quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

deixo de lado

deixo de lado
os ramos e os pés
a luz e o coração
o fantoche de palha das emoções bárbaras cicatrizes
a figura trémula do meu pai
a figura presente da minha irmã
Rimbaud que se desfigurou
a atravessar planícies

Vejo a roseira do jardim
ao alto
o pânico de voltar ao lugar
onde descubro nem ser feliz
sem crueldade como quem traça a perna no sofá e amassa na ponta dos dedos a factura do gás
Deixo de lado
o meu amor cansado
as partidas dos aviões para o Norte de África
ao início do crepúsculo
lembro-me de quase nada
de tanto me tentar lembrar
permissivas gotas de absinto
no calendário
os anos
seguram
crianças ébrias
sorrisos florescentes
matas
à temperatura de um corpo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

madrugadas

embora a madrugada possa recusar ser testemunha de insónias ou balanço de poemas que não a viram, talvez de longe mas duvido, embora não se misture com palavras, por causa certamente dos pequenos corvos debandados por tão pequenos riscos sobre o seu horizonte, embora não pareça a ninguém que definha pois o mais razoável é sobreviver limpa na menina acocorada dos olhos, embora possa servir mote ou metáfora de renovados dias, embora seja para recordar vê-la no fim, será de bom tom refrescar-se na sua capa dura e brincar a baralhar as rotações da terra mantendo-se acordado sem qualquer razão só, quem sabe, a teimosia de uma mente expectante, teimosamente expectante, ao arrepio de um corpo lasso que pede cama.



BOM NATAL para todos.

sábado, 17 de dezembro de 2011

reflexão natalícia

há certos valores em desuso. bom e mau, por exemplo. um homem bom ou uma mulher boa. uma mulher boa é mais "como'milho", um homem bom, é um tolo. quando utilizamos bom, é em geral para comida, este guisado está bom, ou no futebol: aquele "gaijo" é bom jogador. coisas boas são, em geral, para o paladar, ou cumpridoras da função. Mas, nós punimo-nos muito por descurar a virtude moral, ora para aliviar a tensão, a máquina social produz, à velocidade da luz, solicitações solidárias. dar para aqui e para ali, ajudar os pobres. Os milionários fazem-no, a virtude cristã idolatra-o. poderia ser uma forma de manter o equilíbrio, entre o egotismo e a instrumentalização. seria, até uma boa forma se não fosse perpetuar esta situação, e esta situação não se quer perpetuada. O humanismo não nos desvincula das obrigações morais, mas fá-lo num quadro de referências diferente, este quadro, agora é falso e não muda nada verdadeiramente. urge desenvolver a noção de um homem integral, não vinculado a obrigações postuladas por um quadro social em que a virtude se contabiliza pelas coisas feitas, produzidas. A questão base é a falta de confiança na humanidade, a visão de uma humanidade injusta e imatura que perpetuamos porque nada fazemos para alterar, esta humanidade precisa de rédea curta e de ensinamentos, mas os ensinamentos não tornam a humanidade melhor, não é isso que se lhe exige; exige-se antes pagamento ou punição por cumprir aquilo que se lhe exige: Produzir, produzir e como não sobra tempo, a caridade é o mais rápido e eficaz porque não incomoda a produção nem o consumo. ambos o BOM.




Foto Eisenstardt

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

gaivotas em terra

Alguém espantado por haver gaivotas na fonte-cascata da rotunda em Oeiras, ali, na rotunda marmorizada do Isaltino, entre carros e carros. -Olha!! Gaivotas!! Era suposto estarem no mar, nas falésias, hei, falésias!? Agora desarvoradas e corridas das falésias inexistentes atiram-se para cima das vilas, abancam no meio dos centros comerciais, não será de admirar que andem aos restos de pizza ali mesmo no meio do lixo e dos tabuleiros sujos, entre a azáfama da empregada de limpeza, e as televisões gigantescas, é o estado da arte, suponho, tirar as coisas dos sítios onde pertencem, desarrumar a paisagem, se tudo isto fosse um puzzle diria que perdemos o desenho, arrumámos peças ao acaso. mas se calhar nada disto é um puzzle e não existe desenho nenhum.

domingo, 11 de dezembro de 2011

o que nos dói quando nos dói. uma opressão no peito.uma angústia. uma necessidade de chorar. mesmo assim, há uma autoria de nós mesmos sobranceira, a olhar-nos com desdém, e um outro, dobrado sobre si. um outro dobrado sobre si. dobrado.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Waking life



video



Porque será que estes filmes não passam por cá? Ou será que me passou despercebido?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

livros

Nas livrarias, de ano para ano, aumentam os colossais volumes de papel, vulgo romances. Formam por esta altura grossas colunas por cima das bancas. Livrarias, bibliotecas e editoras lutam contra a falta de espaço. Na biblioteca que frequento o Zé, pesaroso, abana a cabeça, não, não aceitamos doações, temos que mandar livros para abate, não temos onde os pôr. (curiosa a expressão livros para abate, óbvia analogia entre o livro e o gado bovino ou caprino). Nunca se escreveu tanto, oh, orgulho da cultura! Livros, para que vos quero! Como fazer a seriação? Como saber, entre os milhares de páginas escritas, quais são verdadeiramente livros e quais são letras com egos lá dentro!? Sou suspeita em relação ao que se escreve hoje, folheio, e decido-me sempre pelos clássicos, quando tenho de escolher. O romance actual não me interessa. Nem no estilo, nem no conteúdo, os escritores portugueses esticam-se para ser originais, e não há pudor, escreve-se sobre tudo, pedras, lenços, fantasmas ou divórcios, morangos ou sida, e sobre o amor, claro, sobre o amor obviamente. A geração dos verbalistas do amor, das relações, da paixão, as variações possíveis e impossíveis, as repetições possíveis e impossíveis. Acredito que no meio da xusma haverá novos escritores dignos desse nome, mas perdem-se na nebulosa gigantesca de títulos. Dos novos um apenas: Dulce Maria Cardoso. Os antigos, depurados pelo tempo dão-me mais garantias, mas pergunto-me: Qual será o critério do Zé quando tiver de queimar umas centenas de volumes? Haja pudor!! Interditem-se imediatamente José Rodrigues dos Santos e Migueis Sousa Tavares e outros quejandos, Fátimas Lopes e por aí fora. Escrevam à família e deixem-nos em paz!!


Quadro: Biblioteca de Vieira da Silva

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

trabalhar mais e trabalhar nos feriados





pergunto-me da lógica deste disparate. O Luís Pacheco teria uma frase ajustada para converter esta charada numa porno chachada. Se vamos trabalhar mais, vamos fazer o trabalho que muitos outros poderiam fazer, pessoas que não o têm, são muitas, aos magotes, e tristes por não haver trabalho. Estaremos nós no coração apertado e claustrofóbico do capitalismo? Na esquizofrenia do capitalismo? Nos anos 70 falavam disso os filósofos, profetas sem dúvida, e se o conceito parecia ridículo nesse tempo, hoje a constatação é empírica. não há que enganar.





