
na gare do oriente há camionetas de carreira para a margem sul e golpes de vento assobiando entre os pilares de betão. muitos automóveis .nenhum espaço, estaciono em segunda linha, cool, mas a "destroce" incomodada enfia a carantonha na janela, é pá não podes estar aqui, o hálito poderoso dissuade a minha resposta, ponho a primeira e arranco devagar mais pra frente, não tenho de te explicar que estou à espera de uma pessoa..., a "destroce" avança uns passos cambaleante com a garrafa de cerveja de litro na mão, hoje, particularmente hoje que acabei de passar um cheque à UNICEF, não me sinto paciente, já fiz o meu serviço "pro buono", e a vontade é entornar-lhe o resto da garrafa sobre a estopa desgrenhada que não vê água desde a Arca de Noé, assim por alto, que não sou boa a fazer contas de cabeça. ela grita qualquer coisa imperceptível e eu guio-me pelo cheiro, arranco 10m, paro mais à frente, o gasóleo queimado dos tubos de escape das camionetas carreira e o Fausto a cantarolar no rádio do carro. Não desarmo, agora é um tipo com três dedos na mão cheia de anéis grossos ou seria a mão grossa com anéis de três dedos? não fixo pormenores, com o imperdível jornal enrolado faz-me sinais para virar à direita, eu sei que não há lugares mas estou aqui nesta Lisboa descaída onde se perde a noite entre fumos e gente olheirenta, não há turistas , a toda a hora partem as carreiras pra margem sul, estou de passagem, se houver um longe dali, e há, permito-me ocupá-lo tão completamente que o único vestígio de lá ter estado seja mesmo o guardanapo de papel da sandes que tu, ao chegares, atiraste para o caixote do lixo.
Foto do Portugal dos pequeninos.
7 comentários:
eu confesso, fugiria a sete pés do confronto, e ficaria a deambular entre a culpa e a irritação.
ss: o confronto seria completamente desnecessário.
Na gare do Oriente há tudo isso, mas está visto que devias ter ido de metro e aproveitado para dar um passeio um belo passeio à beira rio.
bj
g:podemos ir passear para a beira rio mas esta realidade não desaparece. mas obrigada pela sugestão.
esta frase é batida - mas talvez por haver lugares que são assim.
pode sair-se das gares orientais deste mundo, mas nem sempre as gares saem de nós.
A vantagem da falta de tempo reside, por vezes, na acumulação de coisas boas. É o caso aqui. Tenho muito que ler. E assim me vou deliciando em pequenas doses :)
Abraço!
Postar um comentário