sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Beberagem amarga


Segundo Hannah Arendt os filósofos andam a reboque dos cientistas, dizendo e desdizendo sem que das suas teorias contradições e objecções se possa retirar outra conclusão senão a de que é pueril e inútil a sua actividade, não altera nada nem no estado do mundo nem nas relações humanas em geral. Por outro lado a ciência no seu afã produtivo recria a natureza através da captação da sua lei universal mas não nos dá a compreensão do porquê, apenas do como. Curioso como estas suas ideias respondem à minha intuição e ansiedade em relação à Filosofia e à Ciência. Por mais que se fale das  novas descobertas do ADN e da Física de Partículas que me permitem saber com exactidão o meu pai, eu já sabia antes disso, assim como estar aqui a escrever estas imbecilidades numa máquina cara que daqui a uns anitos ( menos, espero, do que aqueles que me aproximam da morte), vai ficar obsoleta, eu já escrevia. O meu ADN e a máquina trocam-se sendo a única diferença uns anitos a mais ou a menos. O que são uns anitos? O mesmo nada do ponto de vista da eternidade. Mas todos sabemos o óbvio, o meu ADN não é o mesmo que uma máquina e eu não sou o meu ADN, mas morrerei, assim como esta máquina não é aquilo que escrevo e morrerá, cada coisa e ser morrem na sua individualidade,enquanto coisas singulares, remetidas para uma identidade fictícia ou científica; a procura de imortalidade ou da eternidade soçobrou, a ciência só nos ensinou isso e a Filosofia sem isso não sabe o que há-de fazer.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Barómetro natalício



Chove e falta dia e meio para o Natal. A gata dorme na sala ainda quente do fogo das noites anteriores. Penso em todas as pessoas de quem gosto e que estão presentes aqui pela casa, gostava de lhes dar um abraço, de trocar duas ou três palavras com elas, e deixo aqui estas minhas vertentes folha, castanhola e clorofila aos seus risos e gestos, aos gostos e às truculências que foram e vão aquecendo a manhã.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nota de rodapé


A racionalização de qualquer acto tem um efeito perverso, normaliza-o, torna-o justificável. Há actos que não podem ser racionalizados,devem permanecer intactos na sua monstruosidade insolúvel e inexplicável. São seres racionais que os pensam e executam mas há seres racionais que não se definem enquanto tal, nem enquanto animais se definem, situam-se antes naquele espaço desvairado e vesgo da compulsividade paranóide. são excrescências. A frase do Terêncio  "Nada do que é humano me é estranho" é falsa. absolutamente falsa. Muitas coisas, é todo um mundo humano que me é estranho e vai permanecer assim até que morra. Também tenho direito a este juízo. ora bem!! Poderá ser também este juízo uma excrescência, haverá quem o pense, se o ler, mas nenhum juízo é tão monstruoso  como um acto.O pensamento torna-nos fracos perante os actos, amolece, disciplina e nomeia o informe, espalha o ódio em parcelas tão pequeninas, que deixa de ser ódio, é um ódio pensado, qualquer coisa que nos envergonha. Será que sem odiar poderei amar? Poderei ser alegre sem ser triste? Poderei verdadeiramente querer compreender se não me recusar, em certos casos, a compreender?

Foto: Bruce Gilden

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Aniversário

O OBVIÁRIO fez seis anos no dia 30 de Novembro!!Yupiii! 

Tanto ano!! 

Agradeço a todos os que por aqui passaram nos últimos seis anos, deixo-vos com Brel. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Entre a essência e o Atlas

o essencial é o quê?o que fica depois de depuradas as particularidades, a nata do leite, as folhas do chá, a molécula, o átomo, o necessário, o substancial?a forma?o sentimento? ou o conceito?fruto da mente ou existência inominável? o que se repete muitas vezes ou aquilo a que se acede uma única vez? Será invisível aos olhos como dizia  o Príncipezinho, ou será apenas o visível, a coisa bruta metamorfoseada, será o estático ou  a própria mudança?e visto que como o amor, pode ser tudo, não deixa de nos atormentar, de um absoluto, de uma sede mas nunca de uma recusa, como se embora não sabendo a sua forma, pudéssemos garantir tratar-se de algo bom e desejável. Tudo a propósito do novo livro do Gonçalo M.Tavares: Atlas do Corpo e da Imaginação que dinamita as essências.Parece um cadáver esquisito, a imagem que me veio à mente, talvez por causa das fotografias de partes do corpo que vêm no interior, remete para aquelas fotografias de corpos cadáveres do Witkin, a aparência é de um livro de anatomia, livro de doenças e deformidades, mas depois a escrita é o contrário, lógica, leve, aforística e sobretudo de um caos pensado, ordenado, se é que isso é possível. Agarrei-o na livraria Barata, há muitos anos que não ia à Barata, naqueles já extintos rituais de Barata e King. literatura e cinema ao sábado à noite. O eco das palavras do Tavares que prefere a conjunção à disjunção. Eu também, prefiro a conjunção à disjunção, daí que este problema da essência envolve já uma disjunção fastidiosa, um ou ou que não se resolve nunca. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

No supermercado


Estamos assim, sem pensar, entre compras, metidos dentro de armazéns atafulhados de coisas grandes e pequenas redondas e pontiagudas, com uma luz plana sem sombra, e um som indefinido que apaga a vontade de dizer, repetimos mentalmente: 3 bifes de peru, por favor. Atum Tenório a 2.19 Euros. Cola UHU em embalagens de dois pelo preço de uma. Entramos numa estante e sentamo-nos ao lado das caixas das Barbies, podemos imaginar que num outro corredor, o dos chocolates, há tartarugas gigantes em cima umas das outras a tentar chegar à antena que de repente se vê no céu escurecido, e o rapaz da caixa tem as calças com um vinco perfeito e lê Proust. dizemos-lhe: Rápido, pois vemos aproximar-se uma onda gigante vinda directamente do corredor do vinho francês mas é demasiado tarde, deixamo-nos levar na corrente e aportamos a uma ilha, ele sem o vinco das calças e eu com o Proust no soutien, deito a mão a uma garrafita que bóia incauta. Compras no saco de plástico e quando saio, viro-me para trás, comando em riste,  antes de mudar de canal, abro as portas do veículo, do meu veículo, e dou o salto.

Pintura de Rodolfo Amoedo

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Superfícies 4

é nesta moldura de cardos
nesta moldura de cedros
nesta moldura de nada
que amanso lendas
recubro penas
sem culpa formada


sou de série
contas que no rosário caíram
sem o meu consentimento
a solidez dos versos
passa como asa
sem ter nascimento
nem morte anunciada




quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Superfícies 3

Acho que não tenho mais nada para dizer
secou-se o veio
vejo passar os rapazes com os sacos de plástico
a minha amante toma banho sem usar amaciador
e nos pinheiros bate um vento leve
ao meu lado num outro mundo vislumbrado
a vozearia dos cavalitos de pau
e uma promessa de solidão
absoluta e inexorável
estende-se sobre as minhas pálpebras
deposita-se no tampo liso da mesa
onde alinho as palavras boas
as palavras que me salvam,
se a minha jovem amante não cantarola no duche
porque a convivência comigo a fez pesada e inerte como eu
pesada e inerte
como as palavras malquistas
só a cacimba de uma suspeita
pode dar por mim os passos
até ao lago que tu deixaste aos pés
de sabão e dedos grandes
a boiar
e correndo o risco de me encharcar
me abrigue sobre o teu duche
segrede ao ouvido
amo-te
e o trinco da porta com o peso
abrir-se-á
e cairemos abraçadas
sobre o tapete felpudo da entrada.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

superfícies 2

ao todo há muitas formas de chorar



















deambulações na copa dos dias
para o canto da boca
amar
palavra presentiva
de cedros e  pontes
costura longitudinal rente
ao ponto da alma
animal
que incendeia os olhos sem querer

