segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

livros

Nas livrarias, de ano para ano, aumentam os colossais volumes de papel, vulgo romances. Formam por esta altura grossas colunas por cima das bancas. Livrarias, bibliotecas e editoras lutam contra a falta de espaço. Na biblioteca que frequento o Zé, pesaroso, abana a cabeça, não, não aceitamos doações, temos que mandar livros para abate, não temos onde os pôr. (curiosa a expressão livros para abate, óbvia analogia entre o livro e o gado bovino ou caprino). Nunca se escreveu tanto, oh, orgulho da cultura! Livros, para que vos quero! Como fazer a seriação? Como saber, entre os milhares de páginas escritas, quais são verdadeiramente livros e quais são letras com egos lá dentro!? Sou suspeita em relação ao que se escreve hoje, folheio, e decido-me sempre pelos clássicos, quando tenho de escolher. O romance actual não me interessa. Nem no estilo, nem no conteúdo, os escritores portugueses esticam-se para ser originais, e não há pudor, escreve-se sobre tudo, pedras, lenços, fantasmas ou divórcios, morangos ou sida, e sobre o amor, claro, sobre o amor obviamente. A geração dos verbalistas do amor, das relações, da paixão, as variações possíveis e impossíveis, as repetições possíveis e impossíveis. Acredito que no meio da xusma haverá novos escritores dignos desse nome, mas perdem-se na nebulosa gigantesca de títulos. Dos novos um apenas: Dulce Maria Cardoso. Os antigos, depurados pelo tempo dão-me mais garantias, mas pergunto-me: Qual será o critério do Zé quando tiver de queimar umas centenas de volumes? Haja pudor!! Interditem-se imediatamente José Rodrigues dos Santos e Migueis Sousa Tavares e outros quejandos, Fátimas Lopes e por aí fora. Escrevam à família e deixem-nos em paz!!


Quadro: Biblioteca de Vieira da Silva

4 comentários:

ss disse...

Cada vez que entro numa livraria parece que estou na área de livros do Continente... por isso desisti e agora voltei a frequentar alfarrabistas e a reler os clássicos.
Mas já estou como tu dizes, no meio disto tudo talvez deixe passar bons livros, apenas porque tudo o resto me dá aversão, para não dizer algo mais forte...

Beatrix Kiddo disse...

"Cada vez que entro numa livraria parece que estou na área de livros do Continente" é verdade, é uma tristeza. Abater livros é que não puxa

via disse...

ss: a indústria e comércio do livro, é assim como a agro-pecuária, analogia forte, têm em comum um certo efeito de poluição, uma nuvem de mesmidade.

Beatrix:pois é, a frase vai ficar.

R. disse...

é um protesto pertinente, com doses perfeitas de humor e ironia. Estou certa que expressas os dilemas e opções de muitos dos que gostam de ler. De facto, é impossível acompanhar a máquina desenfreada em que se tornou a edição de romances e "escritores" portugueses, e os clássicos são sempre uma opção segura. Mas o que mais perturba é esta estupidez em que se transformou o comércio da literatura que, a propósito do "abate", prefere reconverter milhares de livros em pasta de papel a vendê-los a preços mais acessíveis... Como diria Obelix: "Ils sont fous, ces" Portugueses!