domingo, 11 de janeiro de 2009

vizinhas


hoje estavam as duas sentadas num bloco de betão, mãe e filha, julgo que são mãe e filha porque andam sempre juntinhas mantendo a proporção de espaços, a mãe à frente delgada e branca e a filha metro e meio atrás, sólida e tisnada pelo sol. nos meus passeios matinais dou com elas muitas vezes e à tardinha também, sei que andam kilómetros a pé e vivem sozinhas numa barraca daquelas que serviam para guardar os utensílios da lavoura e arreio dos animais e que agora, sem utilidade, abriga nestas noites frias este curioso casal. penso que vivem da caridade e se deslocam ao centro para as refeições na misericórdia, mas o que me surpreende é a sua tranquilidade, a paz que delas emana. um dia enquanto bebia um café a filha entrou e pediu com toda a educação um copo de leite, sentou-se a beber e depois agradeceu e saiu. Quando penso em toda a azáfama e nas pequenas e grandes guerras que estamos sempre em vias de acabar ou começar, nos projectos e nessa tralha toda de gente que se quer de sucesso, lembro-me delas e invejo-as na sua pacatez, naquele grão que confere à existência todo o sentido por si, sem precisar de nenhum artefacto ou juízo ou competição para ser. só, ser.
fotografia retirada daqui

3 comentários:

comsentido disse...

neste caso, diria. só, existir. ou simplesmente sobreviver. pois ser... para a sociedade n são grande coisa. infelizmente. até

Milu disse...

A calma com que encaram a vida advém-lhes do facto de não sentirem a angústia de ter contas para pagar!Porém não as invejo, não conseguiria viver sem lutar! Para mim viver é isso mesmo! Conquista! Ainda que pequeninas!

via disse...

comsentido: a sociedade é por natureza competitiva, estas pessoas estão na margem da sociedade e como margem ajudam-nos a compreender os limites, virtudes e defeitos deste nosso viver social, mais, têm uma poesia que nos seres atarefados e socialmente aceites não encontramos, ou melhor, raramente encontramos.

Milu: Bem vinda! é verdade, não podemos simplesmente cruzar os braços e deixar andar senão vamos à ruína, temos mesmo de lutar mas não deixo de sentir uma certa nostalgia, de um mundo onde cada um tivesse mais espaço para ser, sem tarefas, sem contas a pagar, sem uma coisa à frente da outra como dizia o Pessoa.