 
Lá longe no muro
oiço
alguém canta ou eu
sou um emigrante de vidro
a soprar em barcos de papel
julgando ouvir fontes


terça-feira, 29 de outubro de 2013

superfície 1


pela tarde, ainda no veio da rua uma coisa qualquer
indisposta gozava o último sol e todavia
a hora ou o que restava dela sorvia na esquina
sem que nenhum de nós desse pela fina visão 
rendilhada da sombra
a estátua transparente de um clássico pecado
inerte e sem data 
marcado pela fronteira diluída
da tarde
caminhava connosco, não que fosse novo
era óbvio que não
era, assim o tratavam os ecos
um pecado antigo
mas da mesquinha indiferença
ou melhor inépcia para se apoquentar
só nomear era  lícito
sendo assim a manga dobrada
para as lembranças poucas
afazeres limpos
superfícies com ruídos de automotoras
a eito sobre o buço
outras lembranças de gritos
ásperas formas
ocupavam apenas o tecido da roupa 
ninguém sabia ou fingia não saber
por fortuitos azares ou necessidade éramos só do presente
por ele maquilhávamos as doridas horas da tarde
e emergíamos indecisos 
no peito o arco ou o côncavo sombrio
do medo ou dor de o vir a ter

quinta-feira, 24 de outubro de 2013



amo  pedras e árvores sem raízes
caídas
amo penas de gaivotas
mortas
e se pudesse construía uma pequena cicatriz no tempo
um apontamento triunfal boquiaberto e irónico
uma dança de ventre ou uma chamada urgente
ao teu corpo
servente de asas
cintura de dedos

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

permilagem


mas o que é que isto me lembra?? tenho para mim que esta moçoila é rapariga de grandes causas!!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

divagações

Será possível escolher conteúdos programáticos de uma disciplina sem ter um propósito ideológico subjacente? Evidentemente que não. Pior é que os representantes das escolhas pensem que sim.Mas, qual será a ideologia numa sociedade que assume maioritariamente que as ideologias são redutoras e, em excesso, manipuladoras? Seja qual for o sentido que se dê a ideologia, como ideia orientadora defendida por um conjunto de pessoas ou como instrumento de manipulação de um classe sobre outra, ela surge quando pensamos num modelo melhor, como deveria ser esse modelo e como deveríamos proceder para o atingir. Ela é portanto produto do pensamento, seja a sua intenção perpetuar um estado opressor ou tentar concretizar uma utopia, ou sendo a primeira o caminho para a segunda o perigo das ideologias, elas contam sempre com a submissão de todos e de cada um ao projeto de alguns, tal cheira-nos mal, a nós que somos individualistas e democráticos. Pensamos então, erradamente, estar ao largo das ideologias e culpamo-nos de não existirem ideias, pois se não queremos aceitar os riscos de ter ideias e de as perseguir, então temos de aceitar viver no imediato, no pragmático, no superficial das coisas e não há outro meio. A verdade é que não nos furtamos à ideologia, somos apanhados pela ideologia capitalista, as ideias estão vivas e amam-se se forem para ganhar dinheiro. O novo conceito disto e daquilo. No campo do saber como se propaga o capitalismo? Arreda-o para segundo plano e dá-lhe valor quando aplicado a um qualquer instrumento. Se não tem utilidade imediata, é  inútil. Assim vemos as Humanidades serem reduzidas a trivialidades e a História quase desaparecer dos currículos. Mas não é a ausência de ideologia, é estoutra que detestamos nomear mas que é única, não é má, mas precisa de ser vista como é, será o preço que temos de pagar pela liberdade? Mas poderá haver liberdade sem alternativas? Quem cria alternativas senão o pensamento?

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

gulag

Hoje um puto. no final da aula, veio dizer-me como se tinha fartado de rir com uma boca de um colega. Detestei. Já não basta gozarem uns com os outros enquanto me concentro a ensinar-lhes qualquer coisita, têm ainda de me dizer!!!. mas o momento pior do dia, estava ainda para vir, a estocada miserável veio da  minha resposta: "Pois é, com tanta brincadeira distrai-se e não presta atenção à matéria!" Mal desferi este pedaço de conformismo mal amanhado, disparou o que me resta de cérebro depois de 8 horas de aulas: que insipidez de comentário, que frouxidão, que acefalia mais medíocre. desci as escadas a amaldiçoar-me mas aos poucos percebi: ao fim de um dia como este sou, na melhor das hipóteses, um saco de plástico vazio onde já não está lá o essencial, não pode, só tralha automática. Perceber isso conciliou-me com o devir. Respirei tão fundo que se colou céu ao céu da boca e acendi um cigarro mal cheguei ao portão. "Continua, dizias, que da metafísica de Kant a Hegel, alguma coisa se perdeu...estive realmente a ouvir" Campos dixit.

sábado, 5 de outubro de 2013

Hannah Arendt o filme

 
quando saímos deste filme vínhamos alvoraçados, entregamo-nos à cerveja branca e preta no bar da avenida, luzes dos carros, calor, moedas a tinir em cima do balcão. a vontade de puxar de um cigarro atinou-se numa planície de concórdia. puxei dele sim e saboreei-o até ao tutano. isto foi antes e depois, no durante a cerveja ardia nos olhos brilhantes dos litigantes.

 estava em causa o nazismo e  a força dos efeitos das sociedades totalitaristas sobre a vontade dos indivíduos, na mesa duas ordens de ideias:  a possibilidade de um sadismo consentido e justificado de acordo com uma vontade geral, ou, por outro lado,  a banalização do mal, o indivíduo anulado, sem pensamento - ou demitindo-se de pensar - para não ver o absurdo? para não sentir a responsabilidade? por medo? os funcionários zelosos das ordens obedecem mas não pensam, são os que provocam  o mal mais radical porque neles não há consciência do mal, alavancando a máquina, são por ela absolvidos e nela decapitados, são eles os acionistas da gigantesca máquina de assassinatos. Depois a figurinha anódina do Eichmann, patético, católico fervoroso (foi o Vaticano que lhe deu o visto para ele poder fugir para a América do Sul) e SS convicto, responsável pelo "empacotamento" de milhares de judeus em comboios para os campos de concentração . Arendt uma intelectual, no meio deste cataclismo, alquimista de palavras rudes mas novas , palavras para compreender, mas quando há violência desmedida, quando se clama vingança, a compreensão não será  um artifício arrogante? uma  excrescência  humilhante? Sendo judia  "devia" alinhar na "catarsis" colectiva, mas os pactos de sangue com o povo não abafam a necessidade de clarividência, clama pelo pensamento mesmo se  não é cómodo, e é perseguida por isso, as vítimas transformam-se rapidamente em carrascos, perpetuam a brutalidade e a intolerância mas justificam-na, serenamente, com a necessidade de justiça.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

