quarta-feira, 6 de outubro de 2010

o estado de algumas coisas

Os efeitos da crise, o espectro da recessão, da austeridade e da fragilidade dos empregos, já tem implicações práticas, faz-nos sentir medo, medo de errar porque os erros associados a frases ou acções mais arriscadas que têm o poder de nos fazer sentir vivos, livres e criativos, podem custar-nos caro. exemplo: para poupar dinheiro levo o computador avariado a um centro comercial longe, carrego com ele para o carro em vez de chamar a casa um "mecânico de informática", na precipitação deixo que as chaves se envolvam no computador porque já estou atrasada, efeito: ficam as chaves no porta-bagagem e o carro fechado. Chamo um táxi, para não faltar ao emprego, aviso, quando chego uma colega já ocupou o meu lugar, indiferente ao meu acidente considera que iniciou a aula de substituição e não vai de lá sair. resultado catastrófico: tenho falta, zango-me com a colega e ainda derreto 20 euros no táxi.A crise faz-nos ser agarrados. junkies da prestação funcional, obedientes à norma e vigilantes cegos do nosso percurso e interesse.Não é bonito, não senhora, mais ainda; torna-se perigoso porque nos torna cães uns para os outros e facilmente manipuláveis por "superiores", aos olhos dos quais, independentemente do valor do que fazemos e do que somos, queremos estar bem vistos. Esta tendência, só por si, sem daí retirar as devidas consequências, (óbvias para quem pense em regimes totalitaristas) é responsável pelo esmagamento das liberdades individuais.
Fotografia: Jacques Henri Lartigue

5 comentários:

Cassandra disse...

Porra. A crise está a tolhar-me a liberdade criativa... e alguma esperança, também. Tens sempre tanta razão...

Ana Paula Sena disse...

Pois é, pois é, tens muita razão, como disse a Cassandra.

Efeitos nefastos que tendem a aumentar...

JPD disse...

Quando há falta de recursos ou o acesso a eles se torna difícil, surgem sempre problemas que acentuam uma crise de demografia, no caso que relatas, de socialização: a zanga com o colega, a tensão.

A Lei de Murphy passa a esmagar-nos: quando algo corre mal, imediatamente outra coisa agrava o problema, passando a correr mal também: o atraso, o PC avariado, a chave, o taxi, a aula.

Bem, o PC já foi reparado e tu já retomaste a serenidade?
Folgarei em saber.
Fica bem.

via disse...

Cassandra: mas não te tolhas miúda! eheheh

Ana Paula Sena: é verdade, convém evitar o excesso de zelo, pode ter efeitos insuspeitos.

JPD: Não, não está arranjado, porque tenho de esperar 5 dias pelo diagnóstico de 10 euros, só para me dizerem quando vão levar de arranjo, fora o dito, que ainda não sei quanto nem quando vai ser. na Vobis.

R. disse...

De facto, as crises exacerbam a competição e a falta de escrúpulos. Na linha do que dizes, e bem, o pior será a falta de 'consciência mórbida'. O exercício há-de ser o de manter o equilíbrio entre a pressão e preservação da própria dignidade. Não haverá certamente uma fórmula. Na psicologia ensinam-nos que as reacções simétricas não costumam dar bons resultados. Tenho para mim que é uma boa estratégia a adoptar.
Seja como for, estou certa que poderias escrever um post antitético deste: cheinho de liberdades, benesses e muito boa gente à mistura. E não há nada como isso :)
Abraço!