sábado, 24 de abril de 2010

atmosferas

entrava-se no restaurante por uma escada transparente com luzinhas verdes a apagar e a acender, sob a escada os breves clarões reflectiam sobre uma série de objectos em vidro multiplicando tonalidades como se subíssemos ao céu, assim, directamente mal entrávamos a porta da rua e seguíamos a seta que dizia restaurante indiano. Lá dentro penumbra, apenas iluminada por velas que o empregado, gentil e silencioso, acendia mal entrava alguém para ocupar uma mesa. Nas paredes predominava o verde folha e o vermelho vinho, e as pinturas ocupavam o espaço todo em redor, senhoras deitadas em luxuosos trajes, o Taj Mahal ao fundo, rostos de homens belos com turbantes, cavalos, cidades, palmeiras, se a ideia era criar uma atmosfera ou se era apenas deixar os artistas exprimirem-se livremente pelas paredes antigas,foi amplamente conseguida e quando olhámos a noite cá fora pelas largas janelas entreabertas, houve dúvidas se estaríamos em Lisboa, na calçada da ajuda, era uma dúvida meiga e compensadora, depois de um dia desgastante. do Tandoori diria razoável, mas a comida não seria o mais importante. quando terminámos, veio a fome do cigarro e o leve incómodo de não poder fumar ali, de ter que ir à rua, de quebrar aquela coisa verde e vermelha que se instalava , a cantilena, a dormência dos olhos à penumbra ou ao vinho, não sei bem, olhámos em redor, o casal da mesa ao lado trouxe-nos o ensejo à fala; será que podemos fumar aqui? Os outros dois casais, saídos da sua gruta, juntaram-se-nos no cigarro e comungámos todos, por breves momentos, da mesma festa.

9 comentários:

R. disse...

A atmosfera também se cria pelas palavras: subimos as mesmas escadas, sentimos-lhe o ambiente "psicadélico", ajustámos o olhar à penumbra, o corpo às pinturas na parede e experimentámos o leve torpor que se segue a uma refeição num ambiente tranquilo.
E foi uma boa experiência :)

kremu disse...

tenho uma dúvida: quem escreve este blogue/a autora deste blogue é a rita maria?

via disse...

R: jantámos, portanto, no mesmo restaurante, para a próxima tenho a certeza que te vou reconhecer. Bom domingo ensolarado.

kremu: não. é a Maria Rita, a canção dos Duo Ouro negro! mas que vontade de cantar!

R. disse...

Aposto que sim, Via :) Um excelente Domingo e que o sol anime e aqueça toda a semana :)

JPD disse...

Nunca entrei num restaurante indiano.
Aceito a sugestão de valer a pena experimentar cozinhas diferentes para ser mais honesto na apreciação.

É claro que gosto de frango de caril, mas feito por portugueses.
Aliás, já me relataram que o caril que mais regularmente é utilizado nos restaurante portugueses nem corresponderá ao utilizado pela cozinhoa indiana.

Quanto ao ambiente, nada a dizer, a não ser que está muito bem descrito.

Já fumei.
Fui forçado a deixar de fazê-lo há quinze anos e, por compreender a dificuldade da abstinência, compreendo a urgência que relatas.

Bjs

g disse...

Que saudade que me deu dum bom sarapatel e até me apeteceu um cigarro! (não fumo)

:)
bj

mixtu disse...

podes fumar... isto se não está por perto a asae...
yayay
viajei com o teu texto a amesterdam... e um restaurante indiano onde todos os dias ia jantar
e por isso... obrigado

abrazo serrano

ss disse...

... hoje vou jantar um bom caril que fiquei com água na boca.
:)

via disse...

R: bem, a semana já vai a meio, mas ainda assim o teu vaticínio revelou-se verdadeiro, ainda bem.

JPD: pois o caril indiano, quando bem feito, é melhor, tem mais subtileza de paladar. É como dizes, se podemos usufruir de diferentes cozinhas porque não experimentar? nem que seja para depois voltar (mais feliz!) ao cozido à portuguesa.Bjos


g: este aqui era indiano mesmo, a cozinha de Goa é que costuma (mas nem sempre) ter o sarapatel.mas é bom, concordo.bjo

mixtu: viajar com palavras até às coisas da memória é uma boa viagem, um dia quando daqui a uns anos ler este texto também eu vou sentir isso.abraço cosmopolita

ss: com esse fervor, só podes cozinhar bem, bom apetite!