato

sábado, 12 de fevereiro de 2011

ando às voltas sobre escrever. ando sempre ou amiúde às voltas sobre escrever. por razões diferentes. penso na praça vazia de ontem à noite e no arrebique da ruína do prédio, e outras praças querem ganhar a supremacia sobre os mais íntimos e inconfessáveis pensamentos. compreendo que nem tudo se deseja dizer, ou melhor há vários níveis, digladiando-se. Desejos silenciosos e desejos ruidosos. A praça Tahrir. É remota no sentimento mas imperiosa. Interessa-me a Praça Tahir. Terrivelmente nobre é o mundo árabe. Jovem também. Clamoroso. mas de novo a ruína do prédio, a mulher caída sem vida no chão do seu apartamento da Rinchoa. doce foi dançar contigo naquela loja. a impossibilidade de ser livre. de não sofrer. O pensamento evoca, sucedâneos, uma engrenagem complicada de sentimentos. sírios cegos ou ardendo, são todos convocados, sem contudo, ninguém os convocar.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sobre Livros

Os livros são objectos manuseáveis, de peso adequado à medida dos pulsos, de formato adequado à medida das mãos. O que se diz dos livros está geralmente errado, guardamo-nos virgens, para virar as folhas e humedecer a ponta dos dedos, e aí também nada a dizer, fazemo-lo no mais circunspecto silêncio, no mais delicioso veneno, será assim como acender a luz de cabeceira numa madrugada de nevoeiro na serra e sabermos da insónia pelo eco da história que mal nos tocou e aguarda o nosso madrugar para abrir janelas sobre o vale, assim é, nem somos nós mas outros, ou nós outros enquanto a linha que cobre as palavras se desgoverna da órbita para nos desassossegar. se os livros fizessem amor seria para nunca esquecer.


Imagem da exposição de Alexandra Mesquita na Babel, rua da Misericórdia, Lx