Foto: Yves Klein, 1960, Salto no vazio

domingo, 27 de novembro de 2011

os bares

sempre frequentei bares, com assiduidade alguns, fortuitamente outros, em tempestade alcoolizada, em euforia tribal, na conquista amalucada ou na sedução, também em desespero confessional ou só para encher a noite de fábulas, os bares acolheram com desvelo ou apenas indiferença as minhas necessidades de encontro ou fuga, ambos ao mesmo tempo e sem reflexão ao pormenor. Estaria tentada a confirmar a afirmação ingénua do bar como palco onde podemos seguir as cenas da nossa, agora que escrevo sobre isso, vidinha, episódios e cenários, figurantes e protagonistas. Vem-me ao ouvido a música da Alcione " Mesa de bar é onde se toma um porre de liberdade...de companheiros em pleno exercício de democracia." Seja como for, amordaçando nostalgias ou tiradas pseudo moralistas sobre a utilidade ou inutilidade de tudo isso, à parte o gozo experimentado, gozo real, sólido, metamorfoseado nos intuitos ou no acaso, os bares ensinaram-me a perceber a lógica entre o espaço e o estado de espírito, o Vertigo é um desses mestres, há nele uma rara percepção da coisa da noite, desse vórtice infinito e expectante da noite. Sentar-se ali reenvia para catedrais e sótãos antigos, espaços de memórias subitamente presentes, vindas não se sabe de onde, papéis com poemas escrevinhados, contemplação amorosa, um não saber, uma intuição de como podem ser decisivos certos momentos, insubstituíveis. Os vitrais do tecto ou as mesas muito limpas e enceradas, a música em compassos longos, realçando uma espécie de silêncio onde as palavras ganham força de actos decisivos, a luz familiar, íntima ameninando os rostos, tocando-lhes as fragilidades. É um bar, pagas o que comeste e o que bebeste, e sais. A noite apresenta-se então de novo, inteiriçada, indagando sobre a tua disponibilidade, e respondes sim, afirmativo e não há nada, mas nada mesmo, mais precioso.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Apesar de você



"Você que inventou a tristeza ora tenha a fineza de desinventar." Grande Chico e grande interpretação!

domingo, 20 de novembro de 2011

post doc

caminhar pelas ruas de lisboa, as velhas ruas dos velhos bairros de janelas estreitas, caliça desmaiada e opaca, calçada irregular, portas fechadas com batentes, degraus. Pergunto-me o que vejo, o que é ver, se nesse acto de me comprazer com as linhas, volumes, cores e tons, não há também passado, um passado de histórias e sobressaltos, frases ditas, no acto de ver as botas a subir o lancil de um passeio distraídas pernas, frases cruzadas, no calor de uma conversa, ou ar fresco depois de uma noite de chuva limpando a poeira da cor, gritando-a suavemente sobre a tarde, a emoção do corpo, onde há também pensar, a estranha presença do corpo, desta rua, do meu corpo dentro e fora dela, desprendendo as redes com que teço a atenção, penetrando dedos húmidos no olhar como um felino rombo, um feroz servidor de cálices, baixando os olhos, vendo por dentro, compondo a fugacidade para a desviar do lugar onde não a podemos usar, uma e outra vez, desmaiá-la, desdobrá-la, arrepiar-se nela. se somos nas coisas ou elas em nós, se nesse momento em que sentimos, só nesse ainda e sem nome, instante, vemos. A dificuldade de separar, traduzir escolher palavras é ainda ver, de uma outra maneira. A memória do discurso quando ele se estende à nossa frente, muito à frente do que sentimos e se multiplica em inutilidades, como parágrafos e letras, conjugações e metáforas, eu dizia, caminhar (só) pelas ruas antigas de lisboa.




foto: Willy Ronis

domingo, 13 de novembro de 2011

os idos de março

O título deste filme "Nos idos de Março" tem uma ressonância estimulante. poderia lembrar-nos "Julio César" e a profecia do adivinho perdido no meio do entusiasmo da multidão: "Tem cuidado com os idos de Março". Na verdade o imperador caía assassinado pelos seus amigos e conselheiros, a 15 de Março. Em Roma as discussões de poder arrematavam-se com uma qualquer tragédia. Não se discutiam as infidelidades e os casos de alcova nas manchetes dos jornais, mas hoje, em 2011, o imperador é um candidato a presidente, numa América hipócrita com os bons costumes. Em democracia não se mata dessa morte de sangue, mata-se a honra, mata-se a dignidade, matam-se os escrúpulos e depois de meia alma morta, temos homem para presidente. Se as formas de afastar alguém do poder mudaram muito, a traição e a lealdade não, os jogos de sombra permanecem e as virtudes do carácter são a referência, mesmo quando não passam de um obstáculo para o poder. O filme de Clooney trata com pinças a velhíssima história de César e Fausto. Trair, vender a alma ao diabo pela glória. mas a verdadeira questão, a mais lúcida, é a de que o facto de alguém o fazer não faz recair sobre ele a pena mas condiciona todos os outros ao mesmo. Basta alguém viciar o jogo para que nele ninguém mais possa jogar limpo. É disso que se trata, do efeito das acções de um sobre todos. Quando Clooney diz que a sociedade tem de ser melhor que o indivíduo, está a referir-se a um ciclo vicioso, que ela, a sociedade, não pode ser melhor enquanto cada indivíduo agir apenas por si. Esta será apenas uma frase boa, mas utópica. Depois, actores, actores, actores e o milagre dos filmes.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

místicos


Aquesta divina unión,

del amor con que yo vivo,

hace a Dios ser mi cautivo,

y libre mi corazón;

mas causa en mí tal pasión

ver a Dios mi prisionero,

que muero porque no muero.

