domingo, 15 de novembro de 2009

auden

em fios finíssimos se tece a teia com que resguardo o corpo quando o mesmo dotado de alma (que nem sei se existe), treme. em fios finíssimos se tece a teia de uma história feita de avanços recuos e galáxias e fogo, aguentaremos. se o universo afinal for apenas indiferente, não me regozijo da dispersão arrojada do pensamento mas a trama não se perde nunca, essa obscurece qualquer pensamento ou o ilumina, pois que na essência onde o movimento se dá também os contrários se juntam no mesmo.
Lembro a discussão com o meu aluno: A homossexualidade é feia, disse ele. Vá, André, que acharás deste poema? Diz-me tu. Auden era homossexual. A palavra não colhe? E se é a alma (que não sei se existe) a impor-se?




Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good



W.H Auden, Funeral Blues

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

união de facto ou casamento?

O PSD propõe uma modalidade soft para as uniões de casais do mesmo sexo. Uniões registadas. A princípio pareceu-me a solução mediadora: resolvia a questão dos direitos cívicos, saúde, habitação,impostos com a protecção que têm os casais legitimamente casados e, ao mesmo tempo evitava a fractura social que a legalização do casamento homossexual poderia trazer. Depois, de pensar um pouco, já não me pareceu uma boa solução porque não resolve nada. O nome parece-me descriminatório. Porque não legalização de uniões de facto? Continuo a pensar que a questão tem que ser resolvida, não se pode ignorar 10% da população como se não existisse, quando existe e é activa, votante, contribuinte etc. Mas se a questão fosse só de direitos, legalizar as uniões de facto resolvia. A questão do casamento é no entanto mais arriscada e mais ousada porque essa sim pretende tornar a relação homossexual uma relação com o mesmo grau de aceitação da heterossexual. Porque o casamento tem um vínculo social mais profundo que a união de facto, esse vínculo alicerça-se no tempo, na memória, na história. Nos anos 60 considerava-se coisa burguesa e hipócrita. Lutava-se pela autenticidade do amor fora do aval do conformismo institucional. Agora um movimento pela liberdade das minorias faz do casamento uma bandeira. O movimento que permitiu a liberdade sexual também se opôs ao casamento e agora reinvindica-o. Os tempos mudaram. Sim, mas porque será uma bandeira de liberdade o que há quarenta anos não passava de um símbolo de escravidão?

domingo, 8 de novembro de 2009

ervilhando

hoje quero falar e calar-me à vez,ainda não decidi que parte quero calar ou qual é a que quero falar, fala-se muito, em todo o lado mas por via indirecta. fala-se para um microfone, escreve-se por aí fora, dão-se opiniões e conta-se tudo, mostra-se tudo explica-se quase tudo. as palavras correm umas atrás das outras inflectidas ou monótonas, digo o que me vai na alma e quando digo já parece não estar em lado nenhum. mas apesar de toda esta euforia não é o discurso que conta, em boa verdade o discurso conta pouco, talvez por ser tão cómodo e fácil falar numa sociedade onde se permite que tudo seja dito. nada então nos choca ou faz estremecer. mesmo o mais imbecil e desinteressante dos seres tem o seu momento de visibilidade cósmica, debita qualquer coisa no écran por onde passam milhares de outros fumando ou bebendo cerveja. COMUNICAÇÃO. barra a queda para deixar ir dizendo, dizendo, não parar de dizer. pois se calar é assumir a verdade da coisa: Nada temos verdadeiramente novo para dizer.
mas afinal não é este solilóquio senão uma questão de inveja. pergunto-me invejosamente: como é possível um blog como o do Bruno Nogueira ter mais de 2.000 leitores por dia? é muita gente, caramba, que procuram esses tipos todos? aquele ar tá-se bem, aquela coisa dada à brincadeira negligé. é mesmo misterioso isto.
fotografia: Raymond Depardon