vergonha

Estas eleições confirmaram a ideia  "mudam-se as moscas mas a merda é a mesma". Por causa disso ou da chuva ou do calor ou do calo ou do vazio ou sei lá de quê, muitos se  abstiveram da democracia que os obriga a escolher quando querem provavelmente não ter de escolher e resmungar contra a política como se ela fosse outra coisa senão o que fazemos todos os dias. A política  "gaija" mal amanhada e porca que vai ao nosso bolso sem pedir licença. Vai daí viramos-lhe o rabo e palitamos os dentes. Tudo estaria bem na mediocridade se não fosse ainda os gestos largos e convincentes de políticos com cidadãos por detrás, que assumem a porca da política e têm quem neles acredite e neles vote e ainda bem, ainda bem que votamos ordeiramente e temos muitas opções para votar, ninguém nos obriga a votar em ninguém daí que a maioridade deste povo continue por alcançar, o melhor seria talvez um caldo vitamínico para os artelhos crescerem, a testa também e já agora tudo o resto. A abstenção seria, portanto, o escândalo da noite se não fosse um escândalo ainda mais sórdido. Esse veio da classe A, a classe instruída e rica do concelho de Oeiras onde nasci e onde o meu avô foi o habitante 240, inscrito com a sua cota para a construção do apeadeiro de caminho de ferro em Santo Amaro de Oeiras. De Oeiras veio o voto num tipo alarve que se alardeia de ser o espírito livre do ladrão preso Isaltino Morais autarca mítico pela fecundidade da sua corrupta atuação. E, pasme-se! tal espírita mimético, ganha as eleições com este truque ocultista de ser ventríloquo do outro que da prisão bate palmas. Isto mostra que a instrução e o dinheiro não dão nem civismo nem inteligência e muito menos qualquer vislumbre de Ética apesar de parecer que dão. Lá dizia Kant e confirma-se que a moral não depende da instrução, não sabia ele é como se podia enganar muitas vezes os mesmos porque naquele tempo os ilusionistas eram saltimbancos paupérrimos de circo, hoje são paupérrimos os habitantes dos condomínios, paupérrimos de discernimento e campeões de circo os ilusionistas da construção civil e do betão.
 

domingo, 22 de setembro de 2013

Actores, actrizes

Tenho paixão de morte por bons actores, (por agora, e enquanto não for mesmo obrigada, recuso-me a dizer atores) delicio-me com a metamorfose dos seus corpos, gestos, voz, pronúncia, mas sobretudo, com a sua capacidade de viver e dar a viver emoções. Muitas são as formas de o fazer bem, isto é, com credibilidade. Há actores que são capazes de dar a ver a sua representação, permanecendo por detrás dela a observar-se e a observar-nos; o Matt Damon é um exemplo disso, é sempre ele por detrás das personagens, distanciado, percebe-se no gesto a composição, diz-nos como está a representar e ao fazê-lo desmonta a representação;  o resultado é brutal. Há outros como o Tom Hanks ou o Michael Douglas, que vestem várias peles e fazem-no com uma energia e uma confiança tal que não descortinamos como seria de outro modo, ou se há lá alguém para além da personagem. "Por detrás do candelabro" poderia ser um filme menor de TV para encher o olho voyerista, se não tivesse esses tremendos actores a jogarem-se cena a cena, a exporem-se, a medirem o campo para se deitarem dali abaixo, é impossível não admirar a sua arte. Noutro registo Cate Blanchett em "Blue Jasmine" um cineasta dos diálogos: Allen, e uma actriz que dinamita as palavras. Tirem-lhe as palavras e está tudo lá, todas as emoções, o passado e o presente, no olhar. Quando saio do cinema acontece-me a noite desabar nostálgica pela interrupção de realidades, pela mudança de registos. Continuo a achar o cinema uma arte de actores, e bons cineastas os que se apercebem disso.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Leibovitz e Sontag


Hoje na FNAC entretive-me a folhear o livro da vida da Leibovitz,  fotografias de uma vida, a vida das fotografias, imensas e absolutas as imagens de Sontag, sem as palavras é visível, sólido tanto quanto as formas, o poder do amor que as unia. O amor que transborda mesmo quando a modelo nos olha com a dor imensa da doença, no abandono aos cuidados de uma enfermeira, vulnerável mas  humana, piedosamente humana, bela. Bela por amada, benditos e eternos são os amantes!  Esse amor que passeia nos lugares mais íntimos, os quartos em Berlim, Veneza, Londres, os objectos, as conchas, os papéis, o tacto das coisas usadas, as manchas na pele, os hotéis, os lençóis. O fulgor de uma cama desmanchada,  a curva da carne, os pelos púbicos de um sexo quente, a história de um corpo progressivamente castigado e devassado mas continuamente descoberto a cada instantâneo da máquina. Um corpo vibrante, um corpo possuído e impossuído. Gesto desesperado de querer guardar, querer manter, o que a doença vai progressivamente separando, afastando.  De repente uma fotografia de um cadáver.  Um velório de uma idosa da aldeia, possivelmente. Procuro a legenda, nada. Era uma fotografia larga, a ocupar duas páginas de um livro grande. Qualquer coisa naquela imobilidade mumificada era alarmante e incompreensível. O cabelo cortado curto, branco, uma teia apertada e seca de texturas rígidas, já não um corpo mas um tronco, uma árvore antiga que expunha as suas raízes. A compreensão trouxe-me o choque. Era o cadáver de Sontag mas não era a mesma mulher. Uma desconhecida, uma estranha num estranho ritual de imobilidade. A morte é mesmo incompreensível, um salto, nem isso, não é na vida que existe.
 

 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Gosto do Saké

Antes de ser cinéfila sou comedida de gastos, tenho exagerado na costela judia, não sou sovina porque o prazer não tem preço mas prefiro mesmo que não tenha preço porque de graça é prazer dobrado. Contas feitas entre deve e haver pagar 6.5 euros por um filme de 52,  já exibido na Cinemateca ainda para mais enganada, já que pelas contas do Público deveria nesse dia passar  "A Viagem a Tóquio", torna-se interlúdio demasiado pesado para uma noite de verão a estrebuchar. Pus-me a amaldiçoar o Paulo Branco e as suas negociatas com os objectos preciosos da cultura, sobrou para o rapazelho franzino que se desculpava do Cinecartaz estar equivocado, e eu tenho culpa do Cinecartaz estar equivocado?? Um cinema de reprise em qualquer parte do mundo não tem estes preços, resmunguei e gritei. Depois sentei a ver o Ozu, havia matéria brilhante no celofane e esqueci rapidamente os euros. A noite estava amena e cinema é sempre cinema, puro e duro,não desmereceu, continuo a adorar a forma como o tipo põe a câmara, a fotografia é sublime. No carro vim a ouvir os ABBA deleitada com os Kimonos e os impecáveis fatos dos homens.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Eça, para sempre.



