quarta-feira, 15 de novembro de 2017





e estamos no Outono, a estação das folhas caídas e amarelecidas tão a gosto dos poetas, tão a gosto daquela melancolia baça que nos põe no promontório, sós, engelhados e confusos. Tudo isto a propósito da minha mãe, que deixou duas pequenas maçãs na cesta e as observou a ficar mirradas do tempo e eu, Mãe, não come as maçãs? Posso pôr no lixo? Não, quero olhar todos os dias para o retrato da minha pele, para não me esquecer que fiquei assim também, sem me dar conta.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

domingo, 1 de outubro de 2017

Regresso a Montauk


Montauk é uma praia numa espécie de cabo-ínsula perto de Nova Yorque, tem ondas fortes e batidas pelo vento, areias desertas e esquecidas da população absorta da city. Montauk é o local perfeito na imaginação, quando sonhamos reiventar relações do passado, voltar aos sentimentos fortes e arrebatadores, apostar na reinvenção perfeita de um sonho de amor antigo. Tem claridadade e espaço, beleza e tristeza suficientes, por si só, para invocar os nossos fantasmas mais queridos, os nossos "poderia ter sido", as nossas mais perfeitas imagens e anseios. Durante longos e duros anos são só isso: anseios mentais; fruto do produto mágico de sofrimento e sonho que amiúde vão sombreando de beleza  o que ressoa apenas como o absurdo dos dias. Adormecem a atmosfera pesada do tempo sólido e linear que é, demasiadas vezes, insuportável. Montauk, o filme de Schlöndorf fala sobre esta forma de amor de uma forma crua, sem arremedos de compaixão, e sem vacilar. A beleza desabrida da paixão, a gloriosa paixão, apesar de tudo, apesar de nada - não há que gastá-la com comparações ajuízadas -seja o que for o mergulho no  "poderia ter sido" e que não foi, é uma parte considerável do que nos vai suportanto em linhas de bordado incandescente sobre as cavernas que vamos laboriosamente montando sem dar conta.

sexta-feira, 14 de julho de 2017





A vertente narrativa dos teus versos

desemboca no indecifável
quadrado
mas é poroso o espaço textil 
do pensamento.
Não é que fosse a primeira vez
mas era sempre nova
a sequência nauseante
tu, espaço, eu, espaço
multiplicado pela distãncia
da hipotenusa do nós
figuras boquiabertas
avançando à velocidade da luz.

Não te largo assim e nunca te largarei
 sendo que te levo comigo para onde não quiser
para onde tu disseres.









domingo, 9 de julho de 2017

Rumor e alvoradas do Raoul Collectif


Festival de Almada, fui à cause du jornal, grande e sugestivo artigo no Público, seriam  desconhecidos, não fora o título - Rumeur et petits jours  convocar imagens simpáticas. Num mundo que se autódestrói resta-nos o teatro e a poesia para não nos destruirmos com ele...podia tê-lo dito eu, num bom momento, mas não...foram eles. São putos, juntaram-se, criaram este trabalho cheio de metáforas e imprecisões delirantes, descontrução da linguagem, esvaziamento da lógica para deixar brotar as associações livres e convocar imagens fortes da infância, ou não, apenas fortes de inesperadas.Ionesco não anda longe, porque será que vamos sempre buscar ao que aprendemos? De repente falam de Henri Michaux, seria belga ou francês? Eles belgas, ironizando com a mania dos franceses considerarem tudo o que é escrito em francês como francês...boo. O espectáculo, ao ar livre na noite fria de Almada aguentou-se incólume na mensagem, sem a ocultar e sem ser escravo dela, aí, no sítio de todos os possíveis, espaço de liberdade onde nada se forma em definitivo mas se esboça para se desmanchar em seguida deixando um rasto de poeira e deserto onde vacas e cavalos enxotam as moscas. Afinal há alternativa, há sempre alternativa, et voila!!