Santa Teresa de Ávila




Quando leio os místicos não deixo de sentir perplexidade e, ao mesmo tempo, ironia. Há algo que os une, uma esperança infundada, uma agonia prazenteira. o prazer associado à dor, ao sofrimento atroz. associado significa aqui fundido num só. A perplexidade não vem com a estranheza, não me é estranha essa experiência, nem tão pouco considero estranho que ela seja libertadora. assumo que o pode ser, que o é, enfim. A perplexidade deriva de não conseguir compreendê-la como experiência de um verdadeiro convívio com o Bem Absoluto-Deus, o Espírito. Há nelas um estímulo corporal, uma emoção exacerbada que não posso evitar pensar ser fruto de uma certa loucura proveniente da falta de verdadeiro estímulo corporal do outro, físico como nós (mas não só, obviamente). o excesso não resulta de um transbordar de verdadeiras emoções e sensações face ao Absoluto mas de uma carência, carência que se toma por amor. Dai a um homem ou a uma mulher a clausura e a solidão mais austera e ao fim de um tempo ele imaginará que anjos de fogo o visitam. dai-lhe a fome e ele, para lhe resistir, imaginará a abundância. Trata-se de uma espécie de experiência da provação e, pergunto, que distingue esta experiência de outra qualquer a qual, por excessiva, pode resultar em loucura?

domingo, 6 de novembro de 2011

impertinências

estava a tentar escrever qualquer coisa e a perceber quão longe está o entusiasmo dos blogues. já risquei umas dez frases. as frases são sempre o começo de tudo. quando se trata de escrita. uma boa frase salva ou perde o dia. uma boa frase lança-se sobre nós e contamina-nos um dia inteiro. vai connosco para todo o lado. reparo que ao tentar enumerar "todo o lado", associo tarefas, lugares mas escapam-me os rituais, esses tempos nomeáveis, o tempo do trabalho, o tempo das refeições, o tempo do sono, o tempo do prazer, o tempo da diversão. estas separações cada vez mais se confundem, e daí todo o tempo ser tempo gasto, não tempo renovado, o tempo do ritual. O ritual vive da repetição, exige a entrada num outro patamar, implica a existência dos outros com quem o cumprimos e com os quais o acto adquire um certo significado. cada vez mais as refeições são comer, meter comida na boca num lugar qualquer mais à mão. e o tempo do trabalho contamina o da diversão e o do prazer ou vice versa, confundem-se. não me orgulho disso, sempre o combati, não posso nem quero ser vítima deste tempo linear curvado para nenhures onde as coisas são coisas e os actos actos, movimentos para coisas, intenções. hoje falta-me tudo mesmo. sem mediação. daí a frase não surgir. pensava escrever sobre os blogues e acabei a falar do tempo. ou de mim. ou estava a falar das frases sem nenhum deles. nem o tempo nem o sujeito. fechados. ambos a cadeado. na frase.


Gustave Courbet, A vaga

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

devoções

Podíamos ser devotos de Jesus Cristo ou da Virgem Maria, normal, são figuras culturalmente sagradas, mas também podemos ser devotos de um tom de cabelo, de um certo odor, de uma expressão, de um movimento. A sacralidade está na submissão do sentir áquilo que pela sua beleza é de outro mundo, julgamos nós, quando sentimos ser desmesuradamente completo, absoluto em si, o seu aparecer ou ser; paradoxal é descobrirmos nessa submissão uma forma insuspeita de liberdade, a liberdade de sentir e nomear sem medo dos territórios fechados onde a vivência do sagrado nos é consentida. São, por isso, permitidas todas as ficções e até imensamente desejáveis se por elas reescrevermos o mapa das nossas pequenas e insignificantes relíquias. Podemos usá-lo para descobrir a direcção, o nosso mapa do tesouro, mas teremos de guardar para nós o mecanismo da sua descoberta.

sábado, 29 de outubro de 2011

PRAXE PRAGA

Fui ao Doclisboa com uma turma. Vimos três documentários: Flying Anne, The last day of summer e Praxis. Este último era um documentário sobre as praxes dos caloiros universitários. Portugal: 2011. Não precisava de ver no ecrã de um cinema o que a minha sobrinha já tinha relatado em primeira mão: em Farmácia andaram presos por cordas uns aos outros, ajoelharam perante o padrinho e tinham farinha e vinagre em todos os orifícios do corpo. ela ria-se contente...gostei muito do meu padrinho. Deixa, eu percebo, mundo novo, queres ser aceite, na desportiva. Mas assalta-me a perplexidade: Se é de integração que se trata porquê assim? Porquê pela humilhação? Chafurdar na lama, ajoelhar com orelhas de burro, simular ser violada, comer alho de olhos vendados e mãos atadas, chamar-se a si próprio nomes horríveis enquanto se obedece às ordens avacalhadas de um "superior" de capa e batina negra, cheia de símbolos. Se este modelo não é fascizante, então não sei o que é fascista. Este é um fascismo consentido, o fascismo possível. Seja qual for, é nojento. Era tempo de se recusarem todos a estas palhaçadas.

domingo, 23 de outubro de 2011

serviço ao domicílio

Já tinha comprado de manhã este pedaço de bolo mármore depenicado na sua caixa de papel engordurada, não lhe liguei,viajou comigo no banco detrás do carro, avantajou-se despercebido sobre a mesa de uma cozinha portuguesa, (para evitar sentimentalismos) e voltou aqui à secretária, para servir esta pequena demonstração mesmo agora descoberta: aquilo que nos traz à tona, inadvertidos, solta-se das fagulhas da memória. Dentro, fundo de nós, nascem oásis, fotografias doces, pedaços de bolo mármore ao canto dos lábios tornam à vida, na lembrança. A minha tia (que jaz num lar à espera da morte) fazia grandes bolos destes e, ao domingo, o pessoal pequeno não lhe deixava a janela. Em guardanapos de papel minúsculos ela passava-nos para as mãos, depois de mergulhar na penumbra da casa, grandes fatias que nós devorávamos com os olhos e com a boca, agachados à janela do rés-do-chão. Viajo também até Monte Clérigo onde, mais velhinha, naquelas madrugadas de verão nevoentas, interrompíamos o sono para esperar à porta do café da praia." Um café e uma fatia de bolo mármore" as ainda quentes fatias de bolo mármore. E se para nada servisse o amor, responderia aos mais cépticos, que ele, o amor, abre grandes clareiras de luz, certas amenidades, num domingo como este, onde ninguém o esperaria.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

particularidades

fala-se muito e obsessivamente sobre o mesmo, mas poderia eu dizer, a curva de um ombro, uma perna.

o efeito ralo, um sorvedouro por onde se esgota o pensamento, passa, mas poderíamos dizer o fresco da tarde, a lonjura vaga de uma manhã.

o mar aos dias ímpares estaria certo, mas diria as vagas uma ou outra salpicando, os mais belos e afortunados ancorarão a esperança no abraço, no riso, o pão da proximidade corajosa, um e outro ou mundo inteiro para conquistar, seria irrisório afirmar peremptoriamente: mundo inteiro e fugazes sequências lunares na verticalidade do caminho, quando nos inclinamos para beijar.