O Eça na Relíquia zurze selvaticamente na sebosa parafernália da igreja e nos seus mecanismos de manipulação e auto-convencimento, chama-lhes rançosa trupe de cruzes, incensos, santinhos e rezas. De forma assaz mordaz acrescenta, a propósito do culto da vida dos santinhos e das peregrinações aos locais sagrados: "Conheço bem os sítios onde habitou esse outro intermediário divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem chamamos Jesus Nosso Senhor - e só neles achei brutalidade, secura, sordidez, solidão e entulho." A tendência anticlerical produz a melhor literatura, isso, por si, chegaria para nos fazer pensar.

sábado, 31 de agosto de 2013

Praia da carriagem

Infelizmente a minha velha máquina traiu-me bloqueando a passagem do rolo de película e, julgando ter 24 fotografias, acabei sem uma única imagem das muitas que captei por aqui. A estrada de pó que resolvemos seguir até ao fim desembocava numa tira finíssima de areia e num lupanar infindável de xistos e ardósias. Pensava conhecer bem o Algarve  mas este recanto entre a praia da Amoreira a Sul e a praia de Vale dos Homens a Norte era uma placa de sinalização na estrada, apenas. É certo que, na generalidade, todas as praias se assemelham, mar, areia, dunas ou rochas em proporções variáveis, a maravilha da singularidade, reside um pouco naquilo que valorizamos em certos momentos, a temperatura e estado do mar, o recorte artístico da rocha, o ambiente humano, o espaço largo ou apertado do areal, os acessos ou a fauna marítima de peixes ou moluscos. Gosto de me entreter nas poças formadas pelas rochas à procura de caranguejos ou lapas, daquela sensação de despertar da vida marítima em estado virgem, esses espaços ainda existem mas os seus acessos são para alpinistas bem preparados ou então arriscamos descer mas ficamos a meio,  entre o desfrute, o desafio e o medo, o último ganha e voltamos para trás. Esta praia ainda era acessível ao meu estado físico francamente decadente,  agradeço-lhe isso, descobri novas sensações na descida e uma quantidade de pedras e pedrinhas surpreendentes. Poderia chamar-lhe a praia das pedras redondas, ovais, das pedras com formatos bizarros, das pedras antigas e intocáveis, das pedras que surripiamos à generosa natureza para não mais esquecermos que, por momentos,  habitámos aquele lugar sem nunca (aqui nunca está a mais de óbvio) o podermos conquistar.

Foto retirada daqui

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

as praias


Não sei se o meu forte amor por praias e mar  foi herança paterna, se foi intrusa proximidade desde nascença ou uma simbiose entre aspirações do meu coração,  ansiando por horizontes largos, pela possibilidade aberta de uma fuga, e a generosidade das águas reconhecendo a irmandade e o afeto que lhes dedicava, contas feitas, fui crescendo com esse testemunho constante e, tirando os cafés, foi também nas praias que  aconteceram momentos marcantes do meu percurso emocional - dos desvarios,  reconciliações, dos medos e dos triunfos. Tenho um punhado delas fechadas na mão, com cuidado, sem deixar cair um único grão de areia, chamo-lhes minhas com o orgulho da leoa pelas crias porque as criei ou recriei ao sabor de uma consciência fugidia de náufrago calcorreando terra e deixando na areia húmida pegadas e pegadas de passos em volta.

 

Guincho, Monte Clérigo, Meia Praia, Baleal, Ingrina, Praia Pequena, Santa Cruz, Samouqueira. Dedicarei algumas palavras a cada uma delas. Da primeira, a mais fotografada, quiçá a mais percorrida, não recordo o primeiro momento da descoberta mas deve ter sido naqueles dias da infância com o meu pai de ouvido colado à rádio para ouvir o relato,  desatento às minhas preces. Nos domingos de praia não trazia os apetrechos normais dos baldes e das boias mas uma bola, apenas uma bola e a vontade de jogar com o meu único cúmplice nem sempre disponível, compensava-me
quando íamos os dois pescar para as falésias escarpadas da ponta norte, ou apanhar mexilhões na neblina fria da manhã. Do Guincho guardo o azul mais marinho e encantatório, um azul que se me abria nos olhos e me fazia ver para dentro de tão intenso. O azul que tentei mil vezes reproduzir nas cores dos lápis e das tintas. O azul atlântico que me espera inalterável de todas as vezes que incauta entro no mar e sinto uma fraqueza de pernas, uma pequenez de arrojada, do mesmo ardor deste povo que só posso intuir, um dia arregaçou calças e se fez ao infinito.

 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sardenha




Os sardos chamam Sardignea a esta ilha amena e afável, a presença do mar é constante e surpreendente, há mar de vários modos e dele respiramos a atmosfera de abandono ao declive suave dos montes,  de fronteira ao território, de comunhão selvagem com o povo, nele, no Mediterrâneo, adivinhamos a história e aprendemos a irmandade na luz com os povos do sul.

terça-feira, 23 de julho de 2013

"Heroin" Theatreclub no Festival de Almada


Dublin. Lisboa. um espetáculo de teatro com tema forte, associação imediata com o ambiente de Trainspotting, filme de 96. A dependência das drogas, a experiência da toxicodependência como vulgarmente se chama e foi manchete de jornais sobretudo nos anos 80/90 mas hoje é assunto quase desaparecido das notícias. Não fora a morte de um ou outro ator americano e o problema estava diluído ou esquecido arrebanhado pelo horror vacuis da crise, espécie de emplastro ou parasita que nos comeu a língua. 
Quando vejo estes trabalhos da nova geração tenho a impressão que o teatro português está morto e assassinado, nós portugueses ainda estamos no teatro texto e mais texto, dizer para dizer, autores and so on,  muita mensagem, muita seriedade e pomposidade, a verdadeira experimentação e criação com as palavras, os corpos, os sons e os temas que corporizam o presente  parece arredada. Neste espetáculo temos um palco mal amanhado, sem pretensões, vai-se construindo  com bocados, bocado fala, bocado música, bocado movimento, atabalhoado, forte, impreciso. Poucos meios, imaginação e atores soltos, em improviso e gozo, sem pose, com vontade e raiva. O resultado é inquietante, apontamentos ocasionais cruzam-se com repetições à exaustão, como se aquilo que se quer dizer não se sabe, ou não há uma forma linear de o fazer, enreda-se, apaga-se, retoma, como uma vela a consumir a cera e em risco de apagar pelo vento, destruição, impotência,  nunca acaba, não tem princípio, não tem epílogo, é mais uma batalha extenuante de onde não se sai e da qual nada se ganha.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Gulliver e a literatura

Os alunos têm péssimas classificações nos exames nacionais de português e, todavia, eles são fáceis e pobres. veja-se a entrevista de Carlos Vaz Marques a António Osório (na prova de exame de português de hoje) sobre as emoções vividas que estão nos antípodas, segundo os dois, das pensadas do Pessoa. vividas e pensadas. estamos com 12 anos de escolaridade e insistimos num cardápio indigesto. a literatura por suposta pessoa em entrevista não é literatura mas texto jornalístico e apesar do poema de Camões ser poesia, pura e dura, (com glossário para o caso das crianças não saberem o que querem dizer as palavras mais difíceis) eu pergunto-me hoje, quando se escreve a rodos sobre tudo e mais um par de botas, porque será que os alunos não podem ser confrontados com os textos dos autores e daí se desembrulharem, pergunto porque perdeu a literatura o estatuto de coisa importante e difícil para se tornar num amontoado de lugares comuns a trazer e a repetir à exaustão? O verbo não é o princípio e não é ele ainda o fim a julgar pela quantidade de letras produzidas? porque me irrita a simplificação da literatura e irrita-me esta coisa da unificação de critérios e da panóplia de cientificidade e coeficientes de sucesso, quando é cada vez mais gritante o insucesso. A literatura não é para todos, mas  não é esse o problema, o problema é a quem ela serve e para quê. há um medo da inutilidade como se fosse tudo programado para o serviçal. serviçal de quem? para quem? Há mais felicidade e desafio no hermético do que no clarificado da sebenta mastigada por uma série de serviçais. dê-se voz ao canto, sejamos mais comedidos na produção e idolatre-se com reverência de poder, esquisito mas poder, a VERDADEIRA literatura que não serve ninguém e não serve imediatamente para nada

