sexta-feira, 19 de outubro de 2012

In Memoriam Manuel António Pina


Café do molhe


Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.



É uma dor que, quando se escreve assim, também se morra. 

4 comentários:

cs disse...

como as palavras são...deliciosas!

sónia silva disse...

neste caso as palavras não morrem...

via disse...

cs: o Manuel António Pina escrevia como ninguém.

sónia silva: ainda bem, ficamos com elas, é o legado, a parcela de eternidade.

joana padrel disse...

- não se morre, não.

é bom ler e reler.