domingo, 1 de novembro de 2009

chuva

chove lá fora e o tracejado da chuva nítido à luz do candeeiro de rua faz parecer estranho este bairro, estas casas, como pracetas perdidas do Uruguai, momentos antes de um grito numa qualquer taberna empurrar para a chuva outro corpo. assim. não conheço o Uruguai, sabes, mal conheço as sardinheiras tímidas nos vasos tímidos das varandas inexistentes do meu prédio. facilmente poderia ceder à tentação da queixa quando assim chove nas pracetas do Uruguai perdidas à conta de reflexos dos meus olhos miúpes, reconheço contudo que me é dada fantasia suficiente para desenhar mundos onde há apenas a noite e pouco mais.
imagem daqui: diariodeummago.blogger.com.br

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Por causa da Teresa

a vida não tem ética alguma. rege-se por um conjunto de circunstâncias que se juntam por acaso, sem qualquer razão e que ditam um destino. a ética vem socorrer-nos com a sua clarividência contra esta lei cega. cria-nos a ilusão que há uma ordem para as coisas ou uma justiça, mas de facto não há, no caso da morte a Ética é completamente impotente. morrer com a consciência leve ou pesada é sempre morrer. e morrer quando se está no meio da tarefa de viver, quando se quer viver, quando se quer fazer muito, completar. não faz sentido. é uma revolta. Acreditar num Deus misericordioso pode impedir a revolta, mas é uma dura prova para quem é dotado de sangue e pensamento. é uma prova que está para além de toda a compreensão. se há um Deus cuja vontade comanda a vida e a morte, porque havemos de lhe dar o amor que ele nos tirou? na vida vamos morrendo e renascendo e esse movimento não depende da nossa vontade, forças cegas, animais, mas também a força com que acreditamos na beleza das coisas, na sua justiça, na sua ordem, acreditamos que há um equilíbrio e que ele vai nascer do caos. será essa força a crença numa transcendência? talvez. mas não necessariamente, é a força dos valores em que acreditamos. mas depois há isto. este vazio. como que uma interrupção incompreensível onde todo o pensamento se aniquila.

domingo, 25 de outubro de 2009

filme

"O dia da Saia" é o título de um filme francês. Pergunta natural: Que quer isso dizer? Dia da saia? então será que vamos instituir um dia para todos garçons et filles mostrarem a pernoca? E porque não o dia do naperon? ou da bóina...deixemo-nos de parvoíces porque o assunto é sério. Tudo se passa num Liceu ou como hoje chamamos, uma Escola Pública, onde uma professora pretende dar a conhecer Moliére a uma turma de origem maioritariamente marroquina e argelina. O ódio e o desprezo pela Escola, colegas, professores e Moliére, sourtout lui é de ordem a ser impossível comunicar sem ser aos gritos e ameaças. o resultado é devastador, tão devastador quanto é próxima esta realidade. A propósito: reivindicação da professora exausta: institua-se "o dia da saia" um dia em que toda as mulheres desta escola possam usar saias sem serem consideradas putas...é isso mesmo...quando estiver menos cansada derivarei para o problema dos emigrantes e dos valores.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

dixotes

na sua crónica de hoje o Pulido Valente chama analfabeto ao Saramago, porque ousou dizer dixotes sobre a Bíblia e escreveu um livro sobre isso, ele que não passa de um trolha a quem faltou a educação básica.dá vontade de rir...a educação básica será o quê, neste caso, ter mestrado em teologia??
a questão é que este trolha analfabeto ganhou um prémio que nos enobrece a todos e no futuro ficará como motivo de orgulho, para além disso é um escritor lido e admirado em muitas partes desse vasto mundo, e o sr pulido valente? que autoridade tem? os doutores da igreja sabem do que estão a falar e o saramago não. é a ideia do Pulido, a dele, o seu dixote de trolha. acho sempre imensa graça quando se evoca a autoridade para ter esta ou aquela opinião. geralmente invoca-se o argumento da autoridade quando não há outros, é a chamada falácia da autoridade não qualificada.