Quadro: Hermann Seeger

títulos deprimentes

Já aqui tive oportunidade de dizer que atribuo o meu ser conservador, com uma costela raquítica de reaccionário, à idade. envelhecer em nós envelhece o redor de nós. aplicamos a fórmula: seguritas, vice silenciosa. que a segurança é silenciosa e adormecemos confiantes. hoje, só hoje, (é incrível a pretensão que ter um blog pode dar...)vou abrir uma excepção e articular algumas palavras sobre o que penso deste problema:


Democracia e falência capitalista.


Vejamos três tópicos que cobrem o espectro opinativo imediato:

1.Estamos falidos.

Portugal não é uma empresa falida. É o Estado actual que está falido. mas a falência não é só nossa, os Estados capitalistas estão todos falidos. o capitalismo arrasou. não são os Estados políticos a governar. o capitalismo é que governa. o FMI, a Banca. etc




2. Passos Coelho com os óculos encavalitados e o ar de retoma (austera) faz lembrar Salazar.

FAZ LEMBRAR e ele próprio acha que sim...não sei bem quais as consequências mas não auguro boas porque Angola, Guiné e Moçambique não podem ser a escapatória, logo, não há por onde escapar à miséria.


3. A economia é estranha, anda tudo com ela na algibeira, a poupança e bla bla bla mas não há uma ideia política inovadora. era esta a altura de ousarmos. por exemplo: descobrir o equivalente ao caminho marítimo para a Índia que já descobrimos.


4. Os protestos nas ruas dão-nos a cor da nossa desconfiança mas também são manipulados vergonhosamente por partidos insatisfeitos e anacrónicos como PC e Bloco.Urge outra revolução para instaurar outra ordem, (acho que vou morrer sem ver). A nova ordem política deixa a cisão esquerda direita. Sempre achei que essa treta dos direitos assentava num facto essencial: O dinheiro. Há que depôr o capitalismo. Fazê-lo baixar a crista. Como vivemos todos segundo o capitalismo, fazê-lo baixar a crista é baixarmos nós a crista ao consumismo desenfreado.Os nossos hábitos de vida são o capitalismo. Vou pensar sobre isso.

Fotografia de Kertész

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

a quadratura do círculo

Comprometermo-nos com este pacote de medidas que nos cortam os subsídios e nos reduzem o poder de compra, comprometermo-nos com o Estado/governo eleito democraticamente? ou desobedecer, indignar-se, sair à rua contra esta entropia capitalista que nos quer asfixiar? A segunda hipótese parece-me mais poética e mais dinâmica, a primeira é mais sensata. A questão está na banca e na especulação bancária da qual os governos são reféns, o nosso especialmente. Mas nós, aqui, confortavelmente assentes na comedura bancária, cheios de hipotecas e fragilidades para manter o nosso status, não podemos ignorar que o Estado forte é a nossa garantia, daí que a escolha para mim é óbvia. A democracia parece-me um bem mais valioso, a democracia e a independência podem estar ameaçadas se não nos conseguirmos aguentar. É como ter a nossa casinha e dever montes de dinheiro, vamos fazer economias para pagar as contas ou vamos deixar de pagar tudo? E depois? A minha mãe sempre me ensinou, deves? pagas. Parece-me justo mas que custa, custa.

sábado, 8 de outubro de 2011

fase de negação

peço desculpa à meia dúzia de fiéis leitores deste blogue mas tenho a declarar uma heresia: contra a religião actual, eu não acredito no "deus gola alta da Apple" e, tenho também a declarar, que não contribuiu um milímetro para mudar a minha vida. Deve ter contribuído para a humanidade inteira ficar fascinada com o ilusionismo de criar necessidades em bagatelas. tablete a mais ou a menos mas se querem saber, os louros são para os cientistas que permitiram a computação, equacionaram as leis dos quantas, e, sim, esses permitiram o futuro. Admira-me que um milionário vendedor de produtos seja o grande visionário do século. uma espécie de cristo- vendedor informático. a Apple factura bem com este herpes colectivo.

Deixo-vos com Ana Mendieta, uma rebeldia com duas pernas grossas,vasos sanguíneos, ervas e corpos em revolta. justamente.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

millennium 3

Sobre a trilogia "Millennium" temos Noomi Rapace no papel de Lisbeth Salander: "A raínha no Palácio das correntes de ar". O Filme, de produção sueca, não teve, neste terceiro episódio, os meios monetários do primeiro e, é pena, porque esta saga vai muito bem com suecos e aquela língua bergmaniana cheia de cruzes. Talvez o espectro da versão Americana - canastrão Bond em efeitos especiais à velocidade da luminária que é, embora finja que não...ele há destas coisas...os tenha feito despachar mal alinhavado este filme, urgia antecipar-se. O primeiro episódio era soberbo,. O grande feito deste era o final. Salander alone no rochedo de Gibraltar. (leia-se no livro)" Lisbeth tinha verdadeira intenção de não ficar em Gibraltar mais de duas semanas, até dar uma nova orientação à sua vida. Ficou doze." e o encontro " Já não a magoava vê-lo. Abriu a porta..." ELIPSE, Gibraltar is missing, o encontro final é transviado, senti-me ultrajada, mas à Noomi ergo a taça, esta Lisbeth é um golpe de águia cortante e inspirador.

domingo, 2 de outubro de 2011

tou com saudade



essencial, visceral,o sindroma, parece-me mesmo sob o prisma conceptual mais erróneo, que está certo, ou melhor, trouxe a Bethânia e disse: canta! e ela cantou, cantou só para mim, ao meu ouvido.

domingo, 25 de setembro de 2011

bátega

neste tempo aqui, agora, há coisas a fazer, nada para dizer. disse tudo, disse demais, usei muitas palavras, não disse nada, consente-se em dizer, depois em não dizer, só puxam pelos colarinhos umas das outras, as palavras, então, basta, falar. pode-se rir, chorar. abraçar.correr. acercar-se do corpo, respiração dolorosa, envergonhada. é triste o corpo, quando o olhamos como estrangeiro, descurámo-lo e as vísceras revoltam-se, parece-me uma ideia com pernas para andar que as grandes revoluções, até as pequenas! se iniciem com violentas dores de barriga. não é digno, não senhora, mas a dignidade ou o esforço para a repôr vem depois e é a história inteira.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

on the beach

demoro muito tempo a não fazer nada por estes dias quentes de Setembro. demoro nas coisas porque as disponho de forma diferente para me certificar da surpresa de não as encontrar no sítio habitual. demoro-me também nas tarefas, reconduzo e recomeço, separo, reconstruo.adio. demoro-me muito nos sonhos e nas imagens do pensamento acordado ou no pensamento a dormir e demoro-me sobretudo nos sentimentos. olho-os. com vagar. deixo-os chegar mesmo à flor da língua mas não os seguro ao nome, prefiro que dancem sobre a tentação de os agarrar a um ou outro, meus serão mas não tenho a certeza.vêm e vão. aprendem e esquecem. e são novos, resplandecentes, guerreiros e escravos. neste dia quente de setembro, na praia, com a Escola longe, uma onda veio rebentar nas nossas pernas de banhistas tardios, sequiosos de fresco, não resistindo ao impacto caímos como um castelo de cartas. de gatas no meio da espuma olhámos uns para os outros e desatámos a rir. comungar um sentimento é uma alegria. (sobretudo com as calças na mão) seria até desejável reconhecermos que andamos todos de calças na mão, ou seja, de gatas na espuma.