domingo, 14 de julho de 2013

A festa


Há bocados de minh'alma no disco gigante da feira. Parcelas de desejos brutos soltam-se do carrossel das girafas risonhas e  não há dúvida que a mulher atrás da cortina de motivos egípcios, tem mesmo visões do futuro e sabe como viajar nas galáxias do tempo,  inteira, pode emendar-te o destino cortando-te à faca outra linha na mão,  sem verter pinga de sangue, com o poder dos olhares cicatrizantes. Atrás da grua que eleva ao céu gritos e mais gritos e bracitos no ar, há uma palha revolvida, às vezes acamada cama dos feirantes bêbados, dos trôpegos, dos encardidos ébrios pesados do sono da noite muito antiga onde querem estar mesmo de dia.   Não vi mulheres barbadas nem a Moto da Morte, nem o Comboio Fantasma, nem Elefantes da Índia em jaulas apertadas, comi farturas,  lambi os dedos. Entre empurrões  pares dançantes deslizavam agarrados e suados sobre o chão poeirento, de olhos fechados para sentir  um momento daquele gosto  não deixei de continuar a sentir o gosto meu a vê-los dançar. Olhos abertos, a rapariga do palco em fato rosa cabelos louros roçava o corpo no cantor sólido de boca escancarada, os sons da guitarra e o calor das luzes afunilavam a noite, os homens pegavam com solenidade nas mãos das mulheres e conduziam-nas à pista de dança, em comando, o sexo deles e delas marcado pela vontade disfarçada de cair para dentro um do outro. Compreendo ou sinto ou vejo a festa prosseguindo, em cada minuto outro minuto desdobrando-se num pico e outro de luz,  seria também bacante, juro, se não fosse tudo o resto.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Agatha

Uma tirada engraçada de um policial que estou a ler: " A maioria das pessoas bem-sucedidas é infeliz". Quem o diz é uma das personagens mais amadas da Agatha Christie o rapaz secreto e vagabundo cujo talento para apreciar mulheres e aventuras é uma garantia da experiência necessária para julgar  pessoas. A vozinha da autora travestida em sedutor bronzeado e com princípios. A opinião não é inocente e traz agarrada a mais agradável das razões: as pessoas de sucesso estão demasiado preocupadas em provar a si próprias que são boas e  não têm tempo para ser o que são, isto é, subentende-se, serem como ele, vocacionadas para o prazer e  para a descoberta. Uma espécie de vingançazinha encapotada em lei da justa medida. A rapariga a quem a frase é dirigida padece de ofuscação, urge tirar-lhe a poeira  dos olhos, ele Anthony (assim se chama a personagem) não tem sucesso, cabe-lhe portanto, o precioso resto. Assim colhe-se facilmente a simpatia de todos em qualquer parte do mundo. Porque esta filosofia corresponde na perfeição aos arquétipos mastigados pela humana estirpe e que se resumem ao ditado popular "Não há bela sem senão".

sexta-feira, 28 de junho de 2013

talvez ensinar a sonhar

 

Não alinho em extremismos, em actos violentos de consequências imprevisíveis e irremediáveis, parte do mal do mundo deve-se a extremismos. A sensação de que se está encurralado e não há saída pode empurrar-nos para actos extremistas, parece ser a única saída para quem está desesperado. Não me lembro de nada parecido me ter algum dia acontecido. Quando se fecha uma porta descubro sempre uma janela e quando se fecha a janela descubro uma escada e se a escada leva a uma parede sento-me a pensar e a imaginação tem barro suficiente para, mesmo no escuro, moldar um sol, uns pássaros, uma frase absoluta, um sorriso inesperado. Renasce aí, como do nada, um inebriamento, um deslizamento do betão e uma outra planície se abre. Acredito haver vidas difíceis que conduzam ao desespero e daí a actos extremistas, mas não acredito que seja uma relação de causa/efeito, tão pouco uma relação directa. Podemos imaginar muitas vidas fáceis (isto é, vidas onde está assegurado o que é básico para uma boa vida, amigos, dinheiro, amor) com desespero. A dificuldade da vida não conduz necessariamente ao desespero, há uma certa disposição enraizada porventura numa certa forma de olhar para o que nos acontece, forma essa que negligencia um aspecto importante, o sonho. Sonhar não é um verbo para fracos e escapistas, ou uma categoria parva de auto-convencimento por quimeras, mas uma forma lúcida de compreender os saltos e a diversidade no modo de ver. Daí que não sei se podemos ensinar a sonhar, mas é sem dúvida importante tentar. A memória e a imaginação são instrumentos mas o resto é arte.

domingo, 23 de junho de 2013

Herberto

Há unanimidade crítica em relação ao Herberto Helder. Os seus livros esgotam antes de saírem para as livrarias, obras raras valiosíssimas pois o poeta exige escassez editorial, uma selecção dos eleitos, poucos iluminados terão a hipótese de ler o mestre, só mesmo os mais atentos . A imagem, não duvido que corresponda a um anseio legítimo e sentido, foi meticulosamente tecida pelos meios de comunicação social, que Herberto odeia, e que adoram o seu mistério, a sua invisibilidade física como a de um deus, que não está em parte alguma e está em todo o lado, como um acutilante espírito nas insondáveis atmosferas longínquas do génio retido pela infame banalização do artista, alheio aos prémios do vil metal, enfim...tenho nas mãos "Ofício cantante" alguma da poesia reunida, não ouço cantar as entranhas, nem o coração, estes poemas não me tocam, não sinto por nenhum deles um arrepiozinho fino e inquietante, como sinto por alguns versos do AlBerto ou do Carlos Oliveira ou do Pessoa, ou do O'Neill, do Yets, da Dickinson ou da Peri Rossi, só para enumerar alguns dos meus poetas de eleição. Não vejo como se pode considerar um grande poeta se não sentirmos por ele essa paixão. Não vejo como.Outros o sentirão, presumo, quantos farão a diferença?

sexta-feira, 21 de junho de 2013

ditirambo


Grevistas contra não grevistas. Era assim no tempo das grandes greves da era Thatcher, Margaret e a greve dos mineiros. Crato e a greve dos professores. As reformas do sector público e o discurso da dívida pública, a resposta das tranches, mais endividamento, Portugal e o Brasil, que diferença!! O público e o privado. A minha colega do secretariado de exames a carimbar resmas de papéis, o funcionário no lugar do operário, no lugar do intelectual, no lugar nem público nem privado, anestesiado, dormente, temeroso, dividido. Como se faz para não entristecer? Como se faz para enganar a tristeza? A hora é de luta. Mais nada.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Reflexões sobre a greve de professores


 
 
