
Acho que Pessoa tinha razão, pode-se perfeitamente viajar sem sair do mesmo sítio, entrar em lupanares ou escorregar em areia fina, subir aos Alpes ou atirar pedras no deserto do México, até , pasme-se!, acelerar a velocidade supersónica dentro de ondas tubos ou conversar com peixes alaranjados, isto sem precisar de garrafas de oxigénio, apenas com o simples movimento pulmonar, pode-se encontrar nas calçadas da noite reflexos de outras calçadas, inúmeras ruas e seus cruzamentos, seus espelhos de poças amachucadas onde a lua foge de estática a socorrer-se de lianas para baloiçar nos ramos de sequóias gigantes, pode-se seguir sombras de crimes e desembocar em alamedas, juro que sim. e sei que sim, porque desconheço o perímetro da terra mas já o desenhei num instante, a giz, sobre os teus ombros.
6 comentários:
Que bonito!
~CC~
Belo texto e bela foto. Gosto do Olhar do Texto.Gosto do Dizer da Foto.
(Verdade que viajamos sem sair do mesmo lugar. A viajem maior é sempre dentro de nós. Nela todas as outras são sustentadas e, talvez amadas.
E depois, bem, depois o dentro de nós depende de todos os outros fora de nós... Os que espreitam.)
...Interessante que fales de Pessoa...
Há muitos anos, a seguir ao 25 de Abril, viajei à boleia, sozinho e apenas com uma mochila e saco cama, sobretudo pela França, tendo chegado à Noruega e regressado de comboio. Fiz o mesmo no ano seguinte.
Depois, praticamente deixei de viajar pelo exterior, porque todas as viagens são interiores e é aí que perduram.
E à semelhança de Pessoa, há textos que são pura poesia. Eis aqui um magnífico exemplo disso.
Dos textos mais bonitos que já escreveste, miúda :) Parabéns.
CCF: Obrigada
hlebre: espreitar é pouco, melhor mesmo é abrir a cortina toda, digo, eu, que as viagens dos outros também podem ser um bocadinho nossas.
joão Raposo:essas, as viagens por fora também dão ganas para as outras, uma mão lava a outra.
R: tenho a impressão que me estragas de mimos...
cassandra: claro, ou não estivesses tu em estado rebuçado!!
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