domingo, 11 de setembro de 2011

Para começar o novo ano, acordei com esta música.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

coisas esquisitas

Acho que Pessoa tinha razão, pode-se perfeitamente viajar sem sair do mesmo sítio, entrar em lupanares ou escorregar em areia fina, subir aos Alpes ou atirar pedras no deserto do México, até , pasme-se!, acelerar a velocidade supersónica dentro de ondas tubos ou conversar com peixes alaranjados, isto sem precisar de garrafas de oxigénio, apenas com o simples movimento pulmonar, pode-se encontrar nas calçadas da noite reflexos de outras calçadas, inúmeras ruas e seus cruzamentos, seus espelhos de poças amachucadas onde a lua foge de estática a socorrer-se de lianas para baloiçar nos ramos de sequóias gigantes, pode-se seguir sombras de crimes e desembocar em alamedas, juro que sim. e sei que sim, porque desconheço o perímetro da terra mas já o desenhei num instante, a giz, sobre os teus ombros.

sábado, 3 de setembro de 2011

deleuze




ando a tentar perceber Deleuze e o sentido do conceito "máquina desejante" e da frase: "todo o desejo é esquizóide". Qualquer frase, até a que incorre em contradição, como "o desejo não é o desejo" tem a sua justificação ideológica à luz desta alucinação pensante, chamada pensar "de fora", pensar exterior aos mecanismos de poder (a lógica deve ser um deles) presentes no discurso. Boas intenções. Em todos nós (falo da minha geração mas não só) há um rapazola de cocktail molotov contra o poder, coraçãozinho no Maio de 68 prestes a sair à rua (entre as três e as sete da tarde, se a coisa não tiver grandes consequências, e se puder tomar café). Se o pudermos fazer no discurso, melhor, mais confortável, não precisamos de apanhar chuva, por exemplo. Então a questão é apagar o sujeito e substituí-lo por um colectivo, daí a máquina. A deseja B, lógica burguesa e rançosa, antes: Deseja-se, muito, a toda a hora numa produção constante a partir de delírios colectivos. O vestido, a festa, a rapariga, a promoção, o cantor. Esquizóide sem dúvida, mas libertador. Fabriquemos sem punição os nossos objectos desejantes, essa será a única reacção genuína contra o poder da neurose burguesa e autoritária (acasalamento, família, pátria etc). Oh yes! Tentador e refrescante!




veja-se o "Pierrot le Fou" do Godard (imagem)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Londres 2




Já que pediram, por quem sois! aqui vão mais umas quantas, estas são sobre doces. Intimidades, coisas que derretem na boca. Conseguem perceber o que está o tipo da Tshirt preta a fazer?



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Londres






Os londrinos na rua mais antiga: Fleet Street e o árabe no meio da balbúrdia da feira de Camden. Se olharmos para cima não há diferenças, são só nuvens, não creio que de haxe mas não tenho bem a certeza dada a persistência da criança em querer um nevoeiro só para si. passei o tempo todo com a cantilena "London Bridge is falling down, falling down..." talvez porque receasse uma hecatombe mas afinal não, o maior susto foi mesmo o do árabe que não queria ser fotografado e correu atrás da máquina quando a ergui ligeiramente e lhe apanhei a face.Meu caro, se visses o resultado talvez ganhasses mais facilmente a vidinha posando para turistas curiosas.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster

Elizabeth Bishop

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Talvez este não seja o ameno tempo das palavras. obscuro, mais obscuro ou pueril o que sentimos, já as usámos todas e com elas nos separamos. engano é pensar possíveis, há sempre depois os factos, o que fazemos. vamos ou ficamos. enfrentamos ou fugimos. e o tempo escoa entre os pingos da água que empapa a terra seca. pensar não atenua o fogo mas incendeia pequenas ilhas incólumes em volta. pensar alimenta o fogo, abre possíveis. não pensar é melhor, regar as plantas, lavar a loiça, ataviar o tempo de laçarotes, viver na cómoda ilusão de um tempo que virá. Pegar no martelo para construir muros ou, na melhor das hipóteses, passagens estreitas entre pedras que se desconhecem apesar da antiga proximidade. É tremendamente desconhecido, atávico, o desejo, quer a vontade que ele permaneça ao largo com seus furacões de lava, sem ele, esmorecemos e no verão vem a cacimba tuberculosa do inverno.

sábado, 6 de agosto de 2011




assim, não abandonando esta onda, especialíssima praia que de longe será virtualmente igual, mas perto, de perto prende, Calipso passou por aqui. aceitam-se apostas,




quinta-feira, 28 de julho de 2011

Finalmente a banhos. vou deixar crescer barbatanas e guelras, que este país é como um coraçãozinho de papel, imensidão azul onde se mergulha e se perde coordenadas. E, já agora, alguém adivinha que praia é esta? promete-se brinde para o vencedor.



segunda-feira, 25 de julho de 2011

terrorista cristão na noruega

Théodore Géricault, A jangada de Medusa


um homem munido de uma espingarda mata 90 pessoas em hora e meia de tiro ao alvo, pessoas que ele nem conhece, que não lhe fizeram mal, pessoas que são filhos e amigos e netos e primos de alguém, pessoas com sonhos e com crenças como ele, pessoas como ele, este homem não tem um pingo de loucura, raiva ou desvario, considera mesmo estar a prestar um serviço ao mundo, restituindo-o à pureza e aos "bons valores", as suas fantasias consideradas verdades. A racionalidade, como projecto, a razão e a justificação existem, os nazis também as tinham, assim como Estaline, os seus actos são ainda mais monstruosos por isso. se a razão é o que há de comum a todos, marca as fronteiras da nossa humanidade, não deixa de ser motivo de perplexidade que seja instrumento do mal absoluto, matar inocentes é injustificável, seja qual for a fantasia que cada um toma por sua verdade. Cada um pode convencer-se do que quiser, e terá a força da sua crença mas não há verdade nisso, porque a verdade resulta de um acto de confronto dessa crença com a realidade fora dela. quanto aos actos que interferem directamente com os outros, temos de lhes perguntar primeiro. O monstruoso destes actos resulta essencialmente deste convencimento de que a nossa crença é superior, sem qualquer razão para o pensar, neste aspecto, na sua origem, está a irracionalidade humana, a separação entre o eu e o resto da humanidade.

sexta-feira, 22 de julho de 2011



foi a árvore, encontrou-me confusa. desviou até meus calcanhares de Medusa seus longos cílios de vento e entardecer, espalhou ao susto e à eternidade a reflexão. comoveu-me. ainda. já a tarde era branca e não havia sombra.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

este desassossego

Este meu desassossego
Qual ponte ou passagem ou cimento
Virtual repouso num sonho repetido
Este meu desassossego
paráfrase ou tília fria
sofrimento pensado
onde existes
Sobre poalha catástrofe
ou desejo

domingo, 17 de julho de 2011

Parábola do homem do saco




No caminho a mulher perguntou:




- E se ele não volta à terra?