Ao fim de largas horas de indecisão optei por fazer greve. Estava, como sempre, dividida, e não estava sozinha, havia muitos professores como eu, divididos. Ouvi depois o ministro indiferente ao drama, sobranceiro, a convocar todos para vigiar os exames, como se os professores fossem substituíveis até pelo merceeiro e percebi o desrespeito pela classe e pelo diálogo, nesse momento houve valores antigos que se tornaram importantes, a solidariedade de classe, a indignação por sermos colocados entre a espada e a parede. Não nos restava nenhum outro modo de afirmar essa indignação perante a política cega e imediatista que agrava o desemprego e empobrece o ensino público. Ora, penso, o maior mal do nosso país é o desemprego, a falta de trabalho. Muitos há que não fizeram greve por medo de o perder, desses, muitos, têm mesmo o emprego ameaçado. O que se pretende afinal? Se alargamos o horário de trabalho de alguns professores é óbvio que outros ficarão sem trabalho, não é preciso ser muito perspicaz para retirar essa conclusão. Quantos ordenados se economizam? Quantos subsídios de desemprego? Quantas pessoas à toa? Poderia ser um assunto insignificante mas é todo o assunto, uma política destas têm consequências, além do desemprego de muitos, temos os outros, os que ficam a trabalhar em todo o tipo de tarefas para além de dar aulas, substituições de professores que faltam, assessorias, tutorias, apoios vários para suprir a falta de funcionários, trabalho administrativo para poupar no pessoal de secretaria etc etc etc. Esse é o projecto, ser professor será cada vez mais uma tarefa de funcionalismo. O professor do ensino público será um funcionário, isto é, uma espécie polivalente capaz de manter a instituição e os respectivos jovens ocupados em tarefas, atentos fiscais do seu cumprimento mais do que do ensino e na avaliação reais, quando digo real digo, uma avaliação honesta que separasse os alunos que aprendem dos que não o fazem e exigindo que os que não aprendam voltem a tentar e a perceber que têm de o fazer, pois isso não é indiferente para a sua permanência na instituição. O problema surge aqui, na tendência para se desvalorizar a actividade do ensino e do saber, de facto a sociedade liberal valoriza empreendedores, mas não sábios, esses são até uma raça de gente a evitar. Quanto ao ensino “a sério” passaria a estar a cargo de instituições privadas. Basta olhar para os resultados do ensino Público e Privado nos exames do 12ºano para perceber a tendência. Se há dez anos o Público rivalizava em resultados semelhantes, hoje a clivagem é muito maior. Porquê? Porque o investimento na preparação para os exames, que passa por um certo grau de exigência científica, está, no público, minimizado, se um professor do ensino público quiser mantê-lo terá de se recusar a levar a exame muitos alunos, ora, reprovar alunos hoje é sinónimo de mau ensino, logo de mau professor e ninguém quer estar na margem desse "sucesso" de conseguir os resultados mínimos (mesmo que esse mínimo seja muito pouco) para os seus alunos.
Pela primeira vez a sociedade está dividida, porque pela primeira vez há uma atitude que tem resultados visíveis na sociedade, parece que consideramos normal que uma paralisação do trabalho seja coisa privada de uma classe, prejudicando apenas aqueles que a fazem ao reduzir-lhes o ordenado. Mas a responsabilidade deste caos é a massa de silêncios e atropelos dos últimos anos reduzindo progressivamente a justiça e o bom senso necessários para que todos possam exercer o seu trabalho com segurança.
 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Para diante


avanço para o meio da praça

trago comigo o couro e o lenho

a sirene das entranhas

o medo talvez

 numa epígrafe desolada

mas sobre o trigo maduro

quase nada

avanço para o meio da praça

abro os braços  e entre os braços

um vertical abraço

surge ainda 

um veio de sangue quente

para desculpar da poeira

do vazio e da má sorte

o tempo seguinte.

quarta-feira, 12 de junho de 2013


imagens de homens e mulheres sacrificados e vulneráveis a esgravatar invocando o mais cru e real da gente a quem falta um bocado, uma parte amputada continua a doer vivendo por sobrevivência, por vitalidade, essa parte amputada visível, para ser escondida impõe-se. tem efeito prensa rebarbador. com isto faz-se cinema. magnifique.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Festa na Escola



Não sei por que me enervam tanto as festas de Escola. aquela camaradagem de foca amestrada, aquela vontadinha que todos têm de receber palmas e babar, aquela auto complacência da união alegre e familiar, aquele embezerramento, cocktail de sucesso e masturbação, nauseia-me ao ponto do vómito. Ao minuto cresce o ensejo de deixar este ofício de prof e dedicar-me a uma marginalidade solitária e ensimesmada, perfeita para segurar pelos cornos esta revolta antiga (tão antiga que nem teve começo) pela sociedade arrumadinha e paroquial onde as festas de escola são a cereja no topo do bolo.

Supremamente especial para eu ignorar estes impulsos vitais era a minha sobrinha. A minha sobrinha tinha-me pedido, e eu não era mulher para negar nada à minha sobrinha. Tratava-se da primeira apresentação de um trabalho realizado durante o ano lectivo. Chamava-se "O Bairro" era um filme de meia hora. Produto de pequenas e deliciosas ideias, belo, enternecedor, meticuloso. Orgulhei-me dela, muito, ainda tentei reconhecer paralelismos entre a sua veia artística e a minha, reter alguns louros do evento criativo, mas depressa abandonei a pretensão por egoísta e destemperada. Ela, a sobrinha, era boa, tinha ideias, sabia concretizá-las e andava numa escola que queria e estimava o seu talento. Apesar do enjoo geral, tinha de reconhecer...etc etc e ainda reconhecer que das minhas sobrinhas têm vindo as melhores aventuras etc etc.

A noite e os problemas técnicos cresciam lado a lado na sala onde esperávamos com o rabo dorido a chegada dos filmes. Estas festas de Escola não têm horas, um ror de problemas e ninguém para os resolver fazem parte do seu "charme juvenil".Valeu a noite ser grande e ambas nos encontrarmos perto da porta, mas só eu tinha Golden Virginia no bornal.

 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

madeixa ao vento



a maior parte das vezes somos só nós, uns quantos amigos, umas quantas canções, poeira e frio. fomos fustigados por ideais mas o verdadeiro caldo, morno caldo, assentou na mesa os cotovelos e desejou por incapacidade de luta ou porque nada do que a memória retinha de aconchegante se dizia por slogans ou sólidas frases, desejou um grande amor, uma paixão, que arrebatasse tudo. traduzia-se esse desejo numa imensa saudade de um copo de vinho na intimidade de uma conversa sussurrada. a política era o que restava do eco dela, na cama, ou no pretexto para dar uns abraços e colar uns cartazes entre noitadas. Acho que sabemos o que é o prazer, na palavra curta ainda não o sabíamos à época, acoplávamos à palavra outras, cheias de promessas, deixávamos que se mascarasse, não por querer mas por ignorância, de qualquer modo o prazer tem várias caras e vários são os seus processos de aparecer. mas assim como vemos a qualidade da bica na réstia de espuma da chávena, assim também podemos agora abarcar o que restou deste desejo. não é pouco, é outra coisa, traz a marca de uma liberdade, uma ventania, um alvoraçado ninho.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

maio



esqueço-me que estamos em Maio, e eu adoro Maio, esqueço-me do que gosto de adorar sem razão nenhuma, mas tenho muitas razões para me esquecer, nenhuma por si importante mas todas juntas obra apreciável.papéis e putos. putos e papéis.é certo que tenho as noites e as luas incandescentes, essas coisas sem dono  facilmente as faço minhas. é do meu feitio.as outras, algumas têm muitos donos, outras maus donos e muitas são de não terem dono, nem o quererem aceitar, pensam, mas eu penso diferente, têm pouco espaço, são muito apertadinhas nos seus objectos desejáveis e como não faço parte deles não posso tomar nada, bebo umas bejecas e leio livros, muitos livros que não são papéis e estão seguros por fios de ouro ao coração largo do desejo. às vezes passeio no mar, mas maio não me viu passar, acordei tarde talvez já o mar tinha deitado a língua de fora. mesmo assim avistei gaivotas de arribação sobre os muros de pedra da escola e abri o jornal em cima da mesa do café para o voltar a fechar invadida pelo desconforto de não poder negar que essas vidas sem dono algumas de perdidas também são minhas e os dias solitários partem sobre as casas, os tordos e o vento para voltarem de novo, a verdade é que apesar do esforço, apesar de querer, a esses não os consigo apanhar.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

olhar


os olhos por exemplo.

a pupila, a íris

a  procura de qualquer coisa, uma emoção, um segredo, uma intenção

terça-feira, 7 de maio de 2013

serra da estrela

aqui movimento das forças armadas


 
andamos de nuvens carregadas, com palavrões debaixo da língua, a lógica e a justiça, à vez, tratam de nos fugir à frente ou deixam-se ficar para trás. o inevitável não deriva nem de uma nem de outra mas de uma série de circunstâncias beras. envelhecemos aqui, no canto do mundo. eflúvios de maresia e catástrofes mansas, das que não pressentimos, e ninguém, ninguém mesmo, parece estar à altura da situação. os velhos e bolorentos discursos, as mesmas poses, o silêncio da vida de cada um armadilhada. Parece que tudo, amigos e amantes descobrem a sua face negra. falta-nos uma voz, falta-nos o ar para o pontapé ou o abraço, cerceamos desejos, damos voltas e voltas à chave. Aqui, Portugal, movimento das Forças Armadas...aqui vamos começar ou acabar.
 
foto de André Kertész

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Benfica!!

