domingo, 9 de janeiro de 2011

CHLOE

O mais fascinante em Chloe nem é a semelhança da Julianne Moore com a Catherine Deneuve do filme (com quarenta anos) Belle de Jour do Bunuel. Se assim fosse teríamos tão só a evidência de modos de fazer cinema e escolha de actrizes para um mesmo tema: de como no interior de um casamento burguês se mete um açaime ao desejo sem o matar, antes tornando-o um explosivo poder, desconhecido e por isso mesmo destrutivo e imprevisível. O mais fascinante é perceber como este desejo se recupera e desenvolve no interior mesmo das convenções quando nelas se apresenta como um interdito. é o próprio interdito e a força transgressora que gera que são a origem do próprio desejo. Isso é admiravelmente exposto aqui. A teia dos seus misteriosos mecanismos é posta em movimento pela curiosidade de saber, a maçã que tenta Adão, a velhíssima serpente do saber, mas este saber não é puro desejo de conhecimento, é sobretudo atracção irresistível pelos interditos e por aquilo que neles excita a imaginação e a fantasia. Se tudo se passasse dentro da atracção sexual, ficaria solucionado o drama, era físico. mas o desejo sexual não vive no físico, e isso distancia-nos dos animais, vive do obscuro que se adivinha, o outro lado, regido por outras leis, onde as convenções se apresentam como virtualidades, meras ilusões sociais. Tocar esse poder, é libertar fantasmas, dar-lhes vida, mas é também um caminho sem retorno experimentando uma liberdade resultante da destruição da moral. Aí o controlo, qualquer tipo de controlo parece exactamente o que é: medo. É sobre isso o filme. Inspirador.

8 comentários:

Cassandra disse...

Está visto que a tua escolha foi bem melhor que a minha, minha amiga. Mas fiquei com água na boca :)).

uminuto disse...

Inspirador também o teu comentário...a abrir o apetite para ver o filme
beijo e bom ano

ss disse...

estou como a Cassandra...fiquei com água na boca!!
:)

jp disse...

Lembro-me de Belle de Jour . Um tema que interroga os nossos sentires.

Há gente que sente muito bem os filmes,como tu. Tenho que ver este!

JPD disse...

Não vi o filme mas achei brilhante os comentários sobre o tema.
Excelente.
Bjs, Via

via disse...

Cadssandra: a tentação de dizer, pois está visto que sim, é grande mas não vou dizer isso, digo antes que ninguém pode saber, que é uma incógnita, embora haja indícios.bjos

uminuto: aconselho, não sairão defraudadas as tuas expectativas. bom ano também e bons filmes!

ss: Apetece cantar aquela canção da Rita lee: " Meu bem você me dá...água na boca..." ehehe

jp: lembra, estes temas são recorrentes, mas entre o bunuel e o Egoyan, não sei,neste aqui há mais mistério e menos política. não sei qual prefiro, difícil a escolha. logo me dizes o que achaste.

JPD: obrigada, é uma visão, não sei se verias o mesmo, provavelmente não, seria engraçado trocar perspectivas.Bjos

R. disse...

Para mim, Julianne Moore é ímpar. Penso que o desejo e a moral não têm de ser arqi-inimigos, ainda que por vezes colidam. Efectivamente, têm a mesma cerebral origem.

Abraço!

Cassandra disse...

Bem, solucionei o enigma logo no início do filme... concordo com a questão do desejo. O desejo alimenta-se do interdito e do desconhecido, de forma mais ardente e destrutiva que de um toque familiar e doce.
Quando chegar aos quarenta quero ser como a Julianne Moore, de preferência, também ruiva e sardenta:) Gostei muito do filme mas mais da tua crítica. beijo.