-Se não voltar à terra poderás dizer que se afogou no mar.




-Como podes dizer isso?! eu não quero que ele se afogue no mar.




O homem mudou o saco para o outro ombro e disse cansado:




-Essas coisas acontecem.

foto: Vivienne Westwood por Annie Leibovitz






quarta-feira, 13 de julho de 2011

É curioso o modo como tratam as imagens duas gerações separadas por 35 anos. A minha sobrinha tinha de copiar um quadro para a aula de pintura, escolheu este que aqui vemos, escolheu-o ao acaso na busca do google, gostou da imagem, tout court, nada sabia do autor, da obra, da técnica, era-lhe indiferente, a imagem valia por si. O quadro que pintou surpreendeu-me, gostei, as formas o enquadramento, mas o original tinha mais força nas cores, tentei perceber porquê, disse-lhe, o original é um óleo, só o óleo permite estas cores e tu pintaste em acrílico. duvidou. pesquisámos, eu estava interessada no autor, quem, porquê, como, quando para ela tal pesquisa não tinha qualquer sentido ou utilidade, para mim era crucial a identificação da obra com o autor. afinal, tinha razão, era óleo. ainda dou por mim a remoer esta desconfiança. Não aceito imagens por si, tenho de as compreender no contexto de uma obra, de uma pesquisa, de um estilo, Thanks Cat por me possibilitares estas descobertas e por seres fantástica.



Quadro: Françoise Nielly



ver aqui

domingo, 10 de julho de 2011

Será possível conciliar duas perspectivas antagónicas sobre os valores? A questão é manhosa, e coloca outra: serão perspectivas ou crenças verdadeiras? e se assim for a questão é: Qual das crenças será verdadeira? Agradam-me as crenças cristãs e as críticas de Nietzsche. Oscilo entre concordar que o Bem e o Mal são o resultado de uma acção que nos reforça ou enfraquece o poder. Que poder? O poder sobre os outros e também o poder sobre nós próprios, e agrada-me a noção de despojamento e abnegação, da culpa e da expiação, valoriza a humanidade no indivíduo e transmite paz. Li há pouco umas palavras do Tolentino Mendonça que fazem todo o sentido. Dizia ele que há os porcos-espinhos, monotemáticos que vão aperfeiçoando e perseguindo uma crença até ao fim e as raposas que se interessam por tudo e se entusiasmam com tudo. Identificava-se ele com a raposa e sim, a raposa, definitivamente. Uma raposa que fareja e se recusa a decidir.




quadro: Winslow Hower, Fox hunting

sexta-feira, 8 de julho de 2011





páginas de jornal dobradas na ponta, pêlos de gato na blusa preta, a toalha de mesa descaída só para um lado, um olhar rápido para o relógio no encontro, a alça do soutien a aparecer, a barriga que te olha sem relógio e as unhas cortadas ao sabugo, poderia ser o retrato, se os retratos fossem manchas e, ainda assim, vigorosos indícios.






quadro: Lucien Freud, Girl sitting in the Attic Doorway, 1995

terça-feira, 5 de julho de 2011










" - lentamente os dedos aperfeiçoaram esta arte de estarem quietos


sussurrantes sobre os corpos não a deslizarem


não a percorrerem os lugares antigos onde o desejo pulsa



as mãos redescobriram o silêncio

praticam essa arte muito antiga de na imobilidade tudo desejarem"


Al Berto, Apresentação da noite

Imagem: Pintura de Bo Bartlett, n.1955 na Georgia
site:www.bobartlett.com



domingo, 3 de julho de 2011

les petits mouchoirs

les petits mouchoirs, traduzido por pequenas mentiras entre amigos é um filme francês de gillaume canet que tem o seu ponto forte numa estratégia cara ao cinema francês: a análise psicológica das personagens. Pessoas vulgares com seus traços comuns, distracções, egoísmo, confusão mental, insegurança, tudo misturado com excelentes intenções. É fácil a identificação, daí o efeito de proximidade. Eles são bonitos, banhados por uma luz de verão nas praias do sul, uma luz amarelada e leve que ergue o mundo em festa mas onde é também inegável um certo sabor a fim, a erosão, a fim de festa, como um vídeo dos gloriosos momentos dos trinta, destinado a ser um marco para alimentar memórias. as palavras, algumas palavras, repetem-se: crise e partilha. Se construíssemos um binómio a partir destes dados teriamos um retrato de uma certa europa burguesa, razoavelmente culta e inexplicavelmente nostálgica.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

comunidade europeia

Esta mania moderna de devermos dinheiro a todos e termos de pagar com elevados juros, apanhou-nos de surpresa. Sinal de uma Europa tão mafiosa quanto corrupta, uma Europa onde os regimes políticos totalitários foram substituídos por uma economia de mercado que é outro nome para "exploração dos pobres pelos mais ricos". A coisa é simples, é como se tivéssemos uma grande casa com várias famílias, uma delas com mais recursos e um estilo de vida diferente, enriquece, outras preferem outro tipo de vida e sobrevivem mais pobres. Os mais ricos para rentabilizar o seu dinheiro, oferecem grandes vidas (iguaizinhas à sua) aos mais pobres, estes vão no engodo e depois é o típico filme mafioso, o emprestador é dono dos destinos e trabalho do outro e ainda por cima ganha com isso, porque o dinheiro que investiu ser-lhe-á dado a dobrar, como qualquer instrumento capitalista. O negócio, esta negociata da comunidade europeia torna-nos reféns, não só da visão social e económica dos outros como das metas que eles estabelecem, e essas metas servem para eles, não para nós. Para além do mais esta visão atrofia o que verdadeiramente a Europa tem de bom, os valores, a Arte, a Cultura e sobretudo, a diversidade. Quando nos venderam esta ideia da comunidade europeia nós nem sonhávamos com este desfecho, mas agora aqui está ele, clarinho, será tarde demais para repensar e fazer de novo?