 
O Benfica é uma equipa portuguesa que, segundo muitos, é uma bandeira do país, embora -curiosamente- não jogue com artistas portugueses. O facto não deixa de me fazer confusão, está bem que bebo chá como os ingleses e o Chelsea também tem o David Luís e outros  mas o chá não é Inglês, contas a fazer sobre o que é de quem e se temos mesmo direito à posse daquilo que criamos e é nosso, seria melhor saber a quem corresponde esse nosso, aos que vivem cá? aos DESCENDENTES DE Afonso Henriques? aos falantes da língua? O QUE É SER PORTUGUÊS? mas o Benfica, será ainda um clube português? Harvard será uma universidade americana apesar de ter mais alunos "estranjeiros" que americanos? Sim claro, claro. É o governo da instituição e a sede que interessam (interessam?) para a identidade. A verdade é que a nacionalidade já não conta como identidade, a não ser para os imigrantes famintos que querem aportar à Meca Europa; os clientes de uma empresa são de todas as origens, assim como os empresários, administradores etc. The big market. A globalização só tem um critério: o gito, o money, o pilim. O dinheiro permite escolher, o melhor, o dinheiro é mais do que nunca o passaporte para o sucesso ou para a excelência e, não precisa de vistos. O mercado de compra e venda tornaram o Benfica uma empresa internacional como outros clubes, capaz de gerar riqueza, assim como Harvard, gerará riqueza e prestígio, uma empresa, um mercado. Causa-me náuseas o discurso acerca dos valores humanos e direitos e assim...segundo esta lógica esse discurso é um sapo a ser engolido por uma cobra. Seja como for, cá em casa, desde que me puseram xuxa, berraram comigo BENFICA!!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Proust

 
José Malhoa "Atelier do Artista"
 
«Deixou de apreciar o rosto de Odette segundo a melhor ou pior qualidade das suas faces e a doçura de pura cor de carne que supunha dever encontrar-lhe ao tocá-las com os lábios se alguma vez ousasse beijá-la, mas como uma meada de linhas subtis e belas que os seus olhares dobaram, continuando a curva do seu enrolamento, juntando a cadência da nuca à efusão dos cabelos e à flexão das pálpebras, como num retrato dela em que o seu tipo se tornava inteligível e claro.
Contemplava-a; um fragmento do fresco aparecia no seu rosto e no seu corpo, e desde então procurou sempre encontrá-lo lá quer estivesse junto de Odette, quer estivesse apenas a pensar nela; e embora não tivesse apego à obra-prima florentina a não ser, sem dúvida, porque a encontrava nela, contudo aquela semelhança conferia-lhe, também a ela, uma certa beleza, tornava-a mais preciosa. Swann censurou-se gostos de arte mais refinados. Esquecia-se de que Odette já não era por isso uma mulher conforme ao seu desejo, já que precisamente o seu desejo sempre fora orientado num sentido oposto aos seus gostos estéticos. A expressão «obra florentina» prestou um grande serviço a Swann. Permitiu-lhe, como um título, fazer penetrar a imagem de Odette num mundo de sonhos a que ela não tivera acesso até então e onde se impregnou de nobreza. E ao passo que a visão apenas carnal que tivera daquela mulher, renovando constantemente as suas dúvidas sobre a qualidade do seu rosto, do seu corpo, de toda a sua beleza, enfraquecia o seu amor, essas dúvidas foram destruídas, e esse amor garantido, quando, em vez disso, teve como base os dados de uma estética indiscutível; sem contar que o beijo e a posse, que pareciam naturais e medíocres se lhe fossem concedidos por uma carne arruinada, ao virem coroar a adoração de uma peça de museu pareceram-lhe ser sobrenaturais e deliciosos.
 
Marcel Proust "Do lado de Swann"
 
A imaginação apesar de maltratada ressurge como o instrumento primário da vida, ou melhor da possibilidade de vivê-la, pois sendo alguma coisa a vida, como tantas outras  coisas modela-se com as mãos mas escapa para esse pensamento admirado e inconformado propenso a ver mais ou menos, e de outro modo, para além das evidências. Há uma outra porta, por onde havemos de sair quando já abrimos todas as do quarto e vimos as vistas do saguão, a coragem de levar isso a sério, ou a brincar mas levá-lo por diante, abrir portas que ninguém vê, pequenas, grandes, para outros saguões que ninguém esperaria. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

pai

 


Ontem foi dia 25 de Abril. Comprei cravos vermelhos para pôr na campa do meu pai. As nuvens estavam altas no céu e mais calor do que o habitual em outros iguais dias de diferentes anos e, apesar de estarmos no lugar onde os mortos repousam,  era alegre a vista das flores e das campas brancas na tarde solarenga. Não precisei de muito esforço para me lembrar dele, sentado frente ao mar na praia D. Ana, do o seu ar absorto. Nove anos depois de nunca mais o ter visto, vejo-o com mais nitidez, era um homem nostálgico o meu pai, nostálgico do mar. Corto o pé aos cravos, encho a jarra de água, fico ali  um tempo, quanto tempo? Não o suficiente, pouco, muito pouco, lembro-me dos seus pés, parecidos com os meus, vem-me também insidioso o pensamento de uma queixa, queixo-me em silêncio de não me ter amado mais expressivamente e vou-me embora apressada e confundida com este encontro. Fica com os deuses pai. Parabéns.

domingo, 21 de abril de 2013

cinema


Os cinemas estão em perigo de morte, não é o cinema que pode desaparecer mas as salas, a tendência moderna  para gravar os filmes e ver no computador enquanto se dá um salto ao "Face" para responder numa conversa em "Chat" e se joga paciências, não pára de amputar espectadores.  2 horas ou uma noite inteira numa sala de cinema é perda de tempo,pensam,  no computador podes ter sala de cinema, café, cama, biblioteca, rua, sem sair da cadeira. tudo ao mesmo tempo, daí que ganhes tempo e o tempo para ganhar é precioso, no Mc Donalds também, impera a rapidez, embora saiba tudo ao mesmo. Quinze pessoas assistem ao último Almodovar estreado um dia antes. Temo pelas salas, pelos nomes, (A castello lopes desapareceu) . Está tudo a mudar demasiado depressa. O cinema não é produto televisivo para comer entre garfadas de esparguete, o cinema é uma arte, e como tal há que a deixar expressar-se, dar-lhe protagonismo, usufruir em écran grande e no escuro do silêncio, em cumplicidade muda com outros, sentados ao nosso lado. Recuso o passadismo do "dantes é que era", o computador é essencial,  mas tirar as pessoas da frente dos computadores será uma tarefa social da máxima importância, como uma desintoxicação de heroína. É mais simples, cómodo e diversificado na caixinha minúscula,  mas agora vai passar o Lawrence da Arábia nas salas de cinema e juro-vos que a experiência inicial é incomportável com barulhos de autoclismo, panelas na cozinha e anúncios de dietas milagreiras. é mergulhar no escuro e daí ver emergir a imagem, o azul do technicolor e a largueza do scope. não há como, de outro modo.

