quinta-feira, 22 de novembro de 2012

e livrai-nos do mal


abro e fecho a porta do carro, inspiro eflúvios de um ar híbrido e frio, futebol na rádio, a conjuntura europeia vai mal, aqui "vai mal" é consensual, em qualquer lugar, os ténis azuis olham-me esperançados na ressurreição das pedras da calçada, talvez renasçam notícias animadoras. No café os rapazes do lado pedem um croissant e um galão, depois levantam-se e deixam metade do croissant no prato. hoje vai ser decidido o orçamento europeu e concluo que entre todos estes factos espúrios há uma luz tremeluzente: temos uma sociedade picotada, como as senhas com canhoto, não fazemos um todo, rasgaram bem o picotado e não sabemos bem ligar as partes com o todo. Perdemos a ligação à terra e à política, perdemos a ligação social, somos senhas num mapa de números abstractos sem significado real. milhões. subsídios e desemprego. tudo dado em números. Ninguém sabe para que servem. Cada um conta com o dinheiro no bolso, e o dinheiro é crucial para sobreviver, é a única segurança, o resto conjunturas, discursos, rasgões de alto a baixo, nada que nos dê uma referência, um calor, um motivo para deixar de contar o dinheiro no bolso. Assim, desintegrado, catastrófico e sem espessura nada pode ser verdadeiramente entendido, é uma poeira que nos assusta porque não sabemos "como" , "de onde" ou "para  quê". Culpo os meios de comunicação social por esta atoarda e lembro uma frase:" a decadência social começa com a decadência do discurso". O principal meio de revolta e renascimento está moribundo de chato, repetitivo, falacioso e manipulador. Não há verdadeiramente informação, não há história, há só catástrofe e messianismo. O discurso hoje é como aquele croissant, parece apetitoso mas depois não presta e deixa-se no prato.
 
Foto: Cartier Bresson

3 comentários:

sónia silva disse...

... amén!

eu disse...

olha que bem que escreves! ;) será que poderás explicar-me sobre o objetivo final das petições? Abraço

via disse...

sónia silva: comunguemos!

eu:nada sei de petições, só talvez as do orçamento do nosso estado.