Foto de Nana Sousa Dias

segunda-feira, 27 de junho de 2011

gare do oriente (again)

na gare do oriente há camionetas de carreira para a margem sul e golpes de vento assobiando entre os pilares de betão. muitos automóveis .nenhum espaço, estaciono em segunda linha, cool, mas a "destroce" incomodada enfia a carantonha na janela, é pá não podes estar aqui, o hálito poderoso dissuade a minha resposta, ponho a primeira e arranco devagar mais pra frente, não tenho de te explicar que estou à espera de uma pessoa..., a "destroce" avança uns passos cambaleante com a garrafa de cerveja de litro na mão, hoje, particularmente hoje que acabei de passar um cheque à UNICEF, não me sinto paciente, já fiz o meu serviço "pro buono", e a vontade é entornar-lhe o resto da garrafa sobre a estopa desgrenhada que não vê água desde a Arca de Noé, assim por alto, que não sou boa a fazer contas de cabeça. ela grita qualquer coisa imperceptível e eu guio-me pelo cheiro, arranco 10m, paro mais à frente, o gasóleo queimado dos tubos de escape das camionetas carreira e o Fausto a cantarolar no rádio do carro. Não desarmo, agora é um tipo com três dedos na mão cheia de anéis grossos ou seria a mão grossa com anéis de três dedos? não fixo pormenores, com o imperdível jornal enrolado faz-me sinais para virar à direita, eu sei que não há lugares mas estou aqui nesta Lisboa descaída onde se perde a noite entre fumos e gente olheirenta, não há turistas , a toda a hora partem as carreiras pra margem sul, estou de passagem, se houver um longe dali, e há, permito-me ocupá-lo tão completamente que o único vestígio de lá ter estado seja mesmo o guardanapo de papel da sandes que tu, ao chegares, atiraste para o caixote do lixo.




Foto do Portugal dos pequeninos.

terça-feira, 21 de junho de 2011

lisboa em junho

Há uma diferença entre Passos Coelho e Sócrates, o primeiro encavalita uns óculos de aros finos a meio do nariz, farto, o segundo fez operações à córnea (esta palavra tem umas implicações jeitosas!...) para não ter que ficar inferiorizado de lunetas. de facto as lunetas encavalitadas no nariz dão-nos à figura mais quinze anos. ficamos logo um bocadinho avós com um bocadinho de pai natal e por aí, figura recatada de lareira e chinelos. para um político vai-se logo a ferocidade para parte incerta, (talvez para os joanetes, é uma hipótese) e a ferocidade não é nada negligenciável, uma certa dose de intimidação, misturada com o seu toque Action Man dá jeito para resolver pleitos. mas trocando em miúdos. Quero falar é de humanidade, um tipo de óculos de ler ganha em humanidade, no que a humanidade tem de igual para todos com as suas merdinhas, pecadilhos e impedimentos vários. o tempo dos heróis, talvez Sócrates não o tenha percebido, já foi. nós agora queremos pouca ousadia, coisas piquenas, esforços e contenções como dizem os mais parvos. cá para mim gosto do ministro das finanças, gostava de ser assim, atenta ao mundo, voraz. mas aquilo que cada um gostava não vem ao caso, e bem vistas as coisas, este nosso ministro tá feito à medida destes nossos anseios familiares e gastos.


A foto é da Annie Leibovitz

sábado, 18 de junho de 2011

tripoli

o meu interesse por mim diminuiu bastante nas últimas 24h. tenho os lábios encarquilhados, a língua presa e doem-me os cotovelos, os tornozelos, a cabeça e os ombros.evito superfícies lisas onde não há como fugir da coisa que me olha, ensimesmada e surpreendida de molde a esquecer-me e oiço perfeitamente os volitivos amuos das entranhas e a falta de ar das células ,o registo adormecido dos orgãos, a temperatura do corpo a subir e um frio estranho ao solstício de verão que alheado da minha doença teima em entrar pelas janelas.

terça-feira, 14 de junho de 2011

entre dentes

Não temos necessariamente de nos realizar pelo trabalho, não tem que ser aquela paixão, não tem de ser, pela simples razão que paixão e trabalho são simétricos, como a mão direita e a esquerda,mas não são a mesma, disputam-se. Olho para os livros, a secretária e o computador com ela, as coisas arrumadas ou desarrumadas são bens de que facilmente me poria ao largo, sem olhar para trás, (talvez a excepção sejam alguns livros, o meu relógio, a minha caneta de tinta permanente especial, e não me lembro de mais agora que parei para pensar nisso) mas foi tudo ganho senhores com o suor, as noites e os dias do rosto, dos braços e do meu parco talento ao serviço desta função: ensinar. o meu trabalho, o meu ganha pão. seja qual for o valor da utilidade, o trabalho encaixa nela tão perfeitamente que nem são precisos esforços preliminares ou lubrificantes. sendo assim mesmo, tudo o que comi e bebi, mesmo a cama onde me deito, a camisa branca que me cobre o tronco e os óculos, também a gordurinha à roda da barriga, ainda é seu. mas seria eu diferente se nada disto existisse? e se sou também isto, não é verdade que os sítios para onde me evado sussurrando, as minhas paixões, são ainda formas originais, não produtos, que sem elas nada seria certamente porque a verdade é que continuo para dentro do céu da boca e disperso-me nas sinapses tontas do cérebro.não deveria voltar ao trabalho, esta ideia, bem, só de pensar nela dá-me tonturas.

domingo, 12 de junho de 2011

desassossego.

O palco passa da escuridão quase total para a luz das feiras, os olhos temem, mau presságio, não há que brincar ao fecha e abre pupila. No espectáculo as palavras são demais, tornam-se morfologias em retalhos , como pedaços de corpos, decepados, lamentos ao ponto exaspero, pela repetição, tout court..serão os eflúvios da vodka? não, continuo a não aceitar a chapa, o actor que fala para o público.Este texto do Bernardo Soares não é teatralizável. ponto. há belos textos que não são textos de teatro,porquê? porque é um exercício de metáforas espantoso, um texto a dialogar consigo próprio, sem fim, nem é de espelhos que se trata, das múltiplas faces, não. é o mesmo, o mesmo em variações metafóricas. ensaio. sobre si, virado às entranhas.O gesticular expressivista, é desajustado, queria-se contenção. nada no texto é expressão.e depois quanto a mim, espectadora, sempre bem tratada nesta casa de arte que é a Comuna, não é elementar tratarem-me como rebanho. (aparte subjectivo e angélico), ou será?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

