quarta-feira, 5 de maio de 2010

a geração de 60

Steele Perkins
somos todos de 60, este é o ano de todos os perigos, ontem encontrei mais uma na noite com a voz entremelada de algum sono, álcool ou só canseira, o corpo aguenta-se lindamente mas é preciso, às vezes, cerrar os dentes. a vontade de dormir é sempre proporcional à de não dormir, o estribilho das músicas do Léo Ferré, das insónias provocadas a comprimidos ou curiosidade levanta-nos a pestana e põe-nos em bicos de pés, esta sagrada decadência fascina-nos, é inegável. as olheiras, o cigarro, a mente disponível para longas conversas ou apenas para observar, o entrar e sair das gentes, quase todos escandalosamente novos. claro, começámos com o habitual "o que tens feito" como se ainda ontem nos tivéssemos visto e, no entanto, passaram vinte e tal anos. onde está fulano, divórcios, desempregos, lembro-me da tua casa na Costa da Caparica, era tarde, tinhas uns curiosos abat-jours, tão curiosos quanto era impensável nesses idos 80, ter abat-jours na sala. do resto não me lembro. esta geração teve filhos, relações, desilusões, mas o mesmo espírito de procura, procurávamos dar forma a um mundo livre, árdua tarefa, agora essa forma está traçada, não há ilusões, fizemos o melhor que soubemos, somos definitivamente uma geração de demanda, de experiência. estávamos à experiência, ainda estamos.

8 comentários:

R. disse...

Nem mais, Via. "No hay camino... se hace al andar". Sou apologista de um balanço do passado com os olhos postos no futuro... Acho que é a única finalidade útil de olhar para trás. Quanto aos 60's, pois claro... ainda hoje são míticos. Se bem que os 60´s de outras paragens devem ter chegado a Portugal um pouco mais tarde... Não? Belíssima partilha e fotografia a preceito :)

Rosa dos Ventos disse...

Fiquei com um nó na garganta a interrogar-me se ainda procurarei alguma coisa...ou me limito a esperar...

Abraço

Magnolia disse...

Belissimo texto...
Gostei muito
Bj

Cassandra disse...

Gosto muito da vossa geração. Acho que nasci na geração errada, de quem não experimentou com a mesma avidez plácida dos boémios de 60.

CCF disse...

Adolescente nos anos 60? Deve ser isso...cada um é feito dessa condição dupla do seu ser com o seu tempo. Boa refelxão em torno desse "ser".
~CC~

via disse...

R: Olá! quando falo da geração de 60 não é do Maio de 68, essa é que ficou conhecida com esse nome, falo dos nascidos em 6o, herdeiros dessa geração,nascidos no ano em que se atiravam coctails molotov nas avenidas de paris, cá em portugal tínhamos as revoltas estudantis, mas a verdadeira revolução de maio 68, aqui no burgo, penso que foi nos anos 80.és sempre muito gentil, obrigada
bom fim-de-semana

Rosa dos ventos: também és de 60? a espera é própria dos sonhadores não entristeças com isso.abraço

Magnolia: obrigada.

Cassandra: Oh miúda mas tu em 60 nem nuvem eras, talvez fosses já uma das moléculas da água que nasce da terra, tenho a certeza que já andavas a beber os ares...bjos

CCF: nascidos em 6o.somos um reflexo dos tempos que nos cercam, claro, e da expectativa presente.

marta disse...

O Maio de 68 aqui no burgo foi nos anos oitenta?
Não Via, não foi. Foi no ínicio dos setenta e não só a parte boémia, toda a parte de contestação estudantil, com polícias a entrar nas faculdades, cães e cavalos
Lembro-me da entrada da polícia montada a cavalo a subir os degraus da faculdade de letras de Lisboa
Lembro-me da contestação que fizeram os estudantes de Coimbra ao Presidente Américo Tomás e de terem ido todos parar com os costados à Guiné, o pior cenário da guerra colonial.
A tua geração seguiu a minha, mas foi a minha que contestou tudo e todos, que começou a educar os filhos de maneira diferente, o que foi fundamental.
O 25 de Abril não teria acontecido sem a minha geração, porque foi ela que, durante a guerra,os milicianos saídos das faculdades, ensinou aos militares do quadro que havia mais para além de Salazar ou Caetano.

via disse...

marta: sim, tens razão, as manifestações estudantis de Coimbra em 69 foram o eco imediato do Maio de 68 mas o verdadeiro espírito libertário veio no final da década de 7o e nos anos 80, ano em que a Sida irrompeu como sinal diabólico das vivências que despreocupadamente tínhamos.somos filhos dessa geração daí que a nosso desígnio tivesse sido experimentá-la.também tens razão que nada disto seria possível sem a revolução de Abril, mas o espírito do Maio de 68 não tinha um enquadramento apenas político, era uma revolução lírica, pela liberdade nos comportamentos individuais, nesse aspecto transcendia em larga medida as revoluções políticas.obrigada pelo comentário.