A imagem é um fotograma do "Lawrence da Arábia" de David Lean

sábado, 13 de abril de 2013

onde vivo

 
Hoje de manhã o nevoeiro caía sobre as jovens árvores do parque que se vê da janela do quarto, jovens árvores que há dois anos estariam no viveiro da câmara de Cascais e hoje começam a lançar alguma sombra sobre os bancos do jardim. Há dois anos atrás era mato,este espaço, ervas ao acaso, campo bravio a subir a encosta de onde se vê o farol do Bugio, hoje é um espaço organizado de árvores, relva, arbustos flores e circuitos de manutenção. Há ainda muito bairro atapetado de betão  e grafite  estridente, muito bairro branco, como gosto de chamar, aos prédios muito juntos com pintura já borrada da humidade e onde só se avistam ruas estreitas pejadas de carros, pessoas apressadas ou grupos de jovens de ar desafiador entre bonés e calças de ganga descaídas. Há muitas zonas, no entanto, em que o cuidado imperou,  transformaram-se em zonas humanizadas, bairros inteiros servidos por pequenos espaços como este onde se pode ver nitidamente a chegada das estações pela passarada que aqui aportou esforçando-se  por nos afastar da cama com a sua afinada vozearia. Ai Primavera, adoro-te, adoro-te sem restrições!!!

Foto: Câmara de Cascais

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Páscoa

 
Esta Páscoa voltei de novo a sentir o fascínio do Cristianismo. Na figura do Cristo, na figura do novo Papa, posso projectar uma pureza de sentimento ou bondade que admito não existir de forma contínua e personificada mas que existe certamente como estado desejável o que, só por si,  constitui um bálsamo para o relativismo pragmático do mundo em que vivemos. É-me difícil acreditar sem dúvidas. Reconheço sempre em cada um dos episódios que possamos isolar duas visões opostas. Não sei se haverá uma verdade religiosa fora da vontade de a aceitar enquanto tal, isto é, independente da fé. Penso que não, mas o coração aproxima-me deste Cristo enfraquecido e misericordioso, desta visão universalista do ser humano como igual no sofrimento e na alegria, apaziguada na esperança. Repudio contudo, no Cristianismo o fanatismo evangelizador que mumifica a verdade numa revelação dada a alguns, permitindo-lhes, por isso, julgarem os outros e criando deste modo uma divisão profunda  responsável por toda uma série de violências e incompreensões;  exactamente o contrário do universalismo essencial da religião primitiva como ligação de todos num mesmo pacto onde ninguém pode ser excluído. Neste sentido, o gesto do Papa ao lavar os pés das gentes de outros credos religiosos assegura-nos que estes princípios não foram esquecidos.

terça-feira, 26 de março de 2013


Um dia sem saber

I


Um dia sem saber ela encostou um pé à parede da casa e sentiu a espessura da cal.

Cuidado!

Mas não se mexeu também. Paralisada.

E a espessura da cal era tão grossa.

E tão grossa e espessa a noite

Que lhe fugiu a voz na garganta

E por socorro ou falta dele estremeceu.

Quedou-se então no silêncio agudo

E não abriu mais a boca senão para bocejar ou comer

Durante todo o silêncio

Cada segundo

Ela o sentiu como silêncio

Como negação

Todo o silêncio é negação

Todo o silêncio é negação

Mas não foi  feliz nessa atitude

Tão pouco o poderia ser

Não morreu de velha nem de nova

Pois o tempo espesso como a cal da parede

Comeu-lhe a língua

o juízo

E o baço

o estômago ficou

Deixou-a feroz

Em poder dos elementos que de todo o lado a feriam sem que ela lhes desse qualquer luta

 Capricórnio perseverante comandou a sina da sua ama negra.



Existiu essa mulher mas ninguém soube.

Quando tudo morreu ficou ainda a cal enegrecida

Restou a aparência de rua

O sol sem signo volteou no ar

Não houve milagre algum

Nem sino

E, no entanto o tempo daquela mulher era realmente verdadeiro

Realmente o tempo.

domingo, 24 de março de 2013

Felicidade


Agora que chega a Primavera, houve muita escrita, muita frase, muito lembrete, porque agora fala-se a toda a hora, pelo computador, como eu, agora também falo, isto é, existo. Mas, este ano falou-se muito na Primavera e, logo a seguir ou antes,  da Felicidade, andam ambas em associação animada para espaventar as maleitas de corpo e pouca alma A dança  da simplicidade e dos pensamentos positivos assépticos e coisa e tal mais do mesmo, estão em franca ascensão. Falou-se pela primeira vez no dia da Felicidade. É ridículo haver um dia para a felicidade, é como haver um dia para A viagem até Calypso, ou um dia da Atlântida. Mitologias várias com o perigo de parecerem coisas assim redondas e ao alcance de todos. Mesmo aquela conversa fiada da moral utilitarista de fazer equivaler o Bem à felicidade e esta à ausência de dor e ao usufruto de variados prazeres, não serve nem como princípio do que deveria ser nem como princípio do que é. Melhor e mais perspicaz visão tem o senhor Kierkegaard ao lembrar-nos da felicidade ser proporcional à angústia, e que não se vive uma parcela de alegria sem o medo de a perder. Explico-me: A nossa vivência mais nobre é mesmo a da contradição, e não há como fugir a isso senão inventando falsas mitologias como esta, cuja única verdadeira utilidade é fazer-nos sentir miseráveis ou parvos. (mais à frente hei-de explicar melhor, num outro post que este já vai longo) .
 
Deixo-vos com o Kandinsky a brincar a brincar...

domingo, 17 de março de 2013

Alma

 
Deserto de Atacama, sessenta e seis antenas apontadas ao espaço intergaláctico, ao tomate vermelho, polpa e sementes, a configuração ou a palpitação, de uma coisa informe e misteriosa, quiça transbordante a todo o pensamento. o universo. sem dúvida que a curiosidade e a investigação sempre foram os actos mais nobres do homem, o conhecimento pelo conhecimento é, só por si, uma benção. Se nos colocarmos no lugar que ocupamos no imenso, talvez a nossa visão se aguce, a nossa importância calibra-se nessa relação entre o nada que somos e o sonho que temos. sempre me pareceu excessiva e doentia esta apologia do indivíduo que a modernidade instaurou. sempre me foram dignos de admiração os que se volatizam para se entregarem ao vórtice de um todo que tem mais de sonhado e, no entanto, é mais real que todas os estados do ego. reparo no papa à janela do vaticano, as botas engrachadas, a batina, e sinto que há qualquer coisa desse movimento de projecção no absoluto a partir da consciência do que se é verdadeiramente, um entre a multidão, um só que renega deglutir toda a diversidade na inquietação e dela faz um veículo de curiosidade pelo mundo. acho que esse é o verdadeiro lugar onde nos encontramos, quando nos esquecemos, para mergulhar em qualquer coisa fora de nós, maior, definitivamente maior. Alma chama-se o telescópio, não é por acaso.