domingo, 27 de novembro de 2011

os bares

sempre frequentei bares, com assiduidade alguns, fortuitamente outros, em tempestade alcoolizada, em euforia tribal, na conquista amalucada ou na sedução, também em desespero confessional ou só para encher a noite de fábulas, os bares acolheram com desvelo ou apenas indiferença as minhas necessidades de encontro ou fuga, ambos ao mesmo tempo e sem reflexão ao pormenor. Estaria tentada a confirmar a afirmação ingénua do bar como palco onde podemos seguir as cenas da nossa, agora que escrevo sobre isso, vidinha, episódios e cenários, figurantes e protagonistas. Vem-me ao ouvido a música da Alcione " Mesa de bar é onde se toma um porre de liberdade...de companheiros em pleno exercício de democracia." Seja como for, amordaçando nostalgias ou tiradas pseudo moralistas sobre a utilidade ou inutilidade de tudo isso, à parte o gozo experimentado, gozo real, sólido, metamorfoseado nos intuitos ou no acaso, os bares ensinaram-me a perceber a lógica entre o espaço e o estado de espírito, o Vertigo é um desses mestres, há nele uma rara percepção da coisa da noite, desse vórtice infinito e expectante da noite. Sentar-se ali reenvia para catedrais e sótãos antigos, espaços de memórias subitamente presentes, vindas não se sabe de onde, papéis com poemas escrevinhados, contemplação amorosa, um não saber, uma intuição de como podem ser decisivos certos momentos, insubstituíveis. Os vitrais do tecto ou as mesas muito limpas e enceradas, a música em compassos longos, realçando uma espécie de silêncio onde as palavras ganham força de actos decisivos, a luz familiar, íntima ameninando os rostos, tocando-lhes as fragilidades. É um bar, pagas o que comeste e o que bebeste, e sais. A noite apresenta-se então de novo, inteiriçada, indagando sobre a tua disponibilidade, e respondes sim, afirmativo e não há nada, mas nada mesmo, mais precioso.

5 comentários:

CCF disse...

Onde fica o Vertigo?
Saio pouco à noite, mas às vezes apetece-me.
~CC~

R. disse...

os bares: pretextos para a intimidade, a evasão, a tertúlia, o encontro, o refúgio, a partilha, o combate às horas mortas ou o a familiaridade recuperada... entre tantas outras possibilidades que albergam; testemunhas, sem dúvida, de um caleidoscópio de vivências públicas e privadas.

PS: "Quando for grande" quero dissertar tão bem quanto tu o fazes.

ss disse...

via,
já nos devemos ter cruzado. o Vertigo e o Royal são locais habitué!
:)

via disse...

CCF: O Vertigo fica perto do largo do carmo. recomendo, acho que vais gostar.

R: Dizes bem, é isso.Um grande abraço.

ss: O Royal não conheço diz onde é, já agora...

ss disse...

é fácil, quase ao lado. Sobes a rua, viras a esquina e é mesmo no largo. Têm um pequeno jardim/esplanada e uns 'brunch' óptimos.

http://www.royalecafe.com

não querendo fazer publicidade, há outro que recomendo, no jardim do príncipe real, o Orpheu Caffé.

bjs
:)