noite de teatro

O Teatro de marionetas tem estatuto menor dentro das artes do espectáculo, falta-lhe a intelectualidade forte do texto que faz do Teatro uma Arte maior desde os idos gregos das tragédias, passando pelo teatro europeu dos grandes autores. A nossa tradição assenta no texto dramático, sem dúvida, e isso fala um pouco do modo como somos, nós europeus, dados ao dizer, (a recente mostra deste dizer é o discurso do mestre laranja, vulgo Passos Coelho, contrariando a verve política do discurso, vem de voz grave acentuar a pobreza do dito na arte política o que denota, visto que foi o eleito, um certo cansaço da maralha em relação à palavra, sinal do seu demasiado e malbaratado uso) mas continuando (vou ali chorar pro canto pra não pensar nas eleições), no sábado de reflexão fui-me a ver uma companhia alemã de marionetas: A THALIAS KOMPAGNONS. Conheço o Teatro alemão e amo-o, amo o seu rigor, a sua criatividade, o seu gosto alquímico e telúrico que rasga a fundo esta tradição discursiva do Teatro. Neste caso, propõe-se uma arte de fazer coisas, pequenas, grandes, simples e complicadas, ali, em cima do palco, dar a ver, como do próprio espectáculo se tratasse, a transição (isso é que é alquimia) do fazer ao acontecer, produzindo por gestos vulgares, um manancial de formas surpreendentes. Mais uma vez as expectativas (altas) não foram traídas. Subi ao segundo balcão, do Teatro D. Maria II para me maravilhar com o candelabro gigantesco da sala e o roçagar de cochichos e passos abafados que antecede o começo dos espectáculos. A THALIAS trazia na manga nada mais que "A flauta mágica", a história dos amores de Papagueno, ave alvoraçada, e do seu amo o príncipe Tamino. A música era do Mozart, tocada ao vivo e cantada a várias vozes por um só cantor. O processo engenhoso: bonecos filmados em vários cenários artesanais, construídos e manipulados para dar efeitos visuais muito além do que prometiam quando olhados a nu, em cima da banqueta de madeira. A Arte, desde as mãos até à concepção, o trabalho das marionetas e da música, produzia-se a partir da inércia dos objectos até aos voos da imaginação que os usava. Pura transformação. Não se pode exigir mais ao Teatro, esta é a sua essência.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

romantismo 2

Estava a ler Kierkegaard e é como chegar-se à ribalta do teatro vazio, subir as escadinhas de um púlpito à esquerda, embaraçar-se na toga que não autoriza senão certos gestos e ouvir os zunidos de um silêncio fundo, custeado por alguns séculos de mecanismos de labor e eficácia. Martelar as palavras, atirá-las para longe, que a parede é apenas uma metáfora da indiferença, ganhar alento justamente quanto maior for a surdez alheia. Um teatro vazio emociona mais que uma plateia aos gritos, falar de fé, exaltar-se, como se continuamente lutasse contra a comodidade das explicações" Não! Nada será perdido dos que foram grandes!" diálogo de poeta para herói destinados ambos a missões tão altas quanto impossíveis. Crer no impossível levar a sério aquilo em que se crê, mesmo só um sentimento, e como são voláteis os sentimentos!!, sopros! mas nada haverá tão sólido quanto sério. Nada, dado. Não será de admirar aquele que de um sopro constrói um edifício, com quartos, janelas, portas e sala de arrumos? E uma vez o edifício construído poderá nele morar exausto. SE gritar das janelas, só as nuvens a passar, as nuvens, o céu, as gentes absortas.





Foto de Maria Helena Lebre

terça-feira, 31 de maio de 2011

o romantismo

o que me cabe de romantismo, a fatia que me coube, sempre foi de molde a encarar uma arte. Revejo nele o branco de lençóis, a calma dos barcos nos rios em sépia mas também rosas vermelhas, uma atenção vulcânica. Se o romantismo existisse aqui, sobre a secretária, seria para mergulhá-la numa insensata viagem e segui-la para se perder, mesmo adivinhando, alquebrando, não dando tréguas ao fim, multiplicando-o em pequenas faces coradas, em leves tremores de mãos. seria assim se o fosse, quando já é, fórmula secreta adoentada em pequenos sinais desmanchados, fortes como o dedo mindinho da mão esquerda. Se ele, o romantismo indeciso, aparecesse à porta, convocaria a figura cinzelada da distracção para o deixar revelar-se, diria qualquer coisa de bater palmas e prolongaria em bóreo, o mordiscar moreno do seu apelo, e se nada mesmo nada o demovesse então voltaria para comprar rosas e ,na loja, sentada no banco, pernas encolhidas, ao lusco flores da penumbra havia de esperar semeá-las na parte mais íntima, nos braços ou na saia em desalinho.



foto de Adriana Silva Graça

sábado, 28 de maio de 2011

ucranianos

Alexandre pode dizer-se em quase todas as línguas, em Ucraniano faz toda a diferença. Era um jovem com visto de residência caducado, há seis anos por cá, com patrões oportunistas que o aceitavam por cinco meses e depois o dispensavam, ou melhor, despediam-no, só porque ao fim de seis meses eram obrigados a assinar contrato,ora sem contrato e descontos de seis meses não há visto pra ninguém! Alex era, portanto, mais um clandestino, ainda não revoltado apenas servil e triste. Só o acaso ou uma pequena tragédia como o assalto de um automóvel, me poderia cruzar com ele. Telefonou-me porque tinha encontrado os documentos, papelada e chaves que os ladrões do meu carro largaram a eito pelo chão. deu-me as coisas, num saco plástico e não queria aceitar os quinze euros que lhe estendia sobre o banco do jardim, afinal, repetia-lhe, valia muito mais de quinze euros o favor que me tinha prestado, mas ele não, queria contar a sua história, beber um cafezinho, encontrar um "fiador" que pudesse responsabilizar-se. Isto de nos roubarem o carro tem o seu lado positivo, obriga-nos a abrir os olhos para a miséria que caminha na margem, na sombra destas ruas democráticas e justas dos países "desenvolvidos".


Foto daqui

segunda-feira, 23 de maio de 2011

parte1

manipulamos ao exprimir um sentimento imperioso e nosso que obriga à conformidade. comemos com cebola e alho o espaço dos sentimentos e dos desejos alheios. agrilhoamos com guardanapos de pez as mãos dos outros. na marioneta isso é assim, mas o teatro só cabe na vida se aceitarmos o papel. não somos marionetas, mesmo se em nós lateja um medo pendular e mesquinho.na verdade somos livres, de condição. temos ainda para dar uns violentos abanões e caminhar na vereda, sozinhos, segurando um pássaro na língua.


podemos ainda esconder o pássaro entre a camisola e o soutien, ou dardejar raios luminosos sobre o seu canto, não fugimos, abrimos a porta à saraivada.



a corda depois gasta-se,




Foto abbas kowsari