domingo, 3 de outubro de 2010

coisas da vida

Surpreende-me a dificuldade (eufemismo de incapacidade) que muito boa gente tem de confessar um fracasso, assumir uma derrota, um desaire, uma impotência, seja ela qual for, é tudo gente excelente e com excelentes resultados, como uma voz colectiva que fala por todos e com eco repetido, num mundo de heróis, como dizia o Pessoa: "não conheço ninguém que tenha levado porrada", "os meus conhecidos são campeões em tudo" e eu, eu "tantas vezes vil " "irrespondivelmente parasita", "indesculpavelmente sujo". Estas palavras no poeta que transcendeu a vil matéria anónima, transformam a vileza mais mesquinha em sublime consciência, mas numa tipa com gravidade q.b, olheirenta e normal, quero dizer, sem traço distintivo ou aparência fulminante, é só queixa, e todos fugimos das queixas como do vírus da gripe, esforçamo-nos muito por ser gente bem sucedida e com um sorriso na cara. o resto é restolho, coisa cinza que embaraça e corrói. percebe-se então o corrupio a psiquiatras, psicólogos e outras sumidades nos tratamentos das almas adoentadas, (nós por cá temos muitas), é que toda a gente secretamente e só ao abrigo de um contrato confessional rigoroso, deseja desmanchar-se e dizer toda a verdade que lhe entope a garganta, sim, fui enganada, sim enganei-me, sim fiz um erro grosseiro, sim gozaram comigo, sim, ignoraram-me, sim não faço a mínima do que se passa mas estou triste e pesada e um farrapo e....ai se eu tivesse uns dinheiritos a mais... enterrava-o todinho no divã de um psicanalista, e ficava por lá, há tanta coisa por resolver, tanta para falar, mas não me posso dar ao luxo, ou ao vício, não sei bem, se os dois se um deles, porque das duas uma: ou estas queixas e desabafos vão saindo para alguém, ou viram letra de música e faz-se poesia, ou então se não nos calhou nem pinga de talento, o melhor é começar a juntar dinheiro para as consultas senão desabamos a chorar só porque o semáforo virou vermelho, justamente no momento em que íamos a passar.
Fotografia de August Sander

6 comentários:

CCF disse...

Concordo tanto consigo!
Um abraço
~CC~

Joana Padrel disse...

..."tantas vezes vil",´tantas vezes tão menos que as nossas próprias expectativas. "Um homem não chora","nada de mariquices". slogans de certa educação. A rapariguinha da tocante fotografia
acabou por se convencer - Sou uma mulher guerreira - e não há sinais vermelhos que lhe valham.
Gostei muito.

via disse...

CCF: abraço!

Joana Padrel:nem há, nem pode haver, se eles são sempre no mesmo sentido.brigada.

R. disse...

via, é difícil comentar quando tamanha densidade e sensatez se condensam em poucas palavras. Não há vileza nisso e, muito menos, 'sujidade'. *Au contraire*: há toda uma 'linha recta' de pensamentos, reflexões e 'talento' sem desvios ou oscilações no percurso. Tudo claro. Tudo lógico. A tudo acenamos à medida que lemos. Tenho para mim que quem dava uma grande psicanalista... eras tu! :)

Magnolia disse...

Gostei da ideia do divã do psicanalista....

ss disse...

Gostei tanto, mas tanto...
Quando me sinto assim não vou a psicanalistas, que para esses não tenho nem dinheiro nem paciência, verbalizo, isso sim, com a minha companheira de 4 patas, que rapidamente se cansa daquela conversa sem sentido e me vira as costas